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Marcel Kittel: filho de 'sprinter' sabe 'sprintar'. Mas este até começou pelo contra-relógio

O alemão com mais vitórias em etapas do Tour tem 29 anos, nasceu na Alemanha de Leste e foi numa ida aos Alpes que decidiu que queria uma bicicleta de competição.

FILIPA SILVA

LIONEL BONAVENTURE

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É filho de 'sprinter', mas não apostou logo na bicicleta. Marcel Kittel, o homem que esta terça-feira se transformou no ciclista alemão com mais vitórias no Tour, preferiu primeiro o desporto da mãe – o atletismo – para só depois eleger o do pai.

Foi numa viagem aos Alpes, já na adolesência, que o enérgico Marcel pediu ao pai, Mathias, uma bicicleta de competição. O pai mandou fazer uma quando ainda iam a caminho de casa, em Arnstadt, Leste da Alemanha, onde nasceu em 1988. Marcel diz que depois de experimentar o ciclismo soube que era por ali que queria seguir.

Até ao dia de hoje - dia em que derrubou o compatriota Erik Zabel – não correu tudo sobre rodas, mas há marcos no percurso que indiciavam que o seu nome havia de se ouvir no pelotão.

Curiosamente, fez-se notar primeiro no contra-relógio, tal como Tony Martin, que foi seu colega na Thüringer Energie Team, a primeira equipa de Kittel. Johan Degenkolb, agora na Trek, também lá andava.

Ganhou vários campeonatos nacionais e alguns internacionais no contra-relógio enquanto júnior, mas o grande destaque dessa fase da carreira vai para a medalha de bronze que arrecadou nos Mundiais de Estrada de sub-23. Estavamos em 2010.

Do profissionalismo às primeiras vitórias

Ao serviço da Skill-Shimano, Kittel torna-se profissional em 2011. Logo nesse ano regista 17 vitórias, entre elas uma na Vuelta. Era a sua estreia nas Grandes Voltas. No ano seguinte, estreou-se no Tour mas desistiu à quinta etapa. Tinha uma infeção intestinal e um problema no joelho. Tempos melhores viriam.

2013 é o ano em que o seu nome se grava em definitivo na imprensa da especialidade. Afinal, o jovem Kittel vence nada menos que quatro etapas no Tour. A primeira permitiu-lhe vestir a amarela - foi o 14º alemão da história a fazê-lo – e na sua página pessoal, Kittel confessa: “Foi o melhor dia da minha vida”. A última, permitiu-lhe ganhar nos Campos Elísios. Melhor era difícil.

Mas houve, porque no ano seguinte o sprinter repetiu a dose e voltou a vencer por quatro vezes.

2015 é que foi ano para esquecer, até ao momento da mudança para a Etixx-Quick-Step – hoje Quick-Step Floors Cycling Team. A mudança de Cavendish para a Dimension Data abriu uma vaga para um sprinter de excelência na equipa e Kittel aceitou o desafio de substituir o homem que mais vitórias tem no Tour.

Kittel está mais forte que toda a concorrência do Tour.

Kittel está mais forte que toda a concorrência do Tour.

LIONEL BONAVENTURE

Em 2016, Kittel andou por Portugal onde conquistou duas etapas e a camisola dos pontos na Volta ao Algarve. Greipel foi também aí o seu grande rival. No Tour, venceu mais uma etapa.

Uma nova dinastia?

Este ano, Marcel Kittel chegou ao Tour e, aos 29 anos, conquistou mais quatro etapas. É certo que Cavendish ficou de fora à quarta etapa, depois de uma queda feia. E também é certo que Sagan saiu – foi expulso por a organização ter considerado que teve responsabilidades sobre a queda de Cavendish. Mas não falta concorrência a Kittel – Greipel, Degenkolb, Kristoff, Matthews – mas o alemão tem sido mais forte que todos e esta terça-feira, à chegada a Bergerac, foi-o ainda mais.

E se os companheiros chegam lançados pelo tradicional “comboio”, Kittel parece dispensá-lo. Basta-lhe ligar o turbo, como tem feito, nos metros finais para ganhar vantagem sobre a concorrência. O seu passado como contra-relogista pode ajudar a que aguente durante mais tempo naquela pedalada vertiginosa até à linha final.

O alemão segue de verde e fica já para a história como o alemão com mais vitórias no Tour, 13 no total, mais uma que Erik Zabel.

Kittel leva quatro vitórias no Tour e pode haver mais ainda este ano.

Kittel leva quatro vitórias no Tour e pode haver mais ainda este ano.

Chris Graythen

E com isso também reabre o debate: já terão Kittel, Tony Martin, Greipel ou Degenkolb feito o suficiente para que a Alemanha esqueça a geração T-Mobile? É que dessa faziam parte Jan Ülrich, Erik Zabel, Andreas Klöden, e muitos outros, quase todos caídos em desgraça nas malhas do dopping.

“A popularidade do ciclismo na Alemanha não foi baseada na história, foi baseada num corredor: Jan Ulrich”, disse há uns anos ao “The New York Times” Rolf Aldag, também ele da geração T-Mobile e também ele envolvido em casos de EPO.

Na altura das declarações, o antigo ciclista falava na qualidade de responsável pela Team Columbia, de Tony Martin, em quem depositava tais esperanças: “Espero que ele consiga trazer este desporto de volta”.

Se Martin ainda não o conseguiu, seguramente que Kittel, com tudo o que já fez no passado mais o saldo que leva no Tour 2017 – e esse pode bem não ficar por aqui – deu um grande contributo no sentido da redenção.

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