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Volta a Portugal: o ciclismo bateu de frente com a crise

Os salários são mais baixos (às vezes muito mais baixos), a comunicação continua a ser esquecida, mas o material e as estruturas melhoraram. A paixão parece que continua lá. Em dia de arranque da Volta a Portugal, pedimos a dois antigos atletas, João Cabreira e Vítor Gamito, que comparassem o ciclismo português antes e depois da crise do início do século

Lídia Paralta Gomes

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Este é David Blanco, o recordista de triunfos na Volta a Portugal. Ganhou-a em 2006, 2008, 2009, 2010 e 2012

Este é David Blanco, o recordista de triunfos na Volta a Portugal. Ganhou-a em 2006, 2008, 2009, 2010 e 2012

Rafael Marchante

Há um ano, precisamente, Joaquim Gomes falava aqui no Expresso da enorme pressão que muitos ciclistas têm para ganhar a Volta a Portugal “para que se possa continuar com os projetos e cumprir o resto do calendário”.

A crise existe, talvez não tão forte como quando Gomes, diretor da prova, admitiu em 2013 ao “Dinheiro Vivo” que o seu salário nos anos 90 “quase que dava para ter uma equipa” atualmente, mas existe.

“A Maia chegou a ter um orçamento anual de milhão e meio de euros ali por 2002, 2003 e 2004. Estamos a falar de orçamentos astronómicos, quando hoje em dia uma equipa que tenha 200 mil euros de orçamento faz uma super-equipa que pode estar a discutir a Volta a Portugal - logo por aqui se vê a realidade e as diferenças que existem entre o ciclismo que havia e o ciclismo de agora”. Quem nos dá estes números é João Cabreira, que abandonou a competição no final de 2012, com apenas 30 anos, para se dedicar à carreira de empresário. Venceu duas vezes no mítico no Alto da Senhora da Graça, em 2006 e 2009, além de se ter sagrado duas vezes campeão nacional de estada (2008 e 2011).

“Já não apanhei a fase muito boa”, continua Cabreira. “Tornei-me profissional em 2005, já numa altura de quebra. A partir de 2008/2009 acentuaram-se mais os problemas e a crise do ciclismo”. É sempre um conjunto de muitas coisas que fazem uma crise e Cabreira fala da “própria crise económica a nível mundial” que fez com que muitos patrocinadores começassem a ter problemas: “Se as empresas não têm dinheiro, não têm lucros, logo, não vão patrocinar. Quase todas as receitas do ciclismo vêm do patrocínio, não há outra forma de conseguir receitas”.

Vítor Gamito, vencedor da “Grandíssima” em 2000 e que regressou à estrada em 2014 para fazer uma última Volta a Portugal, vai lá mais atrás. E aponta “a globalização” como uma das causas para as dificuldades que por estes dias o ciclismo português vive. Expliquemos.

“Nos anos 80 e 90 o nosso ciclismo era praticamente fechado, tínhamos o nosso calendário nacional, bastante rico com bastantes provas e eram as equipas nacionais que faziam esse calendário. Na altura, em termos de publicidade, a aposta no ciclismo era grande e a comunicação social dava mais espaço ao ciclismo, até porque algumas provas eram organizadas por grupos que detinham jornais, como Jornal de Notícias, por exemplo, que chegou a organizar a própria Volta a Portugal. As empresas percebiam essa oportunidade e investiam no ciclismo”, explica Gamito, que sublinha que o sistema acabava por ser “lucrativo para todas as áreas”: para as empresas que investiam e para os ciclistas que ganhavam os seus ordenados, bons ordenados. “As equipas não tinham grandes problemas em conseguir patrocinadores”, frisa.

Isso fazia com que os melhores ciclistas portugueses não olhassem sequer para as equipas estrangeiras. “Estávamos bem, perto de casa, com a família e tínhamos um bom ordenado: porque razão iríamos para fora, muitas vezes ganhar menos?”

David Bernabeu, outro espanhol, venceu a Volta em 2004. Em 2009 e 2010 ficou em segundo clugar, atrás de Blanco

David Bernabeu, outro espanhol, venceu a Volta em 2004. Em 2009 e 2010 ficou em segundo clugar, atrás de Blanco

Hugo Correia

A situação começou a mudar no final dos anos 90. “Começaram a vir equipas estrangeiras, das melhores, fazer a Volta a Portugal. Foi aí que começou a haver algum intercâmbio entre ciclistas, com os ciclistas portugueses a serem convidados para essas equipas, que perceberam que o ciclista português era muito bom. Começaram a darem-lhes bons ordenados, mais do que aquilo que se pagava cá”. E isso traz o reverso da medalha, diz Gamito. “Se os bons ciclistas vão para o estrangeiro, as equipas nacionais perdem força. E com isso a própria comunicação social dispersa-se mais. Sem comunicação não há patrocinadores e isso leva a um desinvestimento. A própria Volta baixou a sua classificação internacional e já só vêm equipas internacionais de segundo plano. Isto é tudo uma bola de neve, está tudo interligado”, continua o antigo ciclista, de 47 anos, que hoje é responsável de marketing de uma empresa de suplementos de nutrição desportiva, além de continuar a fazer BTT.

SALÁRIO BAIXARAM A PIQUE

“Tinha um salário muito acima da média”, diz-nos João Cabreira, que chegou a ganhar bem, bastante bem, em meados dos anos 2000. “Em 2007, na Maia, quando ganhámos a Volta a Portugal com o Xavier Tondo, foi o ano em que mais dinheiro ganhei no ciclismo e era pago para trabalhar. O que é que me custava a mim chegar a uma subida, atacar, desmontar e partir aquilo tudo e depois abrir para o lado e chegar com 10 ou 15 minutos de atraso? Não me custava nada! Estava a ser pago para fazer aquele trabalho. Agora ganhas 500 ou 1000 euros por mês. Mas depois no final do ano, se não tiveres resultados a equipa não vai renovar contigo ou subir o salário e aí vais estar tu outra vez à procura de equipa”.

Seguiu-se uma suspensão e Cabreira sentiu pela primeira vez as dificuldades: “De um momento para o outro fiquei com zero e as contas continuavam a cair igual. E aí tens de te fazer à vida. Na altura já não vivia em casa dos meus pais, não tinha essa ajuda, já tinha a minha casa e as minhas despesas e tive de me fazer à vida: fui vender a Meo, porta a porta, fazia aquilo que aparecia”.

Cabreira ainda voltou à competição, mas no final de 2012 deixou definitivamente o ciclismo. Os salários baixos e a instabilidade fizeram-no optar por outro rumo profissional. “Fui campeão nacional em 2011 e no fim do ano o Boavista estava num ano de imensas dificuldades por causa da falta de patrocínios. Acordámos todos correr pelo mesmo valor, ninguém ganhava mais do que ninguém. Eu estava a ganhar 750 euros por mês e daí tinha de descontar para a segurança social. E ganhava só 10 meses, a recibos verdes”, conta.

“Nessa altura já tinha a Biketreino, a empresa que tenho hoje e tinha que me focar no meu trabalho, naquilo que me dava dinheiro ao fim do mês para pagar as minhas despesas. O ciclismo era quase um segundo trabalho, uma espécie de part time. Cheguei ao final do ano e disse ‘Se é para isto esqueçam, vou dedicar-me a outra coisa e deixar de correr’”.

João Cabreira diz que, por estes dias, “1500 ou 2 mil euros já é um bom ordenado no ciclismo”. Perguntamos-lhe se é muito menos daquilo que chegou a ganhar. “Sim, sem dúvida!”, responde-nos.

“Em 2002, 2003, grande parte dos ciclistas não ganhava menos de 5 mil euros por mês. Havia ciclistas a ganhar 7, 8 mil, alguns a ganhar 10 mil euros por mês. Se compararmos isso com a realidade atual… o líder de uma equipa para discutir a Volta a Portugal, como é o caso este ano do Sérgio Paulinho (Efapel), do Gustavo Veloso ou do Rui Vinhas (W52-FC Porto) nesses tempos nunca ganharia menos de 180 mil euros ao ano. Agora, se estiverem com metade desse valor já será muito bom”, continua, criticando de alguma forma os atletas que aceitam baixos salários. “Não é só no ciclismo, é em todas as áreas. Eu não vou aceitar os 500 euros, mas há alguém que vai aceitar, por isso mais vale ir eu do que outro e eu ficar sem trabalho”, explica, dizendo que é “uma questão de cultura” do próprio país.

COMUNICAÇÃO PARADA NO TEMPO

Tanto João Cabreira como Vítor Gamito falam da falta de espaço na comunicação como mais um factor que ajudou a agudizar a crise. Mas não culpam apenas os jornalistas. Aliás, culpam mais ainda as próprias equipas, que continuam a não aproveitar as novas tecnologias para publicitar os seus patrocinadores.

“As equipas continuam a não apostar na comunicação, no marketing. Aproveitam muito pouco as redes sociais”, diz Gamito, um ávido utilizador das plataformas digitais. “Quando era diretor desportivo da Ribeiralves, em 2005 e 2006, gostava muito da comunicação, fazia newsletters, enviava mails para todos os patrocinadores”, conta. “As equipas não percebem que é com comunicação que conseguem cativar novos patrocinadores. Estão completamente focados nos resultados, que são importante claro, mas o resultado é um meio para se conseguir um fim, e o fim é conseguir patrocinadores. Acho que ainda entenderam isso”.

Cabreira segue pela mesma bitola e dá o exemplo do que se faz lá fora: “Olhamos para uma equipa como a Sky e eles têm 10 pessoas a tratar da questão do marketing e imagem. Isso para eles é muito importante, a imagem que passam, como se apresentam, as publicações que fazem nas redes sociais”.

O antigo ciclista, natural da Póvoa de Varzim, lembra que “a comunicação social só se lembra do ciclismo em Portugal no mês de agosto, na Volta a Portugal” e que os patrocinadores não podem viver do retorno e publicidade de 10 dias. “Precisam de rentabilizar todo o ano. E se a comunicação social não dá esse retorno têm de ser as equipas a fazer esse tipo de trabalho, de forma a dar visibilidade aos patrocinadores”.

Nuno Ribeiro, o vencedor português da Volta em 2003. O ciclista é agora diretor desportivo da W52-FCPorto, que conquistou a Volta em 2016 com Rui Vinhas

Nuno Ribeiro, o vencedor português da Volta em 2003. O ciclista é agora diretor desportivo da W52-FCPorto, que conquistou a Volta em 2016 com Rui Vinhas

Jose Manuel Ribeiro

MÉTODOS IGUAIS MAS MELHORES CONDIÇÕES

Depois de deixar o ciclismo em 2004, devido a um problema de saúde, Gamito colocou-se a si próprio o desafio de voltar a fazer uma Volta a Portugal. Aconteceu em 2014, já com 44 anos. Ele que foi uma das figuras maiores do pelotão nacional nos anos 90 e início dos anos 2000, viu muita coisa igual, mas também algumas diferenças.

“Os métodos de trabalho são iguais, não aprendemos muito com isso. Acho que estamos muito ligados às tradições, à mesma forma de trabalhar e os próprios responsáveis das equipas são os mesmos há 15 anos. Acho que pararam um bocado”, conta. Por outro lado e “apesar dos orçamentos das equipas serem mais baixos em relação há 10/15 anos”, a evolução notou-se nas estruturas das equipas.

“Os autocarros, por exemplo. Na altura não tínhamos nada do género. Tínhamos uma autocaravana e éramos muitas vezes obrigados a mudar de roupa na rua porque não havia espaço para toda a gente. Foi o que mais reparei. Até dizia ‘Isto é um luxo!’”.

“A Volta a Portugal é em agosto, normalmente está sempre muito calor. Por isso estar ali, no autocarro, fresquinhos, com bastante espaço, dava até para fazermos reuniões, sem estarmos a suar e desejosos que aquilo acabe. E há mais privacidade. É claro que ao nível do contacto com o público é mais restrito, porque o ciclismo tem essa característica das pessoas estarem coladas aos ciclistas, mas são condições importantes para que os ciclistas possam recuperar, descansar, ter a sua privacidade”.

Ao nível tecnológico também há óbvias diferenças: “As bicicletas, por exemplo, são melhores, mais leves e mais rígidas”.

FC PORTO E SPORTING DERAM EMPURRÃO

A chegada do FC Porto e Sporting ao pelotão veio dar um empurrão ao ciclismo português. Essa é pelo menos a opinião de João Cabreira. “Acho que o ponto mais crítico do ciclismo em Portugal já aconteceu. Foi mais em 2014 e 2015. Agora com a vinda do FC Porto e do Sporting, já começou a mexer um bocadinho mais, a comunicação social começa a estar mais atenta ao ciclismo, os orçamentos já começaram a subir um bocadinho mais, até a nível de salários acho que já está melhor. Mas tem de continuar a melhorar, para que também se possa exigir mais aos atletas e para que o pelotão possa ter uma qualidade superior”.

Cabreira recorda com saudade os bons ciclistas estrangeiros que passaram por Portugal no início do século: “Era uma quantidade incrível de ciclistas de renome. O Fabian Jeker, o Claus Moller, o Angel Edo, o Andrei Zintchenko, o Melcior Mauri… o nível que o pelotão tinha nessa altura, faz muita falta ao nosso ciclismo”.

O antigo bicampeão nacional acredita que, apesar de ter baixado de categoria já há vários anos e de faltarem equipas internacionais de renome, a Volta a Portugal continua a ter bom nível. O problema é mesmo o calendário. “É das corridas mais bem organizadas da Europa e a grande dificuldade é mesmo a data. A Volta a Espanha passou de setembro para agosto e logo aí o período de recuperação é muito curto. E depois as equipas não querer vir fazer a Volta, até porque é uma volta competitiva: ou vens com uma boa equipa e preparas-te bem ou não fazes nada. Estamos a falar de uma volta de 10, 11 dias: aqui o desgaste é grande e as equipas não queres implicar os resultados noutras provas por causa da Volta a Portugal”.

PAIXÃO CONTINUA LÁ

Vítor Gamito sempre foi um dos mais carismáticos ciclistas da Volta e isso notou-se quando voltou à estrada em 2014. Teve sempre muita gente apaixonada a apoiá-lo na estrada e nisso nada parece ter mudado, embora o lisboeta acredite que as redes sociais tenham dado um empurrãozinho.

“Não sei se posso fazer uma comparação com os anos 90, não sei bem se havia mais gente ou não porque acabou por ser um ano muito atípico. Acho que teve muito a ver com as redes sociais. Vi na estrada muita gente que não acompanhava ciclismo e só me seguia no BTT. Tive grupos que iam às partidas e chegadas, com música. Foi muito giro”, sublinha Gamito que, sem pretensões à geral nesse ano, acabou por ser mesmo assim o ciclista mais saudado.

“Houve sítios em que tive de parar. Não me deixavam passar! Até fotos a meio de etapas tive de tirar. Em Braga tive de parar numa subida, estava tudo cheio de gente, com bombos, parecia o Carnaval!”. A festa era tanta, que até os ciclistas estrangeiros ficaram curiosos. “Havia muita gente na estrada a gritar ‘Gamito, Gamito, Gamito!’. Às tantas, uns ciclistas de uma equipa russa que não sabiam o que era aquilo perguntaram-me o que é que queria dizer ‘Gamito’, porque só ouviam aquilo nas ruas. E eu disse que era o meu nome. ‘Ai é o teu nome? Nós pensávamos que ‘Gamito’ queria dizer ‘Força’”.

Mas há mais histórias. “No pelotão estava também uma equipa espanhola, de Burgos. Numa das etapas, eu estou atrás deles e só oiço dois a comentarem ‘Hostia Gamito, que es mas conocido que Ronaldo’”.

Nos anos 90, apoio estava mais repartido. “Havia várias fações: a do Gamito, do Joaquim Gomes e do Orlando Rodrigues. Havia os que me adoravam e os que me detestavam”, relembra.

É possível que por estes dias não haja estas fações e estas guerras que, no fundo, também são paixão. Mas a Volta a Portugal, mesmo sem as três semanas de outros tempos ou o pelotão repleto de qualidade, continua a ser a festa do verão desportivo em Portugal. Arranca esta sexta-feira, em Lisboa, e termina dia 15, em Viseu.