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Alberto Contador: fim da ‘carretera’ para o pistoleiro destemido

Quando venceu a primeira Volta a França ainda vivia com os pais. Com o dinheiro que ganhou, comprou carro e casa. Ao cão, deu-lhe o nome Tour. Em 15 anos, ganhou lugar no elenco que nos ajudará a contar a história do ciclismo. As referências não serão todas de glória, mas o homem sobrepôs-se aos casos. Na despedida, fica a certeza: o pelotão vai perder 'chispa'

FILIPA SILVA

JEFF PACHOUD

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Foi a figura de Miguel Induráin a ganhar Voltas a França, uma atrás da outra, que lhe instigou a vontade: “Quero fazer isto!”.

Alberto Contador tinha 12 anos e um irmão mais velho a semear o que se transformaria numa paixão: o ciclismo. Mas Alberto teve de esperar. Na família não havia dinheiro para bicicletas ou capacetes. Por ora, o jovem tinha de se contentar com o futebol e com o atletismo.

O cenário mudaria com a chegada da primeira bicicleta. Ainda a tem estacionada na memória: “Oh sim, era uma Orbea muito velha que mal funcionava. Até tinha de usar as duas mãos para o travão”, contou numa entrevista ao site Bicycling.

Rolou, rolou, rolou tanto que já não aguentava as dores no rabo. A solução encontrada pela mãe foi pegar em enchumaços de uma blusa sua e cozê-los nos calções de Alberto. Estavam feitos os primeiros calções de treino. Para combater o frio nos braços, a solução não foi menos caseira: cortava os dedos às meias e enfiava-as nos braços.

Foi num clube de Pinto, cidade a sul de Madrid de onde é natural, que começou a correr. Tinha 15 anos.

Cedo mostrou que tinha potencial para competir com os mais velhos. Os estudos ficaram para trás. Os pássaros, de que carinhosamente tratava numa gaiola ao fundo do jardim, também tiveram de encontrar outro cuidador. Diz que, se não fosse ciclista, talvez tivesse sido veterinário, de tanto que gosta de animais.

Em 2002, sagrou-se campeão nacional de contra-relógio de sub-23. Até aí, deixou fama de grande trepador em várias geografias de Espanha. Ele que veio do centro geográfico do país, a cidade de Pinto, preparava-se a pouco e pouco para atingir o centro do ciclismo mundial.

Em 2003, Manolo Sainz dá uma grande ajuda nesse sentido. Vai buscar Contador para a ONCE e dá assim início à sua carreira profissional.

MOMENTOS DEFINIDORES

Em 2004, Alberto Contador sofreu uma queda violenta na Volta às Astúrias. No hospital, foi-lhe diagnosticado um cavernoma cerebral. Teve de ser operado. A carreira ficou em risco. Deste episódio, Contador não herdou só uma cicatriz de orelha a orelha. Tirou uma lição.

Não foi a única. O facto do irmão mais novo ter nascido com uma paralisia cerebral profunda, que afetou a vida de toda a família, também o definiu. “Este tipo de coisas fazem-te crescer rápido. Eu aprendi cedo que a vida nem sempre é justa e por isso, quando tens talento, quando tens oportunidades, tens de as aproveitar”, disse o corredor na mesma entrevista.

Várias quedas marcaram o percurso de Albert Contador. Nenhuma como a que sofreu em 2004.

Várias quedas marcaram o percurso de Albert Contador. Nenhuma como a que sofreu em 2004.

KENZO TRIBOUILLARD

O “Pistoleiro” não entregou as armas. A recuperação foi lenta e difícil, mas no ano seguinte estava a ganhar o Tour Down Under, na Austrália.

PRIMEIRO TOUR

Foi, contudo, em 2007 que Alberto Contador se chegou à frente do pelotão do ciclismo internacional ao conquistar o primeiro Tour. Em 2005, na estreia, terminou em 31º. Em 2006, não chegou a entrar em ação por causa da operação Puerto (já lá vamos).

Em 2007, o espanhol chegou à liderança depois da desqualificação do então líder, Michael Rasmussen, por questões relacionadas com o controlo anti-doping. Não mais saiu da liderança até Paris. Aos 24 anos, quando ainda vivia em casa dos pais, em Pinto, ganhava a mais importante prova do calendário velocipédico internacional.

O corredor sentiu que houve um antes e um depois do primeiro Tour. Com o dinheiro que amealhou tratou de comprar casa e carro. Na rua, sentiu-se pela primeira vez reconhecido. O descanso diminuiu. A pressão aumentou.

Mas não foi a fama que lhe causou problemas na mecânica da carreira. Acidentada como uma etapa de montanha. Com o desmembramento da Discovery Channel, ao serviço da qual ganhou o Tour, Contador aceitou a proposta da Astana.

O problema é que a equipa cazaque foi impedida, pela organização da Volta a França, de participar na edição de 2008, isto depois de ter sido expulsa em plena competição de 2007, por causa de um controlo positivo de Alexander Vinoukurov. A equipa técnica mudou na Astana mas a organização do Tour não mudou de ideias. Contador viu-se impedido de defender o título.

Sobraram o Giro e a Vuelta. E o “pistoleiro” não fez por menos: ganhou ambos. Só há seis ciclistas na história com vitórias nas três Grandes Voltas e Alberto Contador é um deles.

A pressão dos media apertou depois da suspensão de que foi alvo em 2010.

A pressão dos media apertou depois da suspensão de que foi alvo em 2010.

JAVIER SORIANO

A MANCHA DO DOPING

Foram anos conturbados estes no mundo do ciclismo. Da Operação Puerto, que estourou em 2006, Alberto Contador saiu (quase) incólume. Apesar do seu nome ter aparecido numa lista inicialmente entregue à organização do Tour, as referências feitas, veio a comprovar-se, nada tinham que ver com doping. O caso custou-lhe, ainda assim, a participação no Tour de 2006.

Em matéria de doping, Contador continuou com o nome limpo na praça - e apesar de todas as suspeitas que foram caindo sobre as suas equipas - até 2010. Foi o ano em que conquistou a terceira Volta a França.

A “bomba” estoura a 30 de setembro, com a UCI a anunciar a suspensão provisória de Alberto Contador por ter sido detetada a presença de clembuterol na urina do atleta num controlo feito em julho desse ano, durante o Tour.

A organização da prova assegurou que se o castigo viesse a ser confirmado pela UCI, o título de vencedor de 2010 ser-lhe-ia retirado.

Contador veio a público defender-se e até hoje mantém a tese que apresentou perante o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS): os resultados derivaram de uma intoxicação alimentar por consumo de carne com clembuterol.

Já em 2011, o ciclista foi absolvido pela Real Federação Espanhola de Ciclismo, que depois das alegações de Contador considerou que este não ingeriu voluntariamente a substância proibida.

Mas um ano depois, em fevereiro de 2012, o TAS, a quem a UCI e a AMA interpuseram recurso, chegou a conclusão diferente. Recusou a tese da autotransfusão, mas não aceitou a versão do consumo involuntário. Dois anos de suspensão - com contagem retroativa - e a perda dos títulos obtidos nesse período, que incluíam o Tour de 2010 e o Giro de 2011, foram a pena aplicada.

A suspensão terminou em agosto desse ano. “Vou continuar a correr limpo como sempre fiz até aqui”, declarou na altura o corredor. “Sei que isto me fará mais forte”.

Contador voltou em agosto, já com o castigo cumprido, e não fez por menos: em casa, ganhou a segunda Vuelta da carreira, agora já ao serviço da Saxo Bank.

Alberto Contador a festejar o ansiado título na Vuelta de 2012.

Alberto Contador a festejar o ansiado título na Vuelta de 2012.

JAIME REINA

Nos anos seguintes, Contador não voltou a ganhar um Tour mas ainda venceu uma Vuelta em 2014 e um Giro em 2015. Em todas as provas que entra, o seu nome nunca deixou a lista de favoritos.

Ainda no Tour deste ano, quando na geral já nada tinha a fazer, depois de mais uma série de quedas e problemas mecânicos e, sim, é verdade, uma capacidade física que não é a de outros tempos, não deixamos de ver Contador ao ataque. A tentar levar Quintana na roda. A mudar de ritmo, montanha acima, como só ele e poucos mais sabem. Como duas das suas referências sabiam: Marco Pantani e Lance Armstrong.

Com Armstrong, Contador garante ter tido uma boa experiência, mesmo depois das coisas terem azedado em 2009 quando o norte-americano decidiu voltar para tentar o oitavo Tour e fazer sombra ao então chefe de fila da Astana, Alberto Contador. Armstrong acabou em terceiro, com o espanhol a conquistar a amarela.

“Não posso negar que o Lance teve um papel importante na minha vida. Li o livro dele 'It’s not About the Bike' não uma, mas duas vezes. Li-o pela primeira vez quando estava a recuperar do meu acidente [em 2004], e deu-me muita motivação, não só para regressar ao ciclismo mas para regressar à vida. E li-o de novo quando estava a pensar ganhar o meu primeiro Tour. É um livro importante para mim”, considerou.

No Tour de 2009, o desaguisado com Armstrong foi público. Venceu o espanhol.

No Tour de 2009, o desaguisado com Armstrong foi público. Venceu o espanhol.

PAPON BERNARD

E depois do adeus?

Agora, a despedida é de Alberto Contador e aos 34 anos o ciclista não parece disposto a inverter a marcha. Num vídeo publicado esta semana na sua conta de Instagram, o espanhol confirmou que vai correr a Vuelta, de 19 de agosto a 10 de setembro, e garantiu que depois dela se despede do ciclismo profissional. Feliz e sem penas.

A organização já decidiu homenageá-lo. Na ausência do vencedor de 2016, Nairo Quintana, o dorsal número 1 vai para as costas de Contador.

O que se segue? Numa entrevista recente, dada aos canais da marca que agora o patrocina, Contador prometeu dedicar boa parte do seu tempo à Fundação a que deu o seu nome.

Uma instituição que tem entre os principais objetivos a promoção do ciclismo. Dedica-se, por exemplo, a dar nova vida a bicicletas velhas com o objetivo de as distribuir em meios desfavorecidos, onde a locomoção em duas rodas possa fazer a diferença. O trabalho mecânico foi entregue a utentes da Associação de Pessoas com Deficiência de Pinto.

“Definitivamente, o ciclismo deu-me muito - uma personalidade forte, maturidade, popularidade, e uma vida mais confortável para a minha família e para mim. O que é que eu dei? Espero ter dado a imagem de alguém que vai para cada corrida dar tudo o que tem, nãos nas grandes corridas mas em todas as corridas. Acho que as pessoas sabem que comigo, Alberto Contador, vai haver um grande espetáculo”.

O espetáculo vai terminar. O “pistoleiro” quer recolher as armas. O forte, o determinado, o destemido, o combativo e o imprevisível Alberto Contador. Retiram-se todos, de uma assentada. É a hora de descansar as pernas na companhia da família e do cão. O cão a que chamou... Tour.

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