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Guia prático para acompanhar a Vuelta 2017: a última de Contador, a primeira de Rui Costa e a que pode ser histórica para Froome

Quem são os candidatos ao triunfo em Madrid? Quantos portugueses estão em prova? Quais as etapas mais duras do programa? Respostas para conferir aqui, na véspera do arranque da terceira e última grande volta do ano

FILIPA SILVA

Alberto Contador e Christopher Froome vão deixar de ser rivais em breve

LIONEL BONAVENTURE/GETTY

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É a Vuelta de despedida do ciclista espanhol mais importante deste século. É a Vuelta que Froome persegue há vários anos. É a Vuelta de estreia do português Rui Costa. E é também uma Vuelta marcada por algumas ausências motivadas pelos campeonatos do mundo de estrada que se realizam em setembro, na Noruega.

O traçado, no seu conjunto, não traz grandes novidades face aos anos mais recentes, com muita montanha - nove chegadas em alto -, alguma com fama de cruel, caso do Alto de los Machucos e o Anglirú, este último a pontuar a etapa-rainha da prova, marcada para a véspera da chegada a Madrid. A última semana de Vuelta vai ser muito dolorosa.

A prova arranca este sábado e acaba a 10 de setembro na capital espanhola. Pela terceira vez na história, a Vuelta vai começar fora de território espanhol - a primeira foi em 1997, em Lisboa. Desta vez, vai ser em território francês, mais precisamente em Nîmes, onde são abertas as hostilidades com um contra-relógio de equipas.

Segue-se outra etapa em território francês. À terceira, a Vuelta entra em Andorra e só depois daqui irá passar em definitivo para Espanha.

Há cinco portugueses entre os 198 corredores inscritos. Para o experiente Rui Costa (UAE Emirates) e para o jovem Rafael Reis (Caja Rural), trata-se de uma estreia. Já para José Gonçalves (Kausha) e Nélson Oliveira (Movistar), é a terceira participação na última Grande Volta do ano. Ricardo Vilela, da Manzana Postobon, vai para a sua segunda Vuelta.

OS FAVORITOS

Chis Froome está em Espanha à procura da sua primeira Vuelta. Se o conseguir, é a primeira vez desde Bernard Hinault em 1978 que um corredor soma a Vuelta à conquista do Tour no mesmo ano. Foi três vezes segundo (2011, 2013 e 2016). No ano passado perdeu para Nairo Quintana, ausente na edição deste ano. Aqui não vai contar, como em França, com o apoio de Landa, Kwiatowski ou Geraint Thomas - já recuperado da queda no Tour, mas concentrado nos Mundiais de estrada - mas terá ainda assim uma formação forte ao seu lado. “Não me lembro de termos ido à Vuelta com uma equipa tão forte como a deste ano”, declarou o corredor.

Depois do champagne nos Campos Elísios, Froome procura a primeira Vuelta da carreira.

Depois do champagne nos Campos Elísios, Froome procura a primeira Vuelta da carreira.

Chris Graythen

Vincenzo Nibali será um dos grandes adversários de Froome. O calendário do “tubarão” - “El Tiburon” para os da casa - foi planeado para que o corredor se concentrasse este ano no Giro e na Vuelta. Em Itália, terminou a prova com um terceiro lugar na geral. Em Espanha, o corredor da Bahrain-Merida persegue uma segunda vitória (ganhou em 2010). De descanso não se poderá queixar, uma vez que depois do Giro teve somente oito dias de competição. Não esquecer que Nibali é um de seis homens no planeta com vitórias nas três grandes voltas. Em atividade, só o iguala Alberto Contador.

E por falar em Contador, aconteça o que acontecer o ciclista de Pinto será uma das figuras desta Vuelta. Afinal, o “pistoleiro” despede-se do ciclismo profissional em casa. O espanhol já ganhou a prova por três vezes - em 2008, 2012 e 2014. Aos 34 anos, a forma já não é o que era, mas no Tour Contador provou que ainda pode provocar estragos no pelotão. Vai sair com o dorsal número 1 - homenagem da casa - e seguramente quererá deixar uma marca na Grande Volta de despedida.

Fabio Aru teve uma primeira semana de Tour para recordar, e um final para esquecer. Problemas respiratórios contraídos nos Alpes destroçaram as aspirações do campeão italiano, que ainda andou de amarelo duas etapas. Em Espanha, o corredor da Astana deverá querer compensar o que pareceu ficar por concluir em França. Tem uma Vuelta no currículo conquistada em 2015 e uma mudança de equipa praticamente garantida (deverá juntar-se à Emirates de Rui Costa no próximo ano).

Esteban Chaves chegou ao pódio da edição transata da Vuelta e no mesmo ano foi segundo classificado no Giro. Este ano, o corredor da Orica deu uma pálida imagem do seu valor no Tour, numa participação marcada por uma quebra emocional decorrente da morte da sua fisioterapeuta num acidente de viação. O colombiano não será o único líder da equipa. O “tridente” da Orica conta também com os irmãos Adam e Simon Yates, este último protagonista de uma grande época, com destaque para a vitória da camisola da juventude e 7º posto da geral na Volta a França.

Romain Bardet (AG2R), que foi terceiro no Tour deste ano, vai estrear-se em Espanha, mas o contra-relógio de 40 quilómetros deve deitar por terra aspirações ao topo da geral para o francês - lembram-se do crono de Marselha em que Froome quase o passou em cima da meta? Terá em Domenico Pozzovivo um gregário de luxo. Outro francês em destaque no Tour que vai a Espanha é Warren Barguil, o rei da montanha, uma das figuras do Tour 2017.

A Aqua Blue Sport, que conseguiu um wild-card no ano de estreia enquanto profissional, leva o campeão norte-americano Larry Warbasse. Tejay van Garderen (BMC) e Andrew Talansky (Cannondale Drapac) são outros norte-americanos com aspirações ao top-10.

Louis Meintjes, Miguel Angel Lopez, Rafal Majka - 3º na Vuelta do ano passado -, Ilnur Zakarin, John Degenkolb, Rohan Dennis, Rui Costa, Bob Jungels, David De La Cruz, Steven Kruijswijk, Gianni Moscon, Marc Soler são também destaques de um pelotão com 198 corredores.

OS AUSENTES

O vencedor da Vuelta do ano passado, não vai a Espanha defender o título e isso era há muito sabido, desde que no início da época a Movistar anunciou que Nairo Quintana iria apostar no Giro e no Tour. Em Itália, o corredor de Boyacá foi segundo atrás de Tom Dumolin, mas a prova teve efeitos profundos na forma do colombiano que se apresentou em França muito abaixo das suas capacidades. Terminou em 12º da geral, quando o seu sonho é há muito a conquista do Tour. Muito se falou de uma possível saída do pequeno grande trepador da equipa, mas Quintana garante que está na Movistar para ficar. Landa vai juntar-se na próxima época. Boas notícias? Humm, depende.

Nairo Quintana apresentou-se muito desgastado no Tour.

Nairo Quintana apresentou-se muito desgastado no Tour.

Chris Graythen

Outro ausente é o vencedor do Giro deste ano, o holandês Tom Dumolin. O ciclista da Sunweb anunciou em julho que ia prescindir da Vuelta para se concentrar na preparação dos Mundiais de Estrada que decorrem em setembro, na Noruega.

Muitos farão o mesmo. É o caso de Peter Sagan cuja saída precoce do Tour - foi expulso no final da 4ª etapa - ainda fez pensar numa aposta na Vuelta em jeito de compensação, mas a prioridade do eslovaco da Bora é defender o título de campeão do mundo de estrada, que lhe pertence. O alemão Tony Martin também lá vai defender o título de campeão do contra-relógio.

Marcel Kittel, vencedor de cinco etapas do Tour - e que para o ano se junta à Katusha de José Azevedo -, Rigoberto Uran (Cannondale), Mikel Landa (Sky) ou Michael Matthews também não vão correr em Espanha.

OS PORTUGUESES

É de longe o português melhor classificado no ranking da União Ciclista Internacional e já acumula larga experiência em grandes voltas. A Vuelta 2017 é a 10ª de Rui Costa, mas a primeira do português em solo espanhol. O poveiro vai ser um dos pontas-de-lança da UAE Emirates que terá também em Louis Meintjes e Darwin Atapuma pretendentes ao top-10. Rui Costa chega a Nîmes com um 10º lugar na geral da Volta à Polónia, um 5º na Volta à Suíça - que já ganhou por três vezes - e um 27º no Giro. Foi ainda o vencedor do Tour de Abu Dhabi.

Rui Costa a festejar a conquista do Tour de Abu Dhabi

Rui Costa a festejar a conquista do Tour de Abu Dhabi

NEZAR BALOUT

José Gonçalves, que trocou a Caja Rural pela Katusha-Alpecin de José Azevedo, vai à procura de uma prestação superior à do ano passado - desistiu na 11ª etapa. Da presente época, leva como melhor resultado a vitória no Ster ZLM e o 4º lugar nos campeonatos nacionais de estrada.

Vai ter como chefe de fila na Katusha Ilnur Zakarin. No giro, onde também trabalhou para o russo, acabou na 60ª posição da geral. É a terceira vez que participa na Vuelta.

Quem também vai para a terceira Volta a Espanha é Nélson Oliveira. O corredor da Anadia já venceu uma etapa na Vuelta e fez um segundo lugar nesse ano. Estávamos em 2015. Depois de um ano de ausência, o quatro vezes campeão nacional de contra-relógio volta a Espanha para apoiar Rubén Fernández e Marc Soler, chefes de fila na ausência de Nairo Quintana e Alejandro Valverde.

Ricardo Vilela, de 28 anos, corre pela Manzana Postobon. O português, 3º nos campeonatos nacionais de estrada, vai completar a sua segunda participação na Volta a Espanha, onde se estreou em 2015 pela Casa Rural. Foi 48º nesse ano. Esta época foi 8º na Volta às Astúrias, ganha pelo vencedor da Volta a Portugal Raul Alarcon.

Já para Rafael Reis (Caja Rural), a Vuelta 2017 vai marcar a sua estreia em Grandes Voltas. Aos 25 anos e depois de uma excelente época ao serviço da W52-FC Porto em 2016, o corredor deu o salto para uma equipa de categoria Profissional Continental que já serviu de trampolim para formações World Tour tanto para André Cardoso como para José Gonçalves. O melhor resultado da época foi até agora o segundo lugar no campeonato nacional de contra-relógio que perdeu para Domingos Gonçalves.

O PERCURSO

O calendário da Vuelta 2017 inclui, como é hábito, 21 etapas. No dia de arranque, este sábado, em Nîmes, haverá um contra-relógio de equipas com 13,7 quilómetros de extensão. Ao longo dos 3.324 quilómetros de percurso, haverá 50 contagens de montanha e dois dias de descanso.

Logo ao terceiro dia de prova, na segunda-feira 21, há uma etapa de montanha nos Pirinéus, com três contagens de montanha. A chegada não é em alto, mas as passagens por duas primeiras categorias no Col de la Perche e depois no Col de la Rabassa vão servir para mostrar forças e fraquezas entre os favoritos. Antes da meta, instalada em Andorra La Vella, ainda há uma segunda categoria no Alto de la Comella.

Saltamos para a segunda semana de prova, para a 11ª etapa entre Lorca e Calar Alto. Será a mais difícil desta semana com duas contagens de primeira categoria nos últimos 30 quilómetros da etapa. Serão 3.434 metros de desnível acumulado para os corredores.

Antes do segundo dia de descanso (4 de setembro), vale a pena ver as etapas 14 e 15. A primeira com uma categoria especial à chegada, na Sierra de la Pandera. A seguinte não foge à regra, também com chegada a uma categoria especial na Serra Nevada, mas com duas montanhas de primeira categoria antes deste esforço final.

No dia de descanso, é bom que se recupere o fôlego porque o que se segue são as etapas decisivas da prova. A etapa 16 corresponde ao contra-relógio individual, plano, entre Navarra e Logroño. A etapa 17, a 6 de setembro, leva o pelotão aos tão falados Machucos - uma subida explosiva no final, curta mas impiedosa, com rampas de 26%.

Por fim, antes da etapa da consagração em Madrid, o regresso do Anglirú, cujo alto não fazia parte da Vuelta desde 2013, e que fará seguramente tremer quer quem tenha posições a defender, quer quem ainda guarde a esperança de as atacar. É aqui que a Vuelta fica decidida em definitivo. Data? 9 de setembro.

A expressão de Bradley Wiggins depois de cruzar a meta no Angliru diz bem da dificuldade da subida.

A expressão de Bradley Wiggins depois de cruzar a meta no Angliru diz bem da dificuldade da subida.

JAIME REINA

Nas estradas, serão seguramente milhares a acompanhar a Vuelta da forma entusiasta que os corredores reconhecem e apreciam na “afición” espanhola. No sofá e a partir de Portugal, a Volta a Espanha pode ser acompanhada através da Eurosport ou da TVI 24.

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    Ciclismo

    Quando venceu a primeira Volta a França ainda vivia com os pais. Com o dinheiro que ganhou, comprou carro e casa. Ao cão, deu-lhe o nome Tour. Em 15 anos, ganhou lugar no elenco que nos ajudará a contar a história do ciclismo. As referências não serão todas de glória, mas o homem sobrepôs-se aos casos. Na despedida, fica a certeza: o pelotão vai perder 'chispa'