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Volta a Espanha: A semana de sonho de Froome e porque é que ele está mais perto de fazer história

Se Froome era o favorito antes do arranque da Vuelta, uma semana depois é-o ainda mais. Saiba porquê, os momentos-chave da camisola vermelha que enverga, o que se segue e que destaques positivos e negativos há a fazer da primeira semana de Vuelta.

FILIPA SILVA

Chris Froome à espera de mais uma camisola vermelha depois da vitória na nona etapa.

JAIME REINA

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Pode haver uma queda, uma avaria, um problema clínico. Ganhar uma grande volta é muito difícil por isso. Pelas inúmeras circunstâncias não planeadas que podem ir a jogo e mudar o jogo.

Sem elas, contudo, Chris Froome é o favorito à vitória final em Madrid. Ele que entrou na Vuelta como grande favorito, é-o ainda mais depois da primeira semana de competição.

Aproveitamos o dia de descanso para responder a algumas questões sobre a primeira semana da Volta a Espanha.

Porque é que Chris Froome pode fazer história?

Porque na história do ciclismo só dois homens antes dele conquistaram o Tour e a Vuelta no mesmo ano, e fizeram-no quando a Volta a Espanha se realizava noutra altura do calendário, em abril/maio. Só desde 1995 é que a Vuelta passou a fechar o calendário das grandes voltas, realizando-se entre agosto e setembro.

Além disso, a prova é hoje muito diferente daquela que foi ganha por Jacques Anquetil em 1963 ou por Bernard Hinault em 1978, os lendários corredores que Froome persegue.

Quando “Monsieur Chrono” Anquetil ganhou a Vuelta, a prova tinha duas semanas e quatro contagens de primeira categoria no conjunto das etapas. Ora, a Vuelta 2017 tem 50 contagens de montanha. Três de primeira categoria só na primeira semana.

Jacques Anquetil era especialista em contra-relógio. Venceu a Vuelta e o Tour em 1963.

Jacques Anquetil era especialista em contra-relógio. Venceu a Vuelta e o Tour em 1963.

AFP

Em 1978, a Vuelta já tinha 19 etapas e um prólogo, um número de jornadas que a coloca a par da atual, mas as circunstâncias não deixavam de ser especiais. Nesse ano, por exemplo, não houve festa do pódio para consagrar Hinault, o vencedor da geral. A corrida foi primeiro neutralizada e depois cancelada no País Basco, em anos de conflito separatista. A Vuelta só voltaria a ter uma etapa com partida ou chegada ao País Basco em 2011.

Ah! A outra diferença é que a camisola da liderança nessa altura ainda era amarela.

O que é que Froome já conseguiu na Vuelta e o que é que está diferente este ano?

Esta é a sexta participação do britânico na Vuelta. Tantas participações quantas as que tem no Tour, a sua corrida de eleição. Em Espanha, Froomey, como também é conhecido, já foi segundo em três ocasiões: em 2011, em 2014 e em 2016.

No ano passado, quando ficou atrás de Nairo Quintana, ganhou o contra-relógio por equipas, o individual e uma etapa e isso não lhe bastou.

Porque é que o desfecho será diferente este ano? Em primeiro lugar, pela forma apresentada pelo corredor ao longo desta primeira semana. Chris Froome é claramente o ciclista mais forte do pelotão no momento.

Isso vê-se pela capacidade de iniciativa e de resposta ao longo da corrida, sobretudo no que houve de montanha até aqui. As pernas parecem frescas – Froome não teve nanhuma outra competição desde o Tour –, a cabeça concentrada e o plano muito bem montado.

O corredor garante que a 72ª Vuelta foi preparada como nunca. “Este ano pensamos muito sobre ela. Vamos com um sentimento de missão e quero ter uma real oportunidade lá”.

Para isso, não é de descurar que tem a ajuda da melhor equipa do pelotão, a Sky.

Quais foram os momentos-chave de Froome nesta primeira semana?

A terceira etapa, quando Froome chega á camisola vermelha, no primeiro grande teste de montanha para o pelotão, com a chegada a Andorra La Vella. Quem ganhou a etapa foi Nibali, mas graças aos dotes de descida e finalização, porque na escalada ao Alto de la Comella, perto da meta, quem mandou foi Froome.

Na etapa 5, nova demonstração de força. Desta vez na chegada a Alcossebre, na Ermita de Santa Lucia. Na etapa do dia dia seguinte, a iniciativa foi de Alberto Contador - que passou mal em Andorra e disse provavelmente adeus à geral nos Pirinéus -, mas só Froome conseguiu acompanhar o espanhol.

Na etapa oito, mais uma “sapatada” do líder da Sky sobre os favoritos, desta vez a valer segundos para o reforço da liderança. O ataque que fez na subida ao Alto Xorret de Catí foi avassalador deixando para trás Esteban Chavez, Roche, Nibali e companhia. Só Contador conseguiu fazer a ponte.

Mas o melhor, viria no fim. Foi este domingo, na nona etapa, que o britânico ganhou. A sua expressão de alegria no final diz tudo sobre o sabor da conquista. Froome tinha sido segundo em Cumbre del Sol há dois anos. Diz que estudou a lição vezes sem conta e descobriu onde deveria atacar para ganhar. Ganhou.

Froome a festejar a vitória na nona etapa.

Froome a festejar a vitória na nona etapa.

JAIME REINA

O britânico já leva seis dias com a vermelha vestida, o que é inédito porque nas suas participações anteriores nunca o tinha conseguido mais de um dia.

Quais os momentos-chave que se vão seguir?

Esta segunda semana de prova tem seis etapas no calendário. As mais complicadas para o pelotão estão reservadas para o próximo fim de semana.

No sábado, com final no alto, na Serra de la Pandera, uma contagem de categoria especial; e no domingo, com uma etapa curta (129,4 quilómetros) mas muito dura, com duas primeiras categorias e nova chegada a uma montanha de categoria especial, na Serra Nevada.

Se a primeira semana foi dominada por etapas planas e de média montanha, nesta as subidas vão endurecer.

A terceira semana será a do tudo ou nada, a começar pelo contra-relógio individual marcado para dia 5 e a acabar na escalada ao Angliru, na véspera da chegada a Madrid.

Uma curiosidade: a última “dobradinha” de grandes voltas foi selada precisamente no Angliru, há nove anos, quando Alberto Contador assegurou a vitória na Vuelta, quando tinha conquistado o Giro no mesmo ano.

Quais as pretações mais positivas desta primeira semana?

Chris Froome é uma resposta óbvia, tendo em conta a liderança e a performance.

Também a equipa da Quick-step merece aplauso. Já conquistou três etapas – Lampaert, Trentin e Alaphilippe -, e foi segunda no contra-relógio coletivo. Leva 13 vitórias em grandes voltas esta época.

Nélson Oliveira (Movistar) também está de parabéns. É o melhor português da geral e está entre os 20 melhor classificados. Até aqui, só demorou mais 4’50’’ do que Froome a fazer a volta. Foi 5º na oitava etapa.

Nélson Oliveira é o melhor português da geral.

Nélson Oliveira é o melhor português da geral.

Movistar

E Alberto Contador, porque não. O espanhol está a fazer a despedida e se isso lhe retirou pressão, também lhe colocou pressão, porque a quer fazer de forma especial. Arrancou mal nos Pirinéus, mas tem sido com Froome o único a agitar águas no pelotão.

E as negativas?

Os dois italianos que já ganharam a Vuelta parecem longe de poder reclamar nova vitória, pelo menos para já. Tanto Vincenzo Nibali – que ainda assim ganhou uma etapa – como Fábio Aru têm mostrado pouca potência quando o terreno inclina. Mas ainda falta muita montanha.

Pouco simpático foi também o episódio que atirou Warren Barguil para fora da Vuelta, expulso pela própria equipa (a Sunweb) por desrespeitar ordens numa etapa.

Romain Bardet, terceiro do Tour, e a sua AG2R também estão muito longe da figura que fizeram no Tour – o francês já leva mais de 10 minutos de atraso.

Romain Bardet tem sofrido em algumas etapas.

Romain Bardet tem sofrido em algumas etapas.

Chris Graythen

E há ainda o drama da Cannondale-Drapac, com os corredores da equipa a saberem em plena volta que o futuro está comprometido ou a sete milhões de dólares de distância de estar assegurado em 2018, or saída de um dos patrocinadores principais. A formação tem Michael Woods no top 10 e fez segundo no Tour com Rigoberto Uran, com quem aliás já tinha acertado renovação de contrato.