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O crowdfunding chegou ao ciclismo de elite: Cannondale procura 2 milhões para se salvar

A campanha foi lançada esta quarta-feira. Um negócio falhado colocou a prémio o futuro da Cannondale, que até teve um corredor no pódio da Volta a França

FILIPA SILVA

Rigoberto Uran foi segundo no pódio em Paris.

Chris Graythen

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A bomba caiu no último sábado sobre os profissionais da Cannondale-Drapac.

Em comunicado, a equipa anunciou que um dos principais patrocinadores negociado para 2018 voltou atrás na intenção. Sem esse apoio, a formação norte-americana diz não ter condições financeiras para assegurar a competição no World Tour, a divisão de elite do ciclismo mundial que tem atualmente 18 equipas.

O aviso serviu para dizer aos profissionais da Cannondale que estão livres para tratar do seu futuro.

Jonathan Vaughters, principal responsável da equipa, não divulgou o nome do patrocinador que desistiu à última hora, mas a “Cycling Weekly” avançou que se trata do site de apostas Unibet, que já andou no circuito entre 2006 e 2007 e que enfrentou algumas dificuldades, com a organização da Volta a França, por exemplo, a querer recusar a sua participação por causa das leis de restrição ao jogo do país.

“O negócio estava fechado”, disse Vaughters à Business Insider. “Estávamos a escolher o design das camisolas e como ia parecer o autocarro. Mas o acordo sempre teve esta cláusula que dizia que a menos que houvesse um consenso unânime na administração da empresa, ele podia ser quebrado. Sempre soubemos do risco, e no final não houve consenso”.

O antigo ciclista assegurou que os atuais patrocinadores e parceiros - Cannondale, Drapac, Oath e POC - iam manter-se nos moldes em que se comprometeram para 2018, mas mesmo assim ficam a faltar sete milhões de dólares para assegurar a época.

“Estamos a correr pelo nosso emprego”

A bomba caiu em plena Volta a Espanha. A Cannondale tem nove corredores em prova, sendo Michael Woods o melhor classificado. O canadiano, que está atualmente no top ten da geral, descreveu o clima no interior da equipa.

“Só de pensar em todo o staff e todos os profissionais da Slipstream Sports [dona da equipa]... Podem estar todos sem emprego daqui a um ano. São quase 100 pessoas. Toda a gente está preocupada”, comentou o oitavo da geral.

“Suponho que estejamos literalmente a correr pelos nossos empregos”, acrescentou Joe Dombrowski, outro dos corredores da equipa.

A notícia espalhou-se rapidamente pelas redes sociais. Vaughters pediu a patrocinadores interessados que dessem um passo em frente. Enquanto isso, aproveitou a onda de solidariedade para entregar aos fãs a possibilidade - responsabilidade? - de contribuirem para o futuro da equipa.

Assim nasceu a campanha #SaveArgyle na plataforma Indiegogo. O objetivo é ambicioso: angariar 2 milhões de dólares em duas semanas. No primeiro dia, cumprido esta quarta-feira, a iniciativa alcançou 8% do objetivo, correspondentes a pouco mais de 150 mil dólares.

De acordo com a Slipstream, se os dois milhões forem atingidos ou ultrapassados, o fundo de risco The Fairly Group, gerido pelo pai de um antigo corredor da Slipstream, compromete-se a igualar o valor. Estariam assim assegurados pelo menos quatro dos sete milhões que Vaughters estimou estarem em falta. Se a barreira não for atingida, o dinheiro vai ser devolvido.

Os donativos podem ir dos 25 dólares aos 50 mil, reservando a estes fãs a possibilidade de participarem em estágios com a equipa e de a acompanharem em grandes provas internacionais.

E agora, Rigoberto Uran?

A bomba caiu em cima do segundo classificado do Tour. Sim, a Cannondale esteve no pódio da prova mais importante do calendário velocipédico internacional, o que não se revelou suficiente para assegurar um futuro próximo descansado.

Mas jogou tudo em cima dessa possibilidade. Tanto que assinou com Rigoberto Uran, só batido por Froome na Volta a França deste ano, uma extensão do contrato de três anos.

Rigoberto Uran foi segundo no pódio em Paris.

Rigoberto Uran foi segundo no pódio em Paris.

Chris Graythen

O agente do corredor colombiano, que vai correr em setembro no Canadá e encerrar a época na Volta a Lombardia, deu duas semanas à Cannondale para arranjar uma solução para a equipa. Interessados não faltarão em Uran, com a Astana e a Trek entre as equipas mais mencionadas.

E o colombiano não é a única cara conhecida da equipa. Pierre Rolland também faz parte do conjunto e expressou surpresa pelas recentes notícias. Taylor Phinney e Andrew Talansky são outros dos 28 corredores da Cannondale.

A dependência dos patrocinadores

A bomba paira há muito pelo pelotão. E já caiu sobre ele várias vezes. A Tinkoff e a IAM Cycling são exemplos mais recentes de um desporto habituado à constante entrada e saída de patrocinadores. O que não seria tão sério problema se não dependesse tanto desses mesmos patrocinadores.

A modalidade é cara. Segundo uma estimativa publicada pelo L’Equipe em 2016, os orçamentos das equipas do World Tour andavam entre os 3,5 milhões da Fortuneo e os 35 milhões da Sky.

E no ciclismo, ao contrário do que acontece com várias modalidades, não há divisões de direitos televisivos e muito menos receitas de bilheteira.

O futuro da Cannondale-Drapac permanece assim em suspenso, na certeza de que a época está a chegar ao fim com as equipas de topo a terem praticamente fechados os elencos da próxima temporada.