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Como a Sky terá aldrabado o sistema e dopado Bradley Wiggins para vencer a Volta a França

Relatório oficial ao qual o "The Guardian" teve acesso diz que equipa usou Autorizações de Utilização Terapêutica (AUT) não para questões de saúde mas sim para aumentar os níveis de desempenho dos seus atletas na preparação e durante o Tour de 2012, ganho pelo ciclista britânico, entretanto retirado. Wiggins e a Sky já vieram negar as alegações do documento

Lídia Paralta Gomes

Doug Pensinger/Getty

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A mais poderosa equipa do pelotão internacional poderá ter recebido um golpe fatal na sua credibilidade, que por estes dias já andava abalada. De acordo com um relatório oficial do Departamento para o Digital, Cultura, Media e Desporto, um organismo estatal britânico que está a investigar a Team Sky desde agosto de 2015, a equipa terá deliberadamente subvertido o sistema que permite o uso de algumas substâncias proibidas, desde que fique provado que essa utilização serve efeitos terapêuticos.

O relatório, ao qual o jornal “The Guardian” teve acesso, diz que em 2012, ano em que venceu pela primeira vez a Volta a França, a Sky recebeu várias Autorizações de Utilização Terapêutica (AUT) para utilizar um poderoso corticosteróide, a triancinolona. A substância não foi utilizada para tratar de condições médicas mas sim de forma sistemática para “preparar Bradley Wiggins [então líder da equipa e que venceria esse Tour] e possivelmente outros colegas de equipa para a Volta a França”.

“O propósito da utilização da substância não foi o de tratar uma necessidade médica, mas sim para aumentar a relação peso/potência na preparação para a corrida. A aplicação da AUT para triamcinolona por parte de Bradley Wiggins, na preparação para o Tour de 2012, significa também que o ciclista beneficiou das suas propriedades de melhoria de performance ao longo da corrida”, pode ler-se ainda no documento revelado pelo “The Guardian”.

A triancinolona é usada no tratamento de inflamações de todo o tipo, desde cutâneas até à artrite, bem como lesões musculares ou alergias ao pólen - condição que Wiggins alegou para conseguir utilizar a substância de forma legal. Está na lista de drogas proibidas pela Agência Mundial Antidopagem devido às suas propriedades na redução de massa adiposa e nos efeitos que tem no sistema nervoso, diminuindo, por exemplo, as dores musculares.

O documento do Departamento para o Digital, Cultura, Media e Desporto coloca ainda em causa a forma displicente como a equipa que nos últimos anos tem sido liderada por Chris Froome - ele próprio envolvido de momento numa possível violação das regras antidopagem - lidou com os registos médicos dos seus ciclistas nos últimos anos, facto que já tinha atrapalhado investigações anteriores.

Bradley Wiggins foi o primeiro em Paris no Tour de 2012

Bradley Wiggins foi o primeiro em Paris no Tour de 2012

Tim de Waele/Getty

Os registos médicos de Bradley Wiggins, por exemplo, foram perdidos depois do computador do médico da Sky ter sido roubado em 2014. A equipa não mantinha qualquer tipo de back-up ou de cópias dos registos e o relatório revelado pelo “The Guardian” deixa no ar que a aparente falta de cuidado pode ser apenas uma uma estratégia propositada para complicar e encobrir a descoberta de possíveis ilegalidades.

Subversão, não ilegalidade

Tratando-se, em linguagem corriqueira, de uma forma não de violar as leis, mas sim de aldrabar o sistema, as conclusões do relatório quanto aos factos passados durante e na preparação para o Tour de 2012 não deverão ter consequências práticas para a Sky. O que está de momento em causa é a credibilidade de uma equipa que sempre bateu com o punho no peito, clamando por um ciclismo limpo e afirmando sem reservas fazer parte dele - aliás, a ideia de “ganhar limpo” esteve até na origem da formação da equipa.

Uma ideia que terá sido abandonada quando a vontade de ganhar se tornou mais importante que qualquer código ético.

“Não estamos perante uma violação do código da Agência Mundial Antidopagem, mas estes factos ultrapassam uma linha ética que o próprio David Brailsford traçou para a Team Sky”, lê-se também no relatório. David Brailsford, team manager da equipa britânica e que detém o título de ‘Sir’ pelos serviços prestados ao desporto do país, terá inclusivamente mentido em frente ao comité que redigiu o relatório.

A fronteira entre o que é ilegal e legal poderá no entanto ter sido ultrapassada em 2011, no Critérium du Dauphiné. Durante a prova francesa, uma das mais importantes na antecâmara do Tour, a Sky terá recebido um saco com substâncias suspeitas. De acordo com o testemunho de David Brailsford, durante uma investigação da autoridade antidopagem britânica sobre o caso, o saco continha apenas Fluimucil, um descongestionante que pode ser utilizado de forma legal.

Contudo, o relatório do Departamento para o Digital, Cultura, Media e Desporto fala de novas informações e novos testemunhos que garantem que a substância entregue era triancinolona. Em 2011, Bradley Wiggins, entretanto retirado, não tinha uma Autorização de Utilização Terapêutica para a substância, pelo que estaríamos perante uma violação do código antidopagem.

Wiggins e Sky desmentem relatório

Contactado pelo “The Guardian”, Bradley Wiggins considerou “triste” ser acusado de coisas “que nunca fez” e que são agora “apresentadas como factos”.

“Nego de forma veemente as acusações de que tenha usado qualquer droga que não fosse para tratamento médico. Espero que a minha versão seja ouvida”, sublinhou.

O team leader da Sky, David Brailsford, com o principal ciclista da equipa, Chris Froome, atualmente sob investigação devido a um controlo positivo

O team leader da Sky, David Brailsford, com o principal ciclista da equipa, Chris Froome, atualmente sob investigação devido a um controlo positivo

Bryn Lennon/Getty

Já a Sky reagiu através de comunicado, fazendo um mea culpa quanto à displicência no tratamento das informações médicas dos seus ciclistas, mas negando qualquer tipo de estratégia para aumentar o desempenho dos atletas através de medicação autorizada. “Recusamos as acusações. Estamos surpresos e desapontados por o comité ter escolhido apresentar afirmações anónimas e potencialmente maliciosas, sem mostrar provas e sem dar-nos a oportunidade de responder. É injusto, tanto para a equipa como para os ciclistas em questão”.

Acusações verdadeiras ou não, o certo é que a confiança dos adeptos do ciclismo numa das equipas mais poderosas do pelotão poderá estar para sempre minada, isto numa altura em que o positivo a salbutamol de Chris Froome, “apanhado” num controlo durante a Volta a Espanha de 2017, está ainda em fase de investigação.