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Juan Antonio Flecha: "Cicatrizes? Nunca as contei. Mas não há só cicatrizes no corpo. Também há cicatrizes psicológicas"

Foi um dos mais combativos ciclistas do início do século e agora, cinco anos após baixar da bicicleta, acompanha a modalidade do lado de fora, como comentador e repórter. Em entrevista à Tribuna Expresso, o espanhol Juan Antonio Flecha, de 40 anos, fala da mítica Milan-San Remo, clássica que se disputa este sábado, da sua nova carreira na televisão (e como estudante universitário), mas também das marcas que a carreira lhe deixou, nomeadamente aquela que ficou (e que não se vê) após ser abalroado por um carro durante uma etapa da Volta a França em 2011

Lídia Paralta Gomes

Jean Catuffe/Getty

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No início do século, ligar a televisão em dia de etapa plana numa grande volta significava quase automaticamente ver Juan Antonio Flecha a tentar a sua sorte. O espanhol nascido na Argentina há 40 anos era um dos ciclistas mais aguerridos e combativos da sua geração e também um trabalhador de confiança. E também era bastante bom em clássicas, nomeadamente na mais dura de todas, o Paris-Roubaix. O 'Inferno do Norte' corre-se no início de abril mas antes disso corre-se o primeiro 'Monumento' da época, a Milan-San Remo (no grupo dos 'Monumentos', as mais importantes Clássicas do calendário, estão ainda a Volta à Flandres, a Liège-Bastogne-Liège e a Volta à Lombardia). Flecha, que ajudou Oscar Freire a vencer a prova em 2007, diz-nos o que poderá acontecer este sábado em Itália, mas também há tempo para falar dos anos pós-reforma, de cicatrizes, da nova carreira como comentador e repórter na Eurosport.

Olá Juan Antonio. Este sábado corre-se o primeiro ‘Monumento’ da temporada, a Milan-San Remo. Para muito boa gente é agora que a época de 2018 começa de verdadeiramente.
Bem, acho que é uma coisa muito pessoal. Se perguntares a um belga se calhar ele vai dizer-te que é o fim de semana da Omloop Het Nieuwsblad [este ano correu-se a 24 de fevereiro]. Mas acho que sim, é o primeiro grande momento da temporada e definitivamente acho que é a primeira corrida do ano que traz muita atenção ao ciclismo. Não diria que a temporada começa este fim de semana, mas acho que é um daqueles momentos para os fãs de ciclismo.

Quem diria que são os principais favoritos à vitória este ano?
Há sempre alguns favoritos e acho que já conseguimos tirar algumas notas das duas últimas corridas do calendário, o Paris-Nice e o Tirreno-Adriatico. Este ano há algo que muda em relação à prova do ano passado: antes cada equipa vinha com oito ciclistas, agora só pode vir com sete. E isso pode mudar a estratégia das equipas porque a Milan-San Remo é uma daquelas corridas com características muito específicas e em que precisas de um grande trabalho de equipa e de formar aquele comboio para o final. Eu acho que com menos ciclistas a corrida vai ficar mais interessante. Quanto a favoritos, bem, acho que temos de dizer o nome do Marcel Kittel, principalmente porque deve chover no final e isso vai tornar a corrida mais lenta e dar-lhe mais hipóteses. Por outro lado, se a corrida ficar mais louca e confusa - porque como as equipas são mais pequenas é mais difícil uma delas controlar - temos de ir para ciclistas como o Michal Kwiatkowski, o Peter Sagan, o Julian Alaphilippe também está numa bela forma, o final também é bom para o Arnaud Démare… há muitos que vão tentar ganhar.

E qual é a sua melhor recordação da Milan-San Remo?
A Milan-San Remo nunca me correu muito bem porque é uma corrida muito complicada, com um ritmo e uma adrenalina muito específicas. Mas era colega de equipa do Oscar Freire numa das várias vitórias dele em San Remo e foi muito bom, principalmente por estar ao lado de um corredor como o Oscar Freire. Não me lembro exatamente do ano, acho que vais ter de confirmar isso por mim, sou muito mau com datas…

Eu confirmo.
Ele ganhou a última em 2010, em 2009 acho que foi o Mark Cavendish, por isso eu diria 2008 ou 2007 [foi em 2007].

Sempre foi um corredor bom nas Clássicas, mas mais que a Milan-San Remo, gostava era do Paris-Roubaix, não era?
Sim, foi no Paris-Roubaix que tive os melhores resultados, se olhar para todos os ‘Monumentos’. É uma corrida muito especial. Mas não é que não goste da Milan-San Remo que é uma corrida que é o MotoGP do ciclismo, porque no final há mais adrenalina do que em qualquer outra corrida. O que sentes em San Remo, não vais sentir em outra corrida.

Fala-se muito do Tom Boonen e no Fabian Cancellara, mas o Juan Antonio quase todos os anos fazia top 10 no Paris-Roubaix. Considera-se assim dentro de uma espécie de realeza, entre os melhores da prova?
Não, não [risos]! Nunca ganhei, por isso… Estás a falar de dois ciclistas que dominaram a prova durante anos e anos e eu não me posso comparar a eles. Eu em Roubaix nunca era um dos favoritos, mas era sempre um dos melhores outsiders. Acho que é uma boa forma de me definir. Andava sempre lá, com hipóteses de vencer… mas nunca aconteceu.

Juan Antonio Flecha no Paris-Roubaix de 2010, ano em que terminou a prova em 3.º lugar

Juan Antonio Flecha no Paris-Roubaix de 2010, ano em que terminou a prova em 3.º lugar

Tim de Waele/Getty

É mesmo a corrida mais difícil do Mundo?
É pelo menos a mais dolorosa. É uma corrida que te leva um pouco àquilo que era o ciclismo antigamente, andas nos paralelos, em estradas super-antigas. É claro que agora tens bicicletas melhores, mas é como voltar atrás no tempo. É uma corrida em que é preciso ter sorte, é preciso ler o momento. E é daquelas corridas em que mesmo que tenhas um furo, não quer dizer que a tua corrida acabou, porque nunca se sabe o que é que vai acontecer a quem está à tua frente: podem cair, podem ter também um furo. É uma corrida peculiar e brutalmente difícil.

Quando se cruza a meta em Roubaix, qual é a primeira coisa que um ciclista quer fazer?
Tendo a oportunidade, o melhor é meteres-te logo no chuveiro do Velódromo porque depois vêm todos os outros ciclistas! Roubaix é isso mesmo, queres absorver toda aquela experiência e os chuveiros do Velódromo definitivamente fazem parte dessa experiência.

Terminou a sua carreira em 2013. Sente que uma vitória no Paris-Roubaix é mesmo aquela coisa que lhe faltou no CV?
O meu CV neste momento é bem rico! Acabei o 4.º ano da faculdade em Marketing e vou formar-me em junho.

Ai sim? Parabéns.
Estou muito orgulhoso disso. Também me casei e tenho um belo emprego na Eurosport! Não me posso queixar da minha carreira. Depois de largar a bicicleta procurei outras coisas para fazer e tenho a sorte de continuar a trabalhar com ciclismo. É claro que gostava de ter ganho Paris-Roubaix, gostava também de ter ganhou outra etapa numa grande volta. Mas a minha vida não terminou em 2013, conquistei muita coisa depois de deixar de correr e fico feliz com isso

Quando terminou a carreira, em 2015, foi um momento triste ou foi um alívio?
Quando terminei a carreira estava farto [risos]! Estava farto de correr, mas não diria que tenha sido um alívio: um seria um alívio se eu não gostasse daquilo que fazia, o que não era verdade. Eu adorava e ainda adoro ciclismo, mas já não conseguia manter-me no nível desejado. Tive de aceitar isso, porque o desporto profissional é mesmo assim.

E qual foi a primeira loucura que fez quando terminou a carreira? Daquelas que não podia fazer enquanto corria.
Humm… lembro-me que acabei a carreira no Tour de Pequim e fui direto para o Havai fazer surf e windsurf.

Tem alguma ideia quantas cicatrizes tem espalhadas pelo corpo de todas as quedas do ciclismo?
Naaa, nunca as contei. Mas tenho umas quantas. Mas não há só cicatrizes no corpo. Também há as cicatrizes psicológicas. E isso aconteceu naquela queda na Volta a França em 2011 [Flecha foi abalroado por um carro da televisão francesa em plena etapa]. Afetou-me muito psicologicamente e admito isso. É uma daquelas cicatrizes que não consegues ver, mas esteve lá. Curou, mas estava lá. É algo que eu espero que nunca mais aconteça na Volta a França ou em qualquer outra corrida.

Como é agora estar do outro lado da corrida, de microfone na mão, nos bastidores?
Adoro estar agora na parte de fora. Continuar neste mundo do ciclismo, mas fazendo outras coisas. Gosto mesmo.

E quem é o ciclista mais fácil de entrevistar no pelotão?
Aquele com quem gosto mais de conversar é o Peter Sagan porque é muito engraçado. Tem sempre alguma piada na manga para te dizer e divirto-me muito com ele. É um rapaz com graça!