Tribuna Expresso

Perfil

Ciclismo

Guia prático para acompanhar o Giro 2018 (e de como um elefante também pode andar de bicicleta)

Falta menos de uma semana para a mais excitante das Grandes Voltas sair à estrada e logo com uma novidade: a primeira partida fora de solo europeu. Homenagem a um herói das duas rodas. Saiba quem. Fique também a saber quem consta da lista de candidatos e que etapas não pode perder.

Filipa Silva

Tom Dumoulin foi o grande vencedor de 2017.

LUK BENIES/Getty

Partilhar

Cuidado com o que desejas. A ideia é a que melhor resume o espírito que paira nesta altura sobre o Giro de Itália cuja edição 101 sai na sexta-feira à estrada em Jerusalém.

Cuidado com o que desejas, porque a organização da prova desejou muito ter Chris Froome à cabeça do pelotão.

Quis tanto que ao que consta ofereceu ao corredor da Sky nada menos que dois milhões de euros para garantir a presença do britânico na prova.

Quis tanto que fez pompa com a mensagem pré-gravada do ciclista a confirmar o seu regresso ao Giro na cerimónia de apresentação da volta. Mas apenas duas semanas depois estourou a “bomba”.

Chris Froome vai ao Giro em busca d terceira Grande Volta consecutiva

Chris Froome vai ao Giro em busca d terceira Grande Volta consecutiva

Tim de Waele/Getty

Chris Froome acusou excesso de salbutamol numa análise feita depois da 18ª etapa da Volta a Espanha. O dobro do valor permitido para a substância. O atleta justifica o caso com a asma e a necessidade que teve de aumentar a dose da medicação. Tudo dentro da lei, garante.

Agora, o caso está a ser analisado pela União Ciclista Internacional e ninguém sabe quando sairá o resultado da investigação. Será durante o Giro? Depois? A expectativa é que o resultado saia antes do Tour, mas não há garantias de que assim seja.

Nem tudo o que reluz é ouro, pode também dizer-se. Froome, conforme o desejado, é o centro de todas as atenções deste Giro. Mas - cuidado com o que desejas! - não pelas melhores razões. O Giro ganhou um "elefante" no pelotão.

Os favoritos

A Sky apresentou esta sexta-feira a sua equipa e é certo: Froome vai sair de Jerusalém na perseguição de um feito que só Eddy Merckx e Bernard Hinault conseguiram - vencer as três grandes voltas de seguida.

Com quatro Tours no currículo e a última Vuelta no saco, Chris Froome é naturalmente um dos grandes candidatos à vitória em Roma. Contra si, o britânico tem essencialmente três fatores: a pressão de que acima se falou, o facto de precisar de estar em forma mais cedo por comparação com as épocas anteriores e um homem chamado Tom Dumoulin.

O holandês da Sunweb surpreendeu na edição 100 do Giro ao arrebatar a prova com grande categoria. Depois resguardou-se do Tour e da Vuelta e foi à Noruega de novo para impressionar: é campeão do mundo de contra-relógio.

Contra-relógios que este ano - são dois, no total - não lhe são tão favoráveis, por serem mais curtos, mas ninguém descarta o favoritismo do corredor de 27 anos.

Dumoulin venceu o Giro 2017

Dumoulin venceu o Giro 2017

Esta época, o melhor que Dumoulin conseguiu foi um 15º lugar na clássica Liège-Bastogne-Liège, mas pareceu em boa forma depois de um início de época marcado por alguns contratempos. Já Froome foi o quarto classificado no Tour dos Alpes, prova ganha por outro nome apontado como favorito: Thibaut Pinot (Groupama-FDJ).

Pinot foi quarto da geral no ano passado e vencedor de uma etapa. Faz este ano a sua terceira corsa rosa. É desta que vence?

Outros nomes em destaque: Fábio Aru, que tem nova equipa (a UAE Team Emirates do português Rui Costa) e que já não ia à Volta do seu país há três anos. Falhou as últimas duas edições; Miguel Angel Lopez, o imprevisível jovem da Astana; Simon Yates e Esteban Chaves (Mitchelton-Scott).

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) é o único ciclista português inscrito na prova e leva como objetivos para o Giro vencer uma etapa e melhorar o 60º conseguido há um ano, como confessou em declarações ao jornal “A Bola”.

O percurso

A Volta a Itália arranca na sexta-feira com um contra-relógio individual curto (cerca de 10 quilómetros), plano e essencialmente técnico. Em fundo, a cidade velha de Jerusalém naquela que será a primeira vez que uma Grande Volta parte fora do espaço europeu (a isto voltaremos adiante).

Olhando ao todo das 21 etapas, há dois contra-relógios, sete etapas vocacionadas para sprinters, seis de média dificuldade e seis de alta montanha. Chegadas em subida são oito.

Os três primeiros dias do Giro serão passados em Israel (contra-relógio mais duas etapas). Segue-se um dia de descanso aproveitado para uma complexa transferência logística de Israel para a Sicilia, ilha italiana onde serão realizadas mais três etapas.

É lá que decorre a etapa 6, primeiro teste aos favoritos, com a chegada ao Etna (10 de maio) com uma inédita meta instalada no Observatório Astronómico.

O temível Monte Zoncolan

O temível Monte Zoncolan

Depois a caravana muda-se em definitivo para território continental italiano. E é à etapa 9 que se devem concentrar novamente as atenções. A 13 de maio, o pelotão tem a meta instalada no Gran Sasso d’Itália, corolário de uma etapa muito longa - 225 quilómetros - a terminar numa subida constante mas dura de cerca de 26 quilómetros.

À etapa 12 (17 de maio), o Giro volta a entrar e a instalar a meta no circuito de Imola, onde Ilnur Zakarin venceu em 2015.

Olhos postos ainda na etapa 14 com a chegada ao temível Monte Zoncolan - 10 quilómetros com uma pendente média de 12%, com zonas a 22% - e, no dia seguinte, com o regresso de uma chegada a Sappada.

A terceira semana de prova arranca com um contra-relógio de 34.2 quilómetros de Treto a Rovereto, mais curto e menos à medida de Dumoulin que o do ano passado.

Os Alpes foram guardados para o fim, pelo que as etapas 19 e 20 - antes da consagração em Roma - rivalizam pelo título de etapa-rainha da prova. A 25 de maio, o pelotão corre até Bardonecchia e passará pelo ponto mais alto deste Giro a 2.178 metros de altitude no Colle delle Finestre, Segue-se uma subida de segunda categoria até Sestriere antes de uma curta mas duríssima ascensão até ao Jaffereau no final.

A etapa seguinte, penúltima do Giro, até Cervinia, não aparenta ser mais fácil. 214 quilómetros com 4 mil metros de altitude acumulada e três contagens de primeira categoria na segunda metade da prova, cada qual com cerca de 20 quilómetros de distância.

Em memória de Gino Bartali

Já se sabe que este é também um dos “aperitivos” do Giro deste ano. Pela primeira vez na história, a caravana de uma Grande Volta sai de território não europeu. É a 13ª vez que o Giro arranca fora de Itália, mas nunca tinha ido tão longe.

Já começou na Dinamarca, na Holanda, até na Irlanda do Norte. Desta vez, vai sair de Israel. A ideia é aproximar povos e regiões. Mas a polémica não tardou a chegar quando por força da organização local, a RCS Sports - responsável pela organização do Giro - se viu forçada a alterar a designação que tinha para a partida de “Jerusalém Ocidental” para “Jerusalém”.

O incidente só acicatou os ânimos de organizações que assim reforçaram o apelo a um boicote à prova em sinal de repúdio pelo que consideram “as graves violações da lei internacional e dos direitos humanos dos palestinianos nos Territórios Ocupados”.

Há também questões de segurança, que a organização garante estarem salvaguardadas e que os ciclistas têm desvalorizado, não vivêssemos numa época em que o terrorismo se globalizou.

Gino Bartali é uma lenda de Itália e da luta contra os nazis.

Gino Bartali é uma lenda de Itália e da luta contra os nazis.

Há, por último, uma homenagem que vale a pena referir. A celebração de um ciclista que se transformou numa lenda. Gino Bartali, um corredor italiano vencedor de dois Tours e três Giros, cujo nome foi imortalizado por razões que extravasam o desporto, mesmo que para elas se tenha servido da ferramenta que melhor dominava: a bicicleta.

O caso deu-se no decorrer da Segunda Guerra Mundial quando, como nos conta o El País, Bartali se dispôs a ajudar centenas de judeus transportando no quadro da sua bicicleta - durante o que pareciam treinos normais - documentos falsos que terão evitado a deportação - e o destino das câmaras de gás - de muitos.

Em resumo:
Giro de Itália
101ª edição
4 a 27 de maio
Saída de Jerusalém, chegada a Roma
3.562.9 quilómetros
21 etapas (2 contra-relógios; sete etapas para sprinters; 6 de média dificuldade e 6 de alta montanha)
22 equipas
1 ciclista português