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“La Machine”, o ciclista sem escândalos

O vencedor da 2.ª etapa do Tour foi Peter Sagan, mas no final só se falava do esforço hercúleo do homem que havia andado mais de 130 quilómetros sozinho pelas estradas da Vendée. O seu nome é Sylvain Chavanel, o francês discreto que aos 39 anos está a fazer a sua 18.ª Volta a França, um feito inédito

Lídia Paralta Gomes

Chris Graythen/Getty

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O mundo em julho de 2001 era um mundo diferente. Conhecíamos a palavra “terrorismo” mas ela não fazia parte do nosso léxico diário. O Nokia 3310 era o telemóvel mais vendido do mercado. A primeira adaptação para o grande ecrã da saga Harry Potter estava ainda a ser ultimada. E Lance Armstrong era o herói desportivo de todos aqueles que gostavam de uma boa história de superação.

Passaram 17 anos e em 17 anos muita coisa mudou, como todos sabemos. Quase que temos de nos despir antes de entrar num avião. Os telemóveis são pequenos computadores. Os atores de Harry Potter são adultos. E Lance Armstrong caiu em desgraça e ficou sem as sete Voltas a França que venceu com recurso a substâncias dopantes.

Mas já que estamos a falar de ciclismo, fiquem sabendo que há coisas que não mudaram desde 2001. Como ver Sylvain Chavanel à partida da Grand Boucle.

Nesse ano de 2001, ainda antes de Armstrong partir para aquela que seria a sua terceira vitória no Tour, um rapaz francês de 22 anos não conseguia evitar soltar uma lágrima em cima da rampa de partida para o contrarrelógio de Dunquerque. Era o seu primeiro Tour, nove anos depois de dar as primeiras pedaladas no AC Châtellerault, o clube da sua terra.

Daí para cá, Chavanel, que completou 39 anos uma semana antes de arrancar o Tour, esteve à partida de mais 17 Voltas a França. Em 2018 corre a sua 18.ª, um recorde absoluto, ultrapassando as 17 participações de Jens Voigt e Stuart O’Grady.

Chavanel a partir para a sua 2.ª Volta a França, em 2002

Chavanel a partir para a sua 2.ª Volta a França, em 2002

William STEVENS/getty

Chavanel nunca foi um fora de série. Nunca foi homem para vencer uma grande volta ou para dar grande espectáculo na alta montanha. Mas sempre foi ciclista completo e, essencialmente, sempre foi um lutador.

No pelotão chama-lhe “La Machine”, pela sua resiliência e regularidade. Com três vitórias de etapa na Volta a França, o ciclista da Direct Énergie foi o mais combativo nas edições de 2008 e 2010 – ano em que também cumpriu o sonho de vestir a amarela – e é com essa marca que se quer despedir da sua Volta, mais até do que acenando com os seis títulos de campeão francês de contrarrelógio que tem no currículo.

No domingo, à 2.ª etapa do seu 18.º e último Tour, Chavanel não venceu, mas foi o herói do dia, dizendo adeus da forma mais chavanelesca possível: correndo 132 quilómetros sozinho pelas estradas entre Mouilleron-Saint-Germain e La Roche-sur-Yon, antes de ser apanhado a apenas 13 quilómetros da meta. Isto depois de não ter desistido de uma fuga que começou por ser de três homens, Chavanel, Michael Gogl e Dion Smith.

Uma chegada em solitário à meta, de braços no ar a festejar a vitória, teria sido a despedida perfeita, ainda para mais numa etapa, a sua 350.ª no Tour, que se correu na região de Vendée, onde está a sede da sua equipa. Não aconteceu, mas enquanto durou a escapada, Chavanel aproveitou cada momento: mostrou-se em frente aos seus fãs, deu vivas a quem o esperava na beira da estrada.

E, mais do que qualquer massajar de ego, homenageou o homem que o levou para o ciclismo profissional, o seu diretor desportivo, Jean-René Bernaudeau, que fazia anos no domingo.

“Os meus dois companheiros de fuga deixaram de ajudar, mas eu não sou homem de desistir”, disse o ciclista gaulês após o final da etapa. A vitória em La Roche-sur-Yon foi para o campeão do Mundo Peter Sagan, mas era com Chavanel que todos queriam falar no final. “Senti-me bem ao longo da etapa mas era praticamente impossível nos últimos 10 quilómetros, com uma estrada aberta e vento a desfavor. Tive a minha pequena recompensa com o prémio de combatividade, no dia de aniversário do Jean-René. Foi um bonito dia e diverti-me muito”, revelou ainda.

Uma carreira sem suspeitas

Chavanel, que apenas abandonou duas vezes nestes 18 anos de história na Volta a França, tem ainda mais três semanas para tentar uma quarta vitória de etapa no Tour. Continuar a correr depois dos 40 ainda é uma opção, mas voltar à maior prova velocipédica do planeta já é um esforço demasiado grande.

“Não estou interessado em correr um 20.º ou 21.º Tour. Eu sei bem o quão difícil é a Volta a França e os sacrifícios que é necessário fazer”, disse em entrevista ao jornal francês “Centre Presse”.

Será assim o adeus de um ciclista cujos quase 20 anos de carreira conviveram com um dos períodos mais críticos do ciclismo. Chavanel estava lá durante os escândalos que envolveram Lance Armstrong, Floyd Landis, Michael Rasmussen, Alberto Contador e, agora, as suspeitas que recaem sobre Chris Froome. Mas passou ao lado de todos: é um ciclista de confiança, trabalhador, avesso a escândalos.

Em 2010, no dia em que cumpriu o sonho de vestir a amarela no Tour

Em 2010, no dia em que cumpriu o sonho de vestir a amarela no Tour

Bryn Lennon/Getty

Em 2011, um relatório da União Ciclista Internacional aplicou a todos os ciclistas participantes no Tour desse ano um “índice de suspeição” de uso substâncias dopantes, de 0 (baixa probabilidade) a 10 (grande probabilidade). A Chavanel foi atribuido um 1.

Uma carreira sem mácula, que Chavanel ainda não sabe exatamente quando irá abandonar, apesar de ser algo que lhe passa cada vez mais pela cabeça. “Um dia vou deixar de ser ciclista profissional, mas continuarei a ter alma de desportista”, disse ao “Centre Presse”.

E aí, finalmente, poderá dar “mais atenção aos amigos e aos irmãos”.