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Francisco José Viegas

Uma alegoria mexicana

Francisco José Viegas

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Há sempre problemas com Herrera – no ano passado, foi um canto. Este ano, foi um golo. Contra tudo o que estava previsto, Herrera marcou-o aos 90 minutos, o que revela um pouco da sua falta de sentido de oportunidade; na verdade, estava combinado marcá-lo apenas aos 92, cumprindo “uma certa tradição”.

Uma inconfidência: não vi o jogo. Quer dizer, não vi o jogo em direto. Tenho problemas cardíacos, ai de mim. E tenho problemas com a BTV. De modo que tive de esperar pelo final do jogo, pelo primeiro resumo, pelo segundo resumo e pela repetição. Primeiro, pensei em – violando todas as regras da decência – espreitar uma transmissão ilegal pela net; resisti; não ia violar a lei com a BTV. Pensei em ir ao cinema ver um filme com perseguições de automóveis e violência letal; resisti. Pensei em dormir uma sesta de fim de tarde na companhia de um romance austríaco; resisti. Pensei em ouvir o relato na rádio, mas sabia que ia fazer zapping entre as três estações enquanto sentia o efeito do Xanax. Acabei por ficar naquela doce paralisia da ignorância, ocupando o domingo como Hector Herrera ocupou os resumos que pude ver antes da gravação integral: desaparecendo. Em nenhum dos resumos das televisões (nem sequer no mais longo, o da SPTV) Herrera aparece antes do golo no minuto 90: anda por lá, toca umas bolas no início, desvia-se do centro dos acontecimentos, circula em redor do meio campo (mas sem o ocupar, como costuma), mas não faz grandes piruetas nem assistências. No México, essa é a técnica do trompete nos mariachis. Primeiro entram os violinos, as guitarras e violas, o contrabaixo (o guitarrón), a harpa (no sul, podem até ouvir-se umas marimbas desconjuntadas) – e só depois os trompetes, para abanar a audiência e pôr termo aos lamentos do cantor, que até aí se lamenta de como está borracho, de como quer morrer e de como a vida não vale nada.

Rui Vitória cumpriu, na perfeição, o papel de llorón. O Benfica entrou em ritmo de fandango. Durante quinze minutos iniciais matraqueou o ringue portista e ameaçou sapateado; nada; optou por manter, então, um ritmo mais baixo, enquanto o FC Porto, que tinha começado em tom mixteco, guitarrada aqui, marimba ali, um Sérgio malvado, um Alex de mérito, um Filipe de guitarrón em banda, encontrava o caminho com Marega, a ameaça de Soares, surtidas repentinas para desafinar o baile – e o controle da defesa.

Ao intervalo, Sérgio Conceição mandou desfazer o bloco. Não o do FC Porto. O do Benfica. A partir do minuto 49, quando Marega deixa que Bruno Varela defenda aquela bola, nunca mais Casillas (soberbo durante todo o jogo como durante toda a carreira) foi chamado à formatura. Sérgio fez o que deve fazer um estratega: adormeceu o jogo até que Rui Vitória substituiu o único jogador que ameaçou o tal bloco portista, Rafa. Que sinal! Que marcação! Queres um bolero? Eu dou-te um chá-chá-chá, um danzón. Brahimi entrou pela esquerda e deu o sinal numa bola que parecia um arco da Djama’ah al-Kebir, a mesquita de Argel. E, de repente, o trompete. Quer dizer, Hector Herrera, o capitão discreto, a beleza de Rosarito, o farol da Baja California, o futebolista que teve o cartão vermelho mais rápido da Champions: num ajuntamento que se preparava para uma ranchera, ele sabe que tinha de tocar mais alto. E foi um golo magistral. Parecia o grande Jorge Negrete a cantar «Aunque me Cueste la Vida», o seu monumental mariachi. Lindo de se ver.

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