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A foto que destruiu o mito Rui Vitória

Durante algum tempo, muito tempo, disse-se que Rui Vitória poderia ter poderes extrassensoriais, tal as vezes em que foi salvo em lances que atribuímos à sorte. O jogo com o FC Porto deitou essa teoria ao chão quando o disparo de Herrera voou até Varela

Pedro Candeias

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Primeiro, devo dizer que Rui Vitória não tem nada a ver com isto, no sentido em que isto o ultrapassa.

Estou a pensar bem: que culpa tem ele do canto de Herrera, que deu no golo de Lisandro López, da escorregadela de William, que deu o golo a Mitroglou, daquele remate de Bryan Ruiz, que deu em nada, e do outro remate de Lindelöf, que lhe deu o tetra? Nenhuma.

É verdade que os lances se sucederam uns atrás dos outros e em jogos que realmente importavam – e que esses são os mais dolorosos e os mais difíceis de esquecer. E também aceito a estranheza que foi ver tantas coisas boas seguidas a acontecer invariavelmente no mesmo lado – e do outro apenas o vazio.

Só que daí a atribuir poderes extrassensoriais a Rui Vitória fez sempre tanto sentido como dizer que Jorge Jesus carregava um enguiço irreversível depois de Kelvin. Duas teorias fundamentadas no nada, místicas e inverificáveis, mas, pronto.

Curiosamente, ambas tiveram o mesmo tempo de vida, duas épocas, embora tenham falecido de causas bastante diferentes: com Jesus, foram precisos dois títulos seguidos; com Vitória, chega esta fotografia.

Aqui está Herrera, parece-me que de língua nos dentes, enrolado como um bichinho-de-conta radioativo que acaba de disparar um projétil do seu exoesqueleto. Atrás dele, Seferovic, com a cara de caso do funcionário cronicamente atrasado que atende com sofreguidão o telefone quando o chefe passa no corredor.

Mas a linguagem corporal de Seferovic esconde ainda algum alívio, porque à frente dele está Samaris – e toda a gente no escritório sabe que ninguém faz tantas asneiras como Samaris, a desculpa perfeita e disponível para dar aos fornecedores que não largam a perna.

Por falar em pernas, repare-se nas do grego, juntas e encolhidas, geometricamente fora do raio de ação de Herrera; depois, as mãos, propositadamente recolhidas para não haver penálti fora da grande área, pois Samaris é conhecido pela extrema cautela com que se faz aos lances.

É um retrato absurdamente perfeito dos últimos minutos do Benfica que só sai estragado por um detalhe. Ao longe, está Fejsa, desfocado e com ar de quem já viu o que vai acontecer, atrapalhado e desmagnetizado após a entrada de Samaris em campo.

Com muita adivinhação avulsa, julgo que os polícias e os seguranças e o público nas bancadas também viram o que Fejsa viu, e viram-no logo que o grego e o suíço foram a jogo. Só Rui Vitória é que não viu.

Estas duas substituições – a de Samaris por Cervi e a de Pizzi por Seferovic – que ninguém entendeu e que Vitória explicou mal, contribuíram para a derrota do Benfica e para o fim de uma ideia: a de que há determinados homens escolhidos a quem a sorte e a divina providência vão largando pozinhos de perlimpimpim que os salva de apuros mesmo, mesmo no final. E que, apesar de tudo, nem Rui Vitória é imune aos seus erros ou aos erros alheios – e à falta de jeito de alguns para jogar futebol.

A não ser que...

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