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Hermoso Herrera ou uma história de fantasmas

Numa crónica em que fala de amuletos mexicanos, luzes que projetam sombras nas paredes da Luz, caça-fantasmas, “estratégias especulativas” e “convívios agridoces”, o escritor Bruno Vieira Amaral analisa a vitória do Futebol Clube do Porto sobre o Benfica - o regresso de um velho fantasma que veste de azul e branco e tem resistido a todos os exorcistas

Bruno Vieira Amaral

lusa

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Cada equipa entrou com o seu amuleto mexicano: o do Benfica com pinta de galã, salvador de reserva, capaz de resgatar a equipa das maiores aflições, suplente uma época inteira, mas com sorriso irremovível, herói feliz por atuar em part-time, como se tivesse funções mais apetecíveis fora de campo; o do Porto com aquele ar desgraçado, orelhas de abano, feio de uma maneira que nem para vilão principal serve, sobrecarregado com o peso da braçadeira, atormentado pela recordação amarga de ter oferecido ao adversário deste domingo um “canto” celestial na época passada. Só que foi o feio a rir por último e a rir melhor, um sorriso cheio de dentes e raiva, como se vê na capa d’ “A Bola”, a acertar contas com o passado e a conquistar a absolvição perante o tribunal do Dragão, este domingo transplantado para a bancada Norte da Luz. O sinal foi dado quando entrou outro mexicano, aquele com nome de cerveja. Toda a comitiva vinda da Invicta percebeu a mensagem: ponham as garrafas de champanhe no congelador ou liguem ao alfaiate para encomendar as faixas porque vamos à procura de ser felizes.

Diz-se que candeia que vai à frente alumia duas vezes, mas a candeia da Luz é nefasta, projeta muitas sombras na parede. O penalty de Jiménez contra o Vitória de Setúbal, recebido como bênção, foi, afinal, uma maldição disfarçada. Com dois resultados aparentemente convenientes, Rui Vitória quis especular. Jogou como Jesus naquele célebre zero a zero que levou Lopetegui ao desespero e à descortesia. Tendo em conta a história dos últimos campeonatos, o empate até era agradável, mas por alguma razão “Empate” não é apelido. O golo de Herrera lembrou-nos porquê. Regressaram os velhos fantasmas que já assombravam a casa antiga e que acompanharam o proprietário para a nova moradia. Este fantasma, que veste de azul e branco, tem resistido a todos os exorcistas, chamem-se eles Jesus ou Vitória, nomes talismânicos que nada parecem temer à exceção das correntes arrastadas pelo espetro que, uma vez por ano, desce à Luz para inquietar os corações dos inquilinos.

Nos últimos quatro anos, os anos do tetra, o Benfica não arranjou um antídoto eficaz contra a sua fiel assombração, um remédio para curar o seu calcanhar de Aquiles, e optou pela solução astuta, digna de um Ulisses: conviver na paz possível com o fantasma, como se recebesse uma visita indesejada, com a certeza reconfortante de ser temporária. O importante era que o hóspede não causasse estragos irremediáveis. Em vez de um caça-fantasmas, o Benfica inventou um gere-fantasmas. Vitória conseguiu ser bicampeão sem ganhar uma única vez ao Porto. Símbolo maior desse convívio agridoce é o homem que este domingo foi o grande ausente do clássico: Jonas (que costuma ausentar-se dos clássicos mesmo quando está em campo), o farol do futebol do Benfica, que, em quatro temporadas, só por uma vez descobriu o caminho para a baliza do Porto.

Este domingo, apesar dessa cratera, a estratégia especulativa esteve a minutos de resultar, até ao momento em que o fantasma, farto de gestões e especulações, deu um valente pontapé que quebrou as correntes e reavivou os medos dos anfitriões. Para o desfecho também contribuíram os fantasmas vestidos de vermelho. Acima de todos, Pizzi. Há uns meses era patrão. Agora chuta à baliza com a crença de um empregado de balcão contratado a prazo. Passeia pelo relvado um soberbo anonimato. O treinador tirou-o aos 87 minutos, mas só devia contar como meia substituição. Rafa, que finalmente parece ter conseguido derrotar os seus fantasmas pessoais e afirmar-se no “onze”, saiu ainda mais cedo, para dar lugar a Salvio, o azar com duas pernas e dois braços (regra geral, partidos). Salvaram-se Fejsa, até aqui levado em ombros pelos anjos até à impressionante cifra de dez campeonatos consecutivos, e Varela, vestido de branco, como os fantasmas clássicos, mas a assumir-se como muro que só não resistiu à bala de Herrera (“sem culpas no golo sofrido” é o ego te absolvo dos guarda-redes quando perdem jogos: “vai em paz, meu filho, que hoje a culpa não foi tua”).

Seria o empate mais justo, como disse o treinador do Benfica? À luz da estatística fria, é possível, mas um golo daqueles nunca é injusto. Pode trazer a assinatura cruel dos deuses, talvez dos que os Astecas adoravam e a quem ofereciam sacrifícios humanos em Tenochtitlán, mas nunca é injusto. E se houver alguma injustiça, é daquele género que torna o futebol tão apaixonante: um golo no último minuto não permite que quem se acobardou mude de roupa para se fantasiar de audaz. E, neste guião de deuses e fantasmas, a justiça maior é que tenha sido Herrera a assumir o papel de protagonista. Que seria do futebol sem a ocasional redenção? O homem que um dia afirmou não ter medo do fracasso nem do triunfo chutou sem medo de ser feliz e lá se redimiu perante adeptos desprovidos de bombos ou megafones (numa daquelas peculiaridades exóticas de que se faz a mitologia do nosso futebol), mas com olhares derretidos para o feio que, de repente, parecia mais alto, mais bonito e, mesmo sem camisola, mais azul e branco. Se não sabia, Herrera ficou a saber: quien feo ama, hermoso le parece.