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Diogo Faro

O futebol somos nós: uma história de roulotes, cerveja, Zomato e família (a estreia de Diogo Faro na Tribuna)

O humorista e apresentador de televisão - e, para o efeito, sportinguista dos sete costados - lança a sua primeira crónica na Tribuna Expresso para nos falar de recordações e do estado do futebol português

Diogo Faro

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Caros leitores do Expresso, - sempre sonhei dizer isto, porque soa bem e porque quer dizer que sou cronista do Expresso, o que me deixa feliz. Já a minha família ficou mais ou menos com o mesmo nível de orgulho dos pais cujo filho faz de árvore no teatro de final de ano da 3ª classe, surgindo logo a clássica pergunta: “isso é giro, mas quando é que arranjas um trabalhinho a sério?”.

Posto isto, vamos à bola.

Cresci com muitos sinónimos para “postes” que não vêm nem no melhor dicionário de sinónimos do mundo. Ou seja, cresci a usar riscos na parede, pedras, mochilas ou primos e irmãos mais novos como postes. Tudo dava, desde que fosse rapidamente amovível, para o caso de estarmos no meio da rua e a velha do 2.º esquerdo, que já só via de um olho, estar a voltar das compras no seu mata-velhos sem reparar em nós no meio da estrada.

A bola também tinha vários sinónimos como, por exemplo, um amontoado de papel de jornal de fraca estrutura e nada no seu interior mas com muita fita cola à volta para enrijecer, o que é mais ou menos como uma cabeça de agressor de jogador com um capuz por cima.

E foi neste moldes de euforia bonita e cheia de amor que o futebol se foi impregnando em mim, entre inter-turmas e inter-escolas e uma balda ou outra a EVT para ficar a jogar com o 7.º B que tinha tudo furo. Mais tarde, ainda resolvi que só na escola não chegava e andei aí por vários clubes de futsal e futebol das distritais. Muito vos poderia dizer dizer sobre as distritais, mas, se nunca lá jogaram, podem ficar com a ideia de que é o tipo de ligas em que apanhar o Canelas é só mais uma jornada normal.

Pelo meio, tinha para aí aos 6 ou 7 anos quando fui pela primeira vez a Alvalade – e calhou bem que o o Sporting ganhou 7-1 ao Campomaiorense. Levou-me o meu tio. Lembro-me de já ser muito eloquente e dotado de um intelecto superior, e de lá estar a gritar coisas como “o Campomaiorense cheira a cocó”. Ainda assim, mesmo visto agora tantos anos depois, nem sequer era uma frase assim tão infantil quando comparada com as que já vários dirigentes usaram para se insultar mutuamente de trás para a frente.

De bola nos pés ou cachecol ao pescoço, o meu amor ao futebol sempre foi o mesmo: o que se passa no rectângulo.

Mas nós vamos crescendo e vamos percebendo que crescer pode ser uma merda. Crescer, entre tantas coisas boas, más ou insignificantes, faz-nos perder a inocência em relação ao futebol. E também em relação àquela história de a cenoura fazer os olhos mais bonitos, mas não creio que acrescente muito a esta crónica partilhar convosco os meus traumas com vegetais.

No que diz respeito ao futebol, é uma tristeza.

Começamos a perceber que o amor à camisola é uma coisa de adepto, e até aceitamos isso. Pelo menos, eu aceito. Sei que muitos adeptos do Sporting, por exemplo, olham para o Moutinho ou para o Simão como uma ex-namorada a quem apanharam em flagrante numa orgia com 10 homens corpulentos e ainda por cima bem parecidos, mas eu tenho mais amor próprio que isso para me deixar afectar assim tanto. Acho só que são como uma ex-namorada a quem apanhei em flagrante com sete ou oito, vá.

Começamos a perceber que há árbitros que vão ao Zomato dar 5 estrelas a tudo o que é casas de fruta e café com leite. A perceber que há dirigentes que acham que no futebol vale tudo e lá deixam um cheiro azedo. Outros que estragam o futebol por dentro como se tivéssemos comido vieiras estragadas e nos deixassem o corpinho que nem um carvalho oco comido pelos bichos.

É vouchers para aqui, e-mails para ali, envelopes com dinheiro pelo ar, violência, corrupção e o futebol que importa – aquele que implica fintas, golos e defesas, sabem? – parece sempre que fica para segundo plano.

Mas não podemos deixar. O futebol tem de ser a alegria de ter a bola nos pés e aquele 2 pa’ 2 na rua ou aquele 5 pa’ 5 no MyIndoor (porque há amigos que já estão velhos e já não jogam à chuva). Tem de ser juntar os amigos todos numa casa para ver a final da Liga dos Campeões ou o Mundial. Beber cerveja nas roulotes antes do jogo, gritar pela nossa equipa durante e beber mais umas depois mesmo quando perdemos. Tem de ser gozar com os amigos que têm o mau gosto de ser do clube adversário sem nunca perder a vontade de os abraçar porque o futebol é só isso, futebol. O futebol não é quem o anda há anos a tentar estragar.

O futebol somos nós.