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Diogo Faro

Unboxing da Pipoca Mais Doce, os passos de fandango, a cotovelada UFC e o padeiro de Aljubarrota (Portugal, por Diogo Faro)

O humorista escreve sobre os 14 futebolistas da seleção nacional que empataram epicamente contra a Espanha

Diogo Faro

Spencer Platt

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Rui Patrício

“Rui Patrício não gritou, devia ter gritado” – diz António Tadeia. Retive este comentário sobre o nosso guarda-redes a propósito de um dos golos que sofremos. Ora, eu não sou o portento do comentário desportivo como é Tadeia, mas tenho muitas dúvidas que por mais que o Patrício gritasse não levássemos aqueles 3 golos na mesma. Também não sou doutorado em Física, mas desconheço ondas sonoras emitidas pela garganta humana com potência suficiente para desviar – quem sabe parar e suspender no ar! – a bola.

De resto, ingrato levar 3 golos nos quais não podia fazer nada e no resto do jogo tão pouco trabalho ter. Desde que haja a mínima hipótese de lá chegar, temos Patrício seguríssimo.

Raphaël Guerreiro

Senti o desempenho do Raphaël a ser mais influenciado pelo que os colegas faziam do que uma pita a ver um unboxing da Pipoca Mais Doce de um produto completamente irrelevante. Quando estavam bem, ele estava ali tranquilo, corria para a frente, corria para trás, cruzava, cortava. Quando a Espanha vinha para cima de Portugal durante um período maior, andava ali a tremer como o Bas Dost treme agora sempre que vê um encapuzado a mexer no cinto.

José Fonte

O momento do Fonte que me ficou na memória foram aqueles passos de fandango que deu à frente do Diego Costa no primeiro golo deles. Acho-o bom central, não me interpretem mal, mas depois do que se viu, é meter o menino no Dança com as Estrelas que, além de ganhar, é capaz de tirar o lugar na História ao Marco di Camillis.

Pepe

O que mais estranhei no Pepe foi não saber defender-se de uma cotovelada. Assim não dá, Pepe. Nunca ninguém ganhou o título mundial do UFC só a dar. E nisso, sabemos que estás bem. A partir desse momento foi um distribuir de fruta pelos espanhóis que fazia qualquer produtor português ficar orgulhoso de tanta exportação.

De salientar o passe maravilhoso – que quando saiu dos pés dele me fez dizer “que m..., oh Pepe!” – que o Guedes recebeu antes de dar para o segundo golo do Ronaldo.

Cédric

O Cédric foi basicamente o Raphael Guerreiro do lado direito. Não se contentando em comungar o nome de emigrante, achou por bem também andar ali a flutuar a sua exibição entre “calma, pessoal, que eu sou um lateral seguríssimo” e o “tu queres ver que era suposto eu ter ido atrás deste espanhol e fiquei antes aqui a ver se há russas gostosas nas bancadas?”.

João Moutinho

Se há coisa que nunca podemos apontar ao pequenito é de não correr. Se bem que neste jogo andou ali largos minutos a levar uma rabia da Espanha no meio-campo como um menino no recreio a sofrer de bullying pelos rapazes que já estão no secundário.

Se estava a dormir no segundo do golo da Espanha, fazendo lembrar o Dunga dos 7 anões sem ser apenas pela altura? Sim, claro. Mas como de resto lá andou sempre a lutar por nós, está perdoado.

William

Deu-me ideia que o William esteve no jogo contra a Espanha da mesma forma como está ali no Guilty do Olivier. Não se dá muito por ele, mas está sempre a distribuir jogo. Talvez até um pouco como DJ, marca o ritmo. Segura quando tem de segurar, vai para cima quando tem que ir. E no jogo também foi assim.

Bruno Fernandes

Adoro-o. Aqueles pés deviam ser emoldurados de cada vez que ele não está de chuteiras calçadas a pisar um relvado. Mas a verdade é que a maior parte do tempo que esteve hoje em campo o senti como um menino que se conseguiu finalmente livrar de um padrasto que era muito mau para ele, mas que agora também está abalado e a precisar de um abraço. Nós estamos cá para lhe dar o abraço para que no próximo jogo já volte a ser o mesmo Bruno Mágico Fernandes do costume.

Bernardo Silva

O nosso único jogador com um nome de quem está a ver a Selecção jogar num quiosque da Av. da Liberdade com um gin de balão na mão e paez nos pés. Sem ter feito um jogo incrível o tempo todo, este menino tem um pé esquerdo tão abençoado que me faz desejar ser canhoto a escrever só para também poder dizer que também sei fazer alguma coisa de jeito com uma parte do meu lado esquerdo do corpo.

Destaco aquele passe ainda na primeira parte – curiosamente com o pé direito, para cronistas armados em espertos como eu não dizerem que ali só funciona um dos betinhos pés – para o Ronaldo. O Ronaldo deixa para o Guedes ali à entrada da área mas acho que houve ali um rabanada de vento que lhe fez eco naquelas câmaras acústicas que ele tem no lugar das orelhas e acabou por se atrapalhar e não fazer aquele que seria o 2-0 para nós.

Gonçalo Guedes

Arrancada incrível aos 15 minutos contra a defesa espanhola, mas perdeu a bola porque não tem jeito nenhum para os 4 x 100. Se tivesse, tinha passado o testemunho ao Ronaldo e a jogada tinha sido qualquer coisa mais engraçada do que fazer aquele sprint todo para depois acabar a mandar um chuto contra a canela já nem sei de quem, sem jeito nenhum.

Achei que o rapaz estava nervoso como um menino que tinha sido o melhor marcador do inter-turmas mas que agora tinha sido posto a jogar na Selecção da escola contra uma escola de gandins e não estava a aguentar bem a pressão.

Mas compensou. Recebeu de Pepe – e mais uma vez já estava eu aos berros com ele – segurou os centrais espanhóis e meteu para o Ronaldo fazer o segundo.

Ronaldo ou Cristiano de Aljubarrota

Capitão. Melhor do Mundo. Semi-Divindade. Cristiano de Aljubarrota.

Todos os anteriores. Ronaldo é tudo. O Ronaldo consegue ter mais fé nele próprio e nos seus seus colegas de equipa do que a irmã Lúcia na aparição da Nossa Senhora de Fátima. Com a vantagem que ele não está só a alucinar e as coisas acontecem mesmo.

Marcou o primeiro golo de penalty. Penalty, ou como se diz em espanhol, “invención muy buena para Portugal”. Momento incrível da perna direita do Ronaldo a ir com classe mundial contra a perna do Piqué que estava, como é seu apanágio, agressivamente parado e não teve a gentileza – estes espanhóis realmente não têm maneiras nenhumas – de desviar a perna. Pagou caro a falta de educação. Ronaldo – e o seu finalmente cabelo normal – não vacilou e meteu-a lá dentro com a mesma facilidade com que gera crianças de mães desconhecidas.

E se no segundo golo lhe ficou mal não ter ido agradecer ao De Gea pela amabilidade, no terceiro foi de uma malvadez tão grande que qualquer espanhol sentiu aquela pá enorme da Padeira de Aljubarrota a entrar… Enfim, vocês entendem a imagem. Não é bonita para os espanhóis, mas aquele livre já é histórico para nós.

João Mário, Quaresma e André Silva

Entraram já numa situação difícil para Portugal e qualquer um deles andou lá na rabia enquanto os espanhóis trocavam a bola entre eles com a leveza de bailarinos russos do Bolshoi. A verdade é que os meninos não estavam ali para ver o bailado e qualquer um deles – sempre com a força do Ronaldo a empurrar todos – foram para cima dos espanhóis. Provavelmente com mais preponderância para o nosso Cigano d’Ouro, três entradas na equipa que nem três moscãoteiros a auxiliar o Dartacão Ronaldo (já nem sem mais que nome épico lhe chamar).