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Pelé, diz lá: Ronaldo ou Eusébio? "Tem só uma diferença"

A um dia do início do Mundial no Brasil, o Expresso entrevistou o único jogador que conquistou a prova em três ocasiões: 1958, 1962 e 1970. O brasileiro Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido por (rei) Pelé, confessou ser fã do 'king' Eusébio, que era “mais rápido” do que (o príncipe?) Cristiano Ronaldo, apesar de ambos serem “muito parecidos”

Mariana Cabral

O príncipe e o rei: Ronaldo e Pelé

FABRICE COFFRINI/Getty

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Olá, Pelé.
Oi, Mariana, é um prazer. Vamos falar em português do Brasil ou português de Portugal?

Sabe falar em português de Portugal?
Quer ver? [muda o tom de voz e carrega nas palavras] Pois, pois.

Está parecido, sim senhor. É um prazer falar com um dos melhores jogadores da história do futebol, se bem que aqui em Portugal nós gostamos mesmo é do Eusébio.
É, eu sou muito fã dele também, sabe. Estivemos juntos várias vezes e o que aconteceu foi uma coisa muito triste, né? Mas é assim a vida.

Em Portugal normalmente compara-se Eusébio e Cristiano Ronaldo, para tentar perceber qual o melhor. Dá para comparar?
Olha, eu acho que dá para comparar. Mas eu acho que é comparação muito, muito, muito, muito igual, porque o tipo de jogo do Eusébio era o mesmo tipo de jogo do Ronaldo. Tem só uma diferença, na minha maneira de entender. O Eusébio era um pouco mais rápido que o Ronaldo, ele tinha uma velocidade, um arranque muito grande, e com um bom controle de bola. Eles são realmente muito parecidos. Eu sempre falei sobre os melhores do mundo - ainda esta semana o fiz na China -, fazendo a comparação entre três grandes jogadores que tinham o mesmo estilo, que era o Vavá, que foi campeão do mundo em 1958, o Eusébio e o Ronaldo. Esses três jogadores são fantásticos.

LLUIS GENE/Getty

Entre Ronaldo, Neymar e Messi, quem vai ser o craque da Copa?
Olha, são jogadores diferentes. Você sabe que o tipo de jogo do Messi, do Ronaldo e do Neymar não é igual. O Neymar e o Messi são mais parecidos, porque são jogadores que são bons de bola vindo mais de trás, o Ronaldo é mais atacante, faz mais golos na frente. Então é difícil escolher entre eles, porque são todos grandes jogadores. E nós temos outros grandes jogadores que estão vindo aí também, o Xavi, com a Espanha, que tecnicamente é muito bom… Poxa, tem o Fred [do Brasil], que é um jogador do estilo do Ronaldo, para fazer golo… Então há vários jogadores que vão competir pelos prémios.

Concorda que o Brasil é o grande favorito à vitória, apesar de a Espanha ser campeã em título?
Nós temos que acreditar, né? [risos]

Em 1950 também acreditavam e houve o ‘Maracanazo’, com o Uruguai a roubar o título ao Brasil no Maracanã…
[risos] Não, nós temos certeza que vai ser diferente. Temos certeza.

Lembra-se dessa final, claro.
Lembro, lembro. Sempre conto essa história: o meu pai era jogador profissional e estava junto com uns amigos dele a ver o jogo e nós tivemos essa surpresa aí. Eu era garoto, tinha 9 ou 10 anos, e sempre falávamos que eu vi o meu pai chorando nessa época, quando o Brasil perdeu a Copa de 50. Agora nessa Copa aqui eu não quero que o meu filho me veja chorando, não [risos]. Não vai acontecer isso, não.

Costuma dizer-se que o Brasil é o país do futebol, mas agora parece que há muitos brasileiros que não querem receber o Mundial.
Bom, Brasil e Portugal são muito parecidos, nós somos irmãos. E então você sabe que há sempre muito protesto de coisas que não tem nada que ver com futebol . E eu já disse várias vezes que o futebol não tem nada que ver com a corrupção na política. O futebol só dá alegria para o Brasil, só enaltece o Brasil, desde 58, quando ninguém conhecia o Brasil e fomos campeões do mundo na Suécia. Isso foi tudo por causa do futebol. Então não pode misturar política com futebol. A corrupção na política é uma coisa, o nosso futebol só dá alegria. Se os corruptos na política só dão tristeza, não é culpa nossa, né? É isso que a gente tem de procurar mostrar, porque o Brasil no futebol só tem feito uma promoção boa do país.

Os portugueses gostam muito do Luiz Felipe Scolari, depois do que ele conseguiu com a seleção portuguesa. No Brasil também estão confiantes com ele na liderança?
Já falei isso com o Felipe, ele fez um bom trabalho aí em Portugal, sem dúvida. Por coincidência, ele agora está trabalhando com o [Carlos Alberto] Parreira, que foi nosso treinador, meu treinador, na Copa de 70, quando o Brasil fez aquele ‘timaço’. Então é uma dupla muito boa, que pode trazer um benefício muito grande para o futebol brasileiro, porque eles os dois têm muita experiência e são treinadores sérios. O Felipe sempre procura trabalhar a psicologia da ‘equipe’ e dos jogadores e é sempre muito bom. Eu acho que o Felipe está aí para dar o campeonato para nós.