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“Logo que cheguei ao Dubai, empolgado, comprei um Rolex”

Em campo tem cara de mau mas fora dele só gosta de se rir. Eis Rodrigo Lima, ex-avançado do Benfica, atualmente no Al Ahli (Emirados Árabes Unidos)

Mariana Cabral

Lima foi um dos melhores marcadores do Benfica nas últimas épocas

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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A conversa com o homem que marcou 70 golos pelo Benfica nas últimas três épocas — incluindo um bis no Dragão, onde o Benfica joga amanhã (19h15, SportTV1), em 2014/15 — começou assim: “kkkk”. É que Lima é brasileiro e, como todo o brasileiro, gosta de brincar — e rir. E, para os brasileiros, o riso nas mensagens é “kkkk”. Ou seja, esta é uma conversa para ser lida com sotaque, com um tipo bem-disposto — apesar de ter cara de “guerreiro” durante os jogos.

Já sabes porque estou a ligar.
Imagino. Não faz mal [risos].

Foste o protagonista do último clássico, mas a tua titularidade foi uma surpresa na altura.
Lembro-me bem disso. Não vivia um bom momento em termos de golos, mas o treinador teve sempre uma grande confiança em mim, por isso pensei que ia jogar. Lembro-me de a imprensa dizer que ele ia optar pelo Jonas, e quando optou por mim na hora do jogo todo o mundo ficou surpreso, mas sempre estive muito focado e supermotivado, porque era um clássico. Fui muito feliz naquele dia.

Foi difícil apanhar-te ao telefone. Há assim tanta coisa para fazer no Dubai?
Nem por isso [risos].

Diz-se que aí só se faz compras...
É mesmo [risos]. O país é muito bonito, é praticamente tudo novo, e encontra-se de tudo um pouco. Mas realmente há shoppings, quer dizer, centros comerciais, como vocês falam [risos], enormes e excelentes restaurantes. Ainda por cima moro praticamente em frente à praia, então estou adorando viver no Dubai. Só falta a família chegar.

Ganhas muito mais dirhams aí do que euros no Benfica?
Ganho bem [risos]. São muitos mais, se não nem viria. Até porque gostava muito da vida de Lisboa e do Benfica. Vivi lá grandes momentos, acho que todo o mundo sabe isso. Claro que o lado financeiro pesou muito na minha decisão, né? Mas acho que era o momento certo. Também foi uma proposta muito boa para o Benfica. Então, todos saíram ganhando.

Já andaste a gastar muitos dirhams?
Não, gosto de guardar. Bem, logo que cheguei... Você chega um pouco empolgado e aí gasta um pouco mais do que deve, né? [risos] Comprei um relógio — um Rolex [risos]. Gosto muito de relógios. E também roupas e ténis. Normalmente, é nisso que costumo gastar, e como aqui há de tudo fica fácil gastar o dinheiro [risos].

Já marcaste seis golos em cinco jogos aí. É mais fácil?
Não, é difícil também. Hoje em dia não existem jogos fáceis. É lógico que há uma diferença em relação à Europa, mas aqui os clubes investem bastante e também há bons jogadores. Fiquei meio surpreso, mas foi uma surpresa boa, com o campeonato. Achava que ia ser mais fácil, sinceramente. Há jogadores árabes muito bons no meu clube.

Mas não há Jonas, Gaitán...
Isso é outro nível [risos]. Esses são jogadores fantásticos. Vou convencer o xeque a trazê-los para cá [risos]. Sinto saudades, claro, mas também estou muito contente com os meus novos companheiros.

Falam em inglês?
Sim, falam todos. Eu ainda tenho alguma dificuldade [risos]. Mas estou aprendendo, e há brasileiros, o que também facilita um pouco.

Já encontraste por aí o Hugo Viana?
Sim, ele está numa equipa aqui próxima e já saímos para almoçar. Foi um bom companheiro que tive no Braga e deu-me força quando cheguei aqui, foi um grande anfitrião.

Vais ver o Porto-Benfica?
Com certeza. Já pude ver dois jogos, com o Belenenses — esse foi bom, né? — e com o Moreirense. Espero obviamente uma vitória do Benfica. Infelizmente, desta vez não estarei lá para ajudar, mas acredito nos meus ex-companheiros.

Em Portugal discute-se se o Benfica deve ir lá jogar com dois avançados.
São estratégias de cada treinador. É lógico que, quando se joga fora de casa, às vezes um empate é importante, mas sou mais amante do futebol para cima, para a frente, com dois avançados. Isso facilitava muito as coisas para mim, ter um companheiro na frente, ficava tudo mais dinâmico. Eu apostaria em dois avançados, Jonas e Mitroglou. É a dupla que está fazendo golos agora e acho que é a melhor forma de enfrentar o Porto.

JOSE MANUEL RIBEIRO/Getty

Os clássicos são sempre tensos. Quem é que aliviava o ambiente?
O “quebra gelo” [risos]. Eu próprio acho que o sou um pouco. Não gosto de ficar fechado num canto, gostava de brincar, falava com o Jardel, o Luisão... E tinha também o Rúben Amorim, que era o que animava sempre tudo. Era o gajo top nesse aspeto [risos]. Entrávamos para o jogo mais tranquilos.
Esse “gajo” é à portuguesa.
É verdade, fiquei com muitas palavras daí, foram seis anos. Aqui com os brasileiros às vezes digo “vou para o balneário”, e aí eles “que balneário?” [risos]. Ou então digo relvado em vez de gramado. Manias de Portugal.

O Jesus era o contrário de “quebra gelo”, não?
Pois, o Jesus... [ri-se] era um treinador fechado na dele. Tinha um método de trabalho e procurava manter a seriedade dos jogadores. Mas eu entendia perfeitamente e dava certo, né? Alguns jogadores poderiam não entender, mas deu títulos ao clube. Foi um treinador que me ajudou muito e vou ser sempre grato por isso. Ele e o presidente [Luís Filipe Vieira] foram os que apostaram na minha ida.

Se ele te convidasse para o Sporting, tu ias?
Não.

Resposta rápida.
Sim, porque é muito complicado. Vivi grandes momentos no Benfica. Já tenho 32 anos, tenho um contrato de três anos aqui e pretendo cumpri-lo. Mas também não critico quem muda de clube — é uma coisa normal no futebol. Mas em Portugal só me vejo a jogar no Benfica, sem dúvida.

Como é que começaste a jogar?
Sou do interior, de Pará, de uma cidade chamada Monte Alegre. No Brasil, grande parte das crianças tem esse sonho de poder ser jogador, e eu não era diferente. Sonhava com isso quando brincava na escola e na rua, e sempre foi esse o meu objetivo. Tive a oportunidade de sair do interior para a capital, para Belém, e lá começou o meu sonho a sério. Consegui realizar tudo o que sonhei enquanto criança.

Quem era o teu ídolo?
Até hoje, para mim, não existiu jogador como Ronaldo, o “Fenómeno”. Até quando eu já era jogador profissional, ficava horas vendo vídeos dele no YouTube, acredita? [risos] Aquilo me motivava muito. Sempre foi e sempre será o meu ídolo no futebol.

Não chegaste a cortar o cabelo como ele naquela altura do Mundial?
Não chegaria a esse exagero [risos]. Tenho as minhas vaidades e não poderia fazer um corte daqueles.

Tiveste uma infância feliz?
Os meus pais separaram-se quando eu era muito novo, tinha 8 anos, mas fui muito feliz lá na minha cidade. Fazia coisas que hoje em dia quase que não se vê, como brincar com o pião, com os meus três irmãos e duas irmãs.

Algum joga?
Um dos meus irmãos tentou, mas não aguentou a pressão [risos].

Como é que foste parar ao Vizela em 2003/04?
Tinha 19, 20 anos. Foi uma experiência, não fui feliz como queria. Eu era muito novo e a competição muito exigente, a 2ª Divisão B. Foi difícil mas também foi uma boa aprendizagem para a minha vida, porque saí sozinho do Brasil e cresci como homem.

Lavavas, cozinhavas e engatavas umas miúdas?
[risos] Não, quando vim para Portugal já era casado, tinha uma vida tranquila. Quer dizer, a segunda vez que vim, para o Belenenses.

Mas no Vizela não...
Aí era solteiro, sim [risos]. A gente tinha de se divertir para tentar esquecer as dificuldades, então acabava encontrando amigos e amigas e tal.

Mas um profissional sair e divertir-se é mais difícil, não?
É verdade. No Benfica era quase impossível sair para uma festa. Eu também gosto muito da família, sou tranquilo e gosto de descansar. Mas no Benfica era complicado, porque para todo o lado onde você ia havia um benfiquista, em qualquer café ou esquina. Ficava impressionado.

Além do futebol, tens outra grande paixão...
Os cavalos. Adoro. Tenho criação lá na minha cidade, já tenho oito ou nove. É uma paixão de infância, na altura não tinha condições de ter, mas hoje tenho. Então tenho uma quinta com os meus cavalinhos. Quando estava aí em Portugal costumava ir na semana de Natal. E no verão passo o mês todo de férias na minha cidade, com a minha família, brincando com os cavalos, à vontade. A vida no campo é muito boa. Ajuda a recuperar do stresse dos jogos. Já estou com saudades.

Entrevista publicada na edição de 19 de setembro de 2015 do Expresso