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“Foram os piores Jogos do milénio. Não há como tornear isso”

Vicente Moura está desiludido com a participação portuguesa no Rio 2016, reduzida a uma medalha de bronze (e a dez diplomas). O ex-presidente do Comité Olímpico de Portugal atribui o desaire à falta de uma política desportiva de base no país, temendo que em Tóquio, daqui a quatro anos, seja “mais do mesmo ou pior”. Louva António Costa pelos parabéns à comitiva e critica os atletas que não assumem culpas na derrota e são pouco gratos nas vitórias

Isabel Paulo

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José Garcia, líder da missão olímpica, tem razões para estar orgulhoso da nossa participação no Rio?
Confesso que esperava resultados mais satisfatórios. Tenho uma longa experiência de Jogos Olímpicos, e sei como é bom lidar com momentos altos, como foram os Jogos de Los Angeles, com a medalha de ouro do Carlos Lopes, em 84, e outros de desânimo como os de Barcelona, em que não subimos ao pódio. Temos de ser realistas e aceitar quando a competição não corre conforme a expectativa. Recorrendo aos documentos e afirmações de membros do COP, esta participação fica bastante aquém do esperado.

Havia a esperança de três medalhas, reduzida ao bronze de Telma Monteiro...
Falou-se até de mais. Já em Pequim havia a hipótese de 12 atletas ganharem medalhas, e acabámos por vir embora com duas, uma de ouro e outra de prata. Em Londres só de prata, mas também bastantes diplomas, como agora aconteceu. Mas a verdade é que as pessoas esperam medalhas. Começou-se por falar em 12, depois cinco. Claro que isso era completamente irrealista....

O mais realista eram três?
Recentemente falava-se em duas. Mesmo assim, não se chegou lá. Ficámos pelo bronze que a Telma merecia há muitos anos. Claro que é pouco para o reforço do investimento que foi feito nesta olimpíada.

Contas feitas, 17 milhões de euros...
Talvez. Em em 2012, tivemos 12 milhões de euros. Agora foram valores mais elevados, além de melhores condições dadas aos atletas, que, contudo, não resolvem o problema de base. Saúdo o presidente do Comité, o chefe de missão e os atletas, que foram fantásticos no seu esforço e socialmente irrepreensíveis, o que não se pode dizer de outros países. Mas as estatísticas são o que são, não há forma de as tornear. Infelizmente, o que fica dos Jogos do Rio é que foram as piores do milénio. Passaram-se 16 anos desde Sydney. Devíamos ter evoluído e não se conseguiu.

Não se evolui porquê?
Pelos mesmos motivos que referi enquanto estive no COP e que muitas vezes as pessoas não queriam ouvir: Portugal não tem uma política desportiva. Também é verdade que não há uma cultura desportiva, que não existe porque não há espetáculo para além do futebol. E não temos porquê? Porque não temos atletas. Temos os mais baixos índices de praticantes e de atletas federados da Europa, como acontece há 30, 20 e 10 anos. Como também temos os mais baixos índices de participação no desporto escolar. Segundo dados oficiais, só 12% dos alunos do secundário fazem desporto escolar, que antes tinha um gabinete ministerial e agora tem um mero departamento. Antes as notas contavam para avaliação, agora nem isso. Sem massa crítica, é como querer universitários sem alunos a frequentar o Ensino Básico. É impossível.

Fala de massa crítica, mas países com uma população idêntica à nossa, como a Grécia, a Bélgica ou Hungria têm um ranking de pódios muito superior ao português, que tem apenas 24 medalhas olímpicas.
Refiro-me a atletas, não à base populacional. No geral, temos cerca de 500 mil atletas. No futebol, temos 150 mil federados e consegue-se praticantes para todas as posições, com resultados à vista. A Alemanha são 1,5 milhões. A nossa canoagem é de facto boa, temos três a quatro mil praticantes, mas a Espanha tem 125 mil canoístas. Se temos poucos praticantes e não temos um sistema de proteção de seleção de talentos, então como aparecem os atletas de topo? É pura sorte.

Ainda nascem de geração espontânea?
Boa parte, sim. Dou o meu caso: eu morava em Algés, tinha uma piscina ao pé de casa e fui atleta da natação, apesar de não ter mais de 1,70 metros; morfologicamente não era a modalidade ideal.

O crescimento da canoagem deve-se à criação dos centros de alto rendimento?
Em parte, embora só os CAR não resolvam, porque são para estágios e não para a deteção de talentos e evolução de base. Até aí é preciso começar, haver apoio à formação. Falta a instrução primária, dar desporto aos jovens, que todos os miúdos tenham acesso ao desporto. Não para ir para o futebol ou atletismo, mas praticar, para se desenvolveram morfologicamente e terem condições físicas para abraçar uma modalidade com sucesso.

O secretário de Estado do Desporto e Juventude, João Paulo Rebelo, já disse que se investe o dinheiro que há, em resposta às queixas de falta de apoios de Rui Bragança, do Taekwondo, ou do triatleta João Pereira...
Digo o mesmo há 20 anos. O que nós não temos é uma política desportiva, não há um plano integrado de desenvolvimento em vigor no país. É fundamental saber o que queremos daqui a 10 anos. Já nem falo de Tóquio, em 2020. Queremos ganhar 10 medalhas olímpicas, ou ter um milhão de atletas federados? Provavelmente, não teremos dinheiro para as duas coisas. Se queremos rapidamente, então faz-se como outros país, como Espanha ou Dinamarca, que vão buscar atletas de outros países, da Somália ou Etiópia. Então vamos comprar atletas; assim, até fica mais barato chegar às medalhas.

Não é um bom caminho.
Evidentemente que não. Sou vice-presidente do Sporting para as modalidades e temos 50 modalidades, levámos ao jogos 32 atletas, entre a missão portuguesa e sete por outros países. Deste trabalho que o Sporting faz não recebe um cêntimo do Estado. É tudo pago pelas quotas dos sócios e pelo futebol.

Recebem os atletas.
Os de topo têm bolsas olímpicas e os seus treinadores, mas os clubes não recebem nada. O sistema tem de começar por recompensar as centenas de clubes que fazem formação. Ou então o Estado que a faça nas escolas. Isto vai levar anos a mudar. Há exemplos que podemos copiar, como o plano dourado da Alemanha pós-guerra ou o plano espanhol, país que antes dos jogos de Barcelona ganhava duas, três medalhas; agora, mais de 20 medalhas é o usual.

A mais-valia foram as infraestruturas?
Foi tudo. Definiram regras. Piscinas de 50 metros, não perto uma da outra, mas por cada zona de cinco mil habitantes, mais pavilhão, etc. Fizeram uma Fundação do Desporto em conjunto com o COP e com isso atraíram investimento privado. É só preciso de adaptar à nossa realidade, sentarmo-nos (não eu, que estou velho), o Governo, o COP, as federações, empresas, comunicação social da especialidade...Se não for assim, vamos continuar ao sabor da sorte.

O que se pode prever para Tóquio?
Mais do mesmo. Ou pior, pois os atletas de nomeada, como o Nelson Évora, a Telma, ou o Fernando Pimenta, etc, já têm alguma idade.

E atletas como o Rui Bragança, que já colocou em causa a sua presente no Japão, avisando que não pedirá mais dinheiro aos pais e quer concentrar-se na medicina, curso que frequenta o sexto ano.
Os atletas trabalham quatro anos, sacrificam-se, torturam-se a si próprios. Quando acabam uma prova longe do pódio sentem-se altamente dececionados, o que é normal. Quando são entrevistados a quente, falam com o coração na boca. O Rui provavelmente hoje não falava da mesma maneira. É preciso ver as coisas em perspetiva. Salvo raras exceções, o que me diz a experiência é que quando um atleta ganha uma medalha raramente se refere ao clube ou aos treinadores, nem ao COP. Há pouca gratidão, parece que ganham sozinhos. Quando perdem, atribuem a derrota aos mais variados motivos...

Às algas e folhas no caso de Pimenta no K1 1000m...
Várias, poucos assumem culpas. Temos de ser justos e ver que Portugal é um país com dificuldades, e os atletas estão isentos de impostos durante vários anos. No caso do Rui, que é excecional, entrou em medicina graças à vaga de alta competição, que lhe vai mudar a vida para sempre.

O João Pereira queixa-se que não há investimento no CAR do Jamor há 10 anos.
Provavelmente terá razão. Mas se ele tivesse ganho a medalha não falava nisso. Estas situações devem ser reveladas antes para se acabar com os atávicos atrasos de Portugal, em vez de se ficar à espera de milagres. Nós temos problemas impensáveis. Dou um exemplo concreto: uns pais chegam com o filho gosta de atletismo e corre bem. A criança vivia num bairro periférico, a família tinha dificuldades e precisava de 100 euros para transportes. Como se pode dar? Em termos legais os clubes não o podem fazer. Têm de ter recibos verdes, a família tem de se inscrever nas finanças. Tem de haver a possibilidade de jovens promissores terem essa ajuda de alimentação ou transporte. Ou se arranjam expedientes, cada vez mais controlados, ou perdem-se talentos. Há coisas fáceis de fazer que nunca foram feitas. Além de que se sabe internacionalmente que cada euro investido em prática desportiva, equivale a um retorno de dois euros em termos de saúde. A educação desportiva não se faz nos jornais, mas pela prática. Estamos de facto na cauda da Europa.

Temos o culto das medalhas? 10 diplomas de mérito em disciplinas variadas não valem mais do que uma subida ao pódio numa única modalidade?
Temos todos o culto das medalhas. Todas as autoridades deste país falavam delas. Esquecem-se é que em competições como os Jogos Olímpicos não há milagres. Ganham os melhores, e os melhores preparam-se da melhor maneira. Nada pode falhar. Sofri com a sensação de desapontamento dezenas de anos. Olhavam para mim como se não corresse, não saltasse. Era sempre o grande responsável; os governos, todos, punham-se à sombra. Aliás, quero saudar António Costa, que enviou uma mensagem de parabéns à comitiva e aos atletas. Que eu me lembre, deve ser a primeira vez que um primeiro-ministro o faz. Em 20 anos de COP, nunca após uns Jogos recebemos um telefonema desta natureza. Ficavam em silêncio, passando a responsabilidade total para o presidente do COP, que era eu. Como a dizer, ‘ele agora que se defenda’.

O que aconteceu ao nosso fundo, que nos deu o ouro com Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro? No Rio 2016, Dulce Félix, a melhor da maratonista ficou em 16.º lugar...
A explicação para essas grandes alegrias foi, em primeiro lugar, Moniz Pereira. O menor sucesso recente, julgo que se deve ao facto de os nossos jovens já não estarem dispostos a correr 20 quilómetros por dia durante anos a fio. O estatuto social de então e de agora não é o mesmo. Alguns eram pedreiros ou operários e o desporto era uma alternativa de prestígio, que muitos tiveram, como os irmãos Castro, a Aurora Cunha. O mundo mudou, agora os jovens preferem ficar em casa a jogar jogos no computador.

Uma das maiores promessas de pódio estava na canoagem. A Federação ou o COP devia ter mantido o Fernando Pimenta em K2 1000 metros, que nos deu a prata em Londres, em vez de passar para K1, que ele próprio reivindicou?
Há quatro anos foi-nos dito pelo selecionador e por Mário Santos, então presidente da Federação de Canoagem e chefe de missão em Londres, que a grande possibilidade de medalha era no K2, ao juntar dois atletas de exceção (Pimenta/Emanuel Silva). Confesso que não foi fácil submeter-me à pressão contrária do então secretário de Estado Alexandre Mestre, que queria que ele competisse individualmente. Não autorizámos porque não tinha tempo de recuperação para competir em K2, como não teve agora. Esta nossa decisão foi saudada porque ganhámos da medalha de prata. Mas isso ficou sempre mal resolvido. Desta vez fizeram-lhe a vontade, foi 5.º em K1, e perdeu-se o pódio no K2. Se se tivesse mantido a dupla de 2012, o mais provável era ter-se festejado uma segunda medalha de prata ou ouro. Ou seja, tivemos razão há quatro anos.

Sara Moreira desistiu da maratona por fratura de stresse e Jéssica Augusta, que tinha um registo nos mínimos pior do que Filomena Costa, também não aguentou a prova. Era possível precaver estes desaires, até porque Vanessa Fernandes estava no Rio como suplente?
É um assunto do âmbito clínico do COP e das atletas. Não me vou pronunciar. A explicação caberá ao chefe de missão.

[Texto original publicado no Expresso Dioário de 22 de agosto de 2016]