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Futre: “Já viste o que teria sido se tivesse jogado com a Geração de Ouro?”

Em 1989, Portugal foi ganhar à Suíça por 2-1 e Futre marcou um golo e deu outro a marcar a Rui Águas. Entrevistámo-lo por telefone

Pedro Candeias

David Cannon

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Pergunto-lhe se me pode atender e ele diz-me que sim, que pode, que tem 10 a 15 minutos para falarmos. "Ok". E então eu ligo-lhe e ele não me atende e ele liga-me de volta e eu atendo-o quando não era para atender. "Liga-me daqui a pouco". Liguei-lhe. E a conversa começou:

Paulo, andava aqui a ver umas coisas no YouTube e apareceu-me um resumo do Suíça-Portugal de 1989, um jogo de apuramento para o Mundial de 1990. Lembras-te disso? Lembro, amigo [silêncio...].

E então? Ah, queres que fale sobre isso. Então, eu marquei um golo de penálti e dei outro a marcar ao Rui Águas. Ganhámos por 2-1, lá, na Suíça, mas parecia que estávamos a jogar em Portugal. Aquilo estava cheio de emigrantes, foi incrível. Eu estava assustado... quer dizer, estava a sentir a pressão porque o meu penálti foi já na segunda parte e os suíços tinham marcado primeiro. E eu nunca fui um grande marcador de penáltis.

Como assim? Oh, pelas equipas por onde passei, quem batia os penáltis era o goleador. No FC Porto, era o Gomes, no Atlétco, o Manolo.

E na seleção? Olha, boa pergunta. Deixa-me só perguntar aqui ao Fernando Mendes, porque estou aqui com ele.

[Ouve-se no fundo:
- Ó Fernando,quem é que batia os penáltis?
- Então não era o Rui Costa?
- Não, isso é mais tarde. Na nossa altura.
- Oh pá, o Carlos Manuel batia..]

Era o Carlos Manuel? Estavas a ouvir? Pois, era o Carlos Manuel e o Vítor Paneira, que também batia bem.

Mas olha que o Vítor Paneira foi titular nesse jogo e não bateu. Então, deve ter falhado alguém importante nesse jogo. O Fernando está-me aqui a dizer que o Oceano também batia. O Rui Barros não era. O Jaime Magalhães também não.

Adiante, então. Do que te recordas desse jogo? Os suíços tinham o Chapuisat e o Turkyilmaz, que eram bons jogadores, e aquele era um jogo complicado. Uma das grandes diferenças de então para agora, é que hoje é muito mais fácil para uma equipa se qualificar para um Euro ou para um Mundial. Na altura, ao mínimo deslize (porque só se qualificava o primeiro classificado), estavas fora. Portanto, já estás a imaginar a pressão que eu tive a marcar aquele penálti. Ouve lá, se falhasse, estava feito, tinha sido horrível.

É isso que explica que Portugal não se tenha qualificado para nada entre 1986 e 1996? Não. Acho que houve um vazio depois daquela geração do México86. Agora é diferente, se acaba uma geração de jogadores, começa outra, é tudo mais continuado.

E como era o ambiente? Espectacular, nada a ver com o pré-México86, em que os jogadores do Sporting não falavam com os do Benfica e os do Benfica com os do Porto e por aí fora. Um dos meus melhores amigos é este [Fernando Mendes] que está aqui a ouvir a conversa. Conheço-o desde os seis ou sete anos, andámos juntos na mesma escola. Tenho cada história para contar... Mas, voltando à pergunta, eu sempre me dei bem com toda a gente - e eu era um gajo do sul a jogar no Porto. E também tinha uma vantagem, que era dar-me muito bem com o Artur Jorge, que era o selecionador na altura. Foi ele quem, à maneira dele, me pôs na linha no FC Porto quando eu para lá fui. Se não fosse ele, não teria sido o jogador que fui.

Mas podias ter chegado mais longe, sobretudo na seleção. É uma mágoa que tenho cá dentro, a de não ter jogado com a Geração de Ouro. A minha lesão acontece quando tinha 27 anos, no momento em que aparecem o Figo, o João Vieira Pinto, o Rui Costa, e por aí fora. Já viste o que teria sido? Eu ainda joguei com eles no arranque, mas poderia ter sido muito melhor se a minha carreira não tivesse ficado por onde ficou por causa da minha lesão. Ainda por cima, eles nunca tiveram um canhoto! Depois de mim, ainda houve os novos-Futre: o Dani, o Dominguez, o Porfírio!, aquele Agostinho, que tinha boa pinta. Hoje em dia, já ultrapassei isso, mas na altura fiquei triste. Já viste o que teria sido se tivesse jogado com eles?

O que vale esta seleção? Ah, sabe tão bem dizer isto: somos campeões da Europa. Somos campeões da Europa, Pedro. Esperei muito tempo para poder dizer isto e é um orgulho enorme. Portanto, na Suíça, com Ronaldo ou sem Ronaldo, somos favoritos a ganhar. Eles têm bons jogadores, mas nós seremos respeitados em todo o mundo por aquilo que aconteceu em França.