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Paneira: “Antigamente, a seleção era uma casa de repouso”

Vítor Paneira, antiga glória do Benfica e do Guimarães europeu do dealbar dos anos 90, foi um dos jogadores que foi à Suiça ganhar (1-2) no apuramento falhado do Mundial de 1990. O selecionador era Artur Jorge, a sua Nemésis, ao ponto de ainda hoje dizer que a sua única mágoa foi ter sido despedido da Luz aos 28 anos. Sem clube desde que saiu do Tondela, confia que a seleção ainda tem muitas alegrias para dar aos portugueses, ao contrário do que acontecia no seu tempo

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

CONFIANTE. Aos 50 anos, Vítor Paneira, desejoso de voltar a treinar, não teme a ausência de Ronaldo numa equipa que já revelou valer pela coesão da sua força coletiva

rui duarte silva

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Depois da euforia, João Moutinho já veio avisar que não há equipas invencíveis e que esta é a partida para um novo nível. Prudência ou receio de acusarem a pressão do título europeu?
É respeito pelo adversário. Somos nesta altura uma das equipas mais cotadas da Europa, e os adversários, com exceção de três ou quatro, olham para nós como favoritos. O que o Moutinho disse foi um alerta mais para dentro do que para fora do grupo, até porque a Suíça, que caiu nos penáltis nos oitavos de final em França, não é fácil.

O Dzemaili afirma que Portugal foi campeão com sorte. É bluff para abalar a confiança de Portugal?
Se calhar, mas isso é impossível. A equipa, pelo que se conhece e pelo que se viu contra Gibraltar, joga sempre com responsabilidade, muito focada, com atitude. É uma equipa solidária, que vai jogar com motivação extra, não só para honrar o título, mas por saber que a Suíça, e os adversários que se seguem, não nos vão facilitar nada.

Mas somos os favoritos.
A Suíça é uma equipa em construção, que promete, mas, com exceção de três ou quatro seleções, vamos jogar sempre como favoritos. E, na Suíça, o público vai ser metade/metade, que os nossos emigrantes vão lá estar em peso.

Em 1989, fomos lá ganhar 2-1. Jogava o Silvino, Rui Barros, Futre, que marcou um dos golos e a imprensa escreveu que era diabólico, um fora de série. Lembra-se desse jogo?
Muito bem. O Rui Águas marcou o outro golo e eu fui substituído aos 89 minutos. O Futre era de facto um fora de série e, hoje, se jogasse, continuaria a ser um talento fora do normal. Era na altura a maior referência de Portugal...

Depois empataram na Luz e falharam o apuramento com Artur Jorge. O que mudou para a seleção não falhar uma fase final desde 2000?
Como dizia Pimenta Machado, meu presidente no Vitória de Guimarães, somos um fenómeno de talento futebolístico à beira mar plantado. Tínhamos muitos jogadores talentosos, como o Chalana, O Humberto Coelho, Diamantino, Jaime Magalhães, Sousa...Ganhámos Taças de Campeões Europeias, Champions, Liga Europa, mas na seleção faltava qualquer coisa.

O quê?
Era uma questão de mentalidade, que vinha de cima. A seleção era uma casa de repouso, de um grupo que se juntava às vezes. Não era levada muito a sério, não era uma estrutura profissional e rigorosa como hoje. Era um espírito que estava implantado e mudou. Agora, a seleção é mais do que uma equipa, é algo muito sólido, embora confesse que não estava à espera que fosse, em França, que se conquistasse finalmente o título. Ainda bem que foi e com muito mérito, qualidade e a pontinha de sorte dos campeões.

Tem saudades desse tempo?
Muitas. Naquela altura, como agora, valia a pena ser jogador de futebol. Adorava jogar e tenho muitas boas memórias dessa época da minha vida...

E também mágoas. Artur Jorge é uma delas...
A minha única mágoa foi ter sido despedido do Benfica aos 28 anos. Uma grande injustiça. Foi uma opção do treinador, mas não era ele que geria o Benfica, por isso não é nada pessoal.

Foi para o Vitória de Guimarães, a tempo de ainda ser convocado para o Euro 96, em Inglaterra. Quem era o treinador?
O Vítor Oliveira, grande treinador e um grande homem, acima de tudo. A prova de que não estava acabado foi ter sido considerado em duas épocas o melhor jogador do campeonato e o jogador com mais assistências.

E foi empatar à Luz...
1-1, à terceira jornada, a tempo de ajudar a despedir Artur Jorge. Estava tudo programado: saí aplaudido, ele assobiado.

Teve um convite para jogar na Juventus. Tem pena de não ter ido?
Foi antes do Paulo Sousa. Na altura era mais difícil dar o salto para o estrangeiro. Não fui por não ter empresário, como nunca tive.

O facto de termos tantos jogadores a jogar ao mais alto nível nos maiores ligas europeias também ajudou a seleção a amadurecer?
Pode ter ajudado, mas o principal é sermos realmente um povo com talento. Ter mais jogadores a competir lá fora foi a consequência direta da lei Bosman, que mudou o mundo do futebol para Portugal e para toda a Europa. Com a limitação de dois estrangeiros por equipa, era um mercado fechado.

Fernando Santos já estreou 22 jogadores desde que é selecionador. João Cancelo e André Silva são os debutantes e Toni, seu ex-treinador na Luz, diz que o futuro risonho. Concorda?
Em França, tivemos uma seleção de jogadores muito novos, como Renato Sanches, mas outros já com alguma idade. Fazer esta renovação nesta altura, prova a inteligência do selecionador.

Vamos jogar sem Ronaldo. É preocupante?
Estaríamos mais felizes se ele jogasse, embora julgue que a ausência não seja preocupante. Como vimos no jogo com a França, esta equipa tem grande força coletiva, que não abana sem Ronaldo em campo, que infelizmente para ele e para nós saiu cedo pelas razões que se sabe.

Qual é a sua situação atual?
Sem clube desde que saí do Tondela, na época passada, cheio de vontade de trabalhar, à espera de uma oportunidade. Estou como comentador da SporTV...

O que prefere fazer?
Gosto de comentar, mas o maior prazer é mesmo treinar.

Continua a ser um bom garfo, como quando jogava? A sua mãe ainda tem o restaurante em Famalicão?
“O Vai ou Racha”. Agora vou menos, pois estou a viver na Póvoa. E continuo, sim, a ser um bom garfo.

Numa entrevista ao Expresso quando foi para Guimarães, ao almoço, antes do treino da tarde, comeu feijoada e panados e bebeu receita. Não era pesado?
Receita (vinho com açúcar e cerveja) agora só bebo de vez enquanto, no verão. Não me pesava que já estava habituado. Comer bem e não engordar é genético. Não pratico nenhuma atividade física desde que deixei de jogar e estou na mesma, nem mais um quilo.