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“Manchester é o centro do universo futebolístico”

O homem que criou a Premier League de raiz, em 1992, esteve em Portugal a dar uma aula na pós-graduação “High Performance Football Coaching”, da Faculdade de Motricidade Humana, e falou em exclusivo com o Expresso sobre o desenvolvimento do campeonato mais rentável do mundo - que tem sábado um escaldante Manchester United-Manchester City (12h30, Sport TV3). “A Premier League nunca vai dizer: ‘Não queremos mais dinheiro, obrigado, já temos suficiente’”, diz Rick Parry

Mariana Cabral e João Lima

Comentários

EU É QUE ERA O PRESIDENTE. Rick Parry foi CEO da Liga inglesa de futebol entre 1992 e 1998, ano em que passou a ser CEO do Liverpool - e foi ele que tratou daquela transferência falhada de Simão Sabrosa

joão lima

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Esteve cá a falar sobre o quê?
Essencialmente sobre a construção da Premier League, na qual estive envolvido desde o início, em 1992, porque antes o que existia era a Football League. Acho que a Premier League tem sido bastante bem sucedida e é uma história interessante de contar. Mas também é interessante perceber por que razão é que as mudanças acontecem no futebol. Estava a dizer isso aos alunos: normalmente não há grandes mudanças no futebol de forma estratégica, ordenada e pensada. As mudanças acontecem habitualmente em resposta a uma crise ou uma série de crises e se queres mudar alguma coisa tens de ter muita determinação para isso. Tem de ser um pequeno grupo de pessoas a guiar a mudança, sem se desviarem do rumo pretendido. São algumas lições que aprendi, em termos de liderança, particularmente no futebol, em que tudo é escrutinado pela comunicação social. É preciso muita coragem, persistência e foco completo nos objetivos principais que queremos impor.

Como é que chegou à liderança da Premier League? Porque um rapaz com certeza não cresce a pensar que quer ser CEO do campeonato.É claro que queria ser futebolista, como todos os rapazes [risos]. Mas é uma boa história, por acaso. O meu pai era professor de educação física e disse-me: ‘Estuda e forma-te num curso’. É claro que na altura me pareceu um conselho parvo, mas é engraçado que quanto mais velhos ficamos, mais vemos que os nossos pais é que tinham razão. Foi, obviamente, um ótimo conselho. Formei-me em contabilidade e depois comecei a trabalhar como consultor, mas quis sempre manter a minha ligação ao desporto. Foi assim que comecei a trabalhar na candidatura de Manchester aos Jogos Olímpicos de 1992, o que foi uma experiência fantástica, aprendi muito sobre o desporto enquanto negócio e sobre a política que o rodeia. Na altura perdemos os Jogos para Atlanta, por isso tive de decidir se continuava lá a trabalhar numa segunda candidatura ou se saía para ter outro desafio. Provavelmente teria sido mais fácil ficar mais dois anos a fazer tudo outra vez, mas decidi pelo contrário. Foi uma luta entre o coração e a cabeça. Nessa altura um amigo meu tinha sido despedido do emprego que tinha nos Estados Unidos e quando voltou comprou um livro no aeroporto chamado “De que cor é o seu pára-quedas?”, que fala sobre auto-análise. Comecei a lê-lo e fui pensando no que dizia: no que é que sou bom? O que é que gosto mesmo de fazer? E posso juntar os dois numa carreira? Portanto preenchi religiosamente umas oito folhas de papel com tudo o que o livro pedia e espalhei-as em cima da mesa de jantar, até chegar à conclusão final: devia estar a liderar um campeonato de futebol. Pensei: ‘Que ideia ridícula’. E mandei os papéis todos para o lixo [risos]. Incrivelmente, apenas dois dias depois, o presidente da Federação Inglesa ligou-me e disse-me: ‘Os clubes querem formar uma nova liga e precisamos de alguma ajuda em termos de consultoria. Podes ajudar-nos?’ Foi uma loucura, mas foi exatamente assim que tudo começou.

OIÇAM-ME. Rick Parry, 61 anos, saiu do cargo de CEO do Liverpool em 2009 e desde então tem trabalhado como consultor em vários países

OIÇAM-ME. Rick Parry, 61 anos, saiu do cargo de CEO do Liverpool em 2009 e desde então tem trabalhado como consultor em vários países

JOÃO LIMA

Por onde é que começaram?
O maior desafio foi concretizar a ideia inicial. Porque a ideia de mudança era defendida pelos clubes de maior relevo, os ‘big five’ [Manchester United, Liverpool, Arsenal, Tottenham e Everton], como lhes chamamos, porque obviamente seriam eles os maiores beneficiários, em termos financeiros, na construção de uma liga mais forte. Planear uma nova liga, em teoria, é incrivelmente fácil, porque só precisámos de definir que íamos ter 18 equipas que jogavam a duas voltas e a que ficasse em primeiro ganhava o troféu. E está feito o plano. Originalmente queríamos mesmo ter 18 equipas, mas acabámos por ficar com 20 equipas, porque ao longo do caminho há que fazer compromissos. O desafio vem depois desse plano inicial: vamos convencê-los ou vamos pôr o plano na gaveta e continuar na mesma? Havia dois grandes problemas para os ‘big five’, que eram os dinamizadores da nova liga. Tinha havido muita polémica na Football League, que era a liga anterior à Premier League, por causa dos contratos televisivos e os clubes em geral respeitavam os ‘big five, pelo seu estatuto, mas não confiavam neles, portanto havia um clima de suspeição e desconfiança entre todos. Tivemos de pedir à Federação Inglesa para se juntar connosco e liderar o processo, para todos ficarem confortáveis. Eles aceitaram, claro, para finalmente termos união no topo do futebol inglês, e aí chamámos todos os clubes da 1ª divisão para uma reunião e a verdade é que eles gostaram da ideia. Pessoalmente, eu tinha começado a trabalhar na nova liga com os ‘big five’, depois trabalhei com a Federação e depois com todos os clubes, porque depois da reunião eles pediram-me para ser o líder da nova liga, o que foi assustador. O que fiz imediatamente foi reunir-me com cada um deles, para perceber quais eram as aspirações que tinham. Porque a chave é essa, é perceber o que querem - e é passar muito mais tempo a ouvir do que a falar, para percebermos quais são os objetivos comuns. Bom, resumindo uma história que é evidentemente bastante longa: tivemos uma reunião em maio de 1991, com os 22 clubes da liga anterior, e em duas horas acordámos as bases da constituição da nova liga, apenas numa folha de papel, que todos assinámos. Nasceu aí a Premier League. Era uma constituição muito simples, muito transparente, com cada clube a ter direito a um voto, com uma comissão independente de diretores que tinham de cumprir os valores acordados: independência, transparência, responsabilidade. Todos os princípios necessários para um organismo funcionar bem. O que é interessante é que hoje em dia a Premier League dá uma lição a muitos organismos - basta olha para o que acontece na FIFA - e é bem sucedida porque é baseada nesses princípios desde o início, que achamos que são uma virtude e não um problema.

25 anos depois, a Premier League é a melhor liga do mundo?
Bom, não sei se é efetivamente a melhor liga do mundo. A Bundesliga também tem grandes virtudes, a Liga espanhola também tem as suas qualidades… e a Premier League também. Mas em termos de receitas é claro que é uma liga que tem sido incrivelmente bem sucedida. No início, os clubes ingleses tinham uma relação pouco amigável com as televisões, o que era ridículo. Pensavam que a televisão era uma ameaça, porque se os jogos estivessem em direto na televisão não ia haver adeptos nos estádios. Só depois começaram a perceber o que aquilo significava em termos de promoção da liga e em termos de publicidade. Então um dos nossos principais objetivos foi criar uma parceria com as televisões e tivemos sorte porque a Sky foi o parceiro ideal. Todos os clubes da Premier League passaram a ter no mínimo três jogos transmitidos na televisão por época, algo que não acontecia na liga anterior, na qual havia clubes que nunca tinham jogos na televisão, sequer. Começámos a partilhar as receitas de forma mais equitativa, com a fórmula a ficar logo assente na tal constituição: metade do valor era dividido por todos, um quarto era distribuído de acordo com o mérito e o outro quarto pela quantidade de jogos que eram transmitidos. É uma fórmula que existe há 25 anos, sem alterações, porque funciona. A Premier League fez muito dinheiro entretanto e a Sky também, tem sido uma parceria fantástica.

LÍDER, PARTE 1. O Manchester United de José Mourinho lidera a Premier League com três vitórias em três jogos

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PETER POWELL/EPA

Não é demasiado dinheiro hoje em dia? Um clube do Championship, a 2ª divisão inglesa, acaba por ter mais poder económico do que um dos grandes clubes em Portugal, por exemplo.
Claro que há problemas. Isso não acontece apenas com os clubes portugueses, claro. Basta olharmos para as mudanças que se querem fazer na Liga dos Campeões e na partilha dessas receitas. Os clubes alemães e os clubes italianos também estão muito preocupados com essa diferença que há para Inglaterra. Mas é o que é. A Premier League nunca vai dizer: ‘Não queremos mais dinheiro, obrigado, já temos suficiente’. É muito difícil mudar o mercado e as forças económicas. Os estádios estão sempre cheios, é uma liga competitiva, em que qualquer equipa pode sair vencedora e a Premier League toma partido disso.

Concorda com o novo modelo que os clubes mais poderosos querem para a Liga dos Campeões?
A UEFA tem um desafio muito grande pela frente. Porque tem de segurar os maiores clubes, porque se eles saírem e formarem uma superliga, onde fica a UEFA? É claro que se está a cimentar ainda mais a elite, mas é difícil fugir a isto e ao mercado. A verdade é que a Liga dos Campeões, quando chega aos últimos oito, é uma competição fantástica. Para mim, é melhor do que o Mundial, a qualidade do futebol é muito melhor, e, apesar de tudo, também é uma história de sucesso.

Conhece bem a Liga portuguesa?
Nem por isso, para dizer a verdade. É claro que jogámos contra equipas portuguesas, Benfica e Porto, quando eu estava no Liverpool - algumas más recordações [risos] -, mas não conheço de forma profunda.

Mas foi consigo que o Simão Sabrosa esteve quase a trocar o Benfica pelo Liverpool.
Oh, bolas.

Lembra-se disso?
Pois claro que me lembro, até me lembro demasiado bem [risos]. Não foi um dos nossos melhores momentos, não. Ele estava sentado no avião à espera do ‘ok’ para ir ter connosco, que estávamos no aeroporto em Inglaterra, mas o presidente do Benfica entretanto desapareceu. Depois disseram-nos - não sei se foi mesmo assim ou não - que depois de ter acordado a transferência connosco, o presidente teve de lidar com muitos adeptos em fúria, por isso voltou atrás. Ou melhor, desapareceu [risos]. O Simão estava sentado no avião, nós estávamos sentados no aeroporto à espera do avião e ninguém conseguia encontrar o presidente do Benfica. E o mercado acabou por fechar.

Perguntava-lhe pela liga portuguesa porque, ao contrário da Premier League, temos os bilhetes habitualmente muito caros e os estádios vazios. Como mudamos esta tendência?
Bom, é verdade que há a condicionante do tamanho da população, bastante diferente de Inglaterra, que tem mais de 50 milhões de pessoas. Mas mesmo assim Portugal produz futebolistas fantásticos, de forma consistente, com grandes academias e com clubes com bons resultados, e a seleção nacional também está muito bem, como se viu agora no Euro, portanto é difícil dizer.

Também temos de juntar um grupo à mesa e assinar uma nova constituição?
A diferença é que na altura nós tínhamos uma liga que simplesmente não funcionava, em que todos andavam sempre às turras, portanto facilitou a mudança para uma liga mais moderna. E também tivemos sorte porque na altura apareceu a Sky, que não estava bem financeiramente, e que se apoiou em nós, tal como nós neles. O Rupert Murdoch viu a Premier League como um negócio chave e as receitas da televisão mudaram-nos. A televisão passou a ser por subscritores e aí um adepto do Oldham passou a ser tão importante como um adepto do Manchester, a Sky queria era chegar a todos, nunca ignorando os clubes mais pequenos. O que é o futebol? É o melhor filme dramático, sem guião. Nada melhor do que isso para atrair espectadores. Foi uma oportunidade que serviu a todos. Ou seja, não basta mudares uma constituição, também tens de aproveitar as oportunidades que tens, que às vezes podem surgir apenas por sorte.

LÍDER, PARTE 2 O Manchester City de Pep Guardiola lidera a Premier League com três vitórias em três jogos

LÍDER, PARTE 2 O Manchester City de Pep Guardiola lidera a Premier League com três vitórias em três jogos

CARL RECINE/REUTERS

É interessante porque a Premier League é muito competitiva, mas olhamos para a formação de jogadores e treinadores ingleses e o cenário não é muito animador.
Temos dificuldades, ainda não conseguimos encontrar um equilíbrio. Bem, agora com o Brexit provavelmente teremos menos jogadores e treinadores estrangeiros daqui a uns cinco anos. Olhamos para a Alemanha e pensamos que talvez tenham um balanço melhor nesses aspetos, porque têm uma Bundesliga muito forte, o Bayern e o Dortmund saem-se bem nas competições europeias e a seleção nacional tem sucesso em praticamente todos os torneios em que entra. Creio que a Alemanha tem coisas para ensinar a Inglaterra. Porque temos a poderosa Premier League, mas talvez às custas da seleção inglesa. Temos 13 dos clubes com donos estrangeiros, por exemplo, e 70% de jogadores estrangeiros. Temos um selecionador inglês, o que acho que é muito importante, mas pessoalmente creio que a Federação perdeu uma boa oportunidade para dizer “agora vamos ter sempre um selecionador inglês”, para dar mais motivação aos treinadores ingleses.

Mas os treinadores ingleses não estão algo atrás dos outros?
Não há razão para isso acontecer. Um treinador inglês não tem de ser pior do que um espanhol ou um português.

Talvez porque estejam mais longe do continente, não têm tanto contacto com outras formas de treinar e de ver o jogo.
Antigamente penso que isso acontecia, mas agora já não acredito. Os treinadores viajam mais e uma parte crucial do programa de formação é visitar clubes no estrangeiro. Ainda somos algo insulares, mas acho que já não estamos tão isolados como antes.

Sendo adepto do Liverpool, foi ainda melhor liderar o Liverpool do que a Premier League?
Bom, às vezes era um sonho e às vezes era um pesadelo, porque quando és adepto os tempos de sucesso são bons e os tempos de insucesso são terríveis. Nunca há um meio termo, andamos sempre para cima e para baixo. Mas foi uma experiência fantástica. A grande desilusão foi não termos conseguido ganhar a Premier League, mas ganhar a Liga dos Campeões em Istambul, em 2005, com o grande jogo que foi, e ganhar a Taça UEFA, em 2001, foi incrível.

Crê que o Liverpool vai ganhar a Premier League em breve ou há uma grande diferença para os clubes que têm sido campeões? É uma questão de dinheiro?
Claro que é uma questão de dinheiro. Em 2004 estávamos preocupados com o Chelsea e com Abramovich, mas o que pensámos então foi que só podiam jogar com 11 jogadores. Não podiam comprar todos os jogadores - se bem que às vezes até parecia que podiam. Mas não conseguimos estar a rivalizar com eles nesse aspeto, claro. Tínhamos de ser mais espertos, trabalhar mais, fazer mais. Depois os sucessos são muito mais satisfatórios, verdade seja dita. Uma das coisas mais excitantes da história do futebol inglês foi ter o Leicester a ganhar a Premier League, por exemplo. Isso mostrou que tudo é possível.

E esta época?
Agora temos José Mourinho de volta e temos também Pep Guardiola, por isso é em Manchester, onde a rivalidade é enorme, que se vai passar tudo. Não há dúvidas que neste momento Manchester é o centro do universo futebolístico e vai ser um ano fantástico para a cidade e para a Premier League. Acho que a Premier League esta época vai ser entre City e United.

Lá está, Mourinho, Guardiola, Klopp, Conte… Nada de ingleses.
Verdade. E Wenger, Pochettino, Koeman… Ok, tem razão [risos]. Para já. É preciso que os responsáveis olhem para a situação e pensem no que podem fazer para mudar a situação. Como educamos melhor os treinadores? Se calhar a resposta é mandar os jovens aspirantes a treinadores a estes cursos de alto nível como o da FMH.