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O único português a jogar na Dinamarca avisa: cuidado, eles são grandes e cruzam muito

João Pereira joga no Odense, que até defrontou o Copenhaga no sábado, e sabe que o FC Porto terá de ter atenção (19h45, Sport.TV4) à quantidade de vezes que os dinamarqueses vão tentar cruzar a bola para a área. E o português diz que eles são capazes de fazer a vida negra aos dragões

Diogo Pombo

SAKIS SAVVIDES

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Era preciso falar com alguém que soubesse do que estava a falar. Ou seja, um português que vivesse na Dinamarca, que jogasse lá futebol e, de preferência, que nos tivesse coisas para contar sobre o Copenhaga. Uma tarefa puxada, não tanto para se puxar do ditado que mete uma agulha no palheiro, porque hoje existe internet e foi ela que nos levou até João Pereira. E ele é português e joga à bola e está há quatro anos a fazê-lo no campeonato dinamarquês.

O defesa central, de 26 anos, joga pelo Odense e, não estivesse ainda a recuperar de uma lesão, teria jogado no sábado contra o Copenhaga, primeiro adversário que o FC Porto enfrenta nesta Liga dos Campeões. O português, que se formou no Benfica e foi internacional sub-21, avisa que os campeões dinamarqueses jogam com rapazes altos, fortes e possantes. Especialmente os que estão mais perto da área e ficam à espera dos muitos cruzamentos que os extremos e laterais tiram durante o jogo.

Como correu o jogo no sábado?
Era um jogo difícil, que até estava a ser aberto, mas eles tiveram um penálti a favor. Depois tivemos de começar a atacar mais e, nos últimos 15 minutos, levámos um golo. Pronto, foi um 2-0. Mas foi um bom jogo.

O que me podes dizer sobre o Copenhaga?
É aquela equipa muito forte a nível físico, duram o jogo inteiro. Jogam em 4-4-2, com dois pontas de lança muito fortes. O FC Porto vai levar com muitos cruzamentos e com muitas bolas na área. Eles são muito fortes nisso, tanto os extremos como os laterais. Apostam nos dois homens que têm lá à frente. É um estilo não tão refinado como nós temos, com aquele típico número 10. Eles não têm isso. É mais com cruzamentos para a área e muita intensidade.

Achas que têm o suficiente para fazerem a vida negra ao FC Porto?
Sim. Posso dar alguma vantagem à equipa que joga em casa, mas não vejo que seja suficiente para se ganhar um jogo, ou não. Tanto uma equipa como outra terá de jogar muito bem e estar no máximo. Até porque todas as equipas que estão no grupo [as outras são Leicester City e Club Brugge] são muito boas.

Se pudesses falar com os jogadores do FC Porto, que dicas lhes davas?
Que tanto o defesa esquerdo como o direito vão sofrer muito com situação de um para um, ou dois contra um. Terá de haver o acompanhamento do médio, para fechar, porque aí é que eles são muito fortes: nos cruzamentos para a área, tanto dos laterais, como dos extremos. E como são quase todos fortes e com elevada estatura, também é preciso ter cuidado com as bolas paradas.

E como é que foste parar à Dinamarca?
Aconteceu quando jogava pelos sub-21 de Portugal e estava no Sheriff, da Moldávia. Estava a jogar a fase de grupos da Liga Europa e, na altura, o Nordsjaelland comprou-me [2012/13]. Até que cheguei ao Odense, onde ainda tenho contrato para os próximos dois anos. Está a correr tudo bem.

És o único português a jogar aí, certo?
Sim, sim, o ano passado estava cá o Costinha, que agora está no Vitória de Setúbal. Há dois anos ele estava na segunda liga de cá.

Ia perguntar a coisa óbvia, que é se já te habituaste ao frio.
Sabes que o frio é muito subjetivo. Sais à rua com roupa quente, a que se usa aqui, não a que vestimos em Portugal, e nem sentes o frio. Quando chega a hora dos treinos nem é tanto o frio que chateia, é mais a chuva ou a neve. Os campos, nessa altura, também não ficam muito bons. De resto, a gente tem que se adaptar.

Incluindo ao falar dinamarquês?
Já falo alguma coisa. Ao longo destes quatro anos fui melhorando, mas como toda a gente fala inglês, sempre foi fácil comunicar.

Li numa entrevista que deste há uns anos que achas o estilo de vida aí mais atrativo. Como assim?
Exatamente. Como é que te hei de dizer... Para já, é tudo muito calmo, é uma paz boa.

Não chateiam tanto quem joga futebol?
Também, sim, e isso até é o melhor. Como futebolista, levas uma vida boa e usufruis de tudo o que a vida no futebol te dá. E, ao mesmo tempo, não sentes aquela pressão que há em Portugal. Os adeptos respeitam-te muito, fazes uma vida tranquilíssima. É muito bom para se construir família. E não é o inverno cerrado que as pessoas pensam que é. Até costumo dizer que é melhor do que o inverno de Portugal, porque aqui as casas são muito quentes.

Mas tens de ficar em casa.
Pois [ri-se]. Mas, em Portugal, as casas são mais frias durante o inverno!

Não te começaram a chatear mais desde que o teu país foi campeão europeu?
Claro, agora falam sempre que Portugal não mereceu ganhar, ou que teve alguma sorte. Não concordo com isso e tento sempre dar argumentos válidos para que eles vejam a coisas de outra maneira. Ou seja, que ganhámos porque fomos melhores.

Ou lembrá-los que a Dinamarca também ganhou em 1992, não?
Também. Eles sabem o que é ser um país pequeno que tem de lutar contra os países com 20 ou 30 milhões de pessoas e mais base de recrutamento para o futebol.

Por essa ordem de ideias, quem vai ganhar o jogo desta quarta-feira?
[Ri-se] Oh, não te posso dizer isso! Mas talvez seja o FC Porto, por jogar em casa.