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Sá Pinto: “Aquele golo de cabeça do Laudrup deve ter sido o único na carreira dele”

Nunca mais se esqueceu daquela vez em que, pelo muito que o Sporting jogou, não ouviu um pio no estádio que costuma ser barulhento. Telefonámos a Sá Pinto, hoje a treinar na Arábia Saudita, para ele nos contar como é jogar (e marcar) contra o Real Madrid para a Liga dos Campeões

Diogo Pombo

Gabriele Maltinti

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Ainda se lembra quando foi titular pelo Sporting no Santiago Bernabéu?
Sim, perdemos por três ou quatro, não foi?

Por 4-0, em 2000, para a Liga dos Campeões. Mas em 1994, na Taça UEFA, só perderam por 1-0.
Ah, sim, aí fizemos um grande jogo.

Como foi?
Foi monumental. Calámos o Bernabéu do princípio ao fim. Perdemos por um a zero, mas foi muito injusto. Até rematámos duas bolas ao poste. O Figo fez um grande jogo, como o resto da equipa, e toda a gente ficou impressionada com a qualidade de jogo que nós apresentámos. Ao ponto de o estádio ficar calado durante o jogo inteiro, foi impressionante.

Mas costumava ser muito barulhento?
Já lá joguei várias vezes, também pela Real Sociedad, e quando íamos ao Bernabéu e queríamos falar para o lado, às vezes, a meio do jogo, se a outra pessoa estivesse a 10 metros já era muito difícil. Aquele estádio é impressionante.

Depois houve o jogo em casa.
Sim, e em casa fizemos outro grande jogo. Merecíamos ter passado a eliminatória, mas houve aquele golo de cabeça do Laudrup, que deve ter sido o único na carreira dele, acho eu. Também marquei um, acho que foi o nosso primeiro, o do empate, e depois fizemos o segundo.

E o Ricardo tem uma coisa curiosa, que é ter marcado por duas vezes ao Real Madrid, em dois jogos em Alvalade.
Pois foi, marquei para a Champions e para a Taça UEFA. E na segunda vez ficou 2-2, não foi?

Sim, foi 2-1 na primeira vez e 22 na segunda.
Exatamente. Para a Liga dos Campeões até estávamos a ganhar 2-0, outro grande jogo, no velho Estádio de Alvalade. Contra o Real Madrid, em casa, sempre conseguias boas exibições no nosso estádio. Motivávamo-nos muito, igualávamos o Real Madrid em tudo - na agressividade, na organização e mesmo até na qualidade. Conseguíamos estar a um grande nível. Esperamos que agora o Sporting volte a fazer um grande jogo.

Em 1994 tinha acabado de chegar ao Sporting, vindo do Salgueiros, e de repente estava a jogar contra o Real Madrid. Aquilo não mexe com os nervos?
[Ri-se] Foi a primeira época, de facto foi muito emocional. Era uma altura de grande pressão e responsabilidade. Claro que, durante o jogo, há sempre uma situação ou outra, própria do jogo, que não correu bem. Mas sempre gostei muito de ter responsabilidade e sentir estes jogos. Cheguei a um grande clube como o Sporting, adaptei-me rapidamente, cheguei à seleção com 21 anos e, nessa altura, foi um percurso muito rápido. Não senti minimamente a pressão, porque a alegria de estar jogar estes jogos é extraordinária. É algo que nos fica para sempre. Estar neste tipo de jogos é algo que todos os jogadores querem. Agora, como treinador, continuo a querer [ri-se outra vez].

Ainda por cima, em 2000, o Sporting jogou contra o então campeão europeu. O que vai acontecer agora outra vez.
Exato.

E mesmo assim um jogador não treme um bocadinho?
Depende da personalidade. Há uns que acusam mais a responsabilidade que outros. É normal que, neste tipo de jogos, temos de estar na plenitude das nossas faculdades. Não podemos errar nem errar em nada, porque é fatífico contra jogadores desta qualidade. Basta não estamos concentrados a 100%. Mas hoje em dia é muito mais fácil preparar um jogador para isto, em comparação com há 20 ou 30 anos.

Porque há mais informação disponível?
Também. E porque temos muito scouting e muito apoio. Quando cheguei ao Sporting, não havia uma pessoa que me aconselhasse em termos de comunicação ou do que fosse para suportar a pressão, em termos psicológicos. Hoje há muitos apoios nesse sentido e hoje um jogador chega muito mais preparado a um jogo destes. Para lidar com os media e com a pressão, por exemplo. Os clubes de primeira liga já têm todo o tipo de apoio que, antes, não existia. E mesmo a cultura dos jogadores é diferente. Têm mais formação académica, preocupam-se mais com a alimentação, com o descanso e com a preparação para o jogo.

O pior erro que o Sporting pode cometer, portanto, é respeitar demasiado o Real Madrid?
Tem é que jogar à imagem do Sporting, que é um clube grande. O Real Madrid pode ter 10 ou 11 Liga dos Campeões, mas o Sporting já mostrou que, nestas alturas, consegue discutir o jogo de forma destemida e corajosa. Sempre com respeito, claro, mas com estratégia e condição.