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“Recebo €386 mensais. Não é suficiente para viver”

Aos quatro anos teve uma meningite que lhe deixou sequelas. Momentaneamente perdeu a memória, a fala e o andar. Foi recuperando aos poucos, mas a audição, a visão e a sua capacidade intelectual ficaram para sempre limitados. Com seis anos a mãe inscreve-o no atletismo e Lenine Cunha apaixonou-se pela modalidade. Hoje é conhecido como o atleta mais medalhado do mundo. Há quatro anos, nos Jogos Paralímpicos de Londres alcançou a medalha de bronze no salto em comprimento, a mesma prova onde, há uma semana, no Rio, não foi além do 6º lugar, deixando-o lavado em lágrimas. Mas Lenine promete não desistir e já pensa nos Jogos de Tóquio 2020, apesar dos apoios continuarem a ser escassos.

Alexandra Simões de Abreu

Scott Heavey

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Sendo um atleta que já somou 183 medalhas internacionais porque sentiu necessidade de pedir desculpa ao ter ficado em 6º lugar nos Jogos Paralímpicos (JP)? Sou muito exigente comigo e senti que tinha desiludido todos os portugueses e todas as pessoas que estão comigo. Por isso fiz o vídeo que publiquei no Facebook, a pedir desculpa a todas as pessoas que me apoiam, a minha família, o meu treinador de há 17 anos (o Eng.º Costa Pereira), o meu agente (Daniel Alves de Oliveira), a todos os meus patrocinadores e todas as pessoas que admiram o meu percurso e que olham para mim como uma fonte inspiração.

Que razões encontra para não ter conseguido um melhor lugar? A lesão no joelho no Europeu, em Grosseto, Itália, que me impossibilitou de treinar intensamente durante quase dois meses teve a sua quota-parte de responsabilidade. Mas não quero que as pessoas pensem que estou a utilizar a lesão como desculpa. De todo, limitou-me mas eu lutei com todas as minhas forças, as que tinha e as que não tinha, infelizmente não foi suficiente. Para terem noção, na mesma prova o recorde do mundo foi batido três vezes, só aí podem ver o nível competitivo. A minha melhor marca é de 7,16m, se a tivesse igualado, teria dado para medalha de prata, mas infelizmente só consegui fazer a minha melhor marca do ano, com 6,84m. Há que levantar a cabeça e começar já a treinar forte para a próxima época desportiva e para estar em Tóquio 2020.

A morte da sua mãe, no ano passado também pesou? Pesou muito. Sinto muito a falta dela, sobretudo da presença física dela. Sinto falta de tudo mesmo, dos conselhos, das brincadeira e mesmo quando me “ralhava”… sinto falta dessas pequenas coisas que para mim tinham um significado enorme.

Deu a entender que estes seriam os últimos JP em que podia lutar pelas medalhas. Mas pensa ir a Toquio 2020. Sim, dei a entender que aqui no Rio2016 seriam os meus últimos JP onde poderia lutar por uma medalha com base num indicador, a idade. Como sabem tenho 33 anos e em Tóquio 2020 até poderei estar presente mas com 37 anos será muito difícil lutar por uma medalha. Para um saltador a idade influencia a sua performance desportiva.

Olhando para a participação portuguesa nestes JP, contava que fossem alcançadas mais medalhas? Quem veio ao Rio veio por mérito próprio e teve que lutar muito para estar aqui. O nível competitivo está muito alto, os outros países estão a apostar muito forte no desporto adaptado. Treinamos imenso só que não nos podem exigir medalhas porque nós, os atletas paraolímpicos, não somos “profissionais”. Somos considerados profissionais, pelos organismos que tutelam o desporto, mas nem o deveríamos ser, não com o ordenado que recebemos.

Qual o valor da bolsa que recebe do Estado? 386€ mensais. Não é suficiente para viver, nem para fazer uma preparação conveniente para os JP. São necessários vários milhares de euros anuais para que um atleta possa treinar, estagiar, competir, mas acima de tudo viver. Já tentei arranjar trabalho, mas quando digo que sou atleta de competição as portas fecham-se de imediato, porque isso é sinónimo de que tenho que me ausentar do meu posto de trabalho para treinos, para estágios, para competições, logo as empresas pensam que vão ter prejuízo.

Quando vai às grandes competições sente que os atletas de outros países têm mais apoios? Os países que apoiam os paraolímpicos são os mesmos que apoiam os olímpicos, mas veem-se muitos países mais pobres que o nosso a apoiar muito mais os seus atletas, a nível monetário, de infraestruturas desportivas, ginásios, fisioterapia, disponibilidade dos treinadores, apoio psicológico... e sem dúvida isso contribui muito para o sucesso dos atletas. Basta ver o Top 10 de países no ranking do “medalheiro” aqui nos JP e vê-se quais os que apostam e investem muito no desporto adaptado e nos seus atletas paraolímpicos.

Mas sente que, a nível do Estado, há um esforço de inclusão ou nem por isso? Eu sinto que existe um esforço, pode é não haver dinheiro, porque as bolsas aumentaram para o ciclo paralímpico, mas não aumentaram consideravelmente e com o dinheiro das bolsas um atleta paraolímpico não consegue viver só disto. Ninguém consegue viver com 518€ ou 386€ por mês, que é o meu caso, e acho que para o próximo ciclo tem de haver uma revisão para aumentarem o valor mensal das bolsas.

Acha que as marcas ainda têm preconceitos em apoiar atletas com deficiência? Não me posso queixar nesse aspeto, os meus patrocinadores têm sido incansáveis comigo. Contudo, acho que sim, ainda existe um pouco de dificuldade em apoiar um atleta com deficiência porque as empresas querem retorno do investimento e grande parte dos paraolímpicos têm pouca projeção mediática.

Mantem o sonho de atingir as 200 medalhas? Quando pensa atingir esse objetivo? Esse é o meu grande objetivo, chegar às 200 medalhas internacionais. Se nenhuma lesão grave me afetar, muito provavelmente em 2018 consigo atingi-lo.

Como tem a certeza de que é o atleta mais medalahdo do mundo, tem algo que o comprove? As 183 medalhas internacionais que tenho estão todas homologadas por organismos internacionais, credíveis e independentes. Por isso atribuem-me o título de Atleta Mais Medalhado do Mundo.

Onde estão expostas as suas medalhas? Este ano, o meu agente foi contactado por uma produtora de filmes a Garage, de Lisboa, que queria fazer uma curta-metragem sobre a minha história. Para gravarmos essa curta, que se chama só “Lenine”, um dos cenários tinha que ser com todas as minhas medalhas, então criei no meu apartamento um espaço na parede, de um dos quartos, onde afixei todas as 183 medalhas internacionais que já conquistei, divididas por anos. Ficou muito bonito e ver aquela parede completamente preenchida enche-me de orgulho todos os dias.

Tem um clube com o seu nome. Quantos atletas apoia neste momento? Criei e fundei o meu próprio clube desportivo, o Sport Clube Lenine Cunha o ano passado. Não o fiz sozinho, o meu agente Daniel Alves de Oliveira (que é especialista em Marketing e Gestão do Desporto), tem tido um papel muito importante na minha vida e na minha carreira, sem a sua ajuda eu não tinha, por exemplo, capacidade de criar o clube, pois de burocracia não percebo nada. Passei a representar o Sport Clube Lenine Cunha a partir da época desportiva de 2015/2016, pelo qual já conquistei a primeira medalha de ouro no Campeonato de Portugal de Pista Coberta, em Braga. Quando terminar a carreira tenciono seguir a via do ensino, ou seja, treinar jovens atletas e motivá-los a prática de uma atividade desportiva, seja ela o atletismo, ou outra. De igual forma, o Sport Clube Lenine Cunha tem as portas abertas a todos que pretendam praticar desporto, portadores ou não de qualquer deficiência. Na época passada só estiveram inscritos dois atletas, eu e a Cláudia Santos, também uma atleta paraolímpica e uma esperança para o futuro.

Foi realizada um ação de crowdfunding para o ajudar na preparação para os JP e na criação do seu clube. Mas logo a seguir o Lenine colocou nas redes socoais uma foto sua em Nova Iorque, o que criou alguma polémica, tendo sido acusado de estar a usar o dinheiro para ferias. O que aconteceu? O que aconteceu foi que o meu agente recebeu uma chamada no início do presente ano de uma farmacêutica, que lhe falou de uma campanha mundial de sensibilização para a meningite - #WinForMeningitis -, e em como gostariam que eu fosse o “rosto” português para a campanha mundial. Aceitei. A campanha envolvia uma sessão fotográfica em Nova Iorque com a conceituada fotógrafa australiana Anne Geddes. Contudo, ao abrigo do sigilo profissional e do contrato de confidencialidade que celebramos não poderia divulgar o motivo da minha ida a Nova Iorque, pelo que coloquei apenas uma publicação na minha página oficial do Facebook a dizer algo genérico: “Vou a Nova Iorque tirar umas fotos e já venho… Novidades muito em breve.” O que é certo, é que já estávamos em Nova Iorque, no segundo dia da nossa estadia e o meu agente acordou às 4h da madrugada com uma chamada de Portugal a dar-lhe conta de que andavam a denegrir o meu nome a dizer que tinha andado a pedir dinheiro no crowdfunding para ir passar férias. Daí ter efetuado um comunicado a explicar que estávamos em Nova Iorque em trabalho e que era uma empresa, não revelando qual, a suportar todas as nossas despesas. Não gastamos um euro ou um dólar que fosse com a nossa ida e estadia em Nova Iorque. Só agora, em setembro, é que tivemos luz verde da framaceutica, a GSK, para divulgarmos o que fomos fazer a Nova Iorque. Foi um prazer e um privilégio ter sido o único português a participar nesta campanha e as fotografias vão ser publicadas na sede das Nações Unidas em Nova Iorque durante o presente mês de setembro.

O dinheiro do crowdfunding obviamente gasta-se, como vai fazer para manter o clube? Que apoios tem? O clube já conta com três patrocinadores que nos tem apoiado incondicionalmente, mas a sustentabilidade do clube irá passar pela angariação de sócios e atletas. Já tenho agendado para o mês de outubro um conjunto de reuniões, primeiro nas escolas do concelho de Vila Nova de Gaia e depois em todo o distrito do Porto para sensibilizar os jovens para a prática desportiva, com um enfoque especial nas crianças portadores de uma deficiência. E temos vários dossiers em cima da mesa de diversas empresas do concelho de Vila Nova de Gaia que acreditam no projeto e que nos querem apoiar em prol do desporto.

O seu nome próprio tem origem no facto dos seus pais serem comunistas. Lidou bem com isso? O meu nome vem do Lenin, da URSS, e passei um bocadinho mal na escola pois tinha dois professores que não gostavam de mim por causa do nome. Tive problemas quando fui batizado porque o padre não me queria batizar. No registo civil também não queriam fazer o meu registo, tudo se resolveu colocando o “e” no fim. Mas apesar destas referências familiares, não, não sou comunista!

Fala sempre na sua mãe, mas nunca do seu pai. Tem uma boa relação com ele? O meu pai está reformado, tenho uma ótima relação com ele. Mas falo mais da minha mãe porque tinha uma relação mais próxima com ela e foi a iniciativa dela que me colocou no desporto. Ms estive sempre com o meu pai, é a melhor pessoa do mundo e tem sofrido muito nos últimos anos a perda da minha mãe e da minha irmã (há seis anos). Era a irmã do meio, tenho mais uma.

Vive sozinho? Alguma vez pensou em casar e ter filhos? Não vivo sozinho. Tenho um apartamento alugado, em Vila Nova de Gaia, com um amigo e dividimos todas as despesas. Mesmo assim, para mim é um sufoco, pois todos os meses tenho que pensar como vou pagar a minha parte das despesas. Casar e ter filhos é um dos meus objetivos de vida mas ainda não se proporcionou. Vamos ver como correm os próximos tempos… pode ser que tenham uma surpresa (risos).

Há alguma coisa capaz de o fazer desistir? Não, nem pensar, não vejo nada que me possa fazer desistir. Só se fosse uma lesão muito grave que me impossibilitasse de competir no atletismo. Mas espero que isso não aconteça!

Qual é o seu lema de vida? “Nada é Impossível!”. Quando me surge uma adversidade na vida eu penso sempre nesta frase para me inspirar, motivar e acreditar que hoje posso não ter conseguido alcançar o que pretendia, mas amanhã é um novo dia e que nada, mas mesmo nada, é impossível. Só tenho que acreditar em mim.

Quando pensa no futuro, como se imagina? Espero vir a ter um futuro brilhante no atletismo, como treinador. Aliás essa foi uma das razões pelas quais criamos o Sport Clube Lenine Cunha.

Há algum atleta paralímpico de quem seja mais amigo? Sem dúvida a Graça Fernandes, porque somos colegas de treino há 17 anos e essa amizade surgiu precisamente quando entrei no desporto adaptado.

Alguma vez pensou em emigrar? Não, nunca me passou pela cabeça. Tenho muita honra e orgulho em ser português e vestir esta camisola. E amo muito o meu país para o abandonar!

Honestamente, sente-se um atleta deficiente? Percebo a questão e digo-lhe que sou um ser humano como outro qualquer, apenas tenho uma diferença, que me diferencia um pouco dos outros, a nível intelectual. E essa deficiência está comprovada e atestada por organismos nacionais e internacionais.

Se não fosse a doença que o afetou aos quatro anos provavelmente não seria atleta. Se não tivesse optado pelo desporto, o que gostaria de ter sido? Vejo a meningite de duas perspetivas diferentes: um terrível acontecimento e uma feliz coincidência. Se não tivesse sido a meningite, a minha mãe muito dificilmente me teria colocado no desporto, para me desenvolver intelectualmente, pois eu estava muito atrasado comparativamente aos outros meninos da minha idade. Não sei o que teria sido, mas neste momento o atletismo é a minha vida.

Que atleta mais admira? O Cristiano Ronaldo. Ele tem o que tem e é o melhor do mundo porque treina imenso, treina mesmo muito, e treina para os objetivos que tem. Admiro-o muito por causa disso e temos isso em comum, em aplicarmo-nos e empenharmo-nos naquilo que queremos mesmo muito.

Acredita em Deus, tem fé? Sim tenho alguma fé, existiram alguns tempos em que deixei de acreditar, por razões óbvias. Mas tenho a certeza que tudo acontece por alguma razão.