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“Cada vez mais os pais têm gosto que as suas filhas joguem futebol”

A seleção feminina de futebol qualificou-se para o 'play-off' de apuramento para o Europeu de 2017, a disputar na Holanda. Um feito inédito de uma equipa que quer continuar a fazer história.

Alexandra Simões de Abreu

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Esteve sempre confiante que a seleção iria atingir este play-off? Sabíamos da dificuldade do que íamos encontrar tendo em consideração no sorteio que éramos uma equipa de pote 4. Ou seja, íamos obrigatoriamente apanhar três equipas acima de nós no ranking. E o feito é ainda mais saboroso por causa disso mesmo. Acabámos de eliminar duas equipas acima de nós no ranking e num apuramento curto com apenas oito jogos, onde a margem de erro era muito pouca. Internamente sempre fomos sentindo que a equipa estava a crescer.

Desde quando há essa evolução. Aconteceu com a sua entrada enquanto selecionador? Não, a minha entrada é a continuidade do crescimento, só. Não podemos esquecer o que foi feito anteriormente. Antes de eu chegar já tínhamos ido a uma fase final do Campeonato da Europa de sub19, com algumas meninas que estão agora aqui na seleção A; já tínhamos ido a uma fase final do Campeonato da Europa de sub17. Temos um percurso de alguns anos de seleção A. A evolução não foi só com a entrada do Francisco Neto; a evolução e o trabalho tem sido feito a longo prazo e de uma forma sustentada. Eu estou a dar continuidade àquilo que é o projeto da FPF de desenvolvimento do futebol feminino. Há também uma grande aposta dos clubes na melhoria das condições das nossas atletas e isso tudo faz com que o futebol feminino evolua.

Contribuiu também o facto de haver mais praticantes de futebol feminino? Sem dúvida. Tantos os clubes novos como os mais antigos, cada vez mais conseguem dar melhores condições às jogadoras, cada vez mais há mais treinadores a apostarem em fazer carreira também no futebol feminino. Tudo isso tem contribuído.

Quando acontece essa viragem? Não lhe consigo dizer. Nestes últimos tempos a aplicação e a implementação do plano estratégico de desenvolvimento do futebol feminino que foi algo que impulsionou imenso a modalidade em Portugal. É um projeto que está pensado até 2020, que tem muitos programas para desenvolver. Depois não podemos esquecer todo o passado e tudo o que tanto treinadores como jogadoras foram deixando. Deixaram sementes que agora estão a crescer. Depois, como é lógico, a maior visibilidade e a maior abertura de mentalidades para que as meninas comecem a jogar futebol (cada vez mais os pais têm gosto que as suas filhas joguem futebol), faz com que apareçam mais praticantes e mais novas, o que leva a que adquiram cada vez mais experiências futebolísticas e cheguem a este patamar já com uma bagagem muito alargada.

Mas para este sucesso também contribui o facto de haver muitas jogadoras a jogar no estrangeiro, ou não? Sim. Há um grupo alargado de jogadoras a competir a nível internacional. Mas a verdade é que nesta convocatória até tínhamos mais jogadoras de clubes portugueses do que estrangeiros (11 de Portugal e 9 do estrangeiro). Independentemente de ser no estrangeiro ou em Portugal, cada vez mais os clubes proporcionam boas condições às atletas. E os clubes portugueses também estão preocupados com isso, criando boas condições de desenvolvimento do seu futebol feminino, dando se calhar as mesmas condições que dão no masculino e isso faz com que as jogadoras sejam cada vez mais evoluídas.

Mas é um fenómeno recente. Só este ano vimos clubes como o Sporting ou o Braga a apostarem em equipas femininas. Sim, mas não nos podemos esquecer dos clubes que já cá estavam.Temos na seleção atletas do Clube Futebol Benfica, do Valadares, e são clubes que sempre se preocuparam em dar boas condições. A grande mais valia para as jogadoras é que tenham um nível competitivo exigente que as faça evoluir e que consigam ser felizes a fazer aquilo que mais gostam. Não nos interessa ter uma jogadora no estrangeiro num nível competitivo altíssimo, se não for feliz, por estar longe da familia, por exemplo. Há um sem número de condições que é preciso garantir, para que sejam felizes.

Qual a importância da Cláudia Neto na seleção? Ela é uma espécie de CR7 no feminino? A Cláudia Neto é uma mais das 20 jogadoras e ela sabe disso. Cada uma tem o seu papel e a sua missão. E isso é que faz com que a equipa evolua. Dentro do nosso espírito e organização coletiva, quanto mais coletivos formos, as referências individuais irão surgir. Neste caso acabamos por falar da Cláudia Neto porque em dois jogos faz quatro golos, mas não existiriam os quatro golos se não tivesse uma equipa toda a poder ajudar e grandes referências de outras jogadoras que fizeram jogos de altíssimo nível também, não com tanta visibilidade para os media, mas para nós com uma missão fantástica nos momentos ofensivos e defensivos. Para nós todas as jogadoras são importantes, até mesmo as jogadoras que dão estabilidade à equipa e se calhar até nem foram opção ou até nem podiam equipar e estavam na bancada.

De qualquer forma o facto da Cláudia ter passado por Espanha e estar agora na Suécia, é uma mais valia. É sempre uma mais valia porque ao passar por esses níveis competitivos vai adquirindo ela própria uma experiência internacional em contextos de dificuldades que a faz mais apta para algumas situações.

Que conta nestes momentos decisivos. Sim, aporta uma mais valia à equipa. Mas essa mais valia é dentro de um contexto e de princípios coletivos que estabelecemos. Porque de nada valia termos uma super Cláudia Neto se o resto da equipa não estivesse com um contexto de organização que permitisse que ela metesse em prática todo o seu futebol. Quem teve oportunidade de ver os dois jogos, viu que não foi só a Cláudia Neto a brilhar. Felizmente tivemos nestes 180 minutos muitas meninas ao mais alto nível, com exibições brilhantes.

No play off a seleção vai defrontar a Roménia. Quais são os pontos fortes da equipa romena? Já não jogamos com a Roménia há mais de três anos. Curiosamente é um dos adversários que temos convidado para fazer a preparação em junho. Vamos portanto jogar com elas em junho. Mas neste momento o que sabemos é que é uma equipa bastante experiente, muito física, com atletas a jogar fora do campeonato romeno e que fez um apuramento muito bom. Apesar de ser uma equipa de pote 3 conseguiu eliminar uma equipa de pote 2, a Ucrânia. Sabemos que em casa são fortíssimas e teremos de nos preparar muito bem. Só um Portugal ao mais alto nível nos 180m é que conseguirá garantir o apuramento.

E quais são os pontos fortes da nossa seleção? Neste momento é a paixão que temos pelo jogo. Aquilo que conseguimos aportar e a vontade com que queremos encarar os desafios que são propostos e que nos propomos. Só uma equipa com esta capacidade consegue estar a perder 2-0 contra a Finlândia e dar a volta. Este espírito de sacrifício, esta união, este querer vencer constantemente faz com que consigamos estar ao mais alto nível a batermo-nos com as equipas de referência mundial. Conseguimos construir um grupo ambicioso. Tecnicamente e taticamente sabíamos que as jogadoras são evoluídas, e agora temos um pensamento comum, conseguimos que toda a gente pense no mesmo sentido, que é o de querer ganhar cada vez mais.

O que esta seleção mudou consigo, onde está o dedo do Francisco Neto? Não é o dedo do Francisco Neto, mas de um conjunto de treinadores que pensa e reflete o futebol feminino nas seleções.

Mas o que trouxe o Francisco de novo? O que esta equipa técnica procurou fazer, a grande preocupação, foi fazer com que as jogadoras acreditassem nelas próprias, na qualidade delas. E que, como grupo e com organização conseguiríamos estar ao nível das equipas de referência mundial. Para isso tivemos como estratégia ter o máximo de competição internacional, com elevada exigência. Nos últimos três anos, jogamos com 15 das 25 equipas do top mundial. Ou seja, pusemos as nossas jogadoras a um nível competitivo muito elevado, fazendo com que elas em cada momento tivessem que se superar para poder estar ao mais alto nível. Sabendo sempre que poderíamos não ter a nivel de resultados nessa preparação aquilo que desejávamos, mas que quando chegássemos à parte da competição íamos estar mais bem preparados. Felizmente foi uma estratégia que até ao momento, na minha opinião, foi de sucesso.

Esteve a treinar os sub21 de Goa. Há muitas diferenças entre treinar homens e mulheres? Não. Dá-me igual gosto estar a treinar com as mulheres ou com homens. Há algumas diferenças. As experiências anteriores a nível competitivo que o feminino ainda não tem. Os jogadores começam com sete, oito, nove anos a praticar futebol, no feminino isso não existia, iam mais tarde e o nível competitivo onde estavam inseridas era mais baixo que os rapazes. Quando chega a uma seleção, o passado competitivo de uma jogadora não é igual ao masculino e isso a nível internacional costumam criar algumas dificuldades. Só o ano passado é que a FPF teve pela primeira vez um campeonato de formação, com as juniores no futebol de 9, enquanto nos rapazes temos competição a começar nos sub10. As meninas têm que estar inseridas no contexto dos rapazes e arranjar o espaço delas. Este é o projeto do plano de desenvolvimento feminino português, que passa por criar também as nossas camadas jovens para poder aportar às nossas jogadoras durante a formação toda a experiência e contexto competitivo de que necessitam.

Até ao play off o que é preciso trabalhar? Nos 12 pontos possíveis fizemos 10 e a equipa adquiriu uma cultura de vitória. Queremos enraizar ainda mais isso e jogar com as emoções positivas que as jogadoras estão a sentir. Mas acima de tudo o mais importante é que as jogadoras recuperem. Foram dois jogos muito exigentes a nível fisico, temos algumas jogadoras com lesões e a preocupação é que se apresentem nas melhores condições possíveis no dia 17, no inicio do apuramento, para podermos estar ao mais alto nível no dia 21.

Acredita que vamos estar na Holanda em 2017? Em cinco equipas éramos a equipa que tinhamos o segundo pior ranking do apuramento. Estamos a falar de uma Irlanda, de uma Finlândia e de uma Espanha, com outro peso e experiência a nível europeu. Conseguimos concretizar o objetivo fruto de muito trabalho, de muita ambição e de muita humildade que as jogadoras também tiveram que ter, porque há momentos na época que não foram fáceis. Expusemos por exemplo as jogadoras no Mundialito a jogos muito competitivos num curto espaço de tempo contra equipas muito fortes, como o Brasil ou Dinamarca. A nível do resultados não foram o que pretendíamos. Mas a nível do processo, sentíamos que estávamos mais próximos dessas equipas. O processo é lento, é gradual, também não conseguimos ter as jogadores o tempo que gostaríamos de ter, sempre que reunimos é para jogar e isso não nos permite fazer o trabalho todo da forma tão rápida como gostaríamos.

Insisto. Acredita que vamos estar na Holanda em 2017? Acredito que vamos fazer tudo e que iremos lá estar. É essa a nossa grande ambição e é para isso que iremos trabalhar. Podemos e queremos lá estar.

O que ainda falta fazer no futebol feminino português? Finalizar ou dar continuidade ao plano estratégico. O aumento do número de jogadoras é fundamental. Esse para mim é o grande passo. Não podemos esquecer que Portugal tem 2500 praticantes e acabamos de eliminar a Finlândia que tem cerca de 40 mil.