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Ricardinho: “Sempre desejei ser mais alto. Quando tive a minha primeira desilusão no futebol, pensei muito nisso”

O melhor jogador do mundo é português e Portugal joga à meia-noite contra o Azerbaijão no Mundial de futsal, que se disputa na Colômbia. Se a seleção nacional ganhar, chega às meias-finais e fica a um passo do sonho deste futebolista que, aos 31 anos, garante ainda ter fintas e truques dentro dele que ninguém viu. É esperar para ver

Miguel Henriques, na Colômbia

LUIS ROBAYO

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Bom dia, Ricardinho. Dizem que o teu feitio depende de como acordas. Hoje é um bom dia para esta entrevista? Começa bem esta entrevista (risos). Hoje é um dia bom. Sou realmente assim, sou uma pessoa muito transparente e acho que isso tem sido muito bom, até agora. É muito fácil lidar comigo, porque dá para perceber quando estou bem disposto, quando estou mal disposto, quando quero falar ou não quero falar. Hoje é um dia normal, estou bem disposto e com muita vontade que comece o próximo jogo. Temos de ser transparentes em tudo e, desde o início, sempre fui assim. No meio da seleção, que para mim é uma família, é importante ter noção do feitio de cada um. São quase 40 dias: imagina o que é acordar todos os dias e ver sempre as mesmas caras (risos).

Era essa uma das perguntas que eu tinha para te fazer. Como é acordar todos os dias e ver as mesmas caras desde 14 de agosto? Olha, uma coisa a seleção faz bem e eu gosto: em cada estágio vão mudando os parceiros de quarto. Acho que é bom, vais conhecendo os feitios de cada um porque passas bastantes dias com estas pessoas. Tivemos em Lisboa, Porto, Rio Maior e foi sempre mudando. Isso é ótimo, porque te vais adaptando a outras maneiras de ser e perfis. Temos até uma curiosidade: nos almoços e jantares mudamos sempre de posição na mesa, para não se criarem grupos. Acontecia muitas vezes antes, e era mau, formarvam-se grupinhos de 4, 5 pessoas... Eram sempre os mesmos. Agora é diferente. Vais criando amizade com todos, conhecendo coisas que não conhecias de outros jogadores e isso é bom. O mais importante é o respeito.

Apesar desse respeito, de quem é que já estás farto? Estou farto de mim mesmo (risos). Estou farto de, sinceramente, não haver jogos todos os dias. Ter de esperar três dias pelo próximo jogo mata-nos. Estamos com um grupo fantástico, falamos várias vezes da palavra família, mas eu prefiro equipa. Estamos com uma equipa fenomenal em todos os aspetos. Têm sido dias fantásticos e espero que seja assim até ao final, e o que o final seja dia 2 de outubro [dia após a final do mundial de futsal].

Tens 31 anos, cumpres o teu terceiro mundial e nesta altura és melhor marcador do torneio, com 11 golos. Sendo tu da região do Porto, é legítima a comparação com o vinho? Quanto mais velho, melhor? (risos) Isso era bom, seria fantástico que assim fosse. Estou numa boa fase, sinto-me bem, estou de bem com a vida. Óbvio que me custa, ainda para mais hoje [sábado] que é um dia especial porque a minha filha faz anos. Já é a segunda vez que me acontece… Felizmente estou aqui, a representar a seleção e a minha família. Hoje é um dia em que as emoções vêm ao de cima, porque sentes saudades. Mas estou a preparar o futuro dela e o meu. Estou a representar a minha seleção, na melhor competição do mundo, estou numa fase boa, estamos nos quartos-de-final e podemos fazer história. Espero que tudo isto se una no final e que seja uma história linda para depois poder contar à [filha] Riana .

Essa ausência compensa-se com que prenda? Não se compensa, não tem como… Não há nenhum troféu, nenhum golo, nenhuma finta, nem nenhum momento em que tu consigas compensar a ausência da tua família. Já não me apetece falar muito sobre este tema porque se não começam a vir-me as lágrimas… Temos de saber para aquilo que vamos, e eu vim para aqui. Sabia que nos ia tocar estar aqui nesta altura, porque acreditámos desde o início que era possível e que, por isso, não iria estar com ela. Não estou com ela, estou com a minha segunda família, que é a seleção, e só quero que, no final, tudo corra bem. Porque é sempre bom termos histórias para contar aos nossos filhos.

Voltando ao futsal. Como é que é ser um “trintão”, no meio de tantos jovens? Eu quando vim para a seleção isso era exatamente o contrário. Tinha 17 anos e estava no meio de grandes estrelas: André Lima, Arnaldo, Toni, Gonçalo Alves. Eles já eram experientes e eu sentia-me um ‘menininho’ que queria ser acarinhado por todos, que queria sentir-se o mais rapidamente possível adaptado. É isso que me toca a mim fazer agora. Temos jogadores muitos jovens: Miguel Ângelo, André Coelho, Fábio Cecílio. Eu acho que nos cabe a nós integrá-los, mostrar que são importantes e eles próprios têm feito isso em cada jogo. Cada um tem direito a ter o seu momento. O momento Cardinal aparece, o momento Ricardinho aparece, o momento João Matos, Cary… Todos temos que saber daquilo que somos capazes de fazer para ajudar a nossa seleção. Tivemos bastantes dias para os integrar, e isso aconteceu. Temos um grupo fantástico e espero que isso continue.

E tens pedalada para eles? Pelo menos ainda sinto isso (risos). Mas também te vou dizer uma coisa, eu não vou andar aqui… Eu não vou deixar nunca que seja o futsal a abandonar-me, vou ser eu que vai abandonar o futsal. E no dia em que sentir que não estou preparado, nem tenho capacidade para cá andar, vou ser o primeiro a dar esse passo em frente. Por mais que me custe, porque é a decisão mais difícil para qualquer jogador. Vou ser eu a facilitar essa decisão a todo um staff. Mas, neste momento, sinto-me em perfeitas condições para ajudar a seleção, tenho-o demonstrado. Por mais que seja o melhor do mundo, no momento, tenho de o provar todos dias porque as pessoas nunca estão satisfeitas e eu também não.

LUIS ROBAYO

Quantas vezes já te perguntaram pelo Falcão? (Suspiro) Estou farto que me perguntem pelo Falcão [jogador brasileiro de futsal]. É o meu ídolo, as pessoas já sabem, tenho o cuidado de o dizer sempre, mostro respeito, mas parece que nunca é suficiente. As pessoas têm sempre que tocar neste tema. Até se falou demais no tema Falcão e acho que isso o prejudicou um pouco neste mundial. Todos falavam dos recordes dele, e esqueceu-se o coletivo que sempre foi o forte do Brasil.

Tu ainda cá estás, ao contrário dele. Foi a passagem definitiva do cetro. Olha… ele teve o cuidado de me mandar uma mensagem quando estava de partida a desejar-nos muita sorte e a dizer que Portugal tinha todas as condições para ganhar, que nos via mais fortes, mais concentrados. E também teve o cuidado de me dizer que esperava que eu fosse a continuidade dele, e do futsal espetáculo. Sinceramente, o que eu quero é conseguir conquistar títulos. Títulos individuais já ganhei muitos e quero continuar a ganhar porque sou ambicioso, mas é o meu segundo plano. O meu primeiro é conseguir conquistar algo pela Seleção. Sei que temos uma oportunidade de ouro para chegar mais longe. Espero que consigamos estar focados e preparados para o que se avizinha porque não é fácil. Se o Brasil e a Itália perderam, é porque os outros tiveram qualidade.

E isso surpreendeu-te? O Irão não me surpreendeu. Eu acho que o Brasil ainda não tinha apanhado nenhuma seleção com esta qualidade e mobilidade. A Itália [eliminada pelo Egito nos oitavos de final] surpreendeu-me um pouco porque eu acho que os italianos são mais frios, sabem levar o jogo para uma certa fase em que podem decidir e, desta vez, não lhes correu bem.

LUIS ROBAYO

Ser o melhor do mundo, nesta altura, torna-te um alvo mais fácil para os elogios ou para as críticas? Para tudo, é muito fácil. O primeiro caso muito claro: quando chegámos todos tinham a expectativa de que o Ricardinho ia fazer o melhor jogo da sua vida contra a Colômbia, mas não pensaram no facto de ser uma pré-temporada atípica, de ser o nosso primeiro jogo, contra a equipa da casa, e de termos seis, sete jogadores novos no mundial. Só pensam: ‘É o melhor, tem que jogar melhor, marcar e fazer…’ Nesse mesmo dia fui alvo de várias críticas. ‘Afinal, não é assim tão bom’. Mas, depois, marca-se seis golos e já se é o melhor outra vez. É um pau de dois bicos. É mais fácil ser alvo quando és o melhor porque tens de o demonstrar sempre. Eu, se não fizer um cabrito, dizem que não estou bem; se não fizer um golo, então não ajudei a seleção. Ninguém pensa no Ricardinho a defender, a jogar 30 minutos por jogo… Tenho de tentar gerir tudo isso emocionalmente, ajudar a seleção, vencer e, no final, sair com aquele sorriso, sempre, porque, quer ganhe quer perca, fico sempre uma hora, uma hora e meia a tirar fotografias, e a falar com as pessoas.

O último Europeu ficou marcado por um golo que apontaste à Sérvia, e que correu mundo. Se eu te desafiasse agora, conseguias repeti-lo? Olha… Pegando nas palavras de um comentador do futsal, o Pedro Martins. Uma vez, depois de um golo que eu marquei no Japão, ele disse: ‘Um momento de rara inspiração’. Mas começam a ser vários, não é? São momentos de inspiração que saem no momento. Se me pedires para repetir, pode não sair com a mesma perfeição, mas eu sei fazer exatamente o mesmo gesto técnico, esperar que ataques com a mesma perna, esperar que estejas numa determinada posição. Tudo depende do momento. São vários detalhes que levam a uma conclusão. Eu sou capaz de fazer outras coisas e estou a guardar algo bonito para este mundial. Não sei se vou ter oportunidade, mas espero que faça mais golos. Foi um gesto técnico fantástico, mas mesmo com 31 anos ainda tenho muitas outras coisas guardadas.

Onde te inspiras agora para fazer as tuas fintas? Nós estamos sempre a aprender, mas neste momento já não há muito que ver ou aprender. É uma questão de adaptares e colocares em prática essas fintas e magia nos momentos certos. Se fizer isso lá atrás, o treinador vai estar a sofrer. Se o fizer lá na frente, o treinador vai estar mais tranquilo. Com a experiência que tenho, vou fazendo nas zonas certas, refinando as fintas e adaptando-as ao meu pé esquerdo porque o que vejo na maioria das vezes é com o direito. Não tenho vergonha em aprender com o melhor, com o menos bom, ou com alguém do basquetebol, hóquei, o importante é que ajude a modalidade a crescer, e que as pessoas gostem.

LUIS ROBAYO

Tens 1,65cm. Em que ocasiões já desejaste ser mais alto? Sempre desejei ser mais alto. Principalmente quando tive a minha desilusão no futebol, pensei muito nisso. No futsal começaram a provar-me que ser baixinho, com um centro de gravidade baixo, era uma vantagem porque tinha mais facilidade em jogar futsal e tornar-me um craque. Depois vários jogadores provaram-me mais tarde o contrário como o Joel Queirós, Cardinal, jogadores top e que têm 1,80cm e 1,90cm. Na minha opinião, tens de te adaptar aquilo que tu és e ponto. Fui-me convencendo que não era menos que ninguém por causa da altura.

Portugal, Rússia, Japão, Espanha. Para onde gostarias de carimbar o passaporte a seguir? Não me falta carimbar para mais país nenhum. Em Espanha sinto-me perfeitamente em casa, na melhor equipa do mundo, e ainda nos falta conquistar alguns títulos no futuro. O que quero carimbar neste momento é aqui na Colômbia, algo que fique marcado para sempre e para a história de Portugal. Mas passo a passo.

No meio de tantas entrevistas que já deste, o que é nunca te perguntaram e tu gostavas de ter respondido? Várias coisas, várias coisas…Por exemplo, já estou um bocado, com todo o respeito que tenho por todos os internacionais que por aqui passaram, cansado, entre aspas, de sempre que jogamos um Mundia,l se falar do Mundial da Guatemala (Portugal conquistou o terceiro lugar em 2000). Queremos fazer história para passar um pouco….Acho que o passado não importa. Se eu próprio digo que o jogo anterior não conta, imagina quando se fala de há uns anos atrás. Temos de fazer uma história nova. Quando as pessoas me perguntam pelo passado, eu respondo educadamente que não me quero lembrar. Tenho muito respeito por esse Mundial, porque foi a melhor classificação de sempre, mas queremos fazer a nossa história. Estamos fartos também do facto de as pessoas banalizarem o nosso trabalho. Parece que tudo é fácil para eles, todos os nossos adversários são fáceis. Há outras questões a que gostava de responder, mas isso deixo para outra entrevista.

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