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“Sair do armário tornou-me melhor atleta e pessoa”

Provavelmente o nome John Fennel não lhe diz nada. A nós também não dizia. John é um atleta olímpico do Canadá, que esteve nos Jogos de Inverno, em Sochi 2014, na Russia, onde foi 27º no luge (trenó). Está hoje e amanhã em Portugal não para ensinar como se desce uma montanha de gelo, enfiado num trenó a mais de 140km/h, mas para falar de bullying. Porquê? Porque, aos 19 anos, este atleta com mais de 1,90m de altura decidiu deixar de esconder-se e de ter medo e assumiu a sua homossexualidade perante o mundo. E é sobre a necessidade de ser autêntico e a promoção da inclusão no desporto, que vai dar palestras em duas escolas secundárias e uma universidade, além de realizar um debate na ILGA. John Fennell tem hoje 21 anos, está a preparar a sua qualificação para os Jogos Olímpicos (JO) de PyeongChang, na Coreia do Sul, em 2018, e conta como foi sair do armário e como isso melhorou a sua performance desportiva.

Alexandra Simões de Abreu

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Quando decidiu assumir a sua homossexualidade e porquê? Depois dos Jogos Olimpicos de Sochi, na Rússia. Houve muita controvérsia durante esses JO por causa da comunidade LGBT. A Rússia é um país onde há muita homofobia, eu era muito novo, tinha 18 anos quando me qualifiquei e foi muito assustador ter de enfrentar todo aquele ambiente, sem apoio. Depois dos Jogos, percebi que não havia quem falasse muito deste assunto, por isso, no regresso ao Canadá, resolvi que tinha de assumir-me publicamente. Como atletas, somos um modelo para os outros e por isso temos a responsabilidade de falar sobre os direitos humanos – e os direitos que afetam todos.

Quando disse à sua familia que era gay? Precisamente nessa altura, tinha 18 anos. Eu saí do armário publicamente no dia em que fiz 19 anos. Nos três meses que separaram a vinda dos Jogos e o meu aniversário disse a toda a gente, incluindo aos meus pais.

Foi muito dificil a experiência em Sochi? Sem dúvida. A atmosfera em Sochi foi muito pesada para mim, não sei se era da minha cabeça ou se outros atletas sentiram o mesmo, mas eu sentia-me muito desconfortável e essas emoções negativas afetaram a minha performance, estava tenso, nervoso, sentia que não estava capaz de fazer a melhor prestação, nem sequer igualar prestações anteriores. Agora, à distancia, é engraçado ver os meus videos da altura e perceber como me tornei tão melhor atleta e pessoa.

Quem o encorajou a tomar a decisão? Basicamente, eu assumi-me porque não havia ninguém que falasse do assunto, da homossexualidade, dos direitos LGBT. Eu tinha apenas um modelo no Canadá, Mark Tewksbury. Ele foi campeão olimpico na decada de 90 e, entre ele e eu, não houve nenhum atleta masculino a assumir a sua homossexualidade publicamente. Senti que havia uma lacuna grande de liderança nesta matéria e que este assunto tinha de continuar a ser discutido. É um assunto muito importante e se levou um rapaz de 19 anos a falar do assunto isso mostra-o bem.

Juntou-se ao projeto OneTeam… Sim, no verão de 2015. Este projeto foi a forma de as equipas canadianas mostrarem o quanto inclusivas são. Elas desenvolveram um conjunto de recursos e arranjaram 25 embaixadores para espalhar a mensagem e mostrar que o desporto pode ser um bom modelo para uma mudança social.

Confessou que durante anos teve de fingir ser quem não é e atuou como um “macho man” para esconder-se. Fê-lo com medo de ser alvo de bullying? Tinha medo de como as pessoas podiam ver-me. Quando vives a tua vida com uma máscara, às vezes esqueces-te de quem és por baixo dela. Mas se estás a tentar ser o melhor que podes ser, tens de ser autentico para contigo próprio. Tive sempre medo do bullying, mas nunca fui alvo direto de bullying.

Quem foi a primeira pessoa a saber que é gay? Lembro-me de dizer ao capitão da minha equipa ainda durante os Jogos de Sochi. Deixei que todas as corridas terminassem, porque não queria distrair os meus colegas de equipa. Depois, contei-lhe, expliquei-lhe que me sentia mal, desconfortável, que não queria estar ali naqueles Jogos Olimpicos, com aquele ambiente, queria ir para casa.

Como é que ele reagiu? Apoiou-me imenso. Fiquei muito feliz com isso.

Mas ele foi o primeiro a saber, não contou a nenhum amigo ou familiar antes? Na realidade, a minha familia foi a última a saber! (risos). Disse à minha mãe no dia do aniversário dela, em março de 2014, o que foi um erro enorme, porque era o dia dela e acabou por ser todo sobre mim. Depois, cometi o erro de não contar pessoalmente a todos os familiares e alguns deles souberam pelas notícias, por isso tive alguns tios muito chateados (risos).

Quando disse à sua mãe, ela já estava à espera? Ela ficou surpreendida, porque passei tanto tempo a encobrir, mas não ficou chateada.

Nunca tinha desconfiado sequer? Falei com ela uns tempos depois de lhe contar e ela disse-me que, quando estava a passar por todo este processo, entre os meus 17 e 18 anos, percebeu que eu estava muito stressado e desconfortável, mas não sabia exatamente porquê. Só depois de lhe contar é que as coisas começaram a fazer mais sentido para ela.

Viveu sempre só com a sua mãe e irmão? Sim, os meus pais separaram-se, era eu pequeno, e vivi com a minha mãe e irmão em Carlgary, Alberta. O meu irmão David é um pouco mais velho e saiu de casa aos 17 anos para ir estudar para os EUA.

O seu pai, Dave Fennell, foi uma estrela de futebol americano no Canadá, jogou na liga profissional. Como é que ele reagiu à sua confidencia? Na realidade, ele sentiu muita compaixão. Eu cresci no meio do futebol, o meu irmão joga futebol, eu joguei futebol, o meu pai foi jogador profssional, e foi surpreendente a forma como ele me apoiou e como quis assegurar-se de que eu estou seguro e bem. Foi um momento muito bom perceber o quanto a minha familia gosta de mim e se preocupa comigo.

Além do futebol americano, também experimentou o basquetebol e o futebol de onze, mas não quis ficar num desporto de equipa. Porquê? Quando era adolescente, sentia que não pertencia a uma equipa. Naquela altura estava a aperceber-me de quem sou e por tudo o que ouvia e sentia, achava na altura que os desportos de equipa não eram para mim. É muito comum vermos jovens homossexuais a desistir do desporto. Felizmente, encontrei um desporto onde pude descobrir e perceber quem sou.

Sentiu que os desportos de equipa não eram para gays, mas na realidade não falou com ninguém sobre o assunto. É verdade e é por isso que agora penso que se calhar era mais uma ideia feita que estava na minha cabeça do que outra coisa. Não disse a ninguém, fazia todas as suposições e formulava os pensamentos sozinho. Aposto que se tivesse dito aos meus colegas da altura e ao capitão, tinha tido apoio.

Assumiu que namorou com raparigas para esconder a sua sexualidade. Foi só para esconder ou ainda estava tentar descobrir quem era? Eu sabia que o fazia pelas aparencias. Cresci num ambiente em que chegas a uma certa idade, tens uma namorada, ages desta forma, blá, blá, blá. Sabia que ter uma namorada de alguma forma “transformava-me” em hetero, mas não era uma boa relação para mim nem para a outra pessoa. Com o tempo percebi que uma coisa é tu lidares contigo e com as tuas emoções, mas quando começas a meter pelo meio as emoções de outra pessoa, é injusto para ela e, no fundo, para ti também.

Quando é que percebeu que é homossexual? Acho que foi algo que esteve sempre escondido na minha cabeça, que esteve sempre lá atrás e que durante muito tempo não quis lidar com isso. Talvez tenha sido por volta dos 13, 14 anos e a partir dai comecei a sentir-me cada vez pior com isso. Até que... lembro-me de estar incrivelmente stressado nos JO de Inverno. Houve um momento em que estava no trenó, pronto para a descida e senti-me uma fraude. Senti que não estava a ser genuino. Lembro-me de ter pensado, como é que posso ser forte e destemido para fazer este desporto e não ser o suficiente para assumir quem sou?

Como é que o sair do armário o ajudou enquanto atleta? Ser autêntico, ser eu proprio com os meus colegas de equipa tornou-me uma pessoa muito mais confiante. E isso traduz-se em sentimentos muito mais positivos, menos distrações, e em estar muito mais focado no que estou a fazer do que a pensar na aparencia que estou a projetar para os outros. Os resultados melhoraram e tornei-me melhor atleta e pessoa.

Acha que o ambiente dos próximos Jogos de Inverno, em PyeonChang, na Coreia do Sul, vai ser muito diferente do de Sochi? Sem dúvida. Julgo que o desporto está a progredir. Ainda não chegamos lá totalmente, porque acho que o foco do desporto deve ser o desporto em si e nao a politica à sua volta, mas houve grandes progressos desde então. Embora ainda haja um longo caminho a percorrer.

Qual é a mensagem mais importante que quer partilhar com os mais novos, nas palestras que dá? Sejam quais for os sonhos que persigas na tua vida, sê quem tu és, sê autentico, sê genuinamente tu, porque não há outra forma de alcançar o sucesso. Quando passei por todo aquele processo em que estava a dar em doido com tanto stress, eu não estava em forma, não estava fisica nem psicologicamente bem, porque era infeliz, porque mentia às pessoas e a mim, porque tentava manter aparencias de algo que sabia não poder manter por muito tempo.

Porque é que não há mais atletas a sair do armário? Essa discussão é interessante. Enquanto jovem de 18 anos, eu via o melhor do desporto e pensava que ao fazer isto podia mudar as coisas, mudar a forma como as pessoas olham para estes assuntos. Mas percebi que há muitos atletas mais velhos e que estão a envelhecer e preferem manter as suas vidas privadas. Não se vêem como modelos com a capacidade e responsabilidade de fazer mudanças. Mas estou feliz por ser novo, querer mudar o mundo e acreditar que o mundo poder se mudado.

Ainda existe muita homofobia no desporto? Sim. A homofobia existe em quase todas as àreas. Vivo num lugar muito normativo, não posso falar da cultura portuguesa, mas no Canadá o desporto é como um espelho da sociedade: alguns dos problemas que vivemos no desporto fazem parte da sociedade em geral. Por outro lado, somos como uma especie de lupa da sociedade e, ao mesmo tempo, está tudo de olho em nós, a ver quem é excluido, quem está dentro, quem é visto, quem não é. E muitas vezes os jovens homossexuais são empurrados para fora do desporto e é por isso que não há representantes deles no desporto, porque são afastados muito cedo ou porque acham que não é lugar para eles. E isso acabou por institucionalizar a homofobia. Por isso, os comentários que são feitos por atletas e as opiniões de treinadores mesmo que feitos nos bastidores, têm um grande impacto.

Sente que há mais homofobia nuns desportos do que noutros? Sem dúvida. Há desportos onde a aparência conta muito. Os estereótipos existem no desporto.

Dê-me um exemplo. O futebol americano. É muito dificil quando olhas para pessoas como o Michael Sam, que fez o que fez [assumiu a sua homossexualidade]. As pessoas habituam-se a vê-los como modelos muito masculinos, muito machos, e assim que fazem algo que muda esse statuos quo, são rotulados logo de outra forma, mesmo que continue a ser um ótimo jogador de futebol. Ser gay não muda esse facto.

A homofobia é igual no feminino e no masculino? Sim.

Conhece algum atleta português que tenha saído do armário? Infelizmente, não. Mas ficaria contente por conhecer e por saber que espalha a mensagem em Portugal.

Sente-se diferente? Eu já me senti diferente, mas felizmente percebi que sou igual a toda a gente e que posso ser quem sou.

Qual o seu objtivo enquanto atleta para os Jogos Olimpicos da Coreia do Sul, em 2018? Antes de mais, quero fazer parte da equipa canadiana. As qualificações começam dentro de quatro meses e a equipa será anunciada no Natal de 2017. Esse é o primeiro objetivo. Porque já tive uma experiencia olímpica, com18 anos, e fiquei em 27º lugar. Portanto, quero lá ir para competir, para ser o melhor que posso ser. Claro que sonho com uma medalha. Acredito com todo o meu coração que posso ser um dos melhores do mundo, mas vai exigir muito esforço e dedicação para lá chegar.

Está na universaidade a fazer o curso de gestão. Porquê gestão? Pois, eu pergunto-me o mesmo (risos).

O que quer fazer no futuro, depois da vida de atleta terminar? Essa é uma pergunta que tenho feito muitas vezes a mim próprio ultimamente. E não tenho uma resposta. Continuo à procura. Só tenho 21 anos. Faltam-me dois anos e meio para acabar o curso, mas agora vou focar-me na minha preparação para os JO.

Quantas horas treina por semana? Treino de segunda a sexta-feira, quatro a seis horas por dia. E trabalho, porque tenho de pagar o meus desporto.

O que faz? Sou bartender num pub perto de casa. Apesar de não beber, só muito raramente. Mas faço umas ótimas margaritas.

Com tanta atividade, ainda sobra tempo para namorar? Agora estou solteiro. (risos)

O facto de ter saido do armário pode afastar alguns pretendentes que não estejam dispostos a ver a sua vida exposta? É uma boa questão, mas desde que entrei neste processo em que quero ser autêntico e sinto que sou um modelo e que tenho de dar a cara por isso, quem entrar na minha vida tem de aceitar isso. Passei muito tempo a esconder-me. Não quero mais.