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Telma Monteiro: “Não gosto de me sentir vulnerável”

Telma Monteiro ainda está a saborear a conquista do bronze nos Jogos Olímpicos do Rio, mas já pensa em Tóquio 2020 e na conquista de mais medalhas. A recuperar de uma lesão grave no ombro, tem-se dedicado à promoção do seu primeiro livro, "Na vida com garra", e aproveitou para passar mais tempo com amigos e familiares. Numa entrevista realizada poucos dias antes de partir de férias para a Tailândia, a judoca de 30 anos confessa que o tempo de ser mãe está a chegar

Alexandra Simões de Abreu

Aos 30 anos, Telma Monteiro ainda não está pronta para abandonar o judo

Tiago Miranda

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Como surge o seu livro?
Há muito que tinha a ideia de escrever um livro para contar o que são os bastidores da alta competição, porque as pessoas não têm a noção. Mas queria transmitir alguma coisa, alguma ideia, não queria que fosse só um livro autobiográfico, nem um livro de autoajuda. Queria que contasse um pouco da minha vida mas também o que fui aprendendo ao longo do percurso da alta competição e que pode ser útil na vida das pessoas. Como entretanto surgiu o convite da Manuscrito, acabei por escrevê-lo.

Quando fala das coisas que não temos noção, refere-se aos sacrifícios que os atletas têm de fazer e que as pessoas esquecem quando chega a hora de cobrar resultados?
Se fosse há uns anos se calhar fazia um livro com essa perspetiva, só para mostrar o que sofremos. Mas agora o objetivo foi mostrar o que um atleta de alto nivel tem de fazer para alcançar o sucesso, e que nem sempre é um mar de rosas, mas também as coisas boas que alta a competição e o judo me trouxeram.

Onde guarda a medalha de bronze conquistada no Rio?
Sempre pensei fazer um sítio especial, mas ainda não tive tempo. Para já está em casa, num móvel, junto das outras medalhas. Mas gostava de criar um espaço especial para pô-la, onde esteja visível e possa ser agarrada por quem lá vá a casa.

Depois da medalha olímpica qual o próximo objetivo?
Recuperar o ombro 100% para ter a certeza de que não vou ter nenhuma recaída quando voltar. A lesão que fiz no último combate foi grave, rasguei o tendão que dá congruência e estabilidade à articulação. Depois de começar a treinar, o objetivo nos próximos quatro anos é claro, continuar no topo do mundo, continuar a ser uma das melhores. É um grande desafio, mas isso torna-se uma motivação para mim.

Mas chegou a pensar em deixar já a alta competição. O que levou a alterar a sua decisão?
É verdade que neste ciclo olímpico pensei que não ia continuar depois do Rio, que não ia querer ou que fazia mais um ano e não ia ter motivação para treinar. Mas depois, talvez pelas paragens forçadas que tive no ano passado com a operação ao cotovelo, e este ano por causa do joelho, estive muito tempo sem competir e sem treinar e percebi que ainda posso render muito e que ainda tenho muita motivação para treinar ao mais alto nível. Isso fez-me perceber que queria continuar e manter-me no topo do mundo, e não ser mais uma da lista. Acho que percebi que ainda me sentia feliz a treinar, que ainda tinha um espírito competitivo e que não era o momento para parar. Senti também que, agora mais do que nunca, evoluí muito tecnicamente e ainda posso continuar a ser competitiva.

Esteve em três JO, que não correram da forma que estava à espera e, de repente, parece haver uma mudança muito grande e finalmente atinge o objetivo. O que mudou?
Nestes quatro anos houve um crescimento pessoal grande, não foi só como atleta. Desde Londres que tentei perceber o que é que podia mudar e senti que a mudança tinha que ser também em mim. Tinha de ser uma mudança grande em muitas coisas que faziam parte do treino, mas também uma mudança na forma como eu encarava a competição.

Como assim?
Até Londres 2012 sempre trabalhei muito para ser bem sucedida, e consegui a maior parte das vezes, mas achava que merecia as coisas. A partir de Londres comecei a perceber que quando as outras me ganham é porque estão realmente a ser melhores. Eu pensava sempre que era a melhor, mesmo quando perdia. E percebi que tinha de ver a competição de outra maneira, eu tinha de estar lá também a divertir-me. O meu objetivo era só ganhar e acabava por não festejar nenhuma medalha porque estava sempre a pensar na outra seguinte. E se isso ajudou-me durante muito tempo a estar no topo, depois tornou-se demasiado cansativo e exigente, porque às tantas estava a competir só para ganhar e não me permitia divertir. Deixei de procurar fora o que estava a prejudicar-me e procurei em mim.

O quê ou quem a fez chegar aí?
Acho que foi a maturidade. Em 2013 também comecei a ter um acompanhamento psicológico que acabou por influenciar a Telma judoca. O facto de aceitar melhor as minhas derrotas, que as minhas adversárias às vezes eram realmente melhores do que eu e que eu tinha de procurar soluções em vez de ficar tão focada no problema, ajudou-me a ser melhor judoca. Julgo que foi uma transformação mais pessoal, mas que depois influenciou no judo. Deixei de olhar para fora e passei a olhar mais para mim, para dentro. Achei que podia potenciar ainda mais as minhas capacidades. Era essa a minha perspetiva.

Entretanto fomos interrompidas por um rapaz que quis tirar uma selfie com Telma

Isto agora também faz parte da sua vida, cada vez mais. Gosta?
Não me importo. O objetivo na minha vida nunca foi ser famosa, o judo nem sequer era conhecido, mas lido bem com isto.

Tiago Miranda

Estava dizer…
Eu achava que era uma pessoa confiante e que podia potenciar ainda mais as minhas capacidades. Tinha curiosidade de saber até que ponto é que tendo acompanhamento psicológico e trabalhar a nível psicológico podia ajudar. Felizmente sempre tive a capacidade de querer saber mais e de experimentar coisas diferentes e essa curiosidade acabou por me levar à área da psicologia. Acabei por entrar num processo de reflexão. Em 2013 fui ao campeonato do mundo, perdi o primeiro combate e acho que foi depois desse combate que tudo mudou porque comecei a perceber que a minha postura na competição tinha de ser diferente,. Eu tinha de começar a divertir-me e a exigir menos de mim. Foi nesse ano que fiz a tatuagem e comecei a valorizar tudo o que já ganhei e a aceitar que podia ser a melhor do mundo, mas que em alguns momentos não ia conseguir porque as minhas adversárias iam conseguir vencer-me. Quando perdia muito com uma adversária começava a dizer que era por ela ser muito alta e que o meu tipo de judo não se adaptava; eu perdia mas continuava a dizer que era a mais forte. Estava sempre a colocar a culpa fora. Estava tão segura das minhas capacidades… Acho que passei a dar mais atenção aos detalhes e a aceitar que nem sempre vou conseguir ser a melhor.

Durante quanto tempo teve esse acompanhamento psicológico?
Trabalhei durante dois anos. Na verdade, quando comecei a fazer esse trabalho estava a pensar nos JO e se podia haver algum aspecto em particular que me estivesse a escapar e me impedisse de ser bem sucedida. Queria chegar ao Rio e ter a certeza de que tinha tentado tudo. Se chegasse a 2016 e as coisas não tivessem corrido bem eu ia ficar sempre a pensar nisso, que não tinha trabalhado psicologicamente. Depois durante o processo achei que já não fazia sentido. Que já não estava a avançar naquelas consultas e parei. Sempre fiz isso na minha vida, se alguém ou alguma coisa está a impedir-me de avançar, se os recursos que tenho já se esgotaram, tenho de seguir em frente. Não quer dizer que no futuro não volte a trabalhar com um psicólogo, mas neste momento não sinto necessidade.

E do outro lado, do lado do treino, o que mudou nestes quatro anos?
Estrategicamente comecei a perceber que preparava-me para ganhar a toda a gente e podia ganhar realmente a todas, mas as minhas adversárias tinham um plano perfeito de como me ganhar. E cheguei à conclusão que eu tinha muitos recursos mas não tinha traçado o plano perfeito para ganhar àquelas que podiam ser as minhas adversárias específicas. Neste ciclo desde muito cedo comecei a pensar naquelas que realmente me causavam mais dificuldade, que iam estar nos JO e iam ser decisivas. É claro que pode aparecer sempre alguém diferente e é preciso ter atenção a isso, mas foquei-me em melhorar para ter a certeza que se encontrasse qualquer daquelas adversárias eu sabia exatamente o que tinha de fazer para ganhar-lhes. Em 2013 comecei a trabalhar especificamente para ganhar à francesa.

A Automne Pavia foi sempre a sua grande rival?
Neste ciclo as regras mudaram e deixei de poder agarrar as pernas que era uma grande defesa minha contra as judocas mais altas. Não me consegui adaptar logo depois de perder esse recurso. Tive um período em que estava sempre a perder com as judocas direitas altas. E a francesa era uma das que encontrava mais no circuito mundial e ela acabou por tornar-se um modelo, no sentido em que se lhe ganhasse era um passo para ganhar a todas as outras com as características dela.

Qual foi o truque para vencê-la?
Basicamente eu só fazia ataques à direita e dizia que era impossível passar a fazer ataques à esquerda. É a mesma coisa que pedirem a um jogador de futebol destro para começar a rematar perfeitamente com a perna esquerda. Meti na cabeça que não conseguia fazer judo à esquerda. Mas da mesma maneira que convenci-me que não ia conseguir, convenci-me do contrário e consegui. Isso deu-me mais soluções depois para o lado direito. Taticamente foi isto que aconteceu.

Entretanto, também houve mudança de treinador.
Mudei em 2014, quando passei a trabalhar com o Go Tsunoda na seleção e com o Jorge Gonçalves como treinador principal no clube, em substituição do Rui Rosa. Fi-lo porque na altura não sentia motivação, nem que acreditavam em mim como eu queria que acreditassem ou como eu achava que era preciso uma pessoa acreditar para conseguir chegar ao fim do caminho. Eu precisava que a pessoa que estivesse ao meu lado confiasse em mim, nas minhas capacidades e que me ajudasse no caminho que estava a querer fazer. Aprendi muito com o Rui Rosa mas era o momento em que tinha de fazer a mudança porque já não estávamos em sintonia. Eu acreditava muito que conseguia alcançar grandes resultados e sentia da parte do meu treinador que ele acreditava que eu estava numa fase mais descendente. Dentro de mim sabia que não, mas não queria estar a convencê-lo disso. Lá está, quando senti que esse recurso esgotou, passei à frente.

Como surge o Go Tsunoda?
Foi um bocado por acaso. Fui fazer um estágio no Japão, em 2014, e a federação enviou o Go Tsunoda. E nesse mês em que lá estive, para além de perceber que era uma pessoa que tinha a mesma linha de pensamento que eu, percebi logo que ia acrescentar ainda mais ao meu judo. Todos os dias sentia que estava a aprender alguma coisa e era exatamente isso que eu queria, era essa a ajuda que precisava para continuar a evoluir, o que me deu nova esperança. Depois falei com o Jorge porque era jovem e motivado e já era ele quem me dava os treinos na Lusófona ao final do dia. Pedi para continuar comigo no clube e solicitei à federação para me deixar ser acompanhada a nivel internacional pelo treinador japonês.

Qual foi o ensinamento maior de Go Tsunoda?
Como pessoa identifico-me com a humildade dele e a paixão que tem pelo judo. É genuíno. Acho que as pessoas se deslumbram facilmente com a atenção que têm e incomoda-me quando sinto que isso acontece à minha volta porque não sou assim. O meu objetivo é ser a melhor no judo e a atenção que isso me traz é uma consequência. Posso usar isso no bom sentido, ser uma inspiração e obviamente tirar os dividendos disso, mas não posso deixar-me deslumbrar. E com o treinador japonês senti que o objetivo dele era simplesmente ajudar-me a ser a melhor e atingir um objetivo comigo, transmitindo o conhecimento dele. Não estava preocupado com todo o reconhecimento que advinha daí. Quando sinto que as pessoas à minha volta estão mais preocupadas com as consequências do resultado do que com o resultado, não me identifico e por isso não faz sentido trabalhar com essas pessoas.

Nestes quatro anos de alguma forma tornou-se também mais humilde?
Acho que sim, porque acabei por perceber que as minhas adversárias no fundo é que me faziam evoluir. Sou uma pessoa competitiva e vou sempre achar que posso ganhar a qualquer pessoa, faz parte da minha veia competitiva, mas acho que sempre fui humilde.

Este últimos quatro anos foram a bonança depois de um ciclo anterior em que perdeu uma referência da sua vida, o treinador António Matias?
Sem dúvida, esse foi o momento mais difícil para mim. Nos quatro ou cinco anos em que estivemos juntos na seleção nacional conseguimos criar uma grande ligação. Eu tinha 21 anos quando ele faleceu. Na situação em que foi, no ano em que foi (2008, ano de JO), seria sempre traumático. Depois correu tudo mal. Acho que foi o pior ano da minha vida. Mas depois disso senti que já não havia nada que não pudesse ultrapassar. Também houve uma transformação pessoal nessa altura, porque senti que não havia nada que não pudesse superar. Sentia-me imbatível.

Mas as coisas não correram bem nem em Pequim 2008, nem em Londres 2012.
Londres foi o momento em que senti que havia uma grande injustiça contra mim. Porque eu ganhava tudo, ganhava medalhas e depois cheguei a Londres e não consegui. E havia atletas que não tinham ganho as medalhas que eu ganhava e eram campeãs olímpicas. Isso deixou-me revoltada e frustrada na altura. Mas felizmente consegui canalizar bem a minha frustração para um ato de reflexão: o que é que eu estou a fazer de errado? O que posso fazer melhor para mudar esta situação? A culpa não é de Deus, nem de ninguém, só eu posso resolver isto.

No momento em que ganha a medalha ficou uns segundos de cabeça baixa no tatami, como que a agradecer. Agradecia a Deus?
Foi um momento de gratidão por ter conseguido alcançar aquele objetivo. Nunca tive uma religião, aceito todas. Mas desde muito nova que acredito em Deus à minha maneira e sempre lidei com isso à minha maneira. Acredito que nunca fiz sozinha todo o meu caminho, tudo o que aconteceu, foi porque tinha de acontecer assim.

Mas pediu a Deus?
Sempre disse que nunca iria pedir porque era uma coisa que tinha de fazer sozinha. Mas naquele dia (dia dos combates pelas medalhas), pedi. Eu senti que naquela altura eu podia pedir.

Tiago Miranda

Qual foi o episódio mais insólito que já lhe aconteceu com a medalha olímpica?
Houve alguém que pegou na medalha e ia fingir que a mordia. Fiquei a olhar, sem reação e a pensar “isto não vai acontecer. Eu não acredito que ele vai morder a medalha!”. Não mordeu, felizmente. Mas já nem me lembro quem foi.

Tem no seu horizonte os JO de Toquio 2020 e já avisou que não quer lá ir para passear. Quando lá chegar tem 34 anos e se calhar há outras atletas mais novas, com mais força e menos lesões. O que perspetiva?
Uma coisa que aprendi no judo é que quatro anos é muito tempo. Não gosto de fazer planos a longo prazo. Se tivesse agora um objetivo podia pensar em ganhar mais uma medalha. Pensar em Tóquio, é pensar hoje, porque é em cada dia que vou fazer a diferença no meu futuro. E cada dia vai ser um dia a pensar numa medalha. Não me adianta pensar em Tóquio e não ter consciência de que o que estou a fazer hoje é aquilo que vai infuenciar o meu futuro.

Mas vai ser mais dificil chegar às medalhas…
E isso é atrativo. Tenho consciência de que é mais difícil, mas agora já conheço a sensação de ser bem sucedida e sei que isso pode jogar a meu favor. Até aqui não tinha tido uma boa memória, é como se fosse um caminho que ainda não tinha sido percorrido, que é o do sucesso nos JO, mas agora já o percorri.

Em algum momento teve medo de não conseguir ir aos JO?
Tive algum receio quando me magoei no joelho, porque se fosse o ligamento cruzado estava fora de questão e podia anunciar que não estava no Rio. Depois quando percebi que era o ligamento lateral interno, não podia ter a certeza de que as coisas iam correr bem, mas havia qualquer coisa a fazer-me sentir que isto era um desafio. Lembro-me de ter dito às pessoas que me rodeavam, agora é que tenho a certeza de que vou ganhar uma medalha. Achava que aquilo ainda me ia dar mais força. Se calhar acreditei tanto que foi real (riso).

A campeã olímpica, a brasileira Rafaela Silva, cresceu numa favela. A Telma cresceu num bairro social. Acha que as dificuldades ajudam a formar campeões?
Acho que não temos de passar por dificuldades na vida para sermos campeões, mas na verdade quando passamos determinadas coisas, começamos a desenvolver uma capacidade de resiliência que, consciente ou inconscientemente, acabamos por levar para tudo na nossa vida.

Na vida, o que é capaz de a levar ao tapete?
Acho que não há assim muita coisa. Só se for uma pessoa da minha confiança que eu sinta que me traiu ou perder alguém que eu amo.

Quando percebeu que não chegaria ao ouro, sentiu-se injustiçada?
Primeiro tentei perceber o que aconteceu. E percebi. A última vez que lutei com a mongol tinha sido um combate igual e eles interromperam para lhe dar um castigo. Ali, no Rio, foi o critério daquele árbitro, ele achou que ela estava a ter uma atitude mais ofensiva e eu mais passiva e atribuiu-me o castigo. Pessoalmente não acho que foi totalmente injusto, mas podia não ter sido naquele momento. Acho que o combate em si merecia mais uma oportunidade, mais 20 ou 30 segundos para se desenrolar e tavez as coisas tivessem sido diferentes.

O que pensou na altura?
Que isto não estava a acontecer outra vez! Mas depois lembrei-me de Pequim, que tinha perdido nos quartos de final na mesma situação e que tinha pensado na altura “se não vou ser campeã olímpica então não estou aqui a fazer nada” e percebi que não queria passar por aquela situaçao outra vez de não ter atingido o meu objetivo: ganhar uma medalha. E depois tive um tempo na sala de aquecimento, a minha irmã Ana veio ter comigo e algumas pessoas próximas. Refleti no que podia ter feito diferente e ao mesmo tempo pensava “não penses nisso porque isso não vai mudar nada. Tens de pensar no que tens de fazer para ganhares o próximo combate”. Falei com o Go Tsunoda, troquei de roupa e saimos do pavilhão para apanhar ar. Ele disse-me que independentemente do que acontecesse a vida continua igual. E eu pensei, a vida vai continuar a ser igual e eu vou ser capaz de ultrapassar aconteça o que acontecer, mas eu quero ganhar. Voltei para dentro e percebi que estava disposta a lutar até ao último segundo pela medalha e que não ia desistir como em Pequim.

Foi o momento mais feliz da sua carreira?
Quando subi ao pódio senti que era o momento mais feliz e emocionante da minha carreira. Foi o coroar de tudo o que conquistei. Desde Londres que mudei muita coisa mas fui sempre líder do meu caminho, do meu destino e fui sempre confiando nas minhas opções. Isso deixou-me orgulhosa. Tive a coragem de acreditar em mim.

Vai manter esta equipa técnica?
Se depender de mim, sim. Neste momento não faz sentido mudar.

Quando chegar ao fim da vida, como quer que se lembrem de si?
Não quero que se lembrem de mim porque ganhei uma medalha nos JO. Quero que se lembrem de mim porque ganhei tudo o que já ganhei e a medalha dos JO. Mas também que sou um bom ser humano.

O que mudou na sua vida com esta medalha?
Não mudou muito. As pessoas conhecem-me mais.

Como lida com a exposição pública?
Estou a aprender a lidar com o facto das pessoas não saberem o que não se deve pedir.

Por exemplo?
Às vezes solicitam-me para ações que não fazem sentido e que me dão a entender que não valorizam o meu tempo. Eu não era capaz de fazer isso. Acontece muitas vezes em Portugal contratarmos treinadores estrangeiros para virem dar estágios e pagamos, mas depois entre nós é tudo à base do jeitinho, é como se não valorizassem tudo o que já ganhei e todo o conhecimento que tenho. Para mim o tempo das pessoas é valioso por isso nunca pediria uma coisa dessas. Sou convidada para tudo e mais alguma coisa, às vezes para coisas sem interesse nenhum, que não são importantes. Não posso ser convidada para a festa para fazer de boneco! Há limites do que é razoável.

Tirou um curso, fez uma pós-graduação...
E gostava de fazer mestrado em treino de alto rendimento.

E revelou já que gostava de ter uma escola de judo.
Sim, gostava de ter uma escola minha, mas tanto gostava de estar na parte do ensino como na gestão, na parte de escritorio, para ajudar os atletas a ter as melhores condições, por isso é complexo. Tenho de perceber se o que quero é estar no tapete a transmitir conhecimentos ou estar fora a travar outro tipo de batalhas.

Vai pensar nisso depois de Tóquio?
Não, até antes. Pelo menos a escola gostava que fosse antes. Mas ao mesmo tempo eu não quero ser a cara de um projeto, eu quero ser o projeto, estar envolvida no projeto. Mas só posso fazer isso quando sentir que vou ter tempo e quando fizer mais sentido para mim.

O judo em Portugal está de boa saúde?
O judo pode crescer muito. Tem muito potencial como modalidade. Mas ainda temos muitas ilhas dentro do judo. A própria comunidade do judo tem que se envolver mais, temos de ser mais recetivos uns para os outros, sermos mais família. Numa modalidade em que somos poucos, só todos juntos é que podemos fazer a modalidade crescer e quando isso acontecer, crescemos todos. Isso deixa-me um bocado frustrada, pensar que vou entrar num mundo com o qual às vezes não me identifico.

Vê-se a trabalhar na federação?
Para isso acontecer tinha que ter a certeza que não ia ser um rosto de uma federação, mas que pelo contrário eu ia ter poder de decisão e poder para poder lutar para que as coisas fossem diferentes e melhores.

A bolsa de alta competição é suficiente para preparar os JO?
Há a bolsa que vai diretamente para o atleta e que se for a de nivel 1, a que recebo, é de 1350 euros e há a bolsa que vai para a federação que gere a preparação e que pode ir até 25 mil euros/ano por atleta. As duas são suficientes para fazer uma boa preparação. Não é a preparação ideal, mas ainda assim é possível fazer uma boa preparação. Às vezes o nosso problema não são os recursos que temos, mas a forma como estão a ser geridos. É uma utopia pensarmos que algum dia vamos ter as condições que os EUA, a Inglaterra ou a Alemanha têm para treinar. Inglaterra, por exemplo, investe mais no remo do que nós em todas as modalidades. Portanto, tendo em conta a nossa realidade, com as bolsas que há, acho que pode ser feita uma boa preparação, mas acho que não está a ser feita uma boa gestão.

Se só tivesse a bolsa olímpica teria conseguido fazer a mesma preparação para os JO?
Se só recebesse a bolsa do COP tinha que ir trabalhar. Porque tinha de facto recursos para ser atleta, mas quando acabar a minha carreira de alta competição eu preciso continuar a viver, pagar uma renda, alimentar-me, pagar as contas como qualquer pessoa. E ninguém junta dinheiro só com a bolsa. Se só tivesse a bolsa não podia ser só atleta profissional. Se não fosse o Benfica não era atleta profissional. Se não houver uma ajuda externa, de um clube, de um patrocinador ou dos pais é impossível ser-se atleta profissional, no sentido em que a prioridade é o treino. As pessoas que não têm esse apoio, têm que ir trabalhar, têm de pensar no futuro, porque vamos para o mercado de trabalho com 30 e tal anos e quem é que quer uma pessoa licenciada aos 20 e poucos anos e que durante dez anos não trabalhou? É complicado.

Depois de Tóquio ainda há hipotese de ver aTelma a competir?
Acho que não (risos).

É verdade que é claustrofóbica?
(risos) Sim. Não gosto que me apertem. No judo consegui lidar com isso na competição. No treino também consigo, na maior parte das situações. Mas comecei a perceber há uns anos que me incomoda se me apertarem, se ficar num espaço em que não tenha controlo sobre a situação. Por exemplo, andar de avião não me faz confusão, mas se o avião está parado na pista e dizem-me que não posso sair, isso faz-me confusão. Se sentir que um elevador pode ter algum problema vou de escadas, não interessa quantos andares são.

Gosta de surpresas?
Não. Gosto de ter o controlo. Se calhar tem a ver com o facto de não ter muita facilidade em expressar-me e de não gostar de me sentir vulnerável, sobretudo ao pé de pessoas que não conheço. Mas é algo com que estou a aprender a lidar. Depois as surpresas têm aquele fator de termos de corresponder à pessoa que nos fez a surpresa e nem sempre conseguimos.

Nao gosta de falhar perante os outros.
Já deixei de pensar nisso. Tento ao máximo não me preocupar em ser uma coisa que os outros querem que seja. Mas não gosto de surpresas. Já nem gosto sequer de ver o mail.

Porquê?
Porque sempre que vejo o mail tenho montes de pedidos e não gosto de saber que vou ter lidar com o facto de ter de dizer que não a algumas pessoas.

O que é capaz de tirar do sério e pô-la fora de si?
Não acho que haja assim nada que me deixe descontrolada. Posso ficar irritada mas não descontrolada. Não gosto que me passem à frente nas filas, fico alterada mas não fico descontrolada.

Qual o seu maior defeito?
Sou muito teimosa e falo muito. Estou sempre a interromper as pessoas que estão a falar.

A melhor virtude?
Ser uma pessoa positiva. Vejo coisas positivas em tudo. E sou realmente uma pessoa preocupada com aquilo que me rodeia.

Ainda lhe tremem as pernas antes de um grande combate?
Já não.

Quais são os seus pontos fortes enquanto judoca?
Psicologicamente sou muito forte, sou super resiliente e confiante. Fisicamente sou muito rápida e explosiva. E aprendo muito rápido. Tenho muita facilidade em aprender coisas novas.

Pode revelar um ponto fraco a que já deu a volta?
Acho que o maior ponto fraco era exigir demasiado de mim, não valorizar as minhas conquistas.

Taticamente o que sente que ainda tem de melhorar?
Estou curiosa em relação a isso. Tenho a certeza que posso melhorar e que vou encontrar alguma coisa que tenho de melhorar, mas neste momento não sei, porque cheguei muito bem tecnicamente e taticamente aos JO. Agora é um processo novo de descobrir aquilo que pode ser um obstáculo no meu caminho.

Tem superstições?
Não.

Disse que gostava de ser mãe. É um sonho adiado?
Acho que é uma coisa que quando sentir que tem de ser, independentemnete da altura que for, vou concretizar.

Ainda não é o momento?
Não, mas está a chegar. Sinto que está a chegar.

Mas há Toquio…
Não penso em ter filhos no próximo ano, mas também não penso em não ter. Se no próximo ano decidir ser mãe, sou. E acho que era capaz de ter um filho e voltar a ganhar. Aliás, quando está grávida a mulher regenera muito, é quase como por peças novas no corpo, por isso acredito que ainda voltava mais forte. Mas para já não está nos meus planos.

Já encontrou o amor da sua vida?
Sim. Pelo menos acho que sim.

Recentemente o atleta canadiano John Fennell esteve em Portugal para falar de bullying no desporto e sobre o facto de ter assumido, aos 19 anos, a sua homossexualidade. Ele considera que os atletas enquanto modelo para os outros têm essa responsabilidade também de assumir a sua sexualidade sem problema…
Os atletas não têm uma responsabildiade, acho que as pessoas quando sentirem que é o momento ou se sentirem essa necessidade não se devem de privar de fazer por causa dos outros. Acho que isso é que é a verdadeira essência de se aceitarem, não pensar nas outras pessoas. Mas não tem que ser uma obrigação. É obvio que acaba por ser importante, mas não é uma obrigação, nem uma responsabilidade. As outras pessoas não devem ser um impedimento para que cada um tome essa decisão.

Versão integral da entrevista originalmente publicada na edição de 8 de outubro de 2016 do Expresso