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Cacioli: “Sabes que a careca é um ponto de referência?”

Foi o Famalicão que em 1989/90 abriu as portas do futebol português a Cacioli, médio brasileiro cuja careca se tornou numa das imagens de marca do nosso campeonato nos anos 90. Falámos com ele sobre jogo desta quinta-feira (20h15) entre os minhotos e o Sporting, para a Taça de Portugal, e de muito mais. Cacioli lembra que o Famalicão está mal e vai querer usar o jogo para se motivar para o campeonato e recorda com saudade a massa adepta do clube e os amigos que por lá fez

Lídia Paralta Gomes

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Se os anos 80 nos deram o bigode de António Borges, os 90 trouxeram a careca de Cacioli. O icónico médio brasileiro, hoje com 53 anos, ainda é para muitos o “Lombardo de Barcelos”, não só pelas parecenças físicas com o italiano Attilio Lombardo, mas também porque jogavam mais coisa, menos coisa na mesma posição. Mas Cacioli era mais que uma careca: era disponibilidade física, era regularidade e um pé esquerdo que deixou marcas no Minho, onde passou grande parte da carreira e onde ainda hoje vive, com a mulher e as filhas.

Cacioli chegou a Portugal na época 1989/90 para jogar pelo Famalicão, que esta quinta-feira defronta o Sporting para a Taça de Portugal. Este era por si só um motivo para falarmos com o homem que se diz já mais português que brasileiro, mas Cacioli tem muito mais para contar. “Quando falo de futebol o tempo não passa”, diz-nos, numa altura em que a conversa já ia longa. Tão longa que, quando pegámos no telefone, Ulisses Morais ainda era treinador do Famalicão. Quando terminámos, já não era. “Pode ser que agora precisem de um adjunto e chamem o Cacioli”, atira o esquerdino, que procura um novo desafio depois de cinco anos a trabalhar em França na área da construção civil.

Está de volta a Portugal depois de uma passagem por França. Quando voltou?
Sim, é verdade. Estive 5 anos fora, em França, e voltei a Portugal e a Barcelos há um ano e pouco, no início de julho de 2015. Regressei a pedido da família, da minha mulher e das minhas filhas.

Depois do futebol e de um negócio na restauração, teve de ir para França ganhar a vida. O que fez por lá nesses 5 anos?
Primeiro um amigo convidou-me para ser o seu homem de confiança numa empresa de construção civil. Depois acabei numa outra empresa da mesma área, mas francesa, em que fazia trabalho administrativo. Comprava material, era esse o meu métier, como eles dizem por lá. Era uma empresa em que boa parte dos trabalhadores eram portugueses e, como falava francês, muitas vezes fazia a ponte entre os empregados e o escritório.

Mas a crise também chegou a França.
Chegou e empresa acabou por fechar. Ainda fiquei algum tempo por lá, mas logo percebi que o melhor era voltar e ficar próximo da família.

A sua mulher e filhas ficaram sempre por Portugal, certo?
Sim, elas ficaram cá sempre. Felizmente tinha muita facilidade em vir a Portugal, muitas vezes até em trabalho e conseguia ficar uns 15 dias em casa. Dava para matar saudades. Era perto, estava a duas horas de avião, imagina se estivesse no Brasil. Por isso foi dando para levar. Mas o tempo passa e comecei a pensar nas minhas filhas - a mais velha tem 23 e a mais nova 18. As saudades começam a bater e percebes que há coisas mais importantes que o dinheiro. O afeto, o carinho, estar à mesa com a família, tudo isso tem mais valor que o trabalho. Agora estou à procura de alguma coisa, quem sabe no futebol profissional.

A sua família já é mais portuguesa que brasileira.
Hoje em dia sou mais português que brasileiro. Cheguei a Portugal com 26 anos e levo já 27 anos cá. Casei em Portugal, as minhas filhas já nasceram cá. Temos todos nacionalidade portuguesa. Até no sotaque já se nota, repara que já pende para o lado português. Quando telefono para o Brasil toda a gente se queixa que eu falo português de Portugal [risos].

O que tem feito agora, de volta a Barcelos?
A minha filha teve um café, que fechou em julho. Dava uma forcinha lá, mas também continuei ligado ao futebol de formação. Por isso tive sempre muita coisa para fazer. Neste momento estou cá e o futuro passa por ficar em Portugal, mas nunca digo ‘desta água não beberei’. Se aparecer um projeto que seja bom para mim e para a minha família, posso sair de novo. Sou um cidadão do mundo.

E por aí, continuam a chamar-lhe o Lombardo de Barcelos?
Sim, sim [risos]! Os três anos em que joguei no Gil Vicente foram muito bons, tanto a nível pessoal como profissional e as pessoas nunca me esqueceram. Ainda agora, quando vou ver um jogo do Gil Vicente, há muita gente que me diz “Cacioli, ainda podias jogar um bocadinho”. E a minha imagem ficou sempre marcada, até porque em novo já era calvo.

A careca continua a ser uma imagem de marca?
Claro! Sabes que careca é ponto de referência?

Ponto de referência?
Imagina que és empregado de um restaurante, que és novo lá e perguntas a um colega mais velho: “Onde é a mesa 50?”. O mais certo é ele responder “Está vendo aquele careca? É a mesa ao lado”. É mesmo assim! A imagem ficou, até porque depois do futebol tive uma pizzaria em Barcelos durante 15 anos, que se tornou famosa. E depois do Cacioli do Gil Vicente, passei a ser o Cacioli das pizzas.

Cacioli nos tempos em que jogou no Gil Vicente

Cacioli nos tempos em que jogou no Gil Vicente

Mas continua ligado ao futebol, na formação.
Em França vivi sempre na zona da Côte d’Azur e treinei uma equipa sénior, o FC Grimaud, dos distritais. Depois voltei a Portugal e, passados uns meses convidaram-me para trabalhar com a equipa de juniores do União São Veríssimo. Este ano apareceram alguns projetos a nível sénior, mas não andaram para a frente e acabei por ser convidado para os juniores do Santa Maria, que é o segundo clube aqui de Barcelos e que já andou pelos campeonatos nacionais.

Antes de ir para França foi treinador numa escola chamada “Os Ronaldinhos”. Inspiração em Cristiano Ronaldo?
Não, na verdade o fundador da escola tinha uma admiração enorme por outro Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho. A vontade dele era formar miúdos que tivessem a alegria estampada no rosto, sabes? O Ronaldinho jogava sempre com um sorriso nos lábios e o fundador queria isso, miúdos que jogassem com prazer. Mas entretanto a escola fechou.

O objetivo é chegar ao futebol profissional?
Gostava de treinar ao mais alto nível. Tenho o nível 3 da UEFA, acho que podia chegar a uma 2.ª Liga ou ao antigo Campeonato Nacional de Seniores.

Recuando aos seus tempos de jogador: era conhecido pelo rigor tático, por ser um jogador fiável mas sobretudo pelo pé esquerdo. Ainda faz maravilhas com ele?
Sim, ainda funciona! Mas nada como antes. Deixei de jogar em 2000 e ainda andei pelas velhas glórias do Gil Vicente, mas fui perdendo aquele vigor físico. Em 2003 descobri que tinha uma artrose na anca e aconselharam-me a não exagerar. Só tinha 40 anos.

Marcas da carreira?
Sempre fui um jogador muito intenso e os anos 90 eram outros tempos. Hoje o futebol é quase tecnológico. Começaram a aparecer pessoas que vieram trazer especialização, a preparação física deixou de ser feita de uma forma generalizada, agora o treino é muito mais específico e o desgaste é muito mais reduzido. Eu era um jogador muito dedicado, que sempre treinou no limite. E hoje, cada vez que chuto sei que estou a pagar a fatura.

Ou seja, nada de futeboladas com amigos?
Tenho de me controlar. Mesmo nos treinos do Santa Maria gosto sempre de brincar com os rapazes, mas não me posso esticar. Porque o day after é complicado.

Foi Abel Braga que o trouxe para o Famalicão, em 1989/90. Como é que chega a Portugal?
No Brasil jogava num clube que era o Passo Fundo, do Rio Grande do Sul, e o Abel Braga era treinador do Internacional, do mesmo estado. A nossa equipa fez na altura um grande campeonato, fui considerado um dos melhores jogadores da época. O Abel, que tinha pré-acordo com o Famalicão, sabia que o clube estava à procura de um médio esquerdino para colmatar a lesão grave do João Paulo. E acabaram por me escolher, para minha felicidade, porque pude cumprir o sonho de jogar no futebol europeu. E 27 anos depois, ainda não fui embora.

Mas quando chegou teve uma surpresa no que diz respeito ao salário…
Quando cheguei percebi que o salário era apenas um terço daquilo que tinha sido acordado. O empresário que foi ao Brasil tratar da contratação disse-me que o clube entretanto tinha ficado com dúvidas e que tinha havido um volte-face nos valores. Mas acreditei em mim, acreditei que podia contar com o meu lado profissional para dar a volta a isso. Quem me deu muito apoio nessa altura foi o Carlos Janela, que era o diretor desportivo.

E foi recompensado?
Prometeram-me rever o salário numa renovação de contrato, mas acabei por nunca renovar e fui para o Sp. Braga. Mas não me arrependo de nada, mesmo sendo o jogador mais barato do clube, se fizermos a comparação entre os jogos que fiz e o que custava por mês. É fazer as contas: na primeira época fiz 30 jogos, na segunda fui totalista, fiz 38 jogos. E em cada época marquei 6 ou 7 golos. Para um médio é uma marca muito aceitável.

E como foram esses anos no Famalicão?
As melhores recordações que tenho são da massa adepta. Era impressionante: às vezes tínhamos 100 pessoas a ver um treino, apesar de estarmos a falar de um clube pequeno. Os adeptos acompanhavam muito, a equipa levava sempre muita gente para os jogos fora. Foram dois anos tremendos. O Famalicão foi o clube que me abriu as portas para o futebol português, onde criei grandes amizades. O meu primeiro grande amigo em Portugal foi o Carlos Miguel, que era meu colega de equipa. Sou padrinho de casamento dele e ele é padrinho de uma das minhas filhas. Isso marca muito, porque eu sou uma pessoa de afetos, muito sentimental.

Também é recordado no clube por ter sido decisivo na manutenção do Famalicão em 1990/91. Do que se lembra desse jogo?
Bem, lembro-me de tudo! Era o último jogo do campeonato, frente ao Belenenses, que já estava despromovido. Nós tínhamos de ganhar para ficar na 1.ª divisão. Era o 38.º jogo do campeonato, tínhamos jogado 3330 minutos e tudo seria decidido nos últimos 90. O Leomir, que era o nosso marcador de penáltis, saiu ao intervalo, e logo a seguir ao arranque da 2.ª parte o José Pratas marca grande penalidade a nosso favor. Fui eu bater. Andei sete metros para trás, depois corri para a frente e naqueles 14 metros, naqueles segundos, a época passou-me toda pela cabeça.

Isso é uma grande responsabilidade. Marcou?
Sim, marquei. depois fiz o passe para o segundo e fiz ainda o terceiro golo. Ganhámos 3-0 e garantimos a permanência.

Brasileiro passou uma temporada no Farense

Brasileiro passou uma temporada no Farense

Os jogos contra o Sporting eram especiais?
Jogar contra os grandes era sempre uma motivação. A equipa ficava mais focada, até porque a imprensa ‘caía’ toda em Famalicão naquela semana.

O Pedro Barbosa era, na altura, um dos adversários que mais temia. Porquê?
Sempre foi um jogador sensacional, muito inteligente, com muita qualidade. O problema de enfrentar estes futebolistas criativos e imprevisíveis é que, por muito que trabalhes, eles podem a qualquer hora tirar um coelho da cartola.

E que outros jogadores lhe metiam medo?
O Zé Carlos, lateral-direito do Benfica, e o Paulo Sousa do Boavista, por exemplo. Porque tinham uma grande tendência atacante e obrigavam-me a defender… Mas há outros. O Jaime Magalhães, o Paulo Sousa do Sporting, o próprio Paulo Bento, o Valdo, o Futre. Tive a sorte de jogar contra jogadores de muita qualidade e criatividade, daqueles que, quando pensavas que já tinham esgotado todas as hipóteses, lá sacavam do ás de trunfo.

Continua a acompanhar o Famalicão? O que sabe da equipa?
Esta época, por causa dos treinos e dos jogos do Santa Maria, não tenho acompanhado muito. Sei que tem apenas 9 pontos. Penso que a equipa perdeu com a saída do Daniel Ramos [saiu para o Santa Clara e entretanto foi contratado pelo Marítimo], que era um treinador que já tinha imposto a sua filosofia. O Ulisses tem outras ideias e a equipa ainda não se encontrou.

Mas pode haver Taça esta quinta-feira?
Sabes como é: Taça é Taça e todo o Mundo tem direito a sonhar. É claro que o favorito é o Sporting, que tem um dos melhores treinadores portugueses, mas o Famalicão pode usar um jogo destes para se motivar e transformar a equipa, até para melhorar no campeonato.

É verdade que após sair do Famalicão chegaram a propor-lhe casar-se para ter a nacionalidade portuguesa e assim jogar no Boavista?
Naquela altura falava-se muito desses esquemas, porque havia limitação de estrangeiros nos plantéis. Mas eu acredito que se falava mais do realmente que se fazia. À época eu não tinha noiva, nem namorada, não estava interessado em ninguém e ninguém estava interessado no Cacioli. Nunca iria casar numa situação dessas. Pensei: ‘se me querem, vão ter de me querer mesmo como estrangeiro’. E arrisquei. E a verdade é que nunca deixei de jogar por ser estrangeiro.

Entretanto foi para o Sp. Braga, em 1991/92, mas só voltou a ser verdadeiramente feliz no Gil Vicente.
Quando cheguei ao Sp. Braga tive problemas físicos logo na pré-época, o que condicionou tudo. Além disso, desportivamente foi um ano complicado. Os resultados não apareciam e trocámos três vezes de treinador. No final da temporada surgiu a hipótese de ir para o Leixões, mas entretanto apareceu o Gil Vicente. O Vítor Oliveira era o treinador e estava interessado em mim. Como se vê, foi uma boa escolha, nunca mais saí de Barcelos e até casei aqui.

Em três anos cruzou-se com uma série de craques no Gil.
O Drulovic toda a gente sabe onde foi parar. Mas joguei com tantos outros que foram importantes para o futebol português. O Dito, o Vital, o Pedro Roma, o Brassard, o Laureta... E como treinador tive o Vítor Oliveira, que nem é preciso falar. O trabalho fala por ele. Para mim é uma referência, pela sua frontalidade, honestidade, por falar contigo olhos-nos-olhos. É um líder nato.

Sempre foi feliz nos clubes do Minho e a primeira vez que rumou a Sul as coisas não correram bem, no Farense, em 1995/96.
Queria ficar em Barcelos, mas não cheguei a acordo com o Gil Vicente. O Farense tinha um projeto aliciante, esse ano jogámos a antiga Taça UEFA, mas fomos logo eliminados pelo Lyon. Entretanto começaram os problemas financeiros...

Chegou a falar-se de greve.
Foi numa altura em que tínhamos quase três meses de salários em atraso. Íamos jogar a Chaves e o plantel estava desgastado com aquele ‘vão pagar, não vão pagar’. Houve, digamos, uma ‘pseudo-greve’. Falou-se entre os jogadores, mas entretanto chegou-se a um consenso, a coisa resolveu-se e a greve não avançou. Jogámos em Chaves e, a partir daí, bem ou mal, a direção cumpriu.

Foi um daqueles casos em que a união do balneário fez a força?
No Brasil quando ouvimos isso costumamos dizer “não, a união faz açúcar”, porque União é uma marca de açúcar [risos]! Mas sim, é verdade, uma das coisas essenciais numa equipa é haver respeito, bom ambiente. Costumo dizer aos miúdos que treino que o balneário é uma coisa sagrada.

E o curso de Computação que tirou no Brasil, nunca pensou atualizar-se e voltar a estudar?
Já me passou pela cabeça, sim. O problema é que acabei o curso em 1985 e já se sabe como é a tecnologia: hoje compras um telemóvel, amanhã já é obsoleto. Já viu, já lá vão 31 anos, teria de recomeçar tudo de novo. Sabes que devo ao futebol ter conseguido tirar um diploma, porque 50% da bolsa era paga pelo clube onde jogava na altura e consegui que a faculdade pagasse os outros 50%, porque também jogava futebol na universidade. Logo, não pagava nada. Foi importante porque vinha de uma família humilde, embora não me tenha faltado nada. Em minha casa havia comida, cama, carinho e afeto.

Como conseguiu conciliar?
A minha mãe incentivava-me muito a acabar o curso. Uma das melhores coisas que trouxe de casa foi a educação. Ela pressionava-me, dizia-me que não podia deixar de estudar porque com o futebol nunca se sabe se vai dar certo. E acabei com uma licenciatura na mão.

[Entretanto, já na hora das despedidas, olhamos para a televisão e, zás, última hora, Ulisses Morais foi despedido do Famalicão]

Cacioli, já viu? O Ulisses foi despedido do Famalicão.
A sério? Bem, assim ainda vai ficar mais complicado para o Famalicão esta quinta-feira. A menos que já tenham uma cartada na manga. Pode ser que agora precisem de um adjunto e chamem o Cacioli [risos]! Nunca se sabe…

É um pouco estranho despedirem um treinador antes de um jogo destes, não?
Sim, é um pouco chato. Mas infelizmente o futebol é assim e o sucesso de uns é a tristeza de outros.

É melhor desligarmos, não vá o seu telemóvel receber alguma chamada.
Ah ah! Sim, vamos torcer para que aconteça algo.