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Ia dar “chocolatinho branco” ao avô e saiu do Sporting para o pai não ter lá um filho

Martim Águas “carrega” um nome, como ele diz. Ou um apelido. É neto de José, que levantou a primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus do Benfica, e filho de Rui, que marcou mais de 100 golos pelos encarnados. Martim está no 1.º Dezembro e vai jogar, esta sexta-feira (20h15) contra o clube dele e da família, para a Taça de Portugal. Diz que foi “homenzinho” por ter saído do Benfica e que fez “um sacríficio” para sair do Sporting

Diogo Pombo

D.R.

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Martim já deu ene entrevistas antes desta. Está farto, admite, mas também o entende, diz que “é normal”. Aos 23 anos não é apanhado de surpresa por ter o apelido que tem a seguir ao nome próprio. Em miúdo já lhe perguntavam se era filho, e neto, de quem é. De duas lendas do Benfica, homens de títulos ganhos e golos marcados, que quanto mais fizeram, maior foi o tamanho do legado que lhe deixaram. “Acaba por ser um nome que eu carrego”, confessa, às tantas, como qualquer um que nasce com o sangue de dois craques e também quer ser jogador.

Ele diz que ainda não o é. Está no 1.º Dezembro, a jogar no Campeonato de Portugal, a terceira divisão nacional, mas saiu-lhe na rifa uma partida contra o Benfica. Reconheceu estar ansioso, pela “festa” e “mais gente” que a Taça de Portugal - e o adversário, diga-se - darão ao jogo. Martim Águas vai defrontar a equipa que apoia e que, em tempos, foi sua. Mudou-se para o Benfica em juvenil, saído de um Sporting que não ia abandonar, mas do qual se teve de separar quando o pai foi trabalhar para a formação encarnada. Ninguém o obrigou, garante, mas tinha noção que não ajudaria ninguém se continuasse a ser leão.

Já estás farto de entrevistas?
Eh pá, um bocadinho, sinceramente. Mas pronto, eu percebo.

Alguma pergunta que ainda não te fizeram?
Olha, acho que fizeram poucas sobre o Sporting, que é algo que eu gostava de reforçar.

Então?
O Sporting foi a primeira equipa que mostrou interesse em mim, quando era miúdo. Acho que isso tem valor.

Imagino que sejas do Benfica. Isso não te fez confusão?
Sou, mas não fez. Na altura, queria era jogar à bola. E o valor da Academia do Sporting está à vista de todos.

Porque saíste de lá?
Porque era o melhor para a minha família. Não posso dizer que fui obrigado, mas também não era miúdo nenhum, na altura. Consegui perceber que era o melhor para o meu pai e acabei por fazer um sacrifício que, no fundo, não me custou muito a fazer. Pronto, o Benfica não deixava de ser o meu clube de eleição e de também ter uma formação forte.

Como assim, o melhor para a tua família?
O meu pai estava desempregado há um par de anos e a vida de um futebolista, quando acaba a carreira, não é fácil. Há contas para pagar. E o meu pai teve oportunidade de ir para coordenador da prospeção do Benfica, da formação, e eu acompanhei-o.

Ficava mal o Rui Água ter um filho a jogar no Sporting?
Sim, exatamente.

Ainda gostavas de lá estar?
Aceitava. Mas, sinceramente, fico sempre com aquela ideia na cabeça, de que, se tivesse ficado, o meu futuro podia ser diferente.

Acabaste por não ficar muito tempo no Benfica, foste andando atrás do teu pai.
Sim, era jovem, tinha os estudos para fazer e o que fazia sentido era acompanhar a minha família para onde ela fosse. O que fiz de bom grado.

Foste para a Arábia Saudita e para Cabo Verde?
Isso já não. Aí já era maior de idade. Fui à Arábia Saudita passar o Natal, não mais do que isso.

Imaginas-te a jogar lá, mais tarde, pelo salário, no fim da carreira?
Eh pá… Não. Um dia mais tarde seria bom, em termos financeiros, mas aquilo é um mundo à parte.

Com a família que tens, só podias dar jogador de futebol, certo?
Ainda não sou, mas luto por isso. Acabei por crescer com essa vontade.

José Águas, do lado direito, em 1963, a trocar galhardetes com o capitão do Feyenoord.

José Águas, do lado direito, em 1963, a trocar galhardetes com o capitão do Feyenoord.

Harry Pot / Anefo

Dás-te bem com a tua tia [a cantora, Lena D’Água, é irmã de Rui Águas]?
Dou-me, sim. Por acaso, ultimamente, ela tem passado cá por casa. Volta e meia passa aqui uma noite, ou duas. A minha tia agora vive no Bombarral, um bocadinho longe. Está lá mais descansadinha, com a vida de campo, mas, sempre que pode, passa aqui. São sempre boas visitas.

Não podias ter sido cantor em vez de jogador?
[Ri-se] Não, cantar não é o meu forte.

A tua tia não puxou por ti?
Não. Via-me sempre com a bola nos pés, se calhar nem tentou. Não se metia.

Lembras-te de conviver com o teu avô?
Era bastante novo, mas lembro-me perfeitamente. Ia visitá-lo quase todas as semanas, com o meu pai. A casa do meu avô era ali em Benfica. Levávamos o chocolatinho branco, que ele gostava sempre. Conheci-o bem.

Ele contava-te muitas histórias de futebol?
Por acaso não perdíamos muito tempo a falar disso. Não era o mais importante para mim, na altura. Era mais miúdo, não tinha tanto interesse em fazer-lhe esse tipo de perguntas. Era um ambiente mais familiar, mais próximo.

O teu avô aprovaria a tatuagem que tens na perna [uma imagem de José Águas, a levantar a Taça dos Clubes Campeões Europeus]?
No tempo dele não havia disso. É verdade, já o meu pai também não é grande fã. Mas ficou contente e gostou do resultado, acho que o meu avô iria gostar.

Avisaste o teu pai?
Sim, mas ele não sabia exatamente como seria. Foi um bocadinho apanhado de surpresa. Mas não foi nada de escondido. Não levei nas orelhas, longe disso.

Ainda vives com ele?
Vivo com os meus pais e com a minha avó.

Falam de futebol?
Por acaso sim, bastante. Eu e o meu pai vemos muitos jogos juntos, é importante para ele estar a par tanto da Liga portuguesa, como das seleções. Costumamos estar sempre juntos nesse tipo de atividades.

Em miúdo, na escola, perguntavam-te se eras filho de quem és?
Ainda hoje muita gente me pergunta. Acaba por ser um nome que eu carrego, era mais familiar para as pessoas, noutros tempos. Tem as suas desvantagens, é impossível dizer que não.

Quais?
Às vezes, as pessoas falam muito, e muitas vezes sem saberem. Acabei por ser alvo de algumas críticas sem conhecimento. Tive que me habituar a isso.

As pessoas são injustas?
Muito, sim. Mas já aguento bem.

Ter um pai que foi jogador e, depois, treinador, é ter um pai ausente?
Não. Quer dizer, nestas alturas, em que não tem trabalho, está presente. De resto, é normal que seja um bocadinho ausente. Passou uns anos fora, mas, sempre que podia, vinha ter connosco e fazia as suas visitas. Sempre que está fora falamos pelo Skype. Somos uma família muito unida, felizmente.

E a tua mãe, achou piada a mais um homem na família ir atrás do futebol?
Sim, sempre me acompanhou, muito alegremente e com orgulho. Ajudou-me muito na minha formação, fartou-se de acordar de madrugada, para me levar aqui e ali. Também esteve muito próxima do meu crescimento no futebol.

O último cargo que Rui Águas desempenhou foi o de seleccionador de Cabo Verde, em 2015.

O último cargo que Rui Águas desempenhou foi o de seleccionador de Cabo Verde, em 2015.

KHALED DESOUKI

Vais jogar contra o Benfica. Porque saíste de lá também?
Naquela época, dos juvenis de segundo ano, vi que ia ter poucas oportunidades de jogar. Fui homenzinho, digamos, para perceber que talvez fosse melhor optar por um caminho um pouco mais difícil. Ia ter mais oportunidades e não ficaria ali, por para dizer que envergava aquele símbolo no peito. Não me arrependo dessa decisão.

Não valia a pena insistir?
Felizmente, pelo que vejo, já não acontece tanto hoje em dia. Mas, na altura, na formação do Benfica ligava-se demasiado aos títulos. Ganhar os campeonatos nacionais todos, de iniciados, de juvenis e tudo mais. Acho que é errado. Se hoje se vê e se sabe que a formação é um meio para atingir um fim, antes achava-se que era mais um fim. É por aí que tanto eu, como outros, acabámos por não ter o devido aproveitamento. Porque éramos pequeninos, porque não fazíamos tanta diferença, etc. O Bernardo [Silva] é um bom exemplo disso. Acabou por ter a sua oportunidade, mas só mais tarde. O Tiaguinho [Tiago Silva] é outro. Decidiu sair e foi para o Belenenses. Felizmente, hoje já se dá mais valor a todos os jogadores da formação.

Só mediam o sucesso pelos títulos?
Ligava-se demasiado ao próprio campeonato, é a minha opinião. Hoje em dia ninguém se lembra quem ganhou o campeonato nacional de iniciados ou de juvenis em 2005 ou 2006. Interessa é os jogadores que saem de lá. Passei pelo Benfica numa altura em que o Sporting ainda tinha mais nome, no que diz respeito à Academia e à formação. O Benfica ainda estava numa fase de evolução. A maneira de evoluir, na altura, talvez fosse ganhando títulos. Acabei por ter um pouco de azar na época em que lá estive.

Se brilhares no jogo da Taça, é vingança?
Nunca. Vou jogar contra os seniores, na formação a conversa é outra. Isto tem a ver com uma mentalidade que existia, não estou a dizer que fosse de uma ou duas pessoas. Nunca seria vingança contra alguém, longe disso.

Vais estar nervoso?
Mais ansioso. Não deixa de ser um jogo como os outros, só que terá muito mais festa e gente a assistir. Quando a bola começa a andar, isso esquece-se.

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