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“Vencer pelo Porto é fácil, mas o Beira-Mar vence uma Taça a cada 200 anos”

Aos 37 anos, Ricardo Sousa diz que vai ser “lembrado para sempre como o herói da Taça do Beira-Mar”, mas esta eliminatória da prova está cheia de ligações ao ex-jogador aveirense: treina o Lusitano VRSA, equipa do Campeonato de Portugal que vai defrontar a Sanjoanense, precisamente o clube onde começou a dar os primeiros passos - como jogador e também como treinador. Isto depois de ter acabado a carreira no Gafanha, que defronta hoje (20h15, Sport TV1) o FC Porto, outro clube onde Ricardo Sousa foi feliz - e onde quer regressar

Mariana Cabral

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Ricardo Sousa marcou o golo que deu a Taça de Portugal ao Beira-Mar na época de 1998/99

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Esta semana e esta competição são especiais para ti, suponho.
É especial. Para nós não é o sorteio que gostava que fosse, porque gostávamos de evitar as boas equipas, como é a Sanjoanense, que tem equipa para subir. Tem um dos orçamentos mais altos desta divisão [Campeonato de Portugal]. Nós gostávamos de receber uma equipa da segunda ou então um grande, porque normalmente é melhor receber um grande nos jogos da Taça. Infelizmente calhou-nos uma longa deslocação. É um clube especial para mim, porque é o clube que me formou como jogador e também como treinador. Vai ser especial mas vou ter de encará-lo da mesma forma. Temos de ir lá para ganhar, independentemente da história e das dificuldades.

Começaste na Sanjoanense com que idade?
Entrei lá com seis anos. Guardo muitas memórias, foram 12 anos com aquele emblema, dos seis aos dezoito. Basicamente a minha infância são só recordações vividas no estádio da Sanjoanense. São momentos que não se esquecem, todos os meus amigos de infância eram da Sanjoanense. É um jogo especial, para rever muita gente.

Faz-te impressão jogar contra a Sanjoanense?
Impressão não faz, temos de ser profissionais no que fazemos e é o que digo, independentemente de não gostar de jogar contra a Sanjoanense vou ter de fazê-lo e espero continuar a fazê-lo, especialmente em patamares superiores, porque isso quer dizer que nos estará a correr tudo bem.

Como começaste a treinar na Sanjoanense?
Iniciei a minha carreira de treinador na Sanjoanense e acho que estávamos a fazer um bom campeonato. Na altura em que saí, em dezembro, tínhamos um dos grupos mais novos do Campeonato e um dos orçamentos mais baixos, mas estávamos a dois pontos do 1º lugar. Saí não por motivos desportivos, mas por algumas coisas com que não concordava dentro do clube. São coisas que acontecem no futebol, mas foi uma situação ingrata, porque não gostaria de ter saído e o trabalho estava a ser bem desenvolvido. Mas temos de saber lidar com essas situações.

O Campeonato de Portugal é mais duro do que os outros?
É diferente, é diferente. Nos outros campeonatos é fácil obter informações das outras equipas, com jogos na televisão e nos jornais, mas neste campeonato temos de correr atrás das informações e dificilmente conseguimos ver as outras equipas. É um campeonato mais fechado e na minha opinião é mais difícil jogar no Campeonato de Portugal do que na Liga de Honra, porque é um campeonato onde as equipas permitem menos espaço e onde existe muito mais correria. Mas é uma boa aprendizagem para mim em termos de futuro, porque quero subir degrau a degrau, com qualidade.

David Rogers/Getty

Sempre soubeste que querias ser treinador?
Nunca tinha ponderado ser treinador. Sempre disse que gostaria de continuar ligado ao futebol, porque o futebol faz parte da minha vida desde os seis anos. E quem está há 32 anos ligado ao futebol quer continuar ligado, seja em que função for. Acabei por decidir formar-me, tirei o curso e depois é uma questão de ter oportunidades. O bichinho continua sempre a mexer dentro de nós. Eu vivo e respiro o futebol.

O teu pai o que é que te disse quando soube?
Olha, durante toda a minha carreira falei muito com o meu pai sobre futebol. Todos assuntos e mais alguns. Mas a partir do momento em que entrávamos em casa, o futebol ficava fora de portas. Ele sabe as minhas ideias em termos de futebol e vai-me dando algumas opiniões, mas sou sincero quando digo que falamos mesmo muito pouco de futebol em casa.

Ele não vai ver os jogos?
Na época passada, quando eu estava na Sanjoanense, ele ia ver os jogos. Este ano, sendo uma deslocação tão longa, ele não está para aí virado.

Ele não te dava dicas nenhumas?
Não, zero. Ia ver os jogos, dizia se tinha gostado da exibição ou não, mas em termos táticos e de opções nunca me disse nada. Não faz parte da maneira de ser dele.

Estás a gostar de viver no sul?
É uma vida completamente da do norte, mas o tempo ajuda. A vida é mais tranquila, o ambiente parece que é melhor e os dias mais longos. Estou a gostar muito de viver cá em baixo, as pessoas têm sido extraordinárias tanto comigo como com o grupo de trabalho. Espero que seja um projeto para durar porque sinto que nos estão a dar as condições para fazer o clube evoluir.

Fizeram algum pedido especial para a Taça, que é sempre uma competição que põe os clubes a sonhar?
Não. Na Taça, todos os jogos são uma final. Se nós formos pensando assim, certamente vamos mais longe. Mas não existem pedidos, porque toda a gente sabe as dificuldades que passámos no início da época e não temos sequer objetivos de classificação final. O nosso objetivo é tentar ganhar os jogos todos e ver onde isso nos levará. Na Taça ainda mais, é pensar jogo a jogo e não num futuro longínquo.

Já contaste aos teus jogadores como é que decidiste uma final da Taça pelo Beira-Mar?
Não gosto muito de expor aos meus jogadores aquilo que fui. Transmito-lhes, isso sim, os erros que cometi, para ver se eles não os cometem.

Por exemplo?
Temos é de lhes dar os maus exemplos para eles não repetirem. Os bons exemplos nós fazemos de conta que não os vemos para ver se eles os repetem mais vezes [risos]. Cometi alguns erros na minha carreira e um dos principais foi ser sempre eu próprio. Para mim o branco era o branco e o preto era o preto, independentemente de estar a falar com um treinador, com um presidente ou com um investidor. Sempre fui um homem de ideias fixas e se sabia que estava certo não me vergava perante ninguém, e isso se calhar trouxe-me mais dissabores do que sabores. Faz parte do meu ADN, foi assim que fui educado.

Lembras-te muitas vezes dessa final da Taça?
Claro, foi o momento mais bonito da minha vida futebolística, num clube de que realmente gosto muito. Vencer uma taça pelo Porto é fácil, porque de dois em dois ou de três em três anos o Porto vence uma Taça, mas o Beira-Mar vence uma Taça a cada 200 anos. Foi muito bom ficar ligado ao clube. Vou ser lembrado para sempre como o herói da Taça do Beira-Mar, ainda para mais na altura tendo o meu pai como treinador, portanto foi um duplo orgulho.

Ainda é possível hoje em dia termos uma final assim tão improvável como a do Beira-Mar-Campomaiorense?
Nos dias que correm é mais complicado, ainda para mais com as novas regras da Federação, em que agora as meias-finais são a duas mãos. Acho que isso acaba por proteger os ditos grandes e as coisas ficam mais difíceis para os mais pequenos. Mas nunca se sabe o dia de amanhã e na Taça existem sempre surpresas. Os grandes já foram eliminados quando menos esperavam e vamos rezar para que isso aconteça porque isso é que faz o futebol ficar mais bonito. Embeleza o futebol português porque demonstra que as equipas pequenas também têm qualidade.

É possível o Gafanha surpreender o Porto?
Não vai ser fácil porque na minha opinião o Porto esta época não pode facilitar em nenhuma competição. Está faminto de vitórias, de títulos. Penso que o Nuno à partida não irá fazer o que já foi feito no passado, que é meter muitos jogadores que não andavam a ser utilizados. Não deve fugir muito do onze base até porque o Gafanha tem feito um Campeonato de Portugal muito bom e certamente vai tentar morder os calcanhares do Porto.

Ficaste contente por encerrares a tua carreira no Gafanha?
Sim, porque vivi um bom ambiente naquele balneário. Só acabei a carreira no Gafanha porque reencontrei pessoas do meu passado, que jogaram comigo no Beira-Mar. O Miguel Marques, que era meu treinador no Gafanha, era meu amigo desde os três ou quatro anos, porque jogou com o meu pai e eu já o conhecia desde essa altura. Só isso é que me fez voltar a jogar lá. Pediram-me ajuda e eu não consegui dizer que não, e vivi momentos bonitos, como uma subida ao nacional.

Um jogador do Gafanha, do Lusitano e de outros clubes semelhantes pode viver a vida só a jogar?
Não, não, nesta altura as pessoas estão nestes clubes para evoluir. Não pelo que ganham atualmente mas pelo que podem vir a ganhar no futuro. O futebol a cada dia que passa, em termos financeiros, está cada vez pior. Vês muitos jogadores, até na Liga de Honra, que acabam por ter de jogar e trabalhar. As pessoas têm de precaver-se com outros trabalhos, porque já houve uma altura em que o futebol era fácil mas atualmente é muito difícil.

O que recordas de melhor do teu tempo no Porto?
Foi o ter vivido no balneário da mística. Penso que é o expoente máximo que se pode retirar do Porto. Estive no seio da mística, com o Jorge Costa, Vítor Baía, Secretário, Paulinho Santos, Rui Barros... Aqueles jogadores que realmente gostavam do clube como ninguém e para eles perder era como morrer. Atualmente já se vê pouco disso no Porto e se calhar é isso mesmo que está a fazer falta.

Tens como objetivo treinar o Porto?
Sem margem para dúvidas. É o meu sonho. É um sonho uma pessoa conseguir treinar o clube que quer que ganhe. Seria chegar ao expoente máximo daquilo que pretendo em termos de carreira de treinador.