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Este homem já correu 13 maratonas em 11 dias. Chama-se Tiago Dionísio

Tem 42 anos, é analista financeiro e tornou-se recentemente no português que correu mais maratonas e ultramaratonas no mundo. 501 no total. Em 2006 esteve à beira da morte depois de disputar a Comrades (89km) e a Western States 100 miles (160km) com apenas uma semana de intervalo. Os rins pararam de funcionar e os músculos das pernas ficaram destruídos. Mas como desistir não faz parte do seu vocabulário, três meses depois, Tiago Dionísio estava de volta à estrada. E ainda aumentou o número de maratonas por ano

Alexandra Simões de Abreu

Tiago com a mulher, Rita, após terminar a 500ª maratona

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Chegou à 500ª maratona em Lisboa, no dia 2 de outubro, mas entretanto já fez mais uma corrida com 56 km, em Setúbal. Onde é a próxima?
Em Inglaterra, muito em breve. Vou lá estar uma semana e conto fazer oito maratonas. Irei sexta-feira, depois do trabalho, corro sábado e domingo. Na segunda trabalho em Londres porque temos um escritório lá e tirei férias o resto da semana para correr todos os dias uma maratona até domingo. Mas às vezes faço duas maratonas no mesmo dia, uma de manhã e outra à tarde.

Em média quantas maratonas faz por ano?
Cerca de 75. Em 2008 eu tinha corrido 100 maratonas, há quatro anos tinha 200. Nos últimos anos aumentei o número de corridas.

Em 2006 esteve à beira da morte depois de correr duas ultramaratonas com apenas uma semana de intervalo. Os médicos deixaram-no aumentar o número de maratonas?
Não tenho ido ao médico (risos). Mas as análises que tenho feito mostram que está tudo bem. A diferença é que antes daquele acidente eu corria com alguma frequência 100 ou mais quilómetros e hoje em dia já não faço esse tipo de provas. O máximo que corri entretanto foi a Comrades, que são cerca de 90km. Acho que a maratona é uma distância bastante equilibrada, que consigo fazer de forma regular, inclusive em vários dias consecutivos. E consigo recuperar bem. Também não corro tão rápido como no passado, faço em ritmo de treino. Nestas mais de 70 maratonas que faço por ano, só escolho duas ou três em que vou a um ritmo mais rápido.

Qual é o seu recorde?
Duas horas e 42 minutos. Mas isso foi em 2001. A última vez que corri abaixo das três horas foi em 2008. Hoje em dia faço entre as três horas e meia e as quatro horas. Ou seja, diminui a velocidade e a distância mas aumentei a regularidade.

A intenção é chegar às 1000 maratonas?
Neste momento penso dia a dia, semana a semana. O próximo objetivo é chegar às 600. Este ano foi sem dúvida aquele em que investi mais tempo e dinheiro, e em que sacrifiquei muitas coisas, porque queria muito chegar às 500 corridas, em Lisboa. Para mim era especial. Enquanto me der prazer vou continuar a correr e, quanto mais, melhor.

Corre apenas por prazer?
Sim. Eu não ligo muito às estatísticas. E se forem ao meu Facebook podem ver que não coloco lá grandes coisas. Já corro há tantos anos que não preciso mostrar ao mundo e nas redes sociais o que ando a fazer. Sempre me pautei por alguma discrição. Lembro-me que quando comecei a correr, na faculdade, eu era “o maluquinho das corridas”. Hoje em dia já não é tanto assim porque a corrida está na moda. Como disse, não alterei muito a minha maneira de ser e quantas mais maratonas tiver acho que devo ainda ter mais cuidado com a maneira de me apresentar ao mundo. A corrida é o que me permite ter um equilíbrio saudável na minha vida pessoal, familiar e profissional. Para mim é uma coisa natural e muito pessoal.

Mas é um vício.
Para mim é normal acordar cedo, normalmente antes das seis, e fazer uma hora e meia de desporto. Uma hora de corrida e meia no ginásio. É tão normal e natural como tomar o pequeno almoço ou arranjar-me. Faz parte da minha vida quotidiana, sempre fez.

Ouve música enquanto corre?
Não, nem corro com relógio.

No que vai pensando?
Normalmente tento organizar o meu dia. Mas passa-me tanta coisa pela cabeça. Há a imaginação. Às vezes são coisas boas outras menos boas. Por vezes é também uma maneira de libertar as minhas energias negativas e frustrações.

Tiago na chegada à meta da Comrades, na África do Sul

Tiago na chegada à meta da Comrades, na África do Sul

Toma decisões importantes enquanto corre?
Sim. Posso dar um exemplo que aconteceu esta semana e é relacionada com a corrida. Eu gostava de fazer a maratona da Antártica e estava inscrito, mas custa €10 mil. Não tenho possibilidade neste momento de gastar esse dinheiro, por isso, enquanto corria decidi que, se quero continuar a fazer muitas maratonas por ano, o que tem um custo elevado, não posso gastar tanto naquela. É um pequeno exemplo. A nível profissional enquanto corro tenho ideias para os relatórios e quando chego ao escritório a primeira coisa que faço é escrever essas ideias num rascunho.

Tem um orçamento por ano para gastar em corridas?
Sim. Não tenho patrocínios. A ajuda que tenho é ficar em casa de amigos, nomeadamente quando vou a Inglaterra ou à Africa do Sul. Isso já é uma grande ajuda.

Quanto gasta por ano?
Diria que em média cada maratona são €100. A última prova que fiz, em Setúbal, custou €30 mas outras que vou fazer lá fora são mais caras. A média são os €100.

Qual a prova que fez mais vezes?
A maratona de Lisboa e a Comrades, na África do Sul.

É o embaixador oficial da Comrades e já tem o green number
Sim, já a fiz 16 vezes. Ao fim de 10 vezes eles dão um número permanente que só eu posso utilizar e que está reservado na história da prova.

Já fez as chamadas Six Majors (Londres Nova Iorque, Berlim, Boston, Chicago e Tóquio)?
Sim, a última foi Tóquio, há dois anos. Surgiu a oportunidade de ir e reservei o voo uma semana antes. Foi uma viagem rápida, estive apenas 36 horas em Tóquio. Era a última das Six Majors que me faltava.

Qual a maratona que mais gosta de correr?
Continua a ser a de Londres. É especial para mim, foi a primeira internacional que fiz. O meu primeiro ordenado foi para ir corrê-la. Aprendi muito nessa maratona, há uma enorme angariação de fundos para instituições de caridade, mostrou-me uma maneira diferente de estar na corrida. Agora em termos de prova a mais especial para mim é a Comrades.

Começou a correr porque jogava futebol. Como foi isso?
Comecei a correr mais regularmente nos EUA, onde vivi durante cinco anos. Jogava futebol, tinha alguma técnica mas não tinha muita velocidade. O treinador aconselhou-me a praticar atletismo para ganhar velocidade. Tinha 14 anos. Quando cheguei a Portugal entrei na faculdade e comecei a correr perto de casa, na zona do Areeiro. Primeiro meia hora, depois passei para 45 minutos e fui aumentando, até que fiz a primeira maratona, aos 20 anos. Nos primeiros quatro anos só corri a maratona de Lisboa porque ainda não tinha ordenado. Em 1998 fui fazer a de Londres.

Mantém uma ligação especial a Inglaterra.
Em Inglaterra existe uma oferta muito grande de maratonas e ultramaratonas. É relativamente fácil e em conta ir a Londres. E, como tenho hipótese de fazer uma maratona no sábado e outra no domingo, ou até mesmo duas no mesmo dia, aproveito.

Vai sozinho?
A maior parte das vezes sim, mas tenho lá muitos amigos.

E onde fica a vida familiar no meio disso?
A base de tudo é o apoio familiar. A minha mulher, a Rita, também corre, faz desporto e sabe a importância que isso tem na minha vida. Eu sei que às vezes exagero um bocado, mas tento gerir as coisas da melhor forma. Não estou todos os fins de semana fora, mas vou pelo menos uma vez por mês a Inglaterra.

Tiago Dionísio (à direita) e a mulher, durante uma prova

Tiago Dionísio (à direita) e a mulher, durante uma prova

www.hug.pt

Pertence a algum clube?
Existe em vários paises o clube das 100 maratonas que, como o nome indica, tem pessoas que fizeram no mínimo uma centena de maratonas e ultramaratonas. Inscrevi-me no clube inglês há alguns anos. Neste momento tem cerca de 500 membros.

Sabe se é o mais novo do mundo com 500 maratonas?
Algumas pessoas que ligam às estatísticas e estudam muito o tema dizem-me que posso ser, mas não sabemos ao certo. Para pertencer a este clube de 100 maratonas no Reino Unido existem regras, as provas têm de ser todas oficiais e para isso é preciso, por exemplo, que tenham no mínimo 25 participantes. Mas na Alemanha, por exemplo, sei de casos de pessoas que disseram que fizeram uma maratona oficial, em que só três ou quatro pessoas acabaram. Como as regras são diferentes entre os vários clubes do mundo é um bocadinho difícil avaliar. É mais por uma questão de confirmação, se fez a distância e não houve batota... É complicado.

Em Inglaterra, no clube a que pertence, quantas pessoas têm 500 maratonas?
São 20 e aí tenho a certeza que sou o mais novo com 500 maratonas.

Que metas tem já definidas?
Há duas metas para as quais eu trabalho e treino diariamente. Correr maratonas até aos 70 anos e fazer a minha prova preferida o máximo de anos possíveis. Há sul-africanos que têm mais de 40 provas feitas. Para o ano há dois que vão fazer 45 Comrades seguidas. Não vou dizer que não penso em chegar às 1000 maratonas, mas ainda falta muito tempo…

Gostava de realizar o desafio 777. Sete maratonas, em sete dias seguidos, em sete continentes?
Sim, gostava muito. Já fiz 13 maratonas em 11 dias, portanto já fiz coisas que acho mais dificeis. A maior dificuldade desse desafio é que é preciso arranjar €40 mil. Para isso preciso de um patrocínio.

Qual foi o seu desafio mais difícil?
Ter feito a Comrades e a Western no mesmo ano, apenas com uma semana de intervalo entre as duas. Quase me levou à morte.

Na altura foi o quarto do mundo a fazê-lo…
Mas acredito que mais alguém entretanto já o tenha feito. É que na altura em que fiz havia apenas uma ou duas semanas de intervalo entre as duas provas, mas hoje em dia há quase um mês de intervalo entre as duas porque alteraram a data da Comrades.

De que forma é que estar em risco de vida o afetou fisica e psicologicamente?
Uma coisa tenho a certeza, sinto que não tenho a mesma energia que tinha antes. Por outro lado, como desportista bebo muita água e hoje em dia tanto à noite como em prova tenho de parar muitas vezes para ir à casa de banho. Não sei se isso foi um efeito do que me aconteceu aos rins… mas diria que o principal foi a perda de energia. Já não sou a pilha de energia que era antes daquilo acontecer.

Não é isso que parece…
É diferente. Na altura eu fazia maratonas abaixo das três horas com muita facilidade e hoje não.

Ainda corre todos os dias?
Seis vezes por semana. Se não corro vou ao ginásio.

Passou a ir ao ginásio quando e porquê?
Há uns seis, sete anos. Primeiro foi a Rita que me sugeriu, porque ela também vai. E é importante para complementar a corrida. Em termos de recuperação, faço elíptica ou remo e assim não tenho o desgaste das articulações da corrida. Treino menos quilómetros mas complemento com outro tipo de exercícios. A prazo é positivo.

Já fez provas com a sua mulher?
Sim, 56 ou 57 maratonas juntos. Representa mais de 10% das minhas provas.

É muito diferente fazer com ela do que sozinho ou com amigos?
Claramente, ela não fala muito. Já me habituei, não posso falar durante as provas que ela não responde. (riso)

Há vida social fora do atletismo?
A maior parte dos meus amigos corre. Tenho noção de que sou uma pessoa muito anormal, que sou diferente, com o tempo que dedico às corridas. É a minha maneira de ser. Há uns anos eu ainda ligava ao que as pessoas diziam. No Clube do Stress eu era dos mais novos e as pessoas diziam que eu corria demais e que tinha de ter mais vida para além da corrida. Mas este é o caminho que escolhi.

Mas vê televisão, filmes, vai a concertos?
Normalmente a televisão que vejo é quando vou ao ginásio.

Tem algum hobby para além da corrida?
Gosto de almoçar ou jantar com os meus amigos. Muitas vezes nas maratonas o que sabe melhor é a refeição que vem a seguir, ou antes, e o convívio. Normalmente bebo vinho ou cerveja na véspera.

Tem ideia de quantos quilómetros tem nas pernas?
Corro maratonas há 20 anos, faço pelo menos seis, sete mil quilómetros por ano, portanto, já fiz 150 mil quilómetros, no mínimo.

Gostava de ter um patrocínio?
Sim, nomeadamente de equipamento. Mas ao mesmo tempo não quero expor-me muito, quero proteger-me sempre um bocado.

Se tivesse um azar que o impedisse de correr para sempre, o que faria?
Já me passou pela cabeça ter um plano B. Acho que ia fazer caminhadas, andar de bicicleta ou nadar. Este ano fiz pela primeira vez com a Rita um Ironman. Para o ano vamos fazer outro. Preciso é exercitar e suar. Preciso de ter um cansaço físico e não mental quando chego ao final do dia. Acho que conseguia adaptar-me, mas concerteza teria que fazer outro desporto.