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Adriano de Souza: “Eu olhava o Tiago como um dos deuses no mundo do surf”

Adriano de Souza fez questão de estar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, para ver a estreia do filme de Tiago Pires, o “primeiro amigo” que teve fora do Brasil e com quem tem “uma boa aliança”. Falámos com o ainda campeão mundial de surf antes da estreia do documentário de Saca, um dia antes de arrancar o Moche Rip Curl Pro, em Peniche

Diogo Pombo

NICOLAS PESCHIER

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Um dos halls interiores do Centro Cultural de Belém está à pinha. Umas quantas pranchas estão pendurados do teto, presas por fios de nylon, com o aspeto de estarem a levitar por cima das centenas de cabeças que ali estão. As pessoas estão descontraídas, as caras estão queimadas, a linha do bronze vai até meio do pescoço. É um encontro de surfistas, um convívio entre pessoas do surf, que o fazem ou vivem dele. É o fim da tarde de segunda-feira e todos estão ali por um motivo - é o dia da antestreia do filme do Tiago Pires, o senhor surf português que toda a gente conhece como Saca. Ele está um pouco nervoso.

Tem uma camisa vestida, aprontou-se, passa mais de uma hora à espera. Tem uma lata de Red Bull na mão, não a larga, enquanto os jornalistas formam uma fila e, entre câmaras e gravadores, lhe vão chegando à frente. O dia é dele, do surfista que, aos 36 anos, já não compete, mas que o fez durante sete anos no meio dos melhores, no circuito mundial de surf que, no dia seguinte, arranca uma etapa em Peniche. Agora o Tiago Pires é pai, está mais velho, com menos forma e com uma barriga mais proeminente, da qual até se queixa no filme.

Ele está feliz, não pára de sorrir. Admite-me que está “muito contente” com o filme, por ser “diferente” e não ser “mais um filme sobre surf” ou um tributo à carreira dele. Queria algo que “envolvesse outros temas” e formasse “uma coisa mais profunda”, uma espécie de documentário sobre como ele apareceu no surf e como o surf, que era tímido em Portugal, apareceu nele - e o que implica estar, viver e querer ter sucesso nesse mundo.

Cumprimento-o, faço-lhe duas ou três perguntas e ele pede para “deixar passar umas horinhas”. Não consegue assentar - “Ainda não estou aliviado, a vontade e o stress são muitos”. Não lhe quero roubar tempo. Ele queria estar falar com os amigos, por-se no meio da gente que veio de longe para estar ali por ele.

Como Adriano de Souza, o brasileiro que conhece há mais de uma década e que veio a conduzir de Peniche, onde vai competir, para estar ali. E o campeão mundial de surf, e amigo dos bons de Tiago, sabe como tudo isto é importante para Saca, que no filme até explica de onde vem a alcunha que, talvez, nem Adriano saiba de onde veio.

Achas que o Tiago está nervoso?
Vai ser um dia muito especial para ele! Pelo que a gente vem falando, ele não está ansioso, mas, com tanto trabalho para chegar a este dia, ele estava falando muito desse dia, que é a realização de muita coisa.

Falaram muito nos últimos meses?
Sim, ele dizia que não via a hora desse filme acabar e que, daqui para a frente, vai ser mais descanso para ele. Disse-me que foi um filme produzido com muito carinho e dedicação, ele trabalhou muito em cima desse filme.

De que forma participaste nele?
Ah, participei pelo convívio que tive com o Tiago nos últimos dez anos. Presenciei muita da carreira do Tiago, desde a entrada dele na elite, a briga para ele entrar. Participei em praticamente todos os momentos que ele viveu no circuito mundial. É uma grande honra tê-lo como o meu primeiro amigo fora do Brasil. Até hoje, temos uma boa aliança.

NICOLAS PESCHIER

Como é que se conheceram?
Conheci-o no Japão, pela primeira vez. Eu viajava com o Danilo Costa, que era um atleta do mesmo patrocinador do Tiago. Fui introduzido ao Tiago como “este é o cara com que você pode falar à vontade”. Eu na altura não falava inglês. Aí, foi com ele mesmo que eu falei tudo!

Ainda havia poucos brasileiros no circuito.
Exatamente. Havia muito poucos e na altura viajávamos mais sozinhos, o custo era muito alto, portanto, as pessoas do circuito eram a nossa família. Foi nessa época que conheci o Tiago. A gente teve uma identificação muito boa. No princípio, ele convidou-me para passar um inverno aqui na sua casa, em Portugal, e foi aí que começou uma boa amizade.

Alguma história engraçada para contar?
Tivemos uma viagem para a Indonésia, que foi a minha primeira. Cheguei lá e ele me foi introduzindo nas coisas boas. O Tiago foi praticamente um mestre na minha vida. Ele é mais velho que eu e quando ingressei no circuito mundial eu olhava o Tiago como um dos deuses no mundo do surf.

E como tem sido este ano para ti, como campeão mundial?
Na verdade, não senti a pressão de ser campeão. Senti que tive falta de uma pré-temporada. Tive muitos compromissos com os media, entrevistas, então saí muito da água. Com certeza que isso teve muita influência no meu ano. Não iniciei o ano como gostava, não tive todo o tempo livre que gostaria. Tive que dar prioridades a outras coisas e isso está a refletir-se no meu ano [é o 10.º do ranking]. É uma prova de que, se você tem pressão mediática, as coisas ficam mais difíceis. Se não, ficam mais fáceis. Todo o campeão passa por isso e eu estou a vivê-lo.

O que esperas agora de Supertubos?
Cara, hoje [segunda-feira] já estava a bombar. Até quebrei a prancha e tudo! As ondas estavam muito fortes. Acredito que vai ser um campeonato épico, como 2011, com boas ondas. As previsões estão muito boas, vamos ver.

O título decide-se em Portugal?
Acho que não. Os dois atletas que estão na ponta [John John Florence e Gabriel Medina] são extremamente bons, têm ambos uma grande chance de chegarem aos quartos-de-final. E, se isso acontecer, o título vai ser decidido em Pipe [onde no Havai, onde se realiza a última etapa do circuito].

Um dia também queres fazer um filme como o do Tiago?
Com certeza. Na verdade, ainda não vi o filme, vou ver agora, mas assim já fico com uma referência. Acho que tem tudo para acontecer. Só que preciso de mais dez anos na batalha ainda! [risos].