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Bruno César: “Se hoje sou o jogador que sou é por causa do Jesus. Ele é gente boa, tranquilo”

Bruno César é um dos homens de confiança de Jorge Jesus, que o foi resgatar ao Estoril depois de uma aventura das arábias. O médio brasileiro, de 27 anos, admite que abdicou de muito dinheiro para regressar ao futebol europeu, mas que não há milhões que comprem a alegria de voltar a jogar ao mais alto nível. Como vai acontecer mais logo, em Alvalade, contra o Borussia (19h45, RTP1)

Lídia Paralta Gomes e Tiago Miranda

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tiago miranda

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Bruno César Zanaki. De onde vem este Zanaki?
É de origem italiana. Tenho um bisavô italiano e é por causa do Zanaki que tenho passaporte europeu.

Parece japonês.
É, todo o mundo pergunta se é japonês, mas é mesmo italiano.

E o futebol, é de família?
O meu pai jogava, mas não teve muita sorte. Teve um problema num joelho e não conseguiu dar sequência à carreira. Por isso, na família sou só eu mesmo. Alguns primos tentaram, mas nada de especial.

A alcunha “Chuta-Chuta” vem de onde?
Da minha passagem pelo Corinthians, quando joguei com o Ronaldo.

Foi o Ronaldo?
Sim, chamava-me o “Chuta-Chuta da Estrela” e pegou. Não é que eu chutasse para onde estava virado, mas a verdade é que uma das minhas primeiras opções era rematar. E às vezes ele ficava bravo!

Portanto, temos aqui Bruno César, o homem que irritou Ronaldo, o Fenómeno.
Sim, ele ficava impaciente [risos]! Eu era muito novo e queria mostrar serviço. Ele nessa altura já estava numa fase descendente, não estava muito afim de jogar, as lesões já atrapalhavam. Foi um ano marcante: joguei com ele e com o Roberto Carlos.

E como era estar no balneário com figuras como o Ronaldo e o Roberto Carlos?
Eu conhecia-os de fora, vi-os ganhar o Mundial de 2002. Acordava às 3 ou 4 horas da manhã para ver os jogos e de repente estava ao lado deles. É aí que percebes que eles são pessoas simples e humildes, que nos dão uma atenção muito especial, não só nos treinos mas também fora deles.

O Ronaldo nessa altura já tinha aquela barriguinha.
Estava um pouquinho acima, sim [risos]. Mas sempre manteve o profissionalismo no campo.

Ronaldo e Roberto Carlos brilharam no Real Madrid e o Bruno também teve o seu momento de glória no Bernabéu, apesar do jogo não ter acabado bem. Acha que o Sérgio Ramos ainda tem pesadelos com aquele golo?
Não, não! O Sérgio Ramos é um grande profissional. Para mim foi um dia marcante, mas infelizmente não conseguimos a vitória. Mas é um golo que vou levar para o resto da vida e mostrar aos meus filhos porque foi especial marcar naquele estádio, na Liga dos Campeões. Quero levar as boas recordações daquele jogo, que foi o golo e o facto de termos jogado muito bem. Fica só aquele sentimento de que podíamos ter feito algo mais. Pelo menos o empate acho que merecíamos.

O que vos disse Jesus no final do jogo?
Que era preciso seguir em frente, não só ele mas também o presidente. Mas que o futebol não é estar concentrado 87 ou 88 minutos. É preciso estar atento 93 ou 94 minutos.

CURTO DE LA TORRE/Getty

Jorge Jesus é um treinador com um enorme papel na sua carreira.
Claro, fez muito por mim. Se hoje sou o jogador que sou é por causa do Jesus. Aprendi muito com ele e tudo o que conquistei no futebol, a minha ida à seleção do Brasil, ter jogado três Ligas dos Campeões, devo principalmente ao Jesus. Por me ter ajudado, por me ter resgatado ao Estoril e agora dar-me mais uma vez a oportunidade de estar num clube grande, como é o Sporting.

Tem jogado em diferentes posições esta época. Como se dá com estas mudanças?
Cada jogo é um jogo e Jesus procura passar essa mensagem aos jogadores. Tanto na ala como na lateral ou no meio-campo, o importante é ajudar o Sporting, porque a equipa está acima de tudo. Não tenho problema nenhum em jogar em qualquer posição e sinto-me à vontade.

Como é Jesus fora dos jogos ou dos treinos?
É uma pessoa tranquila, amiga, sempre disponível para conversar. Ter esse contacto fora do campo também é importante, não é? Isso ajuda-nos, dá-nos confiança, porque não é só entrar em campo, dar a ordem tática e acabou. Ele é gente boa, tranquilo, diferente daquilo que mostra dentro do campo.

Recuando até ao final da última temporada: doeu mais perder aquele campeonato por ter jogado no Benfica?
Creio que não, o sentimento é igual para todos. O campeonato não se perdeu naquela derrota com o Benfica, porque ainda faltavam 10 ou 11 jornadas. É claro que depois vieram todas aquelas vitórias consecutivas das duas equipas, o que não sei se algum dia vai voltar a acontecer. Custou mais porque estivemos boa parte da época na frente.

Há alguma diferença nas estruturas de Sporting e Benfica?
Não são muito diferentes. Duas estruturas muito boas, que dão condições fantásticas aos jogadores para trabalharem.

E nos adeptos?
No Sporting sinto-me mais acarinhado. Deram-me mais apoio. É como se os adeptos jogassem connosco, principalmente em Alvalade. Tenho mais prazer em jogar aqui. Mas acredito que seja também por estar mais maduro.

Ainda o incomoda a saída do Benfica?
Jesus sempre deixou claro que não queria que eu saísse. Mas isso é passado, aconteceu, tive uma experiência lá fora e voltei, mais experiente e maduro.

Seguiu-se ano e meio na Arábia Saudita.
Uma experiência de vida completamente diferente. Num momento estás num país em que tens liberdade, podes sair à hora que quiseres, sem restrições, podes a qualquer momento receber uma pessoa do Brasil e de repente deparas-te com um país absolutamente fechado. Para qualquer coisa era necessária uma permissão dos príncipes. Por exemplo, se eu quisesse receber uma pessoa do Brasil tinha de pedir uma carta que autorizasse a pessoa a entrar no país.

Não foram tempos fáceis…
Chega a uma hora em que percebes que o dinheiro não compra a felicidade. Porque, por exemplo, não queres ter de pedir autorização a ninguém para receber a tua namorada. Queres trazer a pessoa e pronto.

Tiago Miranda

Essa temporada na Arábia Saudita travou a sua evolução?
Sim, principalmente por causa do treino. Lá não se treina muito e isso fez com que ficasse para trás e fora do nível europeu e até do brasileiro. Isso prejudicou-me.

Como era um dia a dia em Jeddah?
Vivia praticamente no fuso horário do Brasil, onde eram sete horas a menos. Ia dormir às seis ou sete da manhã porque ficava a falar com a minha namorada, agora mulher. Depois acordava às duas da tarde e almoçava. Quando tinha um personal trainer trabalhava das 15h às 16h30 e ia para o treino do Al-Ahli à noite. O treino começava às oito e durava uma hora, às vezes nem isso. Depois, era sair, jantar e voltar para casa.

Há algum episódio caricato de que o Bruno se lembre e que mostre o que era jogar futebol e viver na Arábia Saudita?
As rezas! A última reza do dia era às sete ou oito e pouco. Tínhamos de parar o treino. Chegou a acontecer estar quase a fazer um golo, chegar a hora da reza e o guarda-redes nem pular, nem fazer nada! Tínhamos de esperar uns cinco minutos até recomeçar.

Por falar em golos, o futebol na Arábia Saudita não era do melhor, mas basta ir ao YouTube para rever a quantidade de belos golos que marcou no Al-Ahli.
No início, sim, porque estava muito bem fisicamente. Em sete meses fiz 12 ou 13 golos e muitos deles bonitos, de fora da área. E foi por isso que eles não me deixavam vir embora.

Ainda se cruzou com o Vítor Pereira. Ajudou ter ali um português?
Acho que o ajudei mais do que ele a mim! Ele chegou e estava meio perdido: vinha do Porto, habituado à qualidade europeia dos jogadores, do treino, do próprio dia a dia. Vais para lá e a qualidade não é igual. Ele ficava irritado e eu dizia-lhe :“Calma Vítor, é assim mesmo. É difícil, tem de ter paciência.”

Como foi essa fase para a sua namorada?
De vez em quando ela ia ter comigo à Arábia Saudita e para ela era horrível. Era difícil porque era obrigada a usar burqa, não podia conduzir, não podia sair sozinha.

Ela teve um papel importante na hora de decidir rescindir com o Al-Ahli?
Entretanto casámos e ela não queria estar lá de jeito nenhum. Foi nessa altura que surgiu a proposta do Estoril.

A nível económico perdeu muito ao deixar a Arábia Saudita?
Comparando o que ganhava lá e o que fui ganhar para o Estoril... acho que muito poucos jogadores fariam o que eu fiz, isto é, acreditar no seu futebol e pela carreira deixar o dinheiro de lado. Mas eu precisava de fazer isso. Confiei em mim, esqueci a parte financeira e meti na minha cabeça que queria voltar a jogar a um alto nível.

O que lhe passou pela cabeça logo que soube do interesse do Estoril?
No início, quando me apresentaram a proposta, não queria vir. Não é desmerecer o Estoril, mas na minha cabeça tinha uma ambição maior.

E foi uma surpresa perceber que a opção de se focar na carreira tinha dado frutos tão rapidamente?
Fiquei surpreendido. Fiz um início de época muito bom no Estoril, estávamos lá em cima, na luta pelos primeiros lugares e foi aí que pensei: “Acho que está dando certo!” A proposta do Sporting chegou a meio da época, foi uma surpresa, mas é mesmo assim: quando estás focado e tens pessoas ao teu lado, as coisas acontecem.

Entrevista publicada na edição de 15 de outubro de 2016 do Expresso