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Eis a nossa CN7: “As mulheres pensam melhor o jogo do que os homens”

Cláudia Neto tem sido a protagonista de uma seleção que hoje pode dar mais um passo de gigante na história do futebol feminino português, caso vença a Roménia, na 1ª mão do play-off que garante a 16ª e última vaga na fase final do Europeu 2017, a disputar na Holanda. A jogadora algarvia que domingo passado se sagrou campeã da Suécia faz um balanço da carreira e da qualificação e espera que às 18h45 o Restelo encha (entrada gratuita e transmissão TVI24) para apoiar uma equipa que, aconteça o que acontecer, “já está de parabéns”

Alexandra Simões de Abreu

Cláudia Neto, 28 anos, no estágio de preparação da seleção feminina na Cidade do Futebol

José Carlos Carvalho

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Que significado tem a conquista do campeonato sueco?
É um sonho realizado. Há muito tempo que andava atrás deste objetivo. É um sentimento que não consigo explicar. O campeonato sueco é muito forte, muito competitivo e conseguir ganhar essa liga é um sonho. Agora é desfrutar.

Ainda por cima num campeonato onde joga a melhor do mundo, a brasileira Marta.
Sim, ela joga no FC Rosengård, a equipa que ficou em segundo lugar. Poder jogar contra ela e ganhar é sempre bom. (risos)

Acredita mesmo que é desta que vamos estar na fase final de um Europeu?
Sim. Acho que estamos muito perto de conseguir esse objetivo. Sabemos da importância destes dois jogos, sabemos que temos de entrar dentro de campo com a ambição de ganhar. Estamos a dois passos de poder estar entre as melhores seleções da Europa e é isso que queremos. Este grupo merece estar entre as melhores. Temos feito um excelente trabalho e acredito plenamente que isso é possivel.

Em que é que somos melhores do que as romenas?
Elas, tanto como nós, querem estar no Europeu, por isso a nossa vontade tem de ser ainda maior. Nós temos uma seleção muito competitiva, com jogadoras com muita qualidade, cada vez estamos melhores e mais unidas. Temos feito bons jogos e as outras seleções já nos respeitam. Temos de tentar jogar à Portugal, com união de grupo, espírito de sacrifício. No último jogo contra a Finlândia a perder 2-0 demonstrámos isso [Portugal venceu 3-2], sempre acreditámos e acho que esse é o espírito que temos de ter sempre.

Um jogo (contra a Finlândia) no qual foi decisiva. Aliás, a Cláudia tem mais golos marcados na seleção do que no campeonato sueco.
É curioso porque esta temporada no Linköpings FC ainda não tenho qualquer golo. Lá jogo na posição '6', mais recuada no terreno, mais de controlo de jogo. Aqui na seleção jogo mais a '10' ou ponta de lança e por isso tenho mais facilidade em fazer golos.

Qual das posições prefere?
Na Suécia o campeonato é muito competitivo, os jogos são muito, muito dificeis e tenho muito mais dificuldade lá de poder jogar a '10' ou a ponta de lança, até porque jogo com as melhores do mundo e elas, nessas posições, são fantásticas. Altas, rápidas, fortes… Acho que consigo fazer bem o papel mais defensivo, fazer a equipa jogar e também gosto bastante. Mas gosto mais de ser '10' ou ponta de lança.

Será importante neste jogo com a Roménia marcar primeiro?
Acho que é importante marcar e sobretudo não sofrer golos neste jogo em casa.

Mas já provaram que quando as coisas não estão a correr bem, conseguem, na garra e no sacrifício, dar a volta…
É à Portugal (risos). Espero não ter que ir à procura do resultado.

Onde estão os nossos pontos fortes, na defesa, meio-campo ou ataque?
É um todo. Não há nenhum setor que se destaque mais ou menos.

Qual a mais valia que a Claudia trouxe à seleção nacional por estar a jogar num campeoanto bem mais competitivo do que o português?
Sou profissional, treino sete ou oito vezes por semana e isso faz toda a diferença. As minhas colegas que jogam em Portugal ainda não têm essas condições de treino. Não treinam tanto. Por isso, acho que trago experiência à equipa porque já jogo há muitos anos. Mas sinto-me igual às outras, não me sinto nem melhor nem pior, sou uma mais.

Às vezes não sente alguma frustração na seleção?
Não porque estou cá porque quero e sei a realidade do futebol feminino em Portugal. As coisas estão melhores, estamos a evoluir, elas também estão mais comprometidas com a seleção e com o trabalho nos clubes, o que é muito importante. Estamos a um passo de estar num campeoanto da Europa, entre as melhores do mundo e isso diz muito daquilo que temos feito até agora.

O que mais contribuiu para este sucesso?
Somos uma família. É a união de grupo, é acreditarmos uns nos outros, acreditarmos que o trabalho do selecionador é o correto, é o ideal e isso é o mais importante.

É muito diferente a forma de treinar e aquilo que ouve aqui, da realidade que vive na sua equipa sueca?
É uma realidade completamente diferente. A maneira como encaram o jogo é diferente. É difícil explicar.

São mais profissionais na Suécia?
Talvez. Não estou a dizer que aqui não são, mas as jogadoras lá são mais frias, não se preocupam tanto com o exterior. Estão ali para jogar. Chegam, treinam, jogam e pronto.

O que o selecionador Francisco Neto trouxe de novo a esta seleção?
Tem feito um excelente trabalho. É a pessoa indicada para estar neste cargo. Não só por ser um treinador que entende muito de futebol, mas também por ser a pessoa que é. Ele conhece muito bem o futebol feminino e todas as jogadoras em Portugal, neste caso as que fazem parte da seleção. Isso é importante, conhecer cada uma de nós.

José Carlos Carvalho

A Cláudia começou por jogar futsal no UAC de Lagos, até que foi chamada à seleção de sub-18. Lembra-se dessa primeira experiência no futebol de 11?
Inicialmente não gostei muito. Há muitos anos que jogava futsal, sempre adorei futsal e fazia-me confusão um campo tão grande, e a bola... era tudo tão diferente para mim. Mas pouco a pouco, comecei a ser chamada cada vez mais, as coisas começaram a correr bem e comecei a gostar.

O que a fez ir para fora?
Na altura o campeonato português não era o que é hoje. Sempre tive a ambição de ser profissional, sempre foi o meu grande sonho e sabia que em Portugal isso não iria acontecer. Só estava à espera da oportunidade. Quando recebi o convite do Prainsa Zaragoza, passados três dias já estava a caminho de Espanha. Queria mesmo muito ser profissional. Fui jogar semi-profissional, mas sempre pensei que as coisas se constroem pouco a pouco.

O que é que Espanha e o campeonato espanhol lhe deu?
É um bom campeonato com jogadoras muito técnicas, deu-me a técnica e velocidade de execução. O campeonato sueco é mais físico, é um jogo mais direto. O espanhol além de mais técnico, é mais de futebol apoiado, em que tens de reagir muito rápido.

Qual prefere?
O sueco. Porque em Espanha os campos são muito pequenos, está ali tudo muito amontoado, tens de pensar muito rápido, tem de ser tudo muito rápido. No campeonato sueco temos estádios enormes, tens muito mais tempo para pensar, é um futebol profissional, eu prefiro. É muito físico, mas na minha posição, '6', é mais posicional, é mais toque de bola.

Qual a sua opinião sobre o atual campeoanto português?
As coisas estão melhores, mas ainda há muito a fazer.

Onde é mais importante mudar?
O Sporting e o Sporting de Braga apostaram este ano no futebol feminino e têm todas as condições, tal como o meu clube. São equipas que dão tudo às jogadoras. Ou seja, também é um bocadinho o compromisso de cada uma. A grande diferença é a intensidade do campeonato. Não pode haver uma ou duas equipas muito fortes e as restantes serem mais fracas.

Para si o que faz uma jogadora evoluir?
O treino diário, sem dúvida nenhuma, mas mais importante que isso é a intensidade do jogo. É a competitividade que o jogo traz. Aí faz toda a diferença. E aí ainda estamos a anos luz do campeonato sueco. Eu treino mais que elas e os treinos são mais intensos, mais competitivos. Cada treino é um jogo.

Mas deu a entender que também é preciso haver uma mudança de mentalidade das próprias jogadoras…
Sem dúvida, faz toda a diferença. O compromisso de cada uma é muito importante. Eu para estar a jogar onde estou e para ser profissional tenho de abdicar de muita coisa na minha vida. Estar longe da família, não poder sair a noite, cuidar muito da alimentação.

Qual o sacrifício que custa mais?
Estar longe da família. É muito duro. Já estou há muitos anos fora mas nunca me habituei. E, na Suécia, o frio. Estar a treinar com 15 graus negativos é horrível. Estar num país em que se fala um idioma muito diferente… são sacrifícios que elas não têm aqui. Mas, na minha opinião, para querer chegar a um patamar superior, não pode ser em Portugal.

E onde quer chegar?
Já cumpri um dos grandes objetivos que foi conquistar a Liga sueca. Outro grande objetivo é estar presente num campeonato da Europa. Claro que jogar a Liga dos Campeões e poder vencê-la seria também um sonho.

José Carlos Carvalho

Sonha também em ser eleita a melhor jogadora do mundo?
O ano passado fui nomeada para melhor médio centro do campeonato sueco, infelizmente não ganhei, mas este ano gostava muito de ganhar. Ser a melhor do mundo é muito complicado porque já vou tarde. Tenho 28 anos, já estou velhota (risos). Tenho jogadoras no clube que com 16/17 anos são profissionais, eu com essa idade andava a jogar no meu bairro. Esses anos fazem toda a diferença.

Se pudesse escolher, em que campeonato gostava de jogar?
No alemão. É o melhor da Europa.

E o clube de sonho?
Um Wolfsburg, um Lyon, um PSG…

Voltar para Portugal não está mesmo nos seus planos?
Para já não. Gostava e espero terminar a minha carreira em Portugal daqui a uns aninhos.

Em que clube?
Não sei.

Qual é o seu clube de coração?
O Sporting.

Qual a sua jogadora preferida?
Não tenho assim nenhum referência, mas a Marta para mim é uma grande jogadora e continuará a ser.

E o melhor jogador?
O Cristiano Ronaldo.

Gosta da analogia que fazem, ao dizerem que é a 'Ronalda' da seleção feminina? A CN7?
Acho engraçado. Para mim é um orgulho ser comparada ao melhor do mundo.

Quando pensa acabar a carreira?
É sempre uma decisão complicada de tomar, mas tavez aos 33, 34 anos. Quando achar que há jovens a dar mais, retiro-me.

Acha injusto haver tanta discrepância entre o futebol masculino e o feminino, por exemplo, ao nível de ordenados?
Acho. Nós somos mulheres, eles são homens, mas é futebol. Cada um com as suas características. Nós, tal como eles, damos tudo em campo.

Porque é que as pessoas não se interessam tanto pelo futebol feminino como pelo masculino?
Vai ser sempre assim. É uma questão de mentalidades. Há alguns anos as mulheres não jogavam à bola. Estar a implementar essa mentalidade… As coisas vão ser melhores, mas nunca vai ser igual.

Passa muitas horas a ver jogos de futebol?
Sim, mas gosto mais de analisar os meus jogos. Depois de cada jogo, analiso sempre a minha prestação.

Há alguma mais valia das mulheres para o futebol e que os homens não têm?
A inteligência. Pensamos melhor o jogo. Claro que depois há outros parâmetros, como a força.

Se não conseguirmos este apuramento, será uma grande desilusão para si?
Não. O que temos feito até agora tem sido fantástico. Aconteça o que acontecer a partir daqui já estamos de parabéns.

Acaba contrato com o seu clube na próxima época. Vai renovar?
Ainda não sei. Tenho de analisar, tenho algumas propostas.

O que lhe falta para ser ainda melhor jogadora?
Físico. A nivel de seleção posso ser uma das que mais se destaca tanto a nível físico como de técnica, mas na Suécia a nível físico sou a mais fraquinha, enquanto a nível técnico sou a mais evoluída.

Trabalha muito a técnica?
É um dom. A pessoa nasce com um dom, claro que esse dom tem que ser trabalhado. Mas só com esse dom é que consegues chegar ao topo.