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Gastão Elias: “Foi um bom dia no escritório. Acho que o Monfils não me conhecia”

Gastão Elias ganhou pela primeira vez a um tenista do top-10 do ranking. O português de 25 anos venceu Gael Monfils, 7º na classificação mundial, em Estocolmo e, tarde e a más horas, ainda o apanhámos, vivaço e bem-disposto, ao telefone. Não fez mal, porque ele estava “radiante” e admitiu que “não conseguia ir dormir” mais cedo. É normal: Gastão está nos quartos-de-final de um torneio ATP pela segunda vez na carreira

Diogo Pombo

FREDRIK SANDBERG/Getty

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Parabéns pela vitória, Gastão.
Obrigadíssimo. Foi um bom dia no escritório, como se costuma dizer [ri-se].

Tenho de perguntar: como é que te sentes?
Como é que me sinto? Ainda um bocadinho elétrico, é difícil de mastigar. É uma sensação inacreditável. Sempre tive o sonho, desde pequenino, de jogar contra jogadores de topo, de igual para igual. E hoje [quinta-feira], com esta vitória, posso dizer que tornei esse sonho em realidade. Estou muito feliz. O que posso dizer é que uma vitória destas me dá uma motivação ainda mais forte. Dá-me mais vontade de trabalhar, porque sinto que estou cada vez mais perto de jogar a um nível destes, contra estes jogadores.

Em que altura percebeste que era muito provável ganhares ao Monfils?
Na verdade, mais para a parte final. Quando fiz o segundo break, no segundo set, entrou-me na cabeça que realmente podia ganhar o jogo. Não é fácil uma pessoa pôr-se em situação de ganhar, mas isso até nem é o mais difícil num jogo de ténis contra este tipo de adversários. A minha preocupação foi sempre manter o nível e não baixar absolutamente nada, porque estes jogadores aproveitam qualquer vacilo. No segundo set, quando cheguei ao 4-0, aí é que comecei a pensar que podia mesmo ganhar.

É aí que a cabeça costuma começar a trabalhar, não é?
Obviamente que estava bastante nervoso. Não é todos os dias que se ganha a um top-10. Estava ali tão perto e, de repente, perco um, dois, três, quatro match points. Às vezes isso pesa e se não aproveitares essas oportunidades, elas não voltam a aparecer. Depois começas a pensar duas vezes. “Será que vou ganhar?”. Estes jogadores, como o Monfils, são muito bons nesses momentos de dúvida. Mas joguei muito bem, do primeiro ao último ponto.

E logo num piso que não é a tua especialidade.
Sim, mas em tempos foi! [risos] Antes até preferia mais o piso rápido. Nos últimos anos, obviamente, desenvolvi um estilo um pouco mais de terra batida, mas sempre soube que tinha armas para jogar em qualquer tipo de piso. Sirvo bem, tenho uma direita muito boa, considero-me um jogador rápido, portanto sempre acreditei que podia jogar bem. Agora foi uma questão de adaptação. Mas há muitos anos que não jogava tanto tempo seguido em piso rápido.

Então?
Isso faz muita diferença. Nos últimos quatro anos, se joguei um ou dois meses, no total, em piso rápido, foi muito. É normal que demore um pouco a apanhar o ritmo outra vez, sabia disso. Tentei fazer isso nos últimos tempos. Apesar das derrota, tentava fazer as coisas certas. Mesmo que a jogada não saísse ou não corresse bem, tentava fazer o ideal para piso rápido. Acredito que optava pelas decisões certas e que me poderiam a ajudar. E isso, com o tempo, vai começando a aparecer. O jogo vai encaixando. Neste momento, sinto-me plenamente à vontade em piso rápido.

Agora que eliminaste um cabeça de série, é para ganhar o torneio aí em Estocolmo?
Não, não, sinceramente não penso nisso. A este nível, nestes torneios ATP, o nível é muito alto. Sei que do número 10, para o 20, para o 30, a diferença, tirando obviamente o Djokovic e aqueles quatro primeiros, é muito pouca. Agora vou jogar contra o Jack Sock [número 23 do ranking] e sei que posso jogar muito bem e perder na mesma. Estou consciente disso. Não é por ganhar ao número sete que não vou perder com o oito, e por aí fora.

Ainda por cima, entre um e outro, o estilo de jogo é bastante diferente.
Sim, todos os jogados são diferentes e qualquer tenista se adapta de maneira diferente às cirscunstâncias. Obviamente que isto é muito bom para a minha confiança. E para o respeito, que é muito importante no circuito - os jogadores respeitarem-te e saberem que és capaz de fazer este tipo de coisas.

FREDRIK SANDBERG

Achas que o Monfils sabia quem tu eras?
Acho que não me conhecia. Nunca tinha jogado contra ele. Pronto, também eu não o conhecia dentro do campo. Sabia como ele jogava mais ou menos, mas no campo é totalmente diferente. Tive poucas oportunidades de jogar contra jogadores do top-10. É sempre muito difícil, porque temos a sensação que é algo que acontece poucas vezes. Quando aparece uma oportunidades, sentimos logo que a temos de aproveitar, isso vem-nos logo à cabeça.

A falta de rotina contra jogadores destes joga contra ti próprio?
Sim. Jogar em campos grandes também faz diferença. Um jogador do top-10 está muito mais acostumado a isso, não sente tanto a pressão do ambiente como nós. Quando digo nós, refiro-me a jogadores um pouco mais abaixo no ranking. Quando é a primeira vez que jogamos contra tenistas deste nível temos de lutar contra muita coisa dentro do campo. Há muito nervosismo. Por isso é que uma vitória assim… Estou radiante [ri-se de novo].

O Monfils disse-te alguma coisa de especial no final, quando se cumprimentaram junto à rede?
Disse “muito bem jogado e boa sorte”, basicamente.

Realisticamente, onde esperas acabar o ano, no ranking?
A única maneira de subir bastante seria com o título aqui em Estocolmo, obviamente. Mas, este ano, ainda tenho de defender dois títulos de campeão em torneios Challenger, o que dará à volta de 160 pontos. Vai depender um pouco destas próximas três semanas, que serão as minhas últimas. Ou seja, não é possível subir muito mais do lugar onde estou [61.º] sem ser campeão aqui. Para me manter aqui, tenho de vencer os dois torneios que ganhei o ano passado.

Vai ser difícil.
Claro, mas é possível. Estou num bom momento. Mas, na melhor das hipóteses, sem contar com este torneio, o meu objetivo é manter os pontos que tenho, ganhando os dois próximos torneios.

Não te roubo mais tempo, Gastão. Obrigado. Aí também já é tarde, deves querer ir dormir.
Ó, não há problema, também não conseguia dormir antes.

Mas vais conseguir dormir hoje?
Consigo, isso consigo. Estou cansado, eu durmo rápido [acaba a rir-se].