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O tipo sortudo que anda atrás de Guardiola há anos: “Ele mudou muito na Alemanha”

Martí Perarnau conhece bem Pep Guardiola. Quando ele foi para Munique, há três anos, o jornalista foi atrás e teve acesso a tudo durante a primeira época do treinador na Alemanha. Essa experiência resultou no primeiro livro sobre Guardiola. O segundo, lançado esta semana, é sobre o quão mudou Guardiola na Alemanha e o porquê de ter ido para o City. Falámos com Perarnau sobre Pep, as entrevistas que não dá, a oferta que o Real Madrid lhe fez e como ele se tornou amigo dos jogadores

Diogo Pombo

Stu Forster

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Que sorte. É isso que vem à cabeça quando se deixa Martí Perarnau falar, sem o interromper com perguntas ou constatações. O homem, além de sortudo, é falador, e cola palavras umas às outras sobre um mesmo tema. Ele é prestável, simpático e, mesmo à distância de uma chamada por Skype, nota-se que está entusiasmado. Diz que é um prazer estar, outra vez, a falar sobre Pep Guardiola. Está enganado. O prazer é todo nosso, meu e de quem está agora a ler isto, que estamos do lado de quem nunca falou, ou esteve perto, do treinador que, aos 45 anos, vai com 22 títulos conquistados e com dezenas de corações enamorados pela forma como faz as coisas no futebol.

Pep Guardiola apenas completou épocas em duas equipas na vida dele. Quatro, se contarmos com as reservas do Barcelona. Mais do que jogos e canecos, o técnico ganhou a admiração de muitos, por ter posto jogadores a jogarem da forma que ele queria, que até hoje tem sido diferente de todas as outras maneiras de jogar à bola. “É uma característica muito sua. A ideia não está tão focada em ganhar títulos, mas sim em fazer com que a sua jogo de determinada forma, de acordo com uma proposta que ele, e os jogadores, construíram”, resume Martí Perarnau, calmo no discurso, pausado no castelhano com que tenta ser claro a explicar o que pretende.

Ele sabe bem do que fala, porque é o sortudo que, durante a primeira época de Guardiola no Bayern, teve permissão de o seguir para todo o lado. Viu tudo, falou com toda a gente, andava pelos treinos, sentava-se à mesa com jogadores, tudo. Chamavam-lhe “A Árvore de Säbener Strasse”, nome da rua onde está o centro de treinos do clube. Essa experiência valeu-lhe um livro - “Herr Pep” - e uma amizade que perdurou com o treinador espanhol. Nos dois anos seguintes, continuou a visitá-lo “quase tanto” como durante aquela temporada, teve “o mesmo acesso” às coisas e a convivência com Pep até se acentuou.

E nossa, outra vez, já que tudo isso voltou a resultar em livro. “Pep Guardiola: La Metamorfosis” é publicado esta quinta-feira em Espanha. Um dia antes, Martí Perarnau, que já era atleta olímpico (em 1980, foi aos Jogos de Moscovo participar no salto em altura) quando se tornou jornalista, atendeu a chamada para, mais do que ser entrevistado, conversar sobre tudo isto. O único a não ter sorte neste dia foi Pep Guardiola, que voltou com o Manchester City ao sítio onde foi feliz para perder, por 4-0, contra o Barcelona.

Que diferenças há entre este livro e o anterior?
Bueno, a principal é que o primeiro era uma narração do dia-a-dia, de semana a semana, de quase todos os treinos e de tudo o que se passava no clube. Era uma descrição do que se ia passando. Estava escrito por ordem cronológica e dividido por momentos, consoante eles fossem acontecendo. Este segundo livro já não é assim. Pensei que teria de ser num formato novo. Há dois livros dentro do mesmo livro. O principal é um retrato das mudanças que o Guardiola viveu na Alemanha. Ou seja, como o país o mudou e como ele também mudou um pouco a Alemanha. Essa parte fala, sobretudo, dos desafios e da aprendizagem que ele teve.

O Guardiola mudou muito durante os três anos no Bayern?
Sim, bastante. Basicamente, o livro pode ser visto como um retrato de como o Guardiola mudou. Mas, a uma espécie de nível subterrâneo, no final de cada capítulo, tento explicar alguns momentos que ocorreram durante os dois últimos anos. A base, como te disse, são as mudanças.

Continuaste a falar muito com ele, depois de passares a primeira época sempre na sombra do treinador?
Sim, sim. No segundo e no terceiro anos ainda fui muito a Munique. Menos do que no primeiro ano, claro, porque havia coisas em que já não fazia sentido que eu estivesse. Estive em menos jogos do Bayern, mas poucos. Continuei a ter o mesmo acesso que tinha a ele.

E aos jogadores?
Bom, os jogadores foram mudando [ri-se]. Não todos, a base seguiu, mas houve alterações. No segundo ano chegou o Xabi Alonso, depois o Arturo Vidal, o Douglas Costas, o Kingsley Coman, o Juan Bernat. Foram chegando muitos. Mas, no fundo, fui tendo a mesma relação com eles.

É verdade que, na última época, o Guardiola se tornou mais amigo deles do que o costume?
Foi uma das mudanças nele. A relação com os jogadores tornou-se muito mais direta, principalmente a partir da crise de lesões que apareceu, sobretudo, na primavera de 2015, um assunto muito importante da vida do Guardiola no Bayern. Ainda para mais, lesões que, na sua maioria, foram traumáticas. Golpes, choques com adversários, roturas de ligamentos nos joelhos, houve muitas coisas.

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O Robben e o Ribéry, por exemplo, estavam quase sempre magoados.
Sobretudo o Ribéry. Também o Badstuber, o Alaba, que se lesionou num joelho… Essa crise e epidemia de lesões uniu muitos os jogadores e o balneário. A certa altura eram apenas uns 14 ou 15 jogadores da primeira equipa. Tinham que jogar a cada três dias, ainda estavam na luta por três títulos e aí criou-se uma união muito forte, entre eles e com o Pep. Estavam numa situação de crise e, como sabemos, quando estás em alturas de emergência, os sentimentos aparecem mais. Isso provocou um câmbio importante na vida do Guardiola, tornou-se mais próximo dos jogadores.

Mas antes não o era?
Bom, sim, sempre foi muito de ter uma relação física com eles - de lhes dar abraços, golpes na cabeça, um pontapé no rabo e este tipo de coisas. Mas, tentando sempre ter uma distância, um limite. Explicava-me que o fazia para os jogadores não ficarem com a sensação que estavam com um amigo. Para não ter problemas, evitar que eles pensassem: “Olha, somos amigos deste, mas no dia seguinte já não quer saber de nós”. Ele tentava manter essa distância. Mas, no último ano, viu claramente que era muito melhor alimentar a proximidade com os jogadores, que nada ia acontecer de mau por causa disso. Os jogadores eram inteligentes e percebiam que podiam ter uma relação de amizade com ele, e que isso não os faria jogar ou deixar de jogar. Foi uma mudança importante.

E tu a assistires a tudo isso.
Aí sim, vi como a relação dele com os jogadores se tornou muito mais direta. Isso viu-se agora no Manchester City, para o bem e para o mal. Por exemplo, não reconheceu ao Joe Hart o perfil de guarda-redes que considerava adequado para a sua forma de jogar, e disse-lhe isso logo no primeiro dia. E foi tranquilo, aconteceu e já está. Essa mudança no Pep foi motivada pelo período que passou na Alemanha.

Quem eram os jogadores mais amigos do Guardiola?
Podíamos dizer que se tornou próximo de todos, mas falava muito com o Philip Lahm, o Arjen Robben e o Xabi Alonso. Depois, vinham o Douglas Costa, o Badstuber, o Alaba, o Boateng… Portanto, muitos alemães. Hombre, claro que ele já era amigo do Thiago [Alcântara], a amizade já vinha de trás, eu estava só falar dos novos.

O Guardiola é uma pessoa tímida?
Sim, bastante. Está numa posição, como treinador, em que tem de travar essa timidez [risos]. Mas sim, em privado é tímido.

É uma das razões pelas quais não dá entrevistas?
Não é por isso. Ele chegou a explicá-lo, quando estava no Barcelona. A ideia dele é que há muitos meios e jornais no mundo que querem falar um treinador, com ele, com o Mourinho ou com o Zidane, com quem for. Sobretudo, com os maiores, não é?

Quem me dera.
Claro. E isso pressupõe ocupar uma grande quantidade de tempo, que ele não pode dar. Em 2007, quando foi à Argentina para se encontrar com o Marcelo Bielsa, ele deu-lhe este conselho: não dês entrevistas, porque vais ter de dedicar muito do teu tempo a isso, ou então só darás uma entrevista ao melhor jornal de Portugal, e aí também o segundo e o terceiro vão querer, e depois virão as televisões. E se disseres que sim ao primeiro, terás de aceitar o segundo, o terceiro e por aí fora. Portanto, ele decidiu ser assim.

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Como foi o momento em que o Guardiola se pôs a pensar na proposta do Manchester City?
Ele decidiu sair do Bayern, ou melhor, cumprir o contrato com o clube, mas não renová-lo, quando teve a sensação que o Bayern já jogava da maneira que ele queria. Isto é uma característica muito sua. A ideia não está tão focada em ganhar títulos, mas sim em fazer com que a sua jogo de determinada forma, de acordo com uma proposta que ele, e os jogadores, construíram. O primeiro ano foi de aterragem em Munique, ver as coisas, analisá-las e ver como corriam. O segundo já foi para madurar a forma de jogar. E o terceiro foi quando a equipa passou a jogar de uma maneira a 100% com o que estava previsto no projeto.

Isso aconteceu mais ou menos quando?
A partir de outubro de 2015. Tudo isto, não digo que seja uma virtude, talvez até é um defeito, mas, para a mentalidade do Guardiola, naquele momento o objetivo já estava cumprido. Ou seja, há um projeto com o qual ele queria pôr a equipa a jogar de uma maneira e se, ao fim de dois anos e meio, vê que isso acontece em várias partidas seguidas, então pronto, objetivo cumprido. Aí sim, havia que lutar por todos os títulos até ao final da temporada. Ganhou o campeonato, a taça, e não conseguiu vencer a Liga dos Campeões. Mas o objetivo foi alcançado em outubro. Nessa altura, ele pensa em voltar a fazer o mesmo.

Ele transmitiu logo isso ao Bayern?
Sim, disse-lhes que se ia embora para outro sítio, para voltar a construir uma equipa que jogue de acordo com um projeto. Esta é uma mentalidade muito pouco convencional, muito pouco corrente, que custa compreender. Não digo que seja fácil, nem sequer te digo que seja a melhor. Mas é a verdade.

E achas que é bonito ver o futebol assim?
Bom, acho que é apaixonante. É a maneira de ser dele - colocar desafios a si próprio. Ele é muito competitivo, quer sempre ganhar, mas quer fazê-lo de uma determinada forma. Conseguiu-o no Barça e queria consegui-lo no Bayern. No momento em que sente que o logra no Bayern, quando os jogadores já jogam, digamos, como ele e todos o tinham imaginado, aí a obra já está feita.

O que diz essa mentalidade acerca do feitio do Guardiola?
No livro, falo com vários especialistas de outras áreas que não são desportivas: música, pintura, cozinha e muitas mais. Por exemplo, o especialista em pintura, com quem falei muito, disse-me: isto que me estás a contar é uma característica típica de uma mentalidade artística. Um pintor, quando pinta um quadro, já está. Para ele, a obra está terminada, não lhe importa se depois o vende, se o coloca numa exposição ou se será um êxito mundial. É algo que faz parte da maneira de ser de uma pessoa, daí dizer-te que não é uma coisa boa ou má. É a mentalidade dele. Portanto, quando comunica ao Bayern a intenção de ir embora, já tinha ofertas de bastantes equipas.

Como a do Manchester City?
Sim, incluindo o Real Madrid, imagina. Chegaram mesmo a fazer-lhe uma oferta. O [Rafael] Benítez ainda não se tinha ido embora, mas já estava naquela altura em que eles procuravam um substituto. Bom, ele tinha várias ofertas, mas a do City era a que mais lhe interessava. Já o tinham contactado há alguns anos e estavam lá o Txiki Begiristain e o Ferran Soriano.

Gente do Barcelona.
Sim, era para voltar a começar do zero e para ter um novo desafio, como te disse. Se me perguntas, ele vai tentar o mesmo - chegar ao dia em que, de forma continuada, consiga jogar da maneira que ele, e os jogadores, tenham definido para o projeto. Esse voltou a ser o objetivo. Acho que isto é muito raro. Não é habitual. Mas é o que o motiva e desafia.

Stu Forster

Agora é diferente: o City não é, historicamente, um clube ganhador. Os jogadores não estão habituados a vencer tudo, nem são super estrelas. É o maior desafio para o Guardiola?
Creio que sim. É verdade que os outros dois foram importantes. Em Barcelona, ele era um rapaz jovem que começava sem experiência, foi um grandíssimo desafio. No Bayern, como ele disse no primeiro dia, encontrou algo insuperável. Mas é evidente que este é um desafio ainda mais difícil. Não há uma história por trás, não é um clube com uma identidade de jogo, como o Barça, muito conhecida. Há uma série de fatores que farão com que tudo seja mais competitivo.

Ele está a gostar da cidade e do país?
Sim, está muito contente com o clube, a cidade e as pessoas. As do City, claro, porque as do United são os seus rivais [solta uma gargalhada]. Mas é normal.

Prefere falar em inglês do que em alemão, não?
Claro, é mais fácil! [volta a rir-se]. O alemão é muito complicado. Nestes três até tentei falá-lo, consegui falar um pouco, mas, realmente, é muito difícil.

Que livro gostaste mais de escrever, este ou o anterior?
Este, porque foi mais difícil. O primeiro, claro, foi tudo novidade. Quando lá cheguei pela primeira vez e vi aquilo tudo, não queria acreditar. Foi uma sensação muito boa, foi estupendo.

Eras como uma criança?
Isso mesmo, é uma boa expressão [mais risos]. Agora, com este livro, já não era novidade. Continuei a desfrutar muito da experiência, evidentemente, mas, ao não ser uma narrativa linear, em que explicas cronologicamente tudo o que vês, foi mais difícil. Tive que falar com muita gente, de muitas disciplinas distintas, para também eu compreender o porquê de muitas coisas do Guardiola. Por exemplo, quando te falei sobre a mentalidade dos artistas, tive que aprender muito sobre outros aspetos para tentar entender o Guardiola, para o conseguir retratar. Isso custou-me.

Porquê?
Quando tens um filho, não te dás conta do ritmo a que ele cresce até ao dia em que recebes um amigo, que não vês há uns dois anos, e ele te diz: “Olha, o teu filho cresceu muito. E aí já o vês e o admites. Como eu passava muitos dias e muitas semanas com o Pep, também me custava ver as mudanças nele. Por isso, tive de pedir ajuda a estes especialistas, para que me ajudassem a compreender. Foi difícil, mas também mais satisfatório.