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“Não, não saí a bem do Benfica e é a primeira vez vou falar nisso: Vieira agiu errado comigo”

Júlio César tem 30 anos e é titular da baliza do Fluminense, um dos grandes clubes brasileiros. Lá, é conhecido por ter impedido o golo mil de Romário quando tinha 19 anos e era guarda-redes do Botafogo. Em Portugal teve um padrinho chamado Jesus Jorge que o levou do Belenenses ao Benfica, onde foi campeão em 2009/10. Em dia de dérbi, damos-lhe a palavra para se recordar da comida e de Sintra e de um presidente que “agiu errado” com ele. Em português do Brasil

Miguel Henriques, no Rio de Janeiro

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A posição de guarda-redes é considerada a mais ingrata no futebol. Alguma vez se arrependeu da escolha?
Não, nunca me arrependi. É algo que vem de família. O meu pai era guarda-redes, o meu irmão é guarda-redes também [Darci joga no Aparecidense da série D do Brasileirão]. Até aos 9 anos eu era avançado, mas depois disso eu comecei a recuar no campo e comecei a ganhar o gosto de me jogar na lama, de defender e aí foi indo. O sangue falou mais alto e desde os 10 anos que sou guarda-redes. Eu estou com 30, e portanto são 20 anos nessa luta entre as traves.

E entre as bolas que defendeu e aquelas que foi buscar ao fundo da baliza, como é que está o saldo?
O saldo hoje está positivo. Está positivo porque a carreira tem sido produtiva, graças a Deus. Tive dificuldades, lógico, no início da minha carreira e também no tempo em que passei no Benfica, mas isso só me fortaleceu para chegar na posição que estou hoje.

Mas é ingrato para um guarda-redes fazer dez boas defesas, e depois há uma que não correu tão bem, e é por essa que acaba por ser recordado. Como é que se gere isso?
O guarda-redes tem de ser muito forte psicologicamente. É como você falou: pode defender dez bolas e depois tomar um golo no finalzinho e vai tudo por água a baixo. Já o avançado pode perder dez golos e no último lance fazer um e sai como herói. Então, o guarda-redes tem de estar sempre bem animicamente. Quando você atravessa um bom momento, não pode achar que é o melhor do mundo, nem o contrário quando falha. É necessário uma estabilidade para gerir a situação.

O Júlio César sempre passou a imagem de uma pessoa muito tranquila. Mas, dentro de campo dá puxões de orelhas aos defesas?
Nós trabalhamos em conjunto. A gente depende dos companheiros para alcançar os êxitos. Entre-ajudamo-nos, mas quando tenho de puxar a orelha deles, eu puxo. Assim como eles fazem o mesmo comigo. Até porque remamos para o mesmo caminho. Se nos cobrarmos de maneira positiva, a gente vai alcançar o objetivo.

No ar está Romário, no chão está Júlio César

No ar está Romário, no chão está Júlio César

VANDERLEI ALMEIDA

Ficou conhecido aqui no Brasil como guarda-redes do Botafogo por ter impedido o golo mil de Romário [jogo contra o Vasco da Gama no ano de 2007]. Ainda é lembrado por isso?
Aqui a nível de Brasil foi algo muito forte, até pela carreira que o Romário teve a nível mundial. Ele tem uma história gigantesca. E isso na altura, quando eu tinha apenas 19 anos, foi um “boom” muito grande para a minha carreira - porque não tomei o golo. Mas tem outras coisas como o título nacional com o Benfica na época 2009/10. Depois de tantos anos sem ganhar, a festa que os adeptos fizeram...Até porque você sabe que o Benfica nunca joga fora de casa, mesmo na Europa. Chegavamos a ter 6 mil, 7 mil adeptos em jogos europeus. Era incrível e depois as comemorações com toda a gente invadindo a cidade. Foi algo inesquecível. São dois hemisférios e motivos diferentes que me marcaram.

No seguimento dessas memórias, a saudade é um sentimento muito português. De que é que tem mais saudades em Portugal?
Dos amigos e da vida que eu e a minha esposa tínhamos lá. Lembro-me bem dos pastéis de Belém, do “salmãozinho” e do bacalhau à Lagareiro que eu gostava tanto. Lembro-me também daquele “friozinho” gostoso que não nos impedia de sair de casa, dos passeios junto ao Tejo. Ah, adorávamos ir a Sintra. Conhecemos muito e temos muita vontade de voltar a passeio. A nível profissional não sei, Deus é que sabe. Mas temos ótimas recordações, até porque eu sou cidadão português.

E de Jorge Jesus, tem saudades?
Foi um treinador muito importante na minha carreira, tenho de reconhecer isso. A minha ida para o Belenenses foi um pedido dele. Ajudou-me a crescer muito como jogador, principalmente na questão tática, uma coisa em que ele é chato no bom sentido. Ele cobra muito e está certíssimo nisso. Depois também foi fundamental na minha ida para o Benfica A partir daí aconteceram uma série de situações. Mas sou muito grato a ele por tudo o que ele fez. E no futuro se tiver uma oportunidade de trabalhar com ele...Nunca se sabe.

Quantas broncas levou?
Levei algumas, mas tudo com fundamento para que eu crescesse, críticas positivas. Eu administrei bem e agradeço porque isso me ajudou. Hoje em dia ainda ponho em prática coisas que ele me ensinou.

E acredito que, quando recém-chegado a Portugal, tenha aprendido algumas 'palavras' com ele?
(Risos) Ele tem um vocabulário um tanto engraçado, realmente. Tem umas particularidades, a forma como pronuncia as palavras e vê-se que o pessoal da imprensa pega muito no pé dele. Eu levo isso para o lado engraçado. Às vezes até era difícil entender o que ele estava falando, mas é a maneira de ele se expressar.

A baliza do Benfica foi pesada para si?
Fala-se que só quem joga na Luz sabe a pressão que é jogar lá dentro. Os adeptos estão ao seu lado mas também se acontece algo, podem virar-se contra si. Foi uma experiência positiva. Tive a infelicidade de quando, era para a assumir a baliza, numa altura em que o Roberto não estava bem, ter sido expulso num jogo contra o Vitória de Setúbal. Estava a ser apoiado pelos adeptos, porém tudo se complicou. Mas não pesou, na minha opinião, não pesou. As coisas acabaram por não acontecer da melhor forma, mas sou muito grato ao Benfica e aos adeptos.

Lucas a fazer o segundo golo ao Benfica, em Liverpool. Foi a 8 de abril de 2010

Lucas a fazer o segundo golo ao Benfica, em Liverpool. Foi a 8 de abril de 2010

ANDREW YATES

Há por exemplo um jogo com o Liverpool em que o Benfica perde por 4-1 [quartos-de-final da Liga Europa 2009/10] e o Júlio sai com um traumatismo craniano aos 79 minutos. Foi marcante para si?
Eu até hoje não me lembro do jogo. É como se a minha cabeça tivesse “zerado” naquele momento. Nessa altura até demorei a voltar a treinar. Durante 10 dias só caminhei em volta do campo e nem podia conduzir porque ficava tonto. Até hoje não me lembro de como foi o lance em que eu bati com a cabeça. Fico triste ao pensar nesse jogo porque tínhamos grandes possibilidades de chegar às meias-finais da Liga Europa. Tínhamos uma equipa excelente: Ramires, Di Maria, Cardozo, Maxi, David Luiz, Luisão, Aimar, Saviola, e outros. Era uma seleção, a equipa era ótima. Fico triste por não termos conseguido um título a nível Europeu, porque merecíamos. Acabámos por conquistar o título nacional que também foi muito importante.

Saiu a bem do Benfica?
Na verdade não, tive alguns problemas com o presidente. É a primeira vez que estou a falar sobre isso. Quando fui cedido ao Granada, o presidente do clube espanhol queria que eu continuasse e pediu isso ao Benfica. O Luís Filipe Vieira não aceitou, e quis que eu fosse para outros clubes, com os quais eu não concordava. Acabei afastado e fiquei dois meses só correndo em volta do relvado, nem me deixavam treinar com bola. A situação complicou-se. Puseram-me depois a treinar com a equipa B até ao final da temporada. E depois lá chegámos a um acordo e eu rescindi. Não foi da melhor maneira, da maneira como eu queria. Ele agiu errado comigo, mas perdoo, não tenho mágoa ou ressentimento. Não saí como queria, mas tudo são aprendizagens.

E como é que se gere o facto de nem sequer se poder aproximar da equipa?
É triste porque você tem um contrato e não pode exercer a sua profissão. Podem não te querer colocar para jogar, mas têm de te respeitar como profissional, ou seja, dar espaço para poderes trabalhar, treinar, fazer ginásio. Quando você não é bem recebido, você já entra com uma carga negativa, já tem de administrar tudo isso. Chegar, ver os seus companheiros treinando e você ser proibido de o fazer... Mas cresci muito nesse tempo pelas dificuldades que passei. E a vida está seguindo. Independentemente da situação temos que ser profissionais, porque é a nossa carreira que está em jogo. Perder as estribeiras e ultrapassar os limites não era solução. Apesar de chegar ao extremo, controlei-me, absorvi o momento e procurei o lado positivo. Fiquei mais cascudo, como nós falamos aqui, mais resistente.

Há um jogo entre Belenenses e Benfica neste domingo em Portugal. Se tivesse bilhete, sentava-se na bancada do visitante ou do visitado?
Tenho um carinho pelos dois, mas iria sentar-me na bancada do Belém. Foi o clube que abriu as portas da Europa para mim. Cheguei e ajudaram-me muito. Fui muito bem recebido, acolheram-me de uma forma fantástica e tenho um respeito enorme pelas pessoas que ali encontrei. Eu torceria pelo Belenenses.

No futebol brasileiro há vários jogadores com o nome Ronaldo, mas também acaba por ter o nome de outro guarda-redes brasileiro. Alguma vez se cruzaram?
O Júlio César está agora no Benfica e tem uma história fantástica com vários títulos no Inter de Milão e um percurso de seleção brasileira. Ele é mais experiente, tem a história dele e eu estou construindo a minha. Até hoje, nunca nos cruzámos. Mas gostava de o conhecer um dia, até porque posso sempre aprender com ele.

É fã dele?
Eu, particularmente, admirava o Petr Cech e o van der Sar. Mas o Júlio é também uma referência pela sua carreira e pelo que conquistou.

Se tivesse de regressar a Portugal, ia de férias ou para jogar?
São duas hipóteses ótimas, tanto para matar saudades como para jogar, mas deixo isso nas mãos de Deus. Se for uma boa oportunidade para mim e para o clube que eu estou que é o Fluminense. Não sei. A curto prazo seria mais a passeio, mas a médio, longo prazo, nunca se sabe.

Júlio César ouve o colega Cícero a falar com o árbitro durante um Fla-Flu, o clássico dos clássicos do Brasil

Júlio César ouve o colega Cícero a falar com o árbitro durante um Fla-Flu, o clássico dos clássicos do Brasil

Buda Mendes

E como é a vida aqui no Rio?
É bem diferente. Depois de sete anos na Europa, entre Portugal e Espanha, onde nos adaptámos muito bem, foi difícil enfrentar a correria do Rio de Janeiro, que é muito maior. O trânsito é mais pesado, a tranquilidade não é a mesma, mas aqui tenho a minha família do lado. Na Europa eu tinha a oportunidade de conhecer outros países, na distância em que aqui conheço Estados brasileiros. Dos dois lados você ganha e você perde.

Ainda esta quinta-feira havia um pequeno protesto à porta do Estádio das Laranjeiras. É difícil ser guarda-redes do Fluminense?
É uma equipa grande do Brasil e tanto quanto no Benfica, a pressão é muito grande por estar sempre brigando por títulos. É normal, e com isso temos de ter a maturidade para lidar com a situação e tentar percebê-la para administrar os bons e os maus momentos.

Irá ver o Belenenses-Benfica?
A que horas é?

Às 17h15, hora brasileira.
Infelizmente a essa hora vou estar jogando [Fluminense defronta o Coritiba em jogo do Brasileirão], não vai ter como. Mas depois vou dar uma olhada. O empate era um bom resultado, não? Assim ficava todo o mundo tranquilo.