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É a nostalgia, Saca: “Hoje tenho energia para dar e vender”

Ele estava animado, sorridente, boné na cabeça e óculos de sol. Descontraído como nunca. Pela primeira vez, Tiago Pires está a assistir à etapa portuguesa do circuito mundial de surf, em Peniche, como adepto. Admitiu-nos que "é estranho" ficar na praia a ver os amigos e outros, contra quem competiu, a surfarem nas ondas em que ainda se imagina "a fazer manobras"

Diogo Pombo

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Ricardo Bravo

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A conversa está combinada há dias. Ele diz que vai lá estar, claro, não pode falhar. Ao fim da tarde de quinta-feira, com o sol forte, mas já a bocejar de sono, o telemóvel serve para saber onde ele anda. Está numa sessão de autógrafos da marca que o patrocina e que ainda vai durar. É melhor ficar para o dia seguinte, diz. Não combinámos hora, nada. Mas, a meio da manhã, lá está ele.

O sorriso tem morada fixa na cara de Tiago Pires. Está descontraído, de calções, camisola, óculos escuros e um boné. Ele está animado. Fala com amigos, pessoas que conhece e com os surfistas que ali estão por causa do circuito mundial. Muitos dos que conheceu, e contra quem competiu, quando lá andou entre 2008 e 2014. Tempos em que vivia uma "vida espetacular", admite, a mesma que o faz sentir uma certa nostalgia por ali estar.

Na praia, do alto da duna, a ver os heats e as rondas a passarem, a imaginar-se a surfar as ondas que vê serem cortadas pelos outros. Os 36 anos, a paternidade e a reforma do surf de competição não lhe tiraram do corpo a vontade de fazer o que antes fazia tão bem. Confessa que ainda lhe passou pela cabeça estar ali, mas no mar, a competir por uma última vez. Mas não. Saca garante que está bem a estrear-se como espetador.

É difícil estar aqui na praia, a ver isto de fora?
É estranho. Mas, por mais estranho que pareça, acabo por estar tão ocupado com outros projetos que me libertam um bocado destes pensamentos, de nostalgia. É claro que sou um competidor nato, sou um surfista, sempre fui. Estar a olhar para estas ondas, a imaginar-me a fazer ali as minhas manobras, vem sempre qualquer coisa à cabeça.

Não estás sempre a comparar com o que farias, com a mesma onda?
Provavelmente, faria um bocadinho melhor [ri-se]. É tramado, sim, mas tenho alguns projetos para o futuro e começo a ficar ocupado com eles. Chega a um ponto que é natural. Já fizeste durante tantos anos a mesma coisa que é engraçado, e desafiante, começares a fazer outras coisas diferentes. Será que vais conseguir captar o interesse das pessoas por outros lados? São coisas engraçadas. O surf fez parte da minha vida nos últimos 20 anos e acaba por ser mais do mesmo.

Fartaste-te?
Claro que é um estilo de vida espetacular e apetece-te sempre fazer isto, mas é natural, as coisas têm sempre de mudar.

Ainda sentes o bichinho?
Sim, ainda tive alguma confusão na minha cabeça quando chegou o momento de pensar neste campeonato. Posso-me aventurar num wildcard? Será que faz sentido? Depois, envolvi-me tanto no meu filme, que acabei por esquecer completamente essa ideia. Mas chegou a uma altura do ano em que pensei nisso. Em falar com a organização e tal, mas não chegou a haver conversas. Foram pensamentos meus, percebes? Era possível, se houvesse muitos surfistas magoados, mas difícil. O Vasco Ribeiro, que fez em terceiro lugar o ano passado, ficou de fora e ficou triste. Provavelmente merecia estar aqui. Mas pronto, isto é um nicho, um grupo muito restrito, não dá para todos.

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As pessoas chateiam-te tanto agora como quando vinhas aqui competir?
Não, hoje é bem mais calmo. Há muitas pessoas que me abordam e dizem “ah, e tal, tens que voltar, fazes falta”, mas é tudo muito mais tranquilo do que era. Quando chegava à praia com as pranchas… Preferia que a confusão fosse agora. Antes chegava nervoso, tinha que cumprimentar as pessoas, dar autógrafos, tirar fotografias. A energia vai-se indo. Hoje em dia tenho energia para dar e vender, não vou precisar dela dentro de água. Preferia que as coisas fossem mais stressantes agora, a nível dessa logística, de dar atenção às pessoas. Pronto, é a ordem natural da vida.

Estás mais aliviado, agora que o teu filme já estreou?
Muito mais. Antes de lançares o projeto tens sempre algumas dúvidas. Será que é isto? Será que podemos melhorar aqui e ali? Há sempre uma incerteza. Mas quando me sentei a ver o filme, foi uma sensação de alívio… Ok, isto agora já não vai mudar, relaxa, curte a cena, enjoy the ride. Felizmente a receção foi ótima, o feedback foi bom. Estou motivado para levar este filme em diante, fazer uma espécie de mini-carreira do filme. Já recebi convites para ir a alguns festivais de cinema. Se calhar vou estar num no Rio de Janeiro, para ser convidado de honra, sinto-me super lisonjeado. Acho que o filme tem potencial para ter um bom circuito de festivais.

Porquê?
É diferente daquilo que costuma ser feito, acho que as pessoas não estavam à espera que tocasse nos pontos em que tocou.

Esperavam que fosse uma coisa só centrada em ti?
De certa forma. Acaba por ser um filme que desvenda algumas coisas, o outro lado de um atleta.

Como a tua alcunha, por exemplo.
É uma delas, sim.

Esta malta, os surfistas do circuito, já viram o filme?
Não, não. O filme foi mostrado uma vez e a próxima, em princípio, já vai ser no cinema.

Tinha saudades de estar com eles?
Estive com eles em França, no último campeonato. É sempre bom estar com o pessoal, mas eles estão sempre muito concentrados. Passei um bom momento com os meus verdadeiros amigos. É giro agora recebê-los de uma maneira muito mais calma, é quase como ser anfitrião. Há sempre uns pedidos de ajuda. Quem anda na estrada, naturalmente que precisa de um reparo aqui e ali. E tu queres também ajudar, passas a estar no outro papel.