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Rui Alves: “A verdade é que tenho 57 anos e até hoje não conheci ninguém mais honesto do que eu. Isso dá-me alguma tranquilidade espiritual”

Sexta-feira há Nacional-Sporting e a Tribuna apresenta-lhe uma entrevista de vida ao presidente do clube madeirense. Rui Alves fala de política, da noite, da alcunha “500”, da agressão que lhe tirou o olfato e “dois milhões de neurónios” e do poder dos três grandes que asfixia todos os outros

Marta Caires

MiguelNobrega

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Jogou futebol antes de ser dirigente?
Eu fui praticante, mas nunca fui jogador profissional de futebol. Joguei como defesa central e médio defensivo. Aqui, na Região, fui juvenil e júnior do Lazareto. Depois, antes de ir para a faculdade, ainda joguei no Santana, mas não cheguei a estar inscrito porque, entretanto, saí. Depois, no continente, joguei em vários clubes. Joguei num clube formado e dirigido por um madeirense em Lisboa, que jogava o campeonato amador de futebol, era o CIF, na zona do Restelo. Sempre joguei futebol.

Sempre foi do Nacional?
Eu tenho seis irmãos e uma das minhas irmãs, a segunda mais velha, namorava com um rapaz – com quem casou – que jogava no Nacional. Eu era muito novo e tinha uma grande proximidade com aquele cunhado, sou do Nacional sobretudo por ele, por vê-lo jogar.

Mas como é que chegou a presidente do Nacional?
Eu tinha exercido um cargo político até Janeiro de 1994. Considero que se voltasse atrás era a única coisa que não faria.

Foi muito mau ser vereador da Câmara Municipal do Funchal?
Para mim foi uma frustração e uma violência. Amadureci imenso ao sentir até que ponto podem funcionar os jogos de poder e ao que um ser humano pode ser sujeito nesses jogos. Eu era extremamente convicto daquilo em que acreditava e, porventura, a sociedade procura outro tipo de intérpretes. Portanto, experimentei uma luta contra coisas que discordava... Achei que se vivia na altura na autarquia um regime um pouco de podridão, mas a verdade é que quando saí parecia que o bandido era eu. Isso foi bastante violento para mim. Até hoje não esqueço e arrependo-me no dia em que disse que sim ao convite.

É depois deste período na Câmara que entra para o Nacional?
O clube, apesar da sua história, atravessava um momento particularmente difícil. A Madeira de então, do ponto de vista desportivo, começou a ter a presença hegemónica de um clube que quase asfixiava todo o sistema desportivo regional e isso atraiu-me, atraiu-me essa batalha de construir um clube e projetá-lo. Para além disso comecei a ver também que o sistema desportivo de então tinha um papel fundamental no desenvolvimento da autonomia da Madeira. Estas entidades acabavam por ser parceiras de alguma afirmação da região. Isso era estimulante. O desporto estava desempenhar um papel importante no desenvolvimento integral da nossa juventude.

Nessa altura o Nacional já não estava na I Divisão...
O Nacional estava na altura na II Divisão de Honra. O Nacional subiu a I Divisão em 2002. Temos 15 anos seguidos na I Liga. Eu costumo dizer que os clubes e as instituições têm uma matriz dupla. Por um lado, têm uma dimensão própria, têm uma dimensão associativa, têm uma prática desportiva que justifica a existência do clube. E, por outro lado, têm uma dimensão associada ao projeto político no quadro da sua representação da Região. Hoje não é possível pensar uma instituição com a dimensão do Nacional sem uma intervenção pública. A Região não tem dimensão... Se amanhã o Nacional deixasse de ter o Governo Regional como parceiro progressivamente se iria encaminhando para a saída do escalão máximo do futebol profissional.

O que está a dizer é que o futebol profissional na Madeira precisa do apoio do Governo para existir?
A nossa economia e a nossa massa crítica não permite pensar na sobrevivência a médio prazo sem essa participação. Sendo que ao longo de todo este processo os clubes têm vindo a perder competitividade fruto de um novo posicionamento do Governo. Da qual eu discordo, mas que tenho de aceitar. Nós somos a parte mais fraca e se deixarmos de fazer parte de uma visão estratégica para o desporto ficamos reduzidos à nossa dimensão associativa. Se formos pensar que temos receitas anuais de 50 mil euros para um orçamento de cinco, seis milhões de euros...

50 mil são as receitas do Nacional?
Sim, são as receitas das quotas pagas pelos sócios.

E as receitas dos bilhetes dos jogos aqui na Choupana?
Dos jogos devemos ter mais 100 mil, 150 mil euros... Repare que chegámos a ter em 2009 um orçamento de 11 milhões de euros. Neste momento, as receitas televisivas são o suporte da atividade. O Governo tem uma participação na ordem dos 50% do que tinha no início deste século. A carga fiscal dos clubes duplicou. Já não é possível termos as equipas que tivemos. A minha preocupação, além disso, é saber que é o futebol profissional que mantém todo o resto. Não é possível ter 700 atletas entre os 8 e os 18 anos sem estarmos no nível que estamos. Apesar das modalidades amadoras onde estão estes 700 atletas serem auto-sustentáveis, mas o desporto é uma realidade muito complexa que custa a perceber...

A bola não é só bola, é muito mais que isso?
Portugal tem, do meu ponto de vista, um desenvolvimento errado. A forma como o país foi construído fixou todos os interesses praticamente numa cidade. Se uma cidade como Lisboa asfixia o desenvolvimento do país, secundado apenas pelo Porto, no futebol resulta também numa asfixia dos dois grandes de Lisboa, mais um do Porto em relação a todos os outros clubes. E isso influencia a visão que a opinião pública tem. A opinião pública tem a visão de que o futebol é uma circulação de milhões e que de desporto tem pouco. Em parte é verdade. O futebol transformou-se mais num sector económico do que numa modalidade desportiva. Isso leva a um afastamento dos valores importantes do desporto que são a partilha, o trabalho em grupo, a superação e que são fundamentais para aqueles 700 atletas dos 8 aos 18 anos que temos. A bola e o negócio da bola são coisas com as quais tenho que viver, mas são as partes que menos me tocam. Torna-se até enfadonho.

O dinheiro?
Tudo o que gira à volta do dinheiro. A presença do dinheiro é de tal maneira importante que se tornou também asfixiante. Hoje aquilo que devia ser só a relação com o praticante, com o atleta profissional de futebol transformou-se numa complexidade entre empresários, empresas, fundos. O que se torna difícil para clubes da dimensão do Nacional.

É por isso que vai ao mercado brasileiro contratar jogadores?
O mercado brasileiro também se alterou, o rendimento dos atletas no Brasil em relação ao que era há 15 anos é substancialmente diferente. A presença num mercado com tantos milhões de consumidores de televisão levou também os clubes brasileiros conseguirem ter receitas que não tinham. E sobretudo pela presença de empresários que não vêm ao futebol para procurar defender os jogadores, mas só com o interesse económico. Ficou difícil. A necessidade de contratar jogadores estrangeiros acaba por ser a necessidade de conseguir ter alguma competitividade. Nós na Madeira só somos verdadeiramente iguais aos clubes do continente no estrangeiro. A contratar jogadores portugueses, os clubes do continente levam vantagem porque a maioria dos jogadores quando vêm jogar para a Madeira é como se fossem trabalhar para o estrangeiro. Um atleta, pelo mesmo salário, prefere ficar no continente onde tem os laços e a família. Jogar aqui é um corte como ir para o estrangeiro.

MiguelNobrega

É possível enganar os clubes grandes nos negócios?
Não nos podemos colocar nos negócios para enganar. O futebol não poder ser exceção, embora tenha particularidades que às vezes são arrepiantes do ponto de vista do dinheiro, na relação entre instituições e na relação entre pessoas. Os grandes clubes e o futebol tornaram-se uma matriz económica tão variada e tão complexa que se torna muito difícil enganar. Pode haver uma má avaliação de um jogador. Acho que dos negócios que fiz com os grandes o único atleta que não se tornou um caso de sucesso num grande foi um jogador que eu vendi para o Benfica.

E quem era esse jogador que vendeu ao Benfica?
Foi o Miguelito, era um grande jogador, não teve foi muito sucesso. Os grandes clubes têm departamentos de observação que quando decidem avançar para um negócio já existe uma quantidade de relatórios e de observações feitas.

É tudo muito profissional?
Os grandes clubes têm meios que lhes permitem ter uma quantidade de técnicos da área e é natural que quando avançam para os negócios têm já uma avaliação, o que é natural pois envolve muito dinheiro. Muitas vezes vemos que, mesmo com esse quadro todo de observação, há erros, mas não estamos a falar de máquinas, não estamos a falar de comprar um automóvel ou um computador. Estamos a falar de seres humanos. E um ser humano num contexto de felicidade tem uma performance, noutro contexto tudo se altera. Muitas vezes quando um jornalista está fazer a análise do jogo e diz que o jogador anda mal há dois ou três jogos nem sempre tem a ver com a parte desportiva.

E já comprou algum barrete?
Nesta área quanto menos potencial económico mais riscos temos de correr. A situação que temos vindo a atravessar desde 2011 na relação com o Governo Regional leva-nos a não dispor de capacidade de aquisição de direitos de atletas. O que nos coloca num patamar de contratação em que só restam aqueles que estão em final de contrato, os que não foram utilizados pelo seu clube. O quadro de risco é muito superior, o barrete é mais barato, mas não deixa de ser barrete.

E o que pensa dos jogadores emprestados? É um mal necessário?
Penso que não seria um mal necessário noutro tipo de organização. Eu apresentei pelo Nacional numa assembleia geral da Liga uma proposta para o fim dos empréstimos ao mesmo escalão. Entendia que para a integridade da competição seria melhor e seria melhor sobretudo para os clubes de média dimensão. Isso ia obrigar a que os grandes não tivessem tantos jogadores sob contrato, ia aparecer muitos mais jogadores no mercado. Foi aprovada, mas depois houve um recurso de um clube para o conselho de justiça que veio a determinar que a liga não teria competência – o que eu discordo – para o efeito. A Liga de então, que devia ser assistente no processo, deixou que o Nacional ficasse sozinho. Os custos associados à defesa e aquilo que se adivinhava pela primeira decisão levou-nos a desistir. Hoje temos jogadores emprestados. Os três grandes têm dado muito ao futebol português na sua imagem internacional, mas do ponto de vista da sua relação com o todo têm asfixiado o futebol. O facto de não termos uma centralização dos direitos televisivos é uma anormalidade. A relação, por exemplo, entre o clube que em Inglaterra recebe mais pela transmissão dos jogos e o que recebe menos é de 1 para 1,6. Em Portugal é 1 para 12. Isto significa que o clube que recebe mais recebe 12 vezes mais do que o clube que recebe menos. Em Portugal não é possível ter o Leicester. A verdade é que tudo o que se decide em futebol é decidido pela vontade dos grandes, os outros pouco contam.

Há uma ditadura dos grandes?
Pode-se falar até de uma ditadura. Temos até uns estatutos da liga portuguesa de futebol profissional que dizem que na direção têm que estar obrigatoriamente representantes dos três grandes e não os eleitos pelos clubes. Todas as decisões que a Liga tomar vê-se logo que sentido têm. Eu penso que quando se trata de eleger uma liderança para a Liga tem de ser um candidato de um dos grandes, não pode ser apresentado por um dos pequenos que isso pode colidir com os interesses dos grandes. Desde que seja de um dos grandes vai defender os interesses desses clubes grandes.

Está a dizer que os grandes funcionam numa espécie de cartel no futebol?
O cartel pressupõe negociações na defesa de um interesse. Aqui isto emerge espontaneamente e o que os une é o negócio. O negócio faz-se, não de princípios fundamentais que o desporto tem, mas da defesa do interesse de cada um deles. O importante é cada um deles. Há uma coisa fundamental no espetáculo desportivo que é a incerteza no resultado. Em Portugal o desnível vai ser cada vez maior porque a asfixia é crescente. A própria sociedade promove a igualdade entre os cidadãos com a intervenção do próprio Estado tentando redistribuir riqueza, por isso é que temos taxas progressivas do IRS. No futebol nada disso conta. É tudo estruturalmente diferente. Não direi que é um estado dentro do Estado, mas já tive oportunidade de viver situações que parece que o futebol é um estado dentro do estado, sobretudo no campo legal.

Que exemplos concretos pode dar desse futebol que parece um estado dentro do estado?
O futebol tem decisões perfeitamente anormais que são aceites. Eu estive numa eleição para o cargo de presidente da liga que, depois de alguns recursos e com decisões favoráveis do conselho de justiça, os clubes liderados pelos grandes decidiram fazer tábua rasa de todos os acórdãos, de uma marcação de uma assembleia geral, e arranjaram um candidato que não era candidato que elegeram, que geriu a liga e nada aconteceu em Portugal. O próprio conselho de justiça da federação, contrariou os acórdãos como se estes não existissem.

A lei não se aplica ao futebol?
É como se o mundo cá fora não estivesse nem aí e deixa correr. E são ilegalidades às vezes monstruosas.

O que pensa da arbitragem?
Se calhar onde estamos ao nível ou mais próximos das principais ligas europeias, por incrível que pareça, é na arbitragem. O nível da nossa arbitragem é semelhante ao nível da arbitragem na Alemanha, em Inglaterra e em França. O nosso futebol, do ponto de vista da organização, se calhar não é, mas arbitragem é. Por mais que se diga mal é, se calhar, o sector do futebol que está mais próximo e mais desenvolvido em termos comparativos.

Os árbitros podem ser corrompidos?
Qualquer sector da vida nacional pode ser corrompida. Se perguntar se há corrupção na arbitragem, eu digo que pode haver. Se me perguntar se temos uma arbitragem corrupta eu digo claramente que não. Ouve-se tanta coisa, mas em concreto, da minha experiência como dirigente, a minha opinião é abonatória para arbitragem portuguesa. Os árbitros são muitas vezes vítimas de um certo modo de funcionamento da organização e da asfixia que os grandes fazem ao futebol. Esta asfixia em parte é patrocinada pela comunicação social desportiva. Não tenha dúvidas quanto a isso. Quando estamos a ver um jogo e um árbitro tem um erro contra um grande faz-se a repetição da imagem 20 vezes. Se o árbitro errar contra o pequeno e for a favor do grande passa uma vez e a imagem é metida no caixote do lixo. O ser humano que está a arbitrar sabe que, se errar contra o Benfica, o Porto ou o Sporting, vão repetir o erro 20 vezes, mais os programas televisivos que vão levar a semana toda a falar do lance em que ele errou, mas se ele beneficiar um grande não se fala mais no caso. Estou a dizer o que acontece indistintamente para qualquer um deles. A comunicação social vai patrocinando as diferenças entre os grandes neste ou naquele lance. Os outros não contam, a verdade é que os outros não contam.

15 dos 18 dos clubes estão na I Liga só para que se decida qual dos três grandes será campeão?
Poder-se-á chegar a essa afirmação, poder-se-á chegar aí. A verdade é que o quadro é claramente esse. A questão em torno da arbitragem, dos lances da arbitragem que só interessam aos grandes tem levado a este espetáculo, a esta ideia que se tem da arbitragem, que é má porque está envolvida todas as semanas em casos de arbitragem. Os únicos casos de arbitragem que interessam são os que se relacionam com aqueles três clubes, o resto ninguém fala. Os árbitros são todos bons, menos os que arbitram os jogos dos grandes.

Se for um Paços de Ferreira – Nacional e houver um erro de arbitragem ninguém quer saber?
É um pouco como o nevoeiro da Choupana, só interesse se for contra um grande.

GREGORIO CUNHA

A questão do nevoeiro na Choupana só se coloca quando interrompe jogos dos grandes?
Nós tivemos várias épocas sem jogos interrompidos. Nós sabemos como é que funciona a plataforma continental da República Portuguesa nessas coisas, sobretudo no desporto. A democracia funciona muito bem para a comunicação social, mas quando o jornalista é deste ou daquele clube grande, quando está a escrever o código deontológico do jornalistas desapareceu. É uma evidência.

O que está a dizer é que o jornalismo desportivo não é imparcial?
Claro que não. É parcial de todo. Os próprios clubes grandes impõem à comunicação social os jornalistas que podem ou não podem fazer os trabalhos de acompanhamento. Nós sabemos isso.

A Choupana foi boa escolha para fazer o estádio?
A questão que se deve colocar é se tínhamos possibilidade de escolher ou de escolher outra coisa. Quando fui confrontado com a necessidade do Nacional dispor das suas instalações não tive outro local de escolha. O Plano Diretor do Funchal não previa a existência de um outro espaço desportivo fora dos existentes. Mesmo assim acabamos por vir para aqui onde já existia um campo. O próprio licenciamento deste complexo não está conforme o PDM. Até acabou por haver uma ação do Ministério Público contra este licenciamento. Não havia mais nenhum espaço no Funchal. Falando de futebol assistiu-se na Madeira a uma ilegalidade do tamanho do mundo que foi a transferência de património público para uma entidade privada.

Está a falar da entrega do Estádio dos Barreiros ao Marítimo? É uma ilegalidade?
Claramente. E tem dúvidas? Um espaço destinado ao desporto e aberto a toda a população que é subtraído a essa população para entregar a uma parte dessa população. Se começarem a fazer transferência de património público para entidades privadas e se isso for considerado legal temos então uma sociedade arruinada. Em relação à Choupana, não havia outro espaço onde fosse possível construir um complexo. Sabemos as limitações que tem a Choupana, foi o possível, mas também é verdade que este foi um palco de sonhos.

Se não fosse o acordo entre o Governo e o Marítimo, era possível o Nacional ter aqui o complexo e jogar nos Barreiros?
Eu, se soubesse o caminho que ia ser tomado, teria feito um complexo de treinos e jogaríamos nos Barreiros. Podíamos tê-lo feito, mas podíamos ter sido acusados pelo Governo de ter ficado apenas pela primeira fase. Tudo o que é feito para o Nacional é feito com muita dificuldade. Temos à partida uma grande parte da comunicação social hostil a tudo o que é o interesse do Nacional e isso depois reflete-se na tomada de posição política.

Houve favoritismo?
Na Madeira, na área desportiva? Sempre. Imagine que eu decidia construir um colégio acha que eu tinha um contrato programa para fazer um colégio? E se quisesse construir um ginásio acha que teria um contrato programa? Imagine que era o Nacional que estava na transferência do Estádio dos Barreiros, caía o Carmo e a Trindade. As redações dos jornais tinham posto o seu departamento jurídico e até encomendado pareceres a advogados para desmontar juridicamente aquilo que o Governo estava a fazer, que seria um crime de lesa pátria.

Além do Nacional é de outro clube? Na Madeira é comum ser também de um dos três grandes.
Essa é outra consequência do país que temos e da sua organização, em que essa asfixia levou a que todos os portugueses tenham dois clubes: o da sua localidade e um dos grandes. Eu, antes de ser presidente do Nacional, não fugia à regra e era do Nacional e do Benfica. Depois, do ponto de vista intelectual, achei que não me sentia confortável dirigir um clube e ter outro clube. Claramente consegui, não sinto absolutamente simpatia ou antipatia, é uma coisa que quase desapareceu da minha parte emocional.

A sua amizade com Pinto da Costa quando nasceu?
Não sei se há amizades entre dirigentes. Prefiro falar de relacionamentos que têm a ver com as instituições e desse ponto de vista procurei durante todo este tempo uma equidistância dos três poderes do futebol. Nem sempre se consegue, mas há momentos em que se consegue. Estou a viver um momento desses, o que é bom. Acho é que assim é que tem que ser. Um clube não é feito para acasalar, é feito para partilhar.

MIGUEL RIOPA

Diz que está a viver um momento de paz com os três grandes. E o que pensa de Bruno Carvalho, de Pinto da Costa e de Luís Filipe Vieira?
O que eu penso é que cada um deles representa uma grande instituição, que defendem os interesses dessas instituições. O que eu penso dos três é que são três líderes. São pessoas que respeito bastante, não tenho a apontar nada de especial. Gosto de tê-los como referências institucionais.

Como diz não há amizades na bola?
Penso que há mais relacionamentos.

E o que pensa de Manuel Machado, uma referência como treinador no Nacional? Qual é a sua relação com o treinador?
Tem que ser boa depois deste tempo todo. Às vezes, nesta relação dos clubes com os treinadores, poucas vezes se estabelecem laços. Quando se ultrapassa um determinado tempo acaba por haver um conhecimento mutuo. É muito mais fácil compreender esta ou aquela atitude ou confiar numa pessoa com quem se tem uma relação de dez anos do que uma pessoa que conhece há dois anos. O tempo dá uma certa segurança na análise do outro. O professor Manuel Machado já partilha connosco muitas épocas.

Foi um momento crítico quando o professor esteve em coma?
Foi um momento muito triste e preocupante. Foi um momento particularmente difícil. Esses aspetos humanos dos relacionamentos são marcantes.

Falamos muito de futebol, mas quando falou da sua passagem pela política disse que, quando deixou a Câmara Municipal do Funchal, a fama de bandido era sua.
É como sentir-se numa idade em que se pensa que vai endireitar o mundo e depois dizer: “espera aí o bandido era eu?”

Não tinha a noção de que essa era a imagem que as pessoas tinham de si?
Quando fazemos uma retrospetiva da vida, há sempre coisas que não faríamos. Essa não faria de certeza. Nunca me considerarei o melhor presidente que passou no Nacional, mas até hoje ainda me considero o melhor vereador que passou por aquele lugar. Talvez nenhum tenha tido uma intervenção na cidade como eu tive. Obviamente que isso tem custos. Nunca tinha tido uma intervenção política e não tinha uma retaguarda. O meu exercício do poder autárquico era feito de uma determinada forma e eu reconheço que se calhar era melhor fechar os olhos a muita coisa. Quando se quer resolver internamente, limpar internamente e dar uma imagem de autoridade para o exterior, a gente, às vezes não percebemos como a sociedade se pode organizar para nos destruir. Portanto, como o arremesso não podia ser da minha competência... Aceitei aquele cargo político pensando numa determinada ideia de território, de sociedade, de cidade, de urbanismo e a verdade é que no fim era muito novo para perceber como a sociedade se pode organizar para destruir uma pessoa. Não me destruíram completamente, mas provocaram ruturas internas muitos grandes que me transformaram numa pessoa um pouco diferente. Direi até para pior, quando se sente uma violência interior a nossa estabilidade, o nosso equilíbrio...

Parte da sua truculência vem desse tempo?
Tem muito a ver com isso, acabou por me fazer provocar ou desafiar a sociedade. Isso também faz parte da minha maneira de ser...

Tem noção de que saiu da Câmara com uma alcunha de 500 [diz-se que 500 contos era quanto levava para assinar uma licença de construção quando era engenheiro da Câmara do Funchal]?
Depois tive a noção.

Como foi conviver com isso?
Essa situação, a acontecer, eu tinha que ser burro, tinha que ser corrupto a retalho. Para uma pessoa poderosa se transformar num corrupto a retalho tem que ser bastante burro, coisa que eu não me considerava. Não gosto sequer de discutir a minha honestidade, não gosto de dizer que sou mais honesto em relação a ninguém, mas a verdade é que tenho 57 anos e até hoje não conheci ninguém mais honesto do que eu. Isso dá-me alguma tranquilidade espiritual. Agora tive consciência da violência. Eu vi autarcas com problemas judiciais e eu nunca tive problemas judiciais e desafiei a sociedade para que isso acontecesse, seria fácil. Na corrupção a retalho tem de haver vítimas. Não há um cidadão que se venha queixar? Eu percebi porque é que as coisas aconteceram. Infelizmente penso que até aconteceram por via do próprio partido que eu representava.

Vieram do PSD?
Obviamente na altura do ato eleitoral é gratuito para as forças da oposição agarrarem essas ideias, mesmo que não fosse candidato. Na época eu tinha um excesso de poder, tinha vários pelouros e houve uma altura que, dentro do aparelho, muitos pensaram que podia ser candidato a presidente da Câmara.

Foi vítima de um boato por questões políticas?
Eu era muito novo e demasiado puro, tinha pouca perceção e análise do que eram as coisas. Depois comecei a aperceber-me do tráfico de influências. Os interesses urbanísticos germinavam um tráfico de influências tão grande e contaminavam tudo, até o motorista do PSD que me vinha isto ou aquilo. Era uma coisa diabólica. Infelizmente o quadro legal era diferente, o decisor tinha muito mais poder e menos restrição do ponto de vista regulamentar. Hoje em dia não é assim. Eu tinha o poder de dizer sim ou não, a regulamentação era muito aberta. Hoje em dia um vereador nesta área pouca influência tem. Pode ter influência quando está a planear, depois limita-se a receber os pareceres técnicos. É assim que está regulamentado. É diferente de dizer sim ou não e a pessoa que está à frente saber que está a dizer sim porque pode. Isso cria uma carga nos relacionamentos e nos interesses primários complicada.

Tem saudades de ser apenas engenheiro civil?
Sim, mas as áreas superiores quando se perde o contacto, perde-se atualização e para recuperar é muito difícil. Eu tive uma experiência quando estive um ano fora da presidência do Nacional e que voltei a exercer. É tudo uma diferença enorme, sobretudo do ponto de vista tecnológico. Consegue-se ter o domínio da parte teórica, mas depois a sua aplicação torna-se bastante complicada.

A primeira vez que saiu da Madeira foi para ir estudar para Lisboa. Como foi essa mudança, esse impacto?
Foi grande. Felizmente fui para uma casa onde estavam alguns madeirenses, entre os quais estava o atual presidente da Assembleia Legislativa e isso facilitou a adaptação. O confronto com uma cidade como Lisboa foi acabando com a minha timidez. A minha decisão de ir para a faculdade foi tomada depois de estar um ano como professor na escola industrial, a atual Francisco Franco. Quando eu decidi já havia um colega meu que estava na faculdade e que estava nessa casa, foi com esse contacto. Entrei para a faculdade com 15 e sai com 15, mas fiz o 5º ano com média de 17, mas só me dediquei ao curso depois de conhecer a minha primeira mulher. Era uma pessoa completamente diferente. Por incrível que pareça fui formado, na minha cabeça, para ter uma única família. E essa violência toda que sofri transformou a minha personalidade, a instabilidade levou-me a perder dessas referências que eu tinha para vida.

Até foi testemunha de Jeová.
Fui testemunha de Jeová entre os 14 e os 16 anos. Eu fui mesmo, até dei missa, fazia a homilia com base num livro que chama “A Verdade conduz à vida eterna”. Hoje sou ateu. A passagem pela política transformou-me tanto que, além do gosto pela minha profissão, era um apaixonado por consumir cultura. Lia imenso e depois disto tudo fui-me afastando um pouco, deixei de ser um consumidor cultural. O facto de minha primeira mulher ser licenciada em Antropologia aproximava-me da cultura. Tudo se alterou, mas quando se consegue sobreviver já não é mau.

Porque é que decidiu ser testemunha de Jeová?
O meu pai era e ainda é. Depois, deixei de ser por ser jovem. O meu pai dizia-me, quando estava a jogar futebol, que devia estar a ler a Bíblia e que não podia usar o cabelo grande. Depois tornei-me ateu.

Mas casou-se na Sé?
O meu segundo casamento foi na Sé, foi para o espetáculo e para chocar.

Voltaria a fazer tudo outra vez?
O resultado da tal violência de que falei deu à minha vida um ar de uma certa boémia. Talvez não. Se eu tinha continuado o meu percurso profissional, eu era formatado para pensar na minha família. Hoje tenho quatro filhos, duas filhas licenciadas e dois filhos a crescer ainda.

Tem saudades desse tempo e da pessoa que era?
Tenho. Eu sofri uma agressão grave em 2014 que voltou a transformar-me e me tornou mais próximo da pessoa que era. A agressão e as consequências foram muito dolorosas, mas de alguma maneira, aquela agressão levou-me a refletir muito mais.

É agora uma pessoa mais ponderada? Não é o mesmo que dizia que iria detonar as ambições políticas de Miguel Albuquerque? Esse homem já não existe, esse homem capaz de fazer essas provocações?
Mesmo que a história me venha a dar razão, a verdade é que a consequência disso, do conflito, é zero. Serve no espaço de afirmação, às vezes tem até razão. Amanhã podem dizer que quando o Rui Alves disse aquilo tinha razão, podem vir a dizer isso, mas o que é que isso contará para a vida do Rui Alves? Contará pouco.

A agressão foi determinante neste novo Rui Alves?
Foi. Primeiro perdi o olfato, depois dois milhões de neurónios que não se recuperam de um dia para o outro. E mudou tudo na relação com a vida e com a morte, esse confronto é marcante.

Já não é o mesmo? Já não sai à noite?
(Risos) Por acaso não saio e era noctívago. Acho que a noite tem aspetos negativos, mas acho que tem também aspetos positivos. Reproduz com pouca hipocrisia os diferentes momentos da vida social. Tive boas experiências. A verdade é que tive a agressão na noite e, quando saio, quase que retorno àquela visão. Deixei de ter motivação e nunca mais saí. Ganha-se outras coisas.

Quando foi o tempo em que foi mais feliz?
O momento mais feliz foi início da construção familiar, o nascimento das minhas filhas, o meu primeiro casamento, até ao momento anterior a entrar a política. O estudar, terminar o curso, aquele mundo de sonhos. Esse foi o momento mais feliz.

Como é que foi a sua relação com o anterior presidente do Governo Regional? Do atual disse que ia detonar as ambições políticas.
Isso já passou. Nunca fui pessoa de atirar a primeira pedra, sempre fui reativo, mas era um reativo violento. Primeiro era atingido. Se eu tiver alguma coisa para acusar devo acusá-la, não devo insinuar, que é o escudo dos cobardes. O anterior o presidente do Governo Regional viveu comigo um certo complexo de culpa. Quando a minha passagem pela política praticamente não teve relacionamento comigo, mas ele determinou a situação política de então e depois de me conhecer penso que vivia com um certo sentimento de culpa, o que de alguma maneira nos aproximou mais. No desporto e pela sua sensibilidade, porque no fundo o sistema desportivo regional era um dos pilares do Dr. Alberto João para o desenvolvimento da autonomia, foi importante para mim, para o Nacional, para a Madeira. Foi pena que tenha sido maculada pela transferência bárbara do património público para um concorrente. Era um líder, todos têm qualidades e defeitos. Se tiver mais qualidades que defeitos a História julga mais a qualidade. Penso que isso irá acontecer com o dr. Alberto João pese embora toda a polémica que envolveu a sua saída. Penso que qualquer madeirense no seu interior deverá reconhecer que a parte positiva foi superior à parte negativa. Vivemos outra realidade. Em relação ao Dr. Miguel Albuquerque, que é da minha geração, que chegou a ser meu amigo pessoal, costumo respeitar quem é eleito num regime democrático. Mesmo que tivesse alguma divergência, mesmo que tivesse alguma opinião contrária o que mais desejo enquanto cidadão é que esteja enganado e que tudo corra bem.

A ideia de um clube único? Concorda ou discorda?
Uma das razões que me levou à presidência do Nacional é exatamente por pensar que se estava a criar na Madeira uma hegemonia de um clube. Repare: eu sinceramente tenho alguma dificuldade de encaixar essa discussão. Como é que uma sociedade democrática pode discutir o único? Daqui a pouco teríamos um único clube, uma única empresa a extrair areias, uma única a fazer formação, uma única empresa a alugar apartamentos, um única empresa a vender combustíveis. Ficava uma coisa fantástica. E havia um único sucesso.

Conhece o Cristiano Ronaldo?
Conheço sim. A primeira vez que o Cristiano Ronaldo foi campeão num escalão foi no Nacional e eu já era presidente do clube, temos as fotografias da entrega das faixas no estádio dos Barreiros. Quando foi da atribuição do nome do complexo dos miúdos – como referência da formação – entrámos em contacto, pois tínhamos de ter autorização do próprio. A relação é ótima e eu penso que ainda é melhor porque o clube nunca se colocou numa situação de exploração da imagem, nunca se colocou a vender clandestinamente camisolas do Ronaldo. Ele sente isso.

Qual é o seu jogador preferido?
O futebol tem sido dominado pelo Cristiano Ronaldo e pelo Messi. O problema é ter de escolher um.

Qual foi o melhor jogador que passou Nacional?
Talvez o Paulo Assunção. Foi o jogador de maior qualidade na sua posição.

ESTELA SILVA