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“Tenho um Mustang de 66, vermelho. Mas mandei-o pintar pelo Sporting”

Van Wolfswinkel. O goleador leonino e o seu lado B: descomplexado, divertido e irreverente. Esta é uma entrevista de 2011 que recuperamos a propósito da história de Alan Ruiz, o jogador do Sporting que, aparentemente, não pode estacionar no parque onde estão os carros dos seus colegas por ter um Ferrari vermelho, conta o jornal “A Bola” desta quinta-feira

Bruno Roseiro e Pedro Candeias (texto) Tiago Miranda (foto)

Tem boa capacidade para gozar consigopróprio aos 22 anos. “Ai, ai, pareçoeu em Coimbra a falhar”, diz, enquantojoga matraquilhos. Depois marcoue vingou-se: “Golaço!”

tiago miranda

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Pontualidade não é coisa de holandês. Pelo menos deste. "Já vi que arranjaram o que fazer", diz Ricky van Wolfswinkel, bem-disposto depois de mais de uma hora de atraso. O avançado holandês do nome estranho é o melhor marcador do Sporting (13 golos em 20 jogos) e um dos poliglotas que une um balneário com 11 nacionalidades diferentes. Também ele, aos 22 anos, junta tudo: o look nova-iorquino do cap verde dos Yankees e ténis com pala alta, as refeições à hora portuguesa, uma mentalidade aberta que distingue os holandeses e um humor... à Wolfswinkel.

O Sporting está a seis pontos de FC Porto e Benfica. Ainda é recuperável?
Claro, podemos ganhar tudo! O próximo jogo vai ser com o FC Porto, mas todos são importantes, seja Rio Ave ou Benfica. Jogos como o da Académica podem acontecer, tive azar, mas jogando assim ganhamos a qualquer um.

Está a gostar de Portugal?
Fantástico! Estou a gostar muito, o futebol corre bem, o Sporting é um clube fantástico e Lisboa tem sido uma excelente experiência. Comparando com a Holanda, é muito melhor...

Ai sim? Porquê?
Basta olhar lá para fora (ri-se a apontar para o Sol)... Recebi uma fotografia agora da minha irmã e na Holanda está a nevar mais ou menos isto (faz o gesto com os dedos, à volta de 10 centímetros). Repare, lá neva! É também por isso que me sinto confortável aqui...

E como se dá com os companheiros?
Muito bem, muito bem mesmo...

Toda a gente diz isso, mas é uma mistura de holandeses, uns portugueses, americanos, sul-americanos, russos...
Pois é, há mesmo de tudo. Temos um grupo bom, jovem, todos se dão bem.
Nunca tinha visto isto em nenhuma das equipas em que joguei porque existem sempre uns que não gostam de outros, os egos, alguma fricção... Aqui não.

E quem é o mais gozão? É o Ricky?
...

.. está na cara que é o Ricky...
Bom, OK, gosto de fazer as minhas brincadeiras, mas há mais como eu...

Que tipo de brincadeiras? Partidas?
Também, também... Vou dar-vos um exemplo (olha para a assessora de imprensa e pergunta se pode contar): às vezes temos frango no balneário porque fazemos apostas no relvado, quem perde paga. Então hoje tínhamos lá uns frangos e alguns gajos como o Gonçalo (Álvaro, fisioterapeuta) estavam ao pé do caixote do lixo. Agarrei num bocado de frango que estava a comer, fingi que tirei do caixote, dei uma trinca e disse: 'Então Gonçalo, porque é que atiraste para o lixo?' E ele: 'Não, não comas isso!" É o tipo de coisas que gosto de andar a fazer no balneário...

Que língua fala no balneário? Inglês?
Tento falar português, mas sobretudo inglês... mas os brasileiros... o Evaldo não dizia uma palavra até teve aulas de inglês e já diz qualquer coisa...

Tem aulas de português? Gosta?
Ainda tenho e... não, não gosto! (risos) No início é divertido, mas depois é sempre omesmo, gramática... Já não é tão giro. A melhor maneira é mesmo ver TV, ter atenção às legendas e ouvir.

O que sabe dizer além dos palavrões?
Ah pois, essa é sempre a primeira coisa que se aprende... (risos) "Eu falo um pouco de português, mas é muy difícil..." (tudo num sotaque já razoável)

Não está assim tão mau...
É um bocado difícil... depois é sempre diferente - por exemplo, entre vocês, um pode falar e eu percebo e outro fala e já não entendo nada. Os brasileiros... Ai, ai, ai, não percebo nada! (risos)

E o treinador, fala em inglês?
Sobretudo em português e tenta o inglês, se estivermos à parte. Em campo, quando fala em português percebo-o.

Por exemplo, go?
Ou mesmo 'foda-se, Ricky', percebo tudo na mesma. (gargalhadas)

E porque é que o Onyewu lhe chama o White Chocolat?
Não sei! Acho que um estranho da nossa equipa pôs uma fotografia no Twitter, mas não sei, deu-lhe...

Além de Wolf, tem outras alcunhas?
Não, mais nada. E na Holanda sempre foi Wolfswinkel, as músicas eram todas assim. Não tinham criatividade...

É verdade que ganhou 6 quilos?
Faço mais ginásio, mas também como muito mais frango, sobretudo aqueles bocados que tiro do caixote do lixo. Na Holanda, o ritmo é mais baixo, podemos jogar a 80%. Aqui é mais complicado, tens de estar a 100%. Ganhei mais de cinco quilos com o treino de força e não é massa gorda só tenho uns 5%...

A sua namorada notou a diferença?
Claro... e gostou! (risos) Reparou que estava mais forte mas o mais importante é que isso se note depois em campo.

Qual foi o jogo mais difícil por cá?
Ainda está para chegar. O primeiro onde marquei, em Paços de Ferreira, foi difícil porque virámos de 0-2 para 3-2. O opositor não era o melhor do mundo mas não era fácil virar o jogo.

Aquele foi o clique que precisava?
Sim porque joguei 15 minutos e decidi. Às vezes é só preciso um clique.

E o golo de calcanhar à Lazio foi o melhor no Sporting? Consegue repetir?
Não foi o melhor. E posso repetir! Às vezes tem a ver com a sorte: na próxima podia tentar e a bola batia no joelho do defesa ou falhava a bola e todos se riam. Prefiro golos como o do V. Setúbal, de um ângulo quase fechado.

Vive sozinho?
Vivo com a minha namorada, tem sido bom. É complicado porque adoro a minha família e deixei-a na Holanda.

A sua namorada ainda estuda?
Sim, está no último ano da faculdade e tem estado a trabalhar na "Terra dos Sonhos", um programa social. Tem feito investigação e acaba este ano! É muito boa nos estudos, melhor do que eu...

Era mau na escola?
Nem por isso... Mas não tinha a força para estudar: treinava de manhã, ia para a escola, voltava a treinar, tinha mais aulas, chegava a casa às 19, 19h30 e só queria comer, ver televisão e dormir...

Deixou a escola com que idade?
Acabei o liceu e fiquei por aí.

Sempre quis jogar à bola?
Nas aulas, com 5 anos, perguntaram o que queria ser. Disse futebolista e até as prendas eram só sobre futebol.

Quem eram os seus ídolos?
Nunca tive um ídolo, nunca...

Van Basten, Van Nistelrooij?
Nunca tive um ídolo, não sei porquê. Na escola, uns diziam que eram o Van Basten, outros o Van Nistelrooij, mas eu dizia que era o Erik Willarts, o meu tio que jogava no Utrecht. Gostava de ver o Michael Owen, mas não ligava muito.

Podia ter dito Neeskens...
Isto ainda era antes de namorar com a filha dele... (risos) Mas claro que depois vi uns vídeos, era grande jogador!

O seu 'sogro' dá-lhe conselhos?
Não. Falamos de futebol em geral, detalhes são para o treinador me ensinar.

Neeskens ficou contente por ter vindo para cá? Afinal roubou-lhe a filha...
Sim, ainda foi uma grande luta... (risos) Quando o Sporting me ligou, falei com ele. Disse-me: "É uma aventura e nunca se sabe, mas Sporting é um grande clube." Tenho tido sorte por cá...

E a saída de Postiga ajudou...
Sim, pude jogar mais. Mas gosto mesmo dele e ainda falamos. Todos diziam que tinha problemas em marcar e blá, blá, blá, mas desde o primeiro dia que acho que tem tudo o que é preciso num grande avançado. Às vezes é o clique...

Quando é que o Sporting avançou?
Estava na Holanda. Era quarta-feira e na quinta de manhã voei para a Grécia. Quando cheguei lá, o meu empresário liga-me: "Sporting está interessado e blá, blá, blá". Foi estranho e estraguei o dia aos meus amigos porque passei-o ao telemóvel (risos). Sexta de manhã, voei para Lisboa para assinar tudo.

Como é viver num país em crise?
É tranquilo. Não estou a gozar, só não consigo avaliar as coisas como elas são. Mas a economia não é uma coisa que me interesse. Talvez não esteja bom, sim (risos), mas não ligo muito. Aliás, tenho muitos poucos interesses.

E que poucos interesses são esses?
A minha família, a minha namorada.
Não preciso de muito. A minha namorada diz-me: "Porque é que não te preocupas com isto, com aquilo". Ela está sempre a dizer que não me preocupo com nada, mas eu sou mesmo assim...

E nos tempos livres? Vai ao cinema?
Nunca vou ao cinema. Prefiro ver filmes no sofá de casa. Gosto de relaxar. Por vezes, pego no carro e na namorada e vamos a um sítio qualquer almoçar. Não sou daqueles que gostam de fazer planos, do estilo para a semana vamos a Cascais ou tal e tal. Chego a casa e dá-me na cabeça para fazer isto ou aquilo. E a minha namorada: "Então porque é que não me avisas antes?"

Não joga PlayStation?
Nem tenho uma PlayStation.

Bom, isso é raro...
Eu sei!. Todos me perguntam se jogo futebol na PlayStation e eu digo que nem tenho. Gosto de jogar "Mario", estão a ver? O "Super Mario Brothers" ou, vá, o "Super Mario Karts". Mais nada. Há cinco anos, no meu aniversário, os meus pais ofereceram-me uma que nunca usei. Talvez apenas para ver DVD.

O que quer neste Natal? Não vale falar de metas desportivas e blá, blá, blá.
(risos) Bom... Tenho muitas coisas. Adoro gadgets como o iPhone ou o iPad. Se o vir, normalmente compro-o apesar de a minha namorada me dizer: "Não compres, não compres." Estou feliz com o que tenho e a única coisa que queria era ter a minha família em Portugal.
E eles estão a chegar! Adoro ver uma árvore de Natal completamente coberta por grandes presentes.

O Natal holandês é diferente?
Uma das boas coisas de cá estar é não ter de cumprir a tradição de visitar a família toda nos dias 24 e 25 (risos).

Por falar em celebrações: o Ricky celebrou uns golos de forma caricata. Lembramo-nos de quando imita uma galinha ou simula qualquer coisa marota com o pulso... Uma coisa que não se deve explicar aqui...
(gargalhada) Por partes. Quanto à galinha é isto: eu adoro sushi, mas o Evaldo detesta, só gosta de frango. Tratamo-nos por 'frango'. Por isso, quando marquei, imitei um. Quanto à outra... Prefiro mantê-la em segredo entre mim e o Izmailov, se não se importarem.
Mas se conhecerem séries de TV talvez percebam o que quis fazer. E não digo mais nada. (tosse) "Californication"! (tosse outra vez e ri-se). Vão lá ver os episódios! (gargalhada).

Gosta de "Californication"?
Gosto, sim. É uma série para ver naqueles intervalos quando não tens nada para fazer: são episódios curtos, é rápido e com rapidinhas (gargalhadas).

E música?
Gosto de tudo. Não tenho nenhuma banda preferida. Aprecio de tudo um pouco desde que não hardcore. Agora, ando a ouvir jazz. Gosto daquilo que a malta nova ouve, música americana.

Tem uma viagem de sonho?
Estou louco por ir a Nova Iorque! No verão passado, tinha reservado as passagens só que depois o Sporting estragou-me as férias (risos). Há qualquer coisa que me fascina nos EUA. Dizem que no inverno é mais bonito, mas há sacrifícios a cumprir: uma delas é passar o Natal com a minha família.

Há pouco falou no Izmailov.
Parece tímido, mas gosto muito dele. Tem grande sentido de humor. Para mim é o melhor jogador do Sporting.

E o Schaars?
Já o conhecia da Holanda. As nossas namoradas dão-se muito bem e ele tem um humor parecido com o meu. É um bom tipo, gosta de pregar partidas.

Espera estar no Euro 2012?
Não penso nisso, logo se vê. A Holanda tem muitos bons pontas de lança: se eu marco dois golos, eles marcam quatro. É muito difícil lá chegar.

Quais as hipóteses de Portugal?
Já ouvi alguns dizerem que foi bom terem calhado no nosso grupo, porque nos venceram antes. Mas se a Holanda jogar como sabe, não têm hipóteses.

Obrigado pela parte que nos toca... Já fez as suas apostas?
Sim, vou fazer apostas com o João Pereira. Esta é a melhor Holanda de sempre, provavelmente desde 1974.

Alemanha e Espanha?
Sim, também são fortes.. Mas não vos ouço a falar de Portugal...

Ficava-nos mal, não?
(risos) Pois. Mas eu acho que a Holanda é melhor do que Portugal. Pode ser que o ponta de lança falhe com eu falhei contra a Académica. (risos)

É estranho não jantar às 18 horas?
Sim. Quando cheguei, fiquei no Radisson e por volta das 19 horas ia bater à porta do restaurante. Estava fechada. Ai, ai. Já sei que aqui há "pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar" (em português). O português é diferente do holandês porque chega do trabalho e ainda vai dar uma voltinha depois do jantar.

Gosta de ir às compras?
Gosto, relaxa. Compro uma coisa, bebo um copo, compro outra, bebo um copo (risos). O que me relaxa também é guiar o meu carro.

Que carro?
Um Mustang de 66, que trouxe da Holanda. Descapotável. Bonito, hã? O problema é que era vermelho. Mandei-o pintar de bege pelo Sporting, para evitar ferir as opiniões dos adeptos.

*Esta entrevista foi publicada na edição de 21 de dezembro de 2011 do Expresso