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Derlei, como está Pinto da Costa? “Muuuito bem, com certeza. As pessoas à volta dele sabem disso”

Vanderlei Fernandes Silva, Derlei para os amigos e adeptos, jogou e marcou contra o Benfica, pelo FC Porto, antes de ir parar aos encarnados com uma paragem na Rússia pelo meio. Foi por lá que passou muito tempo com Nuno Espírito Santo, o tipo "mais inteligente" com quem se cruzou no futebol. No domingo há um FC Porto-Benfica (18h) no Dragão e esta é uma de duas entrevistas que preparámos para o clássico

Diogo Pombo

BORIS HORVAT

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Jogaste duas vezes contra o Benfica nas Antas, pelo FC Porto, para o campeonato. Lembras-te?
Hum, mais ou menos. Já faz muitos anos.

Do que te recordas?
Lembro-me de um jogo que ganhámos, o primeiro. E penso que também ganhámos o segundo, mas não me lembro do placard. Acredito que vencemos os dois.

Sim, foi um 2-1 em 2002/03 e um 2-0 na época seguinte. O Derlei marcou no segundo jogo e tudo.
Ahh, sim, do golo lembro-me.

As semanas antes dos clássicos, eram de muitos nervos?
Olha, na primeira vez, sim, porque nunca tinha participado num clássico e tal. Se não me engano, também era o primeiro jogo que íamos ter contra o Benfica, e logo em casa. Logo, a expetativa era grande. Mas, a partir do momento em que você entra em campo, as coisas mudam. A equipa também era muito boa, o conjunto era forte, e isso dava uma tranquilidade enorme para poder jogar bem e vencer. Com respeito pelo adversário, claro.

O José Mourinho não preparou esse jogo de alguma maneira especial?
Não, ele preparava todos da mesma forma. Os jogos contra os outros, as equipas menores, eram iguais. O Mourinho não diferenciava em relação a classes, não. É lógico que a importância de vencer um clássico é muito maior. Mas, num campeonato de pontos corridos, todos os jogos interessam o mesmo, valem três pontos.

Nem teve uma conversa contigo, que eras o homem dos golos, quem devia decidir?
Não, de forma alguma. Treinávamos durante a semana, ele dava a palestra no dia do jogo, falava dos pontos que achava mais fortes e menos fortes no adversário, analisava e dizia o que tínhamos de explorar. Apenas isso.

Num dos jogos, quem estava na baliza era o Nuno, hoje treinador do FC Porto. Vocês davam-se bem?
Sim, sim, com certeza. O Nuno sempre foi um grande amigo. Depois, tivemos a oportunidade de irmos praticamente juntos para a Rússia. Eu fui seis meses antes, mas permanecemos lá por dois anos. Sempre tivemos uma ótima relação, uma amizade muito forte. Na minha modesta opinião, iniciou o percurso de treinador muito bem. Já teve a hipótese de treinar o Valência, outro grande clube. Acho que o FC Porto fez uma ótima escolha, porque o clube está a passar por um momento de renovação e não há ninguém mais dedicado do que a pessoa que conhece bem a casa e permaneceu lá muitos anos. Sabe perfeitamente a exigência do torcedor e o que a equipa necessita para voltar aos títulos.

Como é que o recebeste em Moscovo, na altura?
Do mesmo jeito. Já éramos amigos e continuámos amigos. Chegou ele e depois o Costinha, o Maniche, o Seitaridis, enfim, o restante pessoal. Falávamos sempre.

Era difícil viverem lá?
No início, sim. O facto de a língua ser diferente complicava. A equipa vencia uns jogos, perdia outros, não conseguimos ganhar títulos e isso acabou por desencorajar um bocado o grupo dos estrangeiros. O Nuno também tinha um problema, porque os filhos estavam a estudar em Portugal e, por isso, teve que lá deixar a família. Estava o tempo todo sozinho, praticamente, foi muito difícil para ele. Mas superou bem isso.

Combinavas muitas coisas com ele, para o distrair?
Sempre que podíamos estávamos juntos, com certeza. Eu estava lá com a família toda, ele ia a Portugal muitas vezes também, quando tinha folgas. Como trabalhávamos todos os dias juntos, conversávamos muito.

Viste a conferência de imprensa do Nuno, há pouco tempo, em que se pôs a desenhar coisas num quadro?
Sim, mas não peguei toda, só vi um pedacinho. O Nuno é assim. Com todo o respeito que tenho a outros jogadores, o Nuno sempre foi uma das pessoas mais inteligentes com a qual tive oportunidade de trabalhar, em todos os sentidos. No campo e fora. Ao longo da carreira, conseguiu vencer todos os títulos e, fora do campo, sempre foi muito dedicado e teve um suporte para ir trabalhando com tranquilidade. Muitos atletas acabam por ter problemas quando acabam a carreira, mas o Nuno, com toda a inteligência que tem, soube fazer o melhor com a parte financeira da vida. Sempre foi uma pessoa que ajudou a orientar os mais jovens, não é por acaso que passou aqueles anos todos no FC Porto.

DANIEL MIHAILESCU

Achaste que ele ia dar treinador?
Olha, quando jogávamos não, porque o pensamento é diferente. Agora, quando o começo a ver como adjunto, lógico que imaginei que ele quisesse ser treinador principal. Aproveitou as oportunidades que teve e tem todo o mérito de, neste momento, ser treinador do FC Porto.

Ainda falas muito com ele?
Ultimamente não, porque o Nuno tem estado muito ocupado, não dá para falarmos durante muito tempo. Mas, sempre que podemos, trocamos mensagens, uns whatsapp, e encontramo-nos quando vou ao Porto. Como na última vez que lá estive, por exemplo. É uma pessoa pela qual torço muito.

Depois de Moscovo, vais para o Benfica.
Isso, depois da Rússia, retornei. Passei lá uns quatro, cinco meses.

E não pensaste no FC Porto?
Na realidade, o que queria naquele momento era regressar ao futebol português. O FC Porto tinha uma equipa muito forte, não precisava de avançados, o time estava bem estruturado. Para que eu voltasse, teriam que vender algum avançado, eles não precisavam de mim. Nessa altura, o treinador do Benfica, o Fernando Santos, conversou comigo e disse-me que seria de extrema importância se eu retornasse a Portugal. Fui para o Benfica, mas, infelizmente, os quase três meses que estive de férias e tal acabaram por pesar um pouco, principalmente na parte física. Tentei dar o meu contributo, mas não conseguimos vencer um título.

Até chegaste a jogar contra os dragões, na Luz.
É verdade, joguei alguns minutos, comecei no banco.

Não foi estranho?
Claro, bastante difícil. Depois de muitos anos num clube, vencendo, não é fácil passar para o clube rival e jogar contra. Para mim ainda foi mais difícil, porque fiquei no banco de reserva. Mas é aquele negócio: somos profissionais e tive de defender a camisa do Benfica. Dei o meu melhor. Enfim, foi uma boa experiência e aprendi bastante nesse dia.

E o André Silva, o que achas dele?
É difícil analisar assim, individualmente, uma pessoa. É mais fácil olhar para o coletivo, em que as coisas não têm corrido bem. O André é um jovem, é natural que exista uma grande expetativa em cima dele. É bom que ele continue nesse caminho, a ter oportunidades e a chegar ainda mais acima, porque tem qualidade para isso. Mas precisa de tempo, ainda é muito novo e a gente tem que respeitar esse tempo.

Com o Pinto da Costa, ainda falas?
Com o presidente, sim. Tenho uma relação de amizade e respeito muito grande por ele. Foi o primeiro presidente dos grandes que me abriu as portas, para que eu pudesse mostrar o meu trabalho. Tenho admiração pelo profissional e pelo homem que é, pelo que me ensinou durante os anos em que estive com ele.

Mas o presidente do FC Porto já viveu melhores dias, não achas?
É natural que os adeptos, neste momento, tenham um pouco de impaciência. Estavam acostumados a vencer, é natural no futebol. Respeito o presidente e, na minha opinião, ainda vai a tempo de fazer muito pelo clube. Quando as pessoas são inteligentes, vai perdendo algum vigor físico à medida que a idade vai avançando, mas a mente, enquanto funcionar, vai trabalhar.

E como está a de Pinto da Costa?
Muuuito bem, com certeza. As pessoas que estão à volta dele sabem disso.

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