Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Rui Águas: “Aquele jogo do César Brito foi o mais feliz e o mais marcante. Foi no dia do meu aniversário e conquistámos o campeonato”

Era um avançado que se fartou de jogar contra o FC Porto, nas Antas. Pelo Benfica, marcou lá três vezes nos sete encontros que fez, para o campeonato. Falámos com Rui Águas, o homem que saiu dos encarnados para ser dragão e depois voltar, que jogou em clássicos onde defesas e avançados mais parecia estar numa “luta de galos”

Diogo Pombo

Arq. A Capital/IP

Partilhar

Vai torcer pelo Benfica no domingo?
Claro.

Com o Benfica, o Rui jogou sete vezes contra o FC Porto nas Antas, para o campeonato…
Quantas?

Sete.
Hum, ok. Lembro-me mais daquele jogo do César Brito, foi talvez o mais feliz e o mais marcante. Até foi no meu dia de aniversário, que acabou por ser o mesmo dia da conquista do campeonato desse ano, praticamente.

Marcou três golos em clássicos na casa do FC Porto, incluindo na primeira e na última época que faz no Benfica.
Lembro-me de um 3-3 em que marquei um. Na primeira época de Benfica faço um golo nas Antas?

Sim, é um 2-2.
Ah, não foi nas Antas, foi em Braga, por qualquer razão foi lá, não sei porquê.

Depois há um 2-1, em 1990/91, em que também marca.
Pois, isso não na época de regresso.

Como eram as semanas que antecediam esses clássicos?
À época, o Benfica e o FC Porto eram, no fundo, os únicos candidatos ao título e, portanto, os mais acesos rivais. O ambiente era sempre pesado, demasiadamente pesado. E pronto, as coisas corriam também nesse contexto. Normalmente, os jogos não eram bem jogados. Havia muita luta, muita confusão, muito árbitro, muito cartão, enfim. Nesse aspeto foi-se melhorando com os anos.

O Rui jogou na altura em que se falava muito da forma como o Benfica era recebido nas Antas.
Posso falar do que aconteceu e não tenho razão nenhuma para dizer o que não é verdade. A história do enxofre aconteceu uma vez. As receções eram sempre agrestes, como era normal nessa altura. Nesse ano, que já não sei precisar qual, foi colocado uma qualquer substância que tornava impossível permanecer no balneário. Então, equipámo-nos no corredor de acesso ao balneário e fomos para o jogo.

Isso deu-vos mais vontade para o jogo?
E algo mais. Aí não foi preciso utilizar coisa nenhuma, daqueles truques psicológicos que os treinadores usam. As pessoas reagem quando são maltratadas. É natural que isso tenha acontecido [foi em 1990/91, no tal 2-0 decidido por César Brito].

Havia muitas picardias lá dentro?
Bastantes. Menos bocas, mais luta. E muita permissividade dos árbitros, menos câmaras de televisão em todo o lado. Nessa altura, as coisas passavam-se e ninguém percebia, era quase o tempo da câmara única. Com os anos e a evolução, passou a haver um maior controlo e uma menor violência. As pessoas tiveram de passar a jogar mais de acordo com as regras. A arbitragem também acho que melhorou, hoje é completamente diferente, os árbitros estão muito mais bem preparados e controlados.

Chegou-lhe a acontecer muita coisas durante clássicos que os árbitros não tenham visto?
Ó, tanta coisa. Isso nem vale a pena [ri-se um pouco]. Era algo normal nesses jogos.

Num desses jogos, em 1989/90, o Rui foi substituído aos 14 minutos. Levou uma pancada ou foi lesão?
Foi muscular. Estava mais do que em dúvida. Mas, como estava em muito boa forma na altura, a fazer golos e não sei quê, entendeu-se que seria uma surpresa que podia funcionar, eu aparecer à última hora no onze. Só que, de facto, eu não estava em condições. Saí aos 14 minutos, como podia ter saído aos cinco. A recaída deu-se logo no início.

Rui Águas, aqui num treino do Benfica, com Mozer e Manniche a observá-lo

Rui Águas, aqui num treino do Benfica, com Mozer e Manniche a observá-lo

Arq. A Capital/IP

Tinha alguns truques que usava contra os defesas?
Tínhamos que nos preocupar em jogar futebol, mas também em estar atentos aos riscos que corríamos. Era um bocadinho assim. O pessoal estava em guerra dentro do campo, mesmo. O confronto com os centrais era permanente, quase como o gato e o rato. Eu era um tipo de avançado que sempre achei que apanhar e ficar era má opção. Era uma questão de fraqueza que eu não queria dar. Nunca fui expulso na minha vida, mas, dentro dos limites, procurava ripostar para me afirmar perante o adversário. Era uma luta de galos.

Dizia-se, por exemplo, que o Nené costumava conversar com os defesas, para os distrair.
É o que dizem, mas isso são outros tempos. Duvido que ele se pusesse a falar com os defesas que eu apanhei na minha altura.

Depois apanhou esses defesas quando trocou o Benfica pelo FC Porto. Porquê a mudança?
Isso é tão antigo, já falei 500 vezes, não quero falar mais nisso. Foi uma opção profissional e até hoje, passados 30 anos, as pessoas ainda me incomodam com isso. Não sou eu que vou falar ainda mais.

Mas acabou por voltar ao Benfica.
Sim, houve essa possibilidade e essa necessidade, se calhar, também. Embora eu tenha feito uma escolha profissional, o meu clube sempre foi o Benfica. Havendo a hipótese de voltar, acabei por fazê-lo.

O que está à espera do clássico de domingo?
De equilíbrio. Estou à espera de um FC Porto a querer afirmar-se, porque é uma equipa menos acabada, digamos assim. Em formação, como um novo treinador e um novo sistema. Eles têm evoluído devagar e, neste jogo, têm a possibilidade de evoluir, quer em termos pontuais, quer no orgulho.

E o Benfica?
É uma equipa melhor, mais sólida. Tem a vantagem pontual, que não é inacessível, mas existe. Mas isso não lhe dá grande favoritismo, penso eu.

Ainda por cima não terá o Fejsa.
É uma baixa importante. Mas o Benfica tem muitas opções de qualidade.

De avançado para avançado, o que acha do Mitroglou?
Gosto dele. Comparando com o antecessor, o Cardozo, não tem a capacidade goleadora dele. Mas, em termos gerais, é melhor jogador. A intuição de um goleador é algo muito difícil de definir. E o Cardozo tinha, de facto. O Mitroglou parece-me menos goleador, embora mais hábil e coletivo. É uma unidade que acho importante.

Partilhar