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Silas: “O Ronaldo apanha a bola na área dele e ainda consegue fazer um pique de 70 metros. Isso vai acabar”

Cristiano Ronaldo assinou um novo contrato com o Real Madrid e, com um sorriso na cara, disse que a ideia é jogar até aos 41 anos. Para lá chegar é preciso humildade, cuidar do corpo, da alimentação, adaptar-se à idade e “aceitar que vai apanhar treinadores que pensam de maneira diferente”. Quem o diz é Silas, que está com 40 anos, ainda joga no Cova da Piedade, da segunda liga, e avisa: “Não nos podemos dar ao luxo de relaxar”

Diogo Pombo

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FRANCISCO LEONG

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O Ronaldo quer jogar até aos 41 anos. Será que ele consegue ou não?
Acho que sim, ele tem todas as condições. Para já, é um grande profissional e o rendimento que ele tem só é possível num profissional mesmo de elite. Se não fosse assim, não estava todas as semanas a fazer golos e a jogar 90 minutos, além de, muitas vezes, ter três jogos por semana. Depois é viagens, é seleção, é deslocações de marketing, que ele também tem. Só com muito cuidado com o corpo é que é possível. Também é certo que ele, e outros que jogam ao nível dele, estão acompanhados pelos melhores.

Isso ajuda, claro.
A todos os níveis. Acho que ele consegue chegar aos 41. Mas, seguramente, não vai chegar com o nível que tem agora. Não vai ser o mesmo Ronaldo. Vai chegar a uma altura em que começará a perder algumas qualidades físicas, o que é normal, como a velocidade e a potência. Ele vai ter que se adaptar e adaptar o jogo dele. Acontece a toda a gente.

Lembras-te de alguém em especial, assim de repente?
Com o Figo, recordo-me bem de quando ele começou a perder velocidade. Houve ali uma altura em que ele já não estava a perceber o porquê de já não conseguir fazer certas coisas que fazia. O Figo era muito forte nos duelos, no um contra um.

Notou-se muito uma quebra no estilo?
Na altura, sim. Depois ele adaptou-se, porque é muito inteligente e manteve-se a um nível elevado. Mas teve que alterar o jogo dele. O Figo era imbatível no um para um, depois chegou uma altura em que teve de começar a ir menos para o drible. Ele era um grande profissional e muito inteligente. E o Ronaldo vai passar por uma fase dessas também.

Mas o Cristiano já começou a alterar o seu estilo de jogo há uns anos, é diferente.
Sim, mas o Ronaldo, por exemplo, apanha a bola na área dele e ainda consegue fazer um pique de 70 metros, da mesma maneira. Com o tempo isso vai-se acabar, ou em vez de fazer 40 metros, faz só quatro ou cinco. Provavelmente, vai-se especificar mais como nove, que é o que ele tem feito nos últimos tempos. Hoje é muito mais avançado do que extremo.

Esta mudança é mais física do que mental, ou o contrário?
Acho que é muito mental. Primeiro, porque é preciso estar disponível para fazer alguns sacrifícios e para competir contra gente mais nova, e estar predisposto a fazê-los. Depois, chega uma altura em que nós, que já ouvimos muita coisa, treinámos com muitos treinadores, apanhámos muitos jogadores, temos a nossa ideia futebolística e apanhamos um treinador que tem uma diferente. Às vezes, se não formos muito equilibrados, podemos entrar em alguns conflitos internos. Porque temos que fazer o que o treinador diz, mas temos uma ideia diferente.

E às vezes eles até acabam por ser mais novos do que vocês, se ainda jogarem com a tua idade.
Sim, mas nós, jogadores, é que temos de nos adaptar, esquecer aquilo que pensamos e fazer o que o treinador nos pede. E nem sempre é fácil conseguir aceitar isso, que o nosso estatuto e a idade não nos dá o direito de fazermos aquilo que queremos.

É preciso humildade?
Muita humildade, para poder jogar até esta idade, e ser equilibrado nesse sentido. É o que eu digo: às vezes estamos a fazer coisas que podemos achar que estão erradas, por termos feito diferente, mas temos que aceitar que nós somos jogadores e ele é treinador. E se o Ronaldo quiser até aos 41, como eu jogo agora com 40, e vou acabar com 41, ele vai ter que aceitar que vai apanhar muitos treinadores que pensam de maneira diferente dele. São eles que têm o poder de decisão, isto é uma realidade. O que não impede que tenhamos a nossa opinião e de a darmos se o treinador nos perguntar.

Imaginas o Ronaldo a discutir e falar sobre futebol com os treinadores?
O Ronaldo, com toda a carreira, títulos e treinador que teve, seguramente que também tem opiniões muito válidas. E qualquer treinador inteligente saberá aproveitá-las, nem que seja só para o ouvir ou para o fazer pensar. Nesse sentido, acho que é uma mais-valia também para os treinadores. Digo isto porquê: há muitos treinadores que, às vezes, não gostam de ter jogadores mais velhos na equipa, que já têm uma ideia muito formada.

FRANCISCO LEONG

Já sabem muito?
Pois, além disso, pode existir este risco de haver conflitos internos no próprio jogador, porque pensa de uma maneira e o treinador quer que seja de outra. Isto não é fácil de gerir. Mas nós temos que pensar que somos jogadores e nada mais do que isso.

Tiveste discussões por causa disso?
Não, não. Tenho as minhas ideias e costuma dizer que podem-me mudar muita coisa, mas não me vão mudar o cérebro. Agora, naturalmente que faço aquilo que o treinador me pede. Às vezes tento melhorar o que me pede, consoante as minhas ideias, mas nunca vou contra aquilo que ele me pede. No campo, durante o jogo, quem decide sou eu, quem tem a bola sou eu. Claro que tento decidir de maneira a que não fuja do modelo de jogo, do que o treinador me pede. Isso é importante e a verdade é que nem toda a gente consegue fazê-lo.

Há muita gente que diz que um dos problemas do Ronaldo é o ego, que é muito grande. Pode ser um problema?
Acho que o ego do Ronaldo existe, também, por tudo aquilo que ele faz. Mas acredito que, à medida que vai perdendo umas coisas, vai ganhando maturidade. Porque há muitas coisas do ego que, realmente, são falta de maturidade. Quando somos maduros o suficiente, não deixamos que o ego nos cegue. Acho que ele está muito melhor a esse nível, quando tinha a irreverência da juventude. Hoje em dia, apesar de ter o ego dele, que é bom, porque faz dele aquilo que ele é, acho que vai melhorar.

No teu caso, hoje em dia corres melhor do que corrias?
Não tenho grandes dúvidas. Antigamente, corria mais, cansava-me mais e, se calhar, não tirava tanto proveito do meu jogo como tiro agora. Com o Ronaldo, é provável que não aconteça, somos jogadores diferentes. Ele usa muito a explosão, as suas capacidades físicas. Eu sou um médio e os médios, sobretudo, precisam mais de resistência. Eu continuo a usá-la muito, ele é mais explosão. Ele trabalha-a muito, mas é inevitável que a perca, ninguém mantém a velocidade dos 20 para os 30, e dos 30 para os 40. Mas tenho a certeza absoluta que ele consegue jogar até aos 40.

Não lhe antevês problemas?
Acho que o problema vai ser na altura em que o Ronaldo não fizer 40, 50 ou 60 golos por temporada, e se ele estará disposto a certas críticas. Ele pode ser o melhor marcador de sempre do Real Madrid, mas se não faz golos em três ou quatro jogos seguidos, já é criticado. E depois estamos a falar de um clube onde ninguém pode dormir à sombra da bananeira. Ou seja, se o Ronaldo não mantiver este nível, acaba por chegar outro jogador e encostá-lo. Não acredito que o Ronaldo esteja disposto a isto. Por isso é que acho que há outra diferença entre o Ronaldo e o Figo.

Qual?
É que o Figo, tecnicamente, era superior. O Ronaldo é mais goleador. E os jogadores que são tecnicamente superiores têm mais probabilidade de se aguentarem a jogar durante mais anos, porque se conseguem adaptar melhor.

Não precisam tanto do lado físico?
Exatamente, é isso mesmo. Conseguem-se adaptar melhor, inclusive a várias posições. Mas, lá está, o Ronaldo tem outra parte, que é o conhecimento da área, daí achar que se vai tornar mais nove. Ele tem o faro pelo golo, conhece os movimentos na área, tem impulsão. Tenho a certeza absoluta que ele vai continuar bem fisicamente aos 41, ainda por cima o Ronaldo deve ter uma alimentação muito diferente de quase todos os jogadores de futebol. Tem todas as condições para recuperar de um jogo para o outro. Eu próprio aguento jogar três jogos por semana, e não tenho em meu redor as pessoas e as condições que ele tem. O que, se calhar, não vai aguentar, é continuar a jogar no Real Madrid.

Vai ter que baixar um pouco o nível?
É mesmo assim, aconteceu a todos, aos maiores. O Eusébio chegou a uma altura em que já não jogava no Benfica e teve que sair. Lembro-me que até esteve no União de Tomar. O Raúl, que foi para o Schalke e para os EUA. Acontece a toda a gente e, inevitavelmente, vai acontecer também ao Ronaldo. Mas, daqui até lá, ainda temos muito que desfrutar.

AFP

Hoje em dia, por seres um quarentão, os mais novos apertam contigo?
Brincamos muito, tenho boa relação com todos os meus colegas. A verdade é que não me lembro que tenho 40 anos quando estou ao pé deles, que também não ligam muito a isso. No futebol de alta competição o que interessa é o rendimento. Mas há uma coisa que é verdade: não nos podemos dar ao luxo de relaxar. Sou muito brincalhão, só fico mais sério no dia do jogo, por uma questão de concentração. De resto, acho que não há grandes diferenças entre mim e eles. No treino somos todos competitivos e só assim é possível manter um nível alto. Depois do treino é brincadeira a toda a hora. Temos um grupo coeso, o que é importante, porque dessa maneira sinto que vou para o treino com prazer, com gosto. Está ali um grupo com quem gosto de conviver.

Caso contrário, talvez já tivesses deixado de jogar, não?
Pois. Isto de nós jogarmos até uma certa idade tem esta idade. Se apanharmos um grupo que é mau, uma equipa com mau ambiente, se calhar dizemos que não estamos para nos chatear, e desistimos. Daí eu perceber a parte de o Ronaldo dizer que quer jogar até aos 41, mas ainda é muito cedo para sabermos se isso vai acontecer ou não.

Ainda faltam 10 anos para ele.
A partir de uma certa idade é que o desgaste começa a aparecer a sério e aí pensamos noutras coisas.

É mais ou menos quando?
A partir dos 35, ou 36. Aí começa a haver um desgaste a nível psicológico, que é o principal, muito mais do que o corpo. A não ser que haja lesões, que é outra questão, mas deste que não sejam graves, acho que a cabeça é que manda. A nível físico, olhando para o Ronaldo, ele é um portento. Se não tiver o azar de ter lesões graves, pode perfeitamente jogar até aos 41. Mas o lado psicológico vai mandar muito. Neste momento, por exemplo, ele está habituado a um nível de profissionalismo que é do mais alto que há, a coisas do Real Madrid que, em outros clubes, talvez não tenha. Depois vai para outro lado e apanha coisas totalmente diferentes. Há muitos fatores que influenciam. Mas a verdade é que o mais importante é ele querer e ter paixão pelo futebol. Sem isso, não conseguimos chegar até aos 40.

Até agora, está a correr-te bem.
Perfeitamente, mesmo. Mas eu gosto mesmo muito de jogar, de treinar e do jogo em si, de o perceber. E tenho tido sorte, porque tenho apanhado bons grupos, que me fazem sentir bem no dia a dia.

Há jogadores que adiam a reforma por terem receio de ficar em casa, sem nada para fazer?
Acho que, a partir de uma certa idade, começamos a pensar no pós-futebol. Falo por mim: eu jogo porque gosto, não é por ter medo de ficar em casa. Quando deixar de jogar vou, seguramente, fazer outra coisa. Mas gosto muito disto. E sinto que ainda posso competir, que é outro lado. Porque, quando chegamos a uma certa idade, não nos podemos dar ao luxo de estar lesionados, ou ter um jogo muito mau. Quando temos 20 anos e temos um jogo muito mau, ninguém diz nada. Mas, a partir dos, 32, 33 ou 34, se temos um jogo mau é porque já estamos velhos. O mesmo acontece quando temos uma lesão. Não nos podemos dar a esses luxos se queremos continuar a jogar. Temos de estar sempre no nosso limite no treino, temos de descansar, temos de cuidar da nossa alimentação. Um descuido pode dar uma lesão, uma lesão tira-nos de um jogo, depois vem um treinador que acha que estamos velhos...

É um preconceito do futebol português?
Não existe só cá. Olhamos para a primeira liga e podemos contar pelos dedos a quantidade de jogadores que há acima dos 35. Há mais nas equipas grandes, curiosamente.

Por cá, acima dos 40 e nas duas principais divisões, só me lembro de ti e do Quim.
Mas nós já passamos os 40, nem estou a falar disso. Acima dos 35 há o Luisão, no Benfica, o Sporting tem alguns com mais de 30, tens o Alan, no Braga, mas nas restantes equipas não acho que haja muitos. Devíamos pensar assim: então mas porque é que as equipas grandes é que têm jogadores acima dos 30, se a exigência é maior? Não é?

É porquê?
Porque se olha ao preconceito da idade em vez de se olhar para a qualidade e o rendimento.

Não poderá ser por os clubes grandes terem melhores condições de treino e de recuperação pós-jogo?
Talvez, mas hoje em dia, todas as equipas da liga têm a obrigação de fazer um bom trabalho nesse sentido. Existe muita informação, até na internet, e há muita troca de conhecimento. Se não têm essas condições, é porque não querem. Mas, sobretudo, acho que os treinadores de equipas grandes olham muito à qualidade do jogador e não tanto à idade. Sabem perfeitamente que a idade não é um problema. Curiosamente, nas equipas pequenas não há tanto isso.

O que é estranho, não?
Sim. Há também aquele tipo de treinador que quer moldar os jogadores desde o princípio, então tem de os apanhar mais novos. Por acaso, o ano passado, deparei-me com uma situação curiosa. Quando vim para o Cova da Piedade, tínhamos, e temos, uma equipa com muitos jogadores acima dos 30. Então, quando jogávamos contra outras equipas e ganhávamos, os treinadores, no final, referiam sempre que éramos uma equipa mais experiente e madura e tal. Mas, no início das temporadas, não querem jogadores com mais de 30 anos. No início não os querem, mas quando perdem contra eles dizem que têm mais experiência.

Estão a arranjar desculpas?
Há aqui um contrasenso. Em Portugal, há muito isto. No fundo, sim, são desculpas. Toda a gente tem a possibilidade de ter os jogadores experientes que quiser. Se não querem, é uma opção deles, portanto não se devem desculpar depois com isso. Todos têm a opção de escolher no arranque da temporada.

FRANCISCO LEONG