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Luís Boa Morte: “Os 60 anos, para um treinador, é uma boa idade para estar com outras pessoas, para a reforma, passear os netos”

Luís Boa Morte sabe o que é defrontar a Letónia, algo que fez poucos meses depois de não ter sido convocado para o Euro 2004. Ficou triste, mas a ausência não deixou marcas, até porque dois anos depois estava no Mundial da Alemanha. Do jogo de Riga, em 2004, recorda "o campo pequenino" e a "equipa aguerrida"

Lídia Paralta Gomes

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty

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O histórico é curto, mas bem simpático: quatro jogos, quatro vitórias para Portugal no frente-a-frente com a Letónia. Luís Boa Morte esteve num deles, a 4 de setembro de 2004, encontro de qualificação para o Mundial de 2006, que a Seleção Nacional venceu por 2-0 em Riga. Um jogo marcado pelo inusitado espontâneo de uma jovem letã, que se escapou pelo campo numa correria desenfreada quase como veio ao mundo. Portugal marcou logo a seguir, já em plena 2.ª parte, por Cristiano Ronaldo, com Pauleta a confirmar o triunfo. A viagem a Riga foi uma das 28 internacionalizações do extremo, hoje com 39 anos e olheiro do Arsenal. Um trabalho absolutamente ‘top-secret’, ao ponto de Boa Morte estar contratualmente proibido de falar de jogadores ou treinadores - “O meu patrão mata-me”, avisa. Isto enquanto não aparece a oportunidade para treinar uma equipa sénior, depois de passagens pelas camadas jovens do Fulham e Sporting.

Luís, esteve num dos últimos jogos de Portugal com a Letónia, em 2004. Ainda se lembra do jogo?
Ei, isso já foi há tanto tempo! Já lá vão 12 anos. Acho que ganhámos 2-1, não foi?

2-0
Isso. É difícil, no meio de tantos jogos que fiz, não é fácil lembrar-me. Mas recordo-me que era um campo pequenino, pesado, que nem bancadas tinha atrás da baliza. Foi um jogo difícil, eles eram muito aguerridos, uma equipa de muita luta e não foi nada fácil ganhar-lhes lá.

Esse jogo ficou marcado pela invasão de campo de uma adepta local, só de calções.
Pois foi, é verdade [risos]! São momentos caricatos. Nunca mais me aconteceu nada do género.

Desconcentrou ou ajudou-vos a ganhar?
Não, não é por aí. Estas coisas não abalam a concentração e nunca perdemos o foco. Depois comentou-se no balneário, rimo-nos um bocado e no dia seguinte vimos as fotos que apareceram nos jornais. Mas depois esquecemos o assunto.

E acabou por ser convocado para o Mundial da Alemanha. Um dos momentos mais importantes da sua carreira?
Estar num Europeu ou num Mundial é sempre um momento alto para qualquer jogador. Não joguei muito na Alemanha [foi suplente frente ao México, na fase de grupos], mas o importante foi ter feito parte do grupo, que era fortíssimo e que esteve sempre muito concentrado. Foi muito boa a campanha, foi pena a meia-final com a França...

Ainda tem pesadelos com esse jogo?
Ainda me está atravessado. Já tinha ficado em 2000 e depois de novo em 2006. Felizmente este ano demos a volta aos franceses. A verdade é que a França tinha uma equipa excelente. Acabaram por não ganhar o Mundial, porque a Itália também era muito forte. Olhando para aquelas meias-finais, acho que qualquer uma das quatro equipas presentes (Portugal, França, Itália e Alemanha) podia ter ganho. Foi ‘rasgadinho’ até ao fim e ainda tenho uma certa mágoa por aquele 1-0.

Jogou com Figo, Rui Costa, João Pinto, mas também assiste ao aparecimento de Cristiano Ronaldo, Deco, etc. Qual foi o jogador que mais o impressionou na Seleção?
O Figo. Mas sou suspeito porque ele sempre foi o meu ídolo. Sempre o admirei como pessoa e como jogador e quando tive a oportunidade de partilhar o balneário com ele foi um dos pontos altos da minha carreira. Mesmo hoje em dia, quando faço jogos pela Fundação Luís Figo, desfruto ao máximo. Mas, sei lá, há tantos jogadores bons daquele tempo. Deco, Pauleta, Jorge Andrade, antes até o Fernando Couto. Era uma verdadeira constelação.

Boa Morte com Cristiano Ronaldo num treino da Seleção Nacional

Boa Morte com Cristiano Ronaldo num treino da Seleção Nacional

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty

O que lhe faltou na Seleção?
Faltou-me ganhar uma grande competição. A mim e à minha geração.

Tem 28 internacionalizações e um golo pela Seleção. O único golo é naquele célebre Portugal-Angola de 2001, que não chegou ao fim [Angola ficou reduzida a seis jogadores]. Ficou-lhe um sabor agridoce?
Não, não foi agridoce. Mas foi um jogo estranho: houve ali um descontrolo motivado por duas ou três decisões de arbitragem. Aquilo descambou completamente, mas por muito que os jogadores angolanos não estivessem de acordo, não havia necessidade de acontecer o que aconteceu.

Fez muitos particulares na preparação para o Euro 2004, mas acabou por não ser convocado. Ficou com mágoa?
Sim, como disse, todos os jogadores querem estar nos Europeus e Mundais e ficar de fora depois de ter participado em tantos particulares não me caiu bem. Mas temos de saber viver com essas tristezas. Essas coisas não me deixam marcas.

Ficou triste com Scolari?
Não, aliás, é o mesmo selecioonador que me convoca para o Mundial, dois anos depois. Ainda há um ano estive com ele na China, quando fui lá fazer um jogo e conversámos. Não há um ex-treinador meu com quem tenha má relação e até falo regularmente com alguns.

Ai sim? Quais?
O Chris Coleman, por exemplo [treinou-o no Fulham e no AEL da Grécia], o Gianfranco Zola, que trabalhou comigo no West Ham. O Jean Tigana também.

Mas o Tigana não chegou a ficar chateado consigo depois do Luís lhe ter acertado com uma bola na cara?
Foi num treino, uma daquelas situações que podem acontecer. Quando ele se chateava era bom sinal, era porque gostava de mim e queria puxar por mim. É uma coisa que os treinadores fazem quando gostam dos jogadores e algo que eu tenho feito na minha ainda curta carreira de treinador. Estou eternamente grato ao Tigana.

Que foi seu treinador no Fulham. Foram 18 anos em Inglaterra, não tem saudades?
Sim, fica sempre a saudade. E tive a sorte de passar grande parte desses 18 anos em Londres, uma cidade que adoro.

Enquanto olheiro do Arsenal não tem de ir a Londres de vez em quando?
Não, não. Sabes que com as novas tecnologias o trabalho é feito essencialmente via email. Não preciso de ir a Londres.

Internacional português era um ídolo no Fulham de Inglaterra

Internacional português era um ídolo no Fulham de Inglaterra

Phil Cole/Getty

Além de Inglaterra, teve curtas passagens pela Grécia e África do Sul. Como foi parar ao Orlando Pirates?
Tinha saído do Larissa em dezembro de 2011 porque começou a haver problemas com pagamentos. Voltei a Inglaterra e lá surgiu a hipótese de ir jogar para a África do Sul, através do Benni McCarthy, do empresário dele e do irmão do Benni, que também é empresário. Acabei por assinar com o Orlando Pirates, mas também tive a hipótese de ir para o Kaizer Chiefs ou para o Ajax Cape Town.


Acabou por não durar muito a experiência. O que correu mal?
Naquela época ganhámos o campeonato e eu ainda tinha mais um ano de contrato, mas optei por sair porque não me estava a identificar com o novo treinador.


Surpreendeu-o o futebol na África do Sul?
Sim. O futebol sul-africano é muito desvalorizado. Injustamente, porque tem muita qualidade e intensidade. Aquilo que nós procuramos cá, os miúdos com talento, jogadores tecnicistas, lá há aos montes.


E a vida em Joanesbusgo?
Foi ótima. Felizmente não me posso queixar de nada. Sabemos que por vezes há problemas de segurança, mas eu estive lá sete meses e correu tudo bem, sempre fui muito bem tratado.


Em 2012 começou a carreira de treinador, nas camadas jovens do Fulham. Entretanto, tem um convite para regressar a Portugal, para o Sporting.
Sim, já tinha em mente voltar a Portugal e de repente juntou-se o útil ao agradável quando o Augusto Inácio e o Virgílio Lopes falaram comigo. Primeiro fui adjunto da equipa B e depois fui treinar os juniores.


Porque é que saiu do Sporting?
Por duas razões: porque queria apostar no futebol sénior mas também porque depois da primeira época nos juniores percebi que havia uma incompatibilidade entre a minha forma de trabalhar e aquilo que o Sporting queria para o futuro. Na altura tive duas ou três reuniões com o Paulo Leitão, coordenador da formação, e não me identifiquei com o caminho que ia ser tomado. E como não sou pessoas de criar problemas ou atritos, falei com o Virgílio Lopes, agradeci a oportunidade e saí pelo meu próprio pé.


Como era a sua relação com Bruno de Carvalho?
A minha ligação era com o Virgílio Lopes. Falei apenas duas ou três vezes com o presidente, sem qualquer tipo de problema.


Neste momento é olheiro do Arsenal, mas o objetivo é outro.
Sim, o que quero é ser treinador de uma equipa sénior. Não desejo mal a nenhum colega meu, nem que ninguém fique sem emprego, mas basicamente estou à espera de uma oportunidade. Pode ser em Portugal ou em qualquer parte do mundo, tudo é possível.


Sente que é difícil para um treinador novo conseguir uma oportunidade em Portugal?
É difícil em Portugal e em qualquer parte. Mas cá o mercado é muito fechado, são sempre os mesmos a treinar. Acho que está na hora de haver uma renovação nos treinadores: um técnico com 60 anos não tem a mesma disponibilidade para os treinos que um de 40. Os 60 anos, para um treinador, é uma boa idade para estar com outras pessoas, para a reforma, passear os netos.


Para fechar, uma curiosidade: partilhamos o dia de aniversário, 4 de agosto. Nós e o Barack Obama. Sabia?
Por acaso sabia, sim.


Já não falta muito para Obama sair de cena. Acompanhou as eleições norte-americanas?
É uma figura que admiro muito. Por tudo o que tentou mudar nos Estados Unidos. Por acaso não acompanhei as eleições a fundo, mas é impossível passar ao lado das eleições dos Estados Unidos, com todo aquele mediatismo.


E o resultado, surpreendeu-o?
Ainda não sei o que pensar da eleição de Donald Trump. A campanha foi bastante assustadora, mas a verdade é que na hora da vitória o discurso já foi outro. Não sei se está a fazer algum jogo de mentes ou se quer confundir a malta… fiquei mesmo sem saber o que pensar.