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“Vou buscar as minhas coisas ao museu do Sporting. Já lá devia ter ido. Posso deixar uma recordação ou outra, mas as medalhas não”

20 anos depois, Rui Silva trocou o Sporting pelo Benfica. Assume que não foi fácil deixar Alvalade, mas diz que tomou essa decisão pela família, o seu único “doping”. Nesta longa entrevista, o atleta fala também de como é viver com uma mãe surda-muda, de crescer num “meio fechado” sem ninguém com quem falar, e dos tempos em que o atletismo era “uma coisa banal e muito mais fácil do que a vida”

Alexandra Simões de Abreu

Tiago Miranda

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Quando anunciou que ia para o Benfica qual foi a reação no Sporting?
Não, o Sporting é que anunciou que eu ia para o Benfica, em setembro. Eu só anunciei que ia para o Benfica no dia 1 de novembro.

Mas já se sabia que estava a trabalhar com o Benfica.
Sim, mas foi o Sporting que fez um comunicado a dizer que eu ia sair do Sporting. eu só assinei pelo Benfica no dia 28 de outubro.

Mas já desempenhava funções de secretário técnico do projeto olímpico no Benfica.
Sim, mas em termos desportivos, enquanto atleta, eu tinha uma ligação com o Sporting, que termina entre 15 e 30 de outubro, que é o período de transferências. Efetivamente, no dia 1 de novembro eu mudo o meu vínculo de atleta, que era o único vínculo que tinha com o Sporting. As outras funções como secretário técnico e como treinador, comecei a exercê-las mais cedo, desde setembro, porque não tinha esse vínculo, nem contrato com mais ninguém. Mas, antes disso, o Sporting lança o comunicado e senti-me livre a partir desse momento. Eu ainda tive lá uma reunião onde expliquei as minhas razões, ainda tentaram demover-me, mas eu só tenho uma palavra e já me tinha comprometido com o Benfica. O Sporting teve muito tempo para trás para fazer aquilo que tentou fazer nessa altura.

O fator financeiro também pesou na mudança?
Ao contrário do que as pessoas pensam eu fui ganhar menos dinheiro para o Benfica do que ficaria ganhar durante esta época, no Sporting. Posso comprová-lo. Neste primeiro ano eu ganho menos dinheiro.

O seu projeto passa em concreto por…
Nestes dois primeiros anos fazer ainda algumas competições como atleta, ser treinador e secretario do projeto olímpico.

Destes 20 anos de Sporting qual a melhor memória que guarda?
É uma pergunta difícil…Penso na minha carreira. O meu melhor resultado individual era o melhor que podia dar ao meu clube.

Vai deixar as suas coisas no museu do Sporting?
Não. Não é por desrespeito ao Sporting, mas vou buscar as minhas coisas. Já lá devia ter ido. Posso deixar uma recordação ou outra, mas as medalhas não. As medalhas pertencem a todos nós mas acho que fui eu que fiquei encarregue de tomar conta delas.

Sai com alguma mágoa do Sporting?
Saio, principalmente por causa do que se passou a seguir.

Acha que o maltrataram?
Não vou dizer isso, mas podiam ter tido outro tratamento porque se calhar houve alguns colegas meus que até saíram beneficiados. De certa forma fico contente por ter sido o precursor desta mudança no atletismo. Nunca me recordo de haver tantas mexidas sobretudo no âmbito desta rivalidade Benfica/Sporting. Este boost devia ser aproveitado pelos clubes e federação como rampa de lançamento, porque não devíamos estar tão agarrados, tão acomodados.

Custou-lhe sair do Sporting?
Custou. São 20 anos. Uma pessoa está ligada a uma imagem, a uma casa, criei muita coisa, ajudei a conquistar muitos títulos para o clube e já não me passava pela cabeça sair do Sporting. E quando já não havia volta a dar, tomei a minha decisão?

Não havia volta a dar porquê?
Porque a minha mulher assinou por três anos com o Benfica e não ia ficar três anos com a convivência familiar ainda mais afetada. Entre janeiro e agosto há provas praticamente fim de semana sim, fim de semana sim. Para os poder acompanhar mais de perto não posso estar noutro clube, ainda por cima rival. O Sporting não fica no mesmo hotel em que fica o Benfica. Eu quero acompanhar a carreira da minha filha. Nestes últimos dois anos em que andava a fazer atletismo mais a sério, ela ia para os campeonatos nacionais e para o desporto escolar e eu acompanhava-a sempre. Quero estar presente. E não posso estar presente a 100% quando estou numa entidade a quem devo respeito. Não posso estar no meio de atletas do Benfica equipado à Sporting, tenho consciência de que não é correto. Mas também não me quero sentir marginalizado e estar ali num canto a fazer sinais escondidos. A decisão passou por aí. Houve muito tempo para reverter o processo, mas o Benfica apostou em mim, coisa que o Sporting não viu. Pelo menos até a um determinado momento, quando o processo já era irreversível.

Explique melhor.
A minha mulher também foi atleta do Sporting e havia a possibilidade de ela vir treinar para o Sporting, e isso nunca aconteceu. A partir do momento em que se sentiu acarinhada e satisfeita com uma proposta para um projeto naquilo que ela gosta de fazer, aceitou. O que estava assente na minha cabeça é que ela não ia ficar de um lado e eu do outro. E o diretor técnico do Sporting, Carlos Silva, sabia disso porque eu disse-lhe várias vezes. Na altura ela só tinha. ainda, um ano de contrato com o Benfica e só depois assinou por três anos. Não sei se eles pensaram que eu não o fizesse, mas fiz. O mais importante para mim é a minha família. Estando com a minha família, está tudo bem. Tenho muito respeito pelo Sporting, tenho muito respeito pela entidade Benfica, mas se tiver de tomar uma opção, nem que isso implique ficar sem emprego, primeiro está a minha família sempre.

Passaram a funcionar como um clã.
Eu nunca tive esses laços familiares quando era pequeno e senti necessidade de um carinho, de estar alguém presente. No primeiro dia de escola o meu pai disse-me: “olha, a escola é ali”. Sempre disse para mim que quando tivesse uma família queria estar presente, não ia fazer as mesmas coisas que criticava ou achava incorreto. Tento estar o mais presente possível. Quando estava no auge da minha carreira quantas e quantas vezes não os levei para treinos em altitude, porque praticamente éramos um. Em 2001, por exemplo, fiz uma pressão enorme e a Susana e a Patrícia foram comigo para Edmonton. Elas ficaram num hotel e eu arranjei maneira de as ter por perto. A três dias antes da prova, estava com 41 graus de febre mas chego à final e sou 7º. Não era o resultado que estava à espera, mas dado o facto de três dias antes estar a tomar penicilina, foi um excelente resultado. Elas foram o meu ponto de refúgio, o médico ia dar-me a penicilina ao hotel onde elas estavam porque fui para lá.

Isso foi depois dos mundiais de pista coberta, em Lisboa, onde ganhou a medalha de ouro, num Pavilhão Atlântico ao rubro.
Sim, em Lisboa sai de casa diretamente para o Pavilhão Atlântico. Não fiz estágio. Não é desprezar a convivência com os meus colegas, mas sinto-me bem é em família. É com a família que me mentalizo e foco nas coisas que tenho de fazer. Quando vamos para uma competição, vamos para uma batalha e é ali que me mentalizo para aquele sofrimento. Sim, porque não pensem que correr não cansa. Correr cansa muito (risos).

A família sempre foi o seu único “doping”?
Sim, mas muita gente não compreendia isso.Chegaram a dizer que era arrogante. Eu não era arrogante, eu era fechado. Nasci num meio muito fechado, falava pouco, não tinha com quem falar, muitas vezes falava com os animais. nem sequer andei em infantários. Hoje em dia sou muito mais comunicativo, mas por experiencia da vida, não por ser essa a minha génese.

Tiago Miranda

Da sua história pessoal sabe-se que nasceu em Santarém, foi criado numa quinta e ficou sem pai muito cedo.
É verdade, nasci no hospital de Santarém, a 3 de agosto de 1977. Os meus pais eram caseiros, cuidavam de uma quinta. Sou filho único da parte da minha mãe, mas do meu pai tenho meios irmãos muito mais velhos, que têm quase idade para ser meus avôs. Já nasci quase fora da colheita. A minha mãe tinha 40 anos e o meu pai mais uns oito ou dez anos que ela. Era um homem fechado, não falava muito. Morreu quando eu tinha 12 anos. Depois, como a minha mãe não podia ficar sozinha a tomar conta da quinta, fomos para casa dos meus avós maternos, em Vila Chã, concelho do Cartaxo. Basicamente foi esse o meu percurso até me iniciar no atletismo.

Foi uma infância feliz?
Sim. Nunca estive num infantário, andava na quinta, gostava muito de brincar com os animais. Havias cães, vacas, patos, galinhas e, muitas vezes, o meu entretenimento era brincar com os animais ou subir às árvores, ou jogar à bola sozinho. A quinta, apesar de ser numa povoação, era um bocado isolada. E foi assim até aos meus seis anos, até ir para a escola. Depois, na escola, tinha alguns colegas com quem às vezes brincava um bocadinho nuns montes onde agora há uma urbanização. Foi uma infância feliz, muito aberta, sem grandes controlos. Com oito, nove anos ajudava a lavrar a terra, a mudar a cama aos animais, a dar-lhes comida.

Como é que foi crescer com uma mãe surda-muda?
Ela consegue ler a expressão dos nossos lábios. Se falarmos devagar ela consegue perceber. Ela emite som, consegue falar, mas não corretamente porque também não conhece os sons corretos das palavras. Tínhamos o nosso próprio vocabulário. A família, as pessoas mais chegadas e até mesmo as pessoas que trabalhavam com ela, falavam normalmente com ela. E ela percebia.

Nunca sentiu que era um miúdo diferente, por ter uma mãe surda muda? Não eras vítima de bullying?
Não, nunca senti isso. Era um meio pequeno e toda a gente conhecia a minha mãe e sabia da situação. Não era visto como um caso fora do normal. Não me afectou.

Como foi a escola, era bom aluno?
Nem por isso, no 5º ano chumbei e no 7º ano voltei a chumbar. Desisti dos estudos no 8º ano e só voltei a estudar quando vim para Lisboa, em 1996. Desisti para me dedicar ao atletismo, apesar de só treinar uma vez por dia. Ainda trabalhei numa loja de ferragens em Santarém durante um ano, a “Casa Hipólito”, que hoje já não existe.

Como é que surge o atletismo?
Nas férias escolares. Tinha alguns colegas que eram de Vila Chã e quando chegavam as férias, havia o problema de não haver nada para fazer. E eu comecei a ir ter com esses colegas que corriam num grupo, onde havia crianças e adultos, entre eles um senhor que dava uns treinos. Depois surgiu no clube de futebol da terra a possibilidade de se criar uma secção de atletismo com esse senhor, que se chamava Artur Guedes, e com outro que passou a ser o meu treinador, o Pedro Barbosa. O Pedro foi o meu treinador de formação até eu vir para o Sporting em 1996.

Lembra-se da primeira competição mais a sério em que participou?
Lembro. Ainda estava nesse grupo e em agosto, quando normalmente se fazem as festas populares nas terriolas, fiz uma corrida nos Casais da Charneca. Lembro-me que saímos do recinto de uma festa, passámos por uma vinha e entrámos novamente pelo recinto da festa. Devem ter sido duas, três voltas, éramos meia dúzia de miúdos e ganhei essa prova.

Que idade tinha?
Uns 13 para 14 anos. Penso que, no ano a seguir, a primeira prova que apanho de âmbito nacional (que agora é o crosse de Torres Vedras) fui terceiro. Estava a treinar nem há um ano.

Entusiasmou-se logo com o atletismo?
Sim, até porque não tinhamos mais nada para fazer. Eu tinha jogado futebol, tive a oportunidade de me inscrever no União Desportiva de Santarém, mas nunca jogava. Era muito pequenino e franzino. Lembro-me de treinar, mas não me lembro de entrar num único jogo. Nem tão pouco de ser convocado. E no atletismo comecei logo a ganhar. No futebol era diferente, eu era muito pequeno, nessa altura devia ter um 1,30m, e não sei se por causa disso, não me passavam a bola. Porque correr eu até já corria rápido.

Quando começa a fazer atletismo que distância gostava mais?
Sempre gostei de distâncias mais longas, mas fui puxado, por estratégia e porque o Pedro achava ser o mais correcto, para trabalhar as distâncias mais curtas, para depois poder ter um futuro melhor, porque assim se trabalhavam os índices de coordenação, de velocidade. Nessa altura recordo-me que resistia a fazer distâncias muito curtas, como os 800 metros. Recordo-me de uma história que o Pedro costuma utilizar como exemplo para os jovens: normalmente, os jovens querem fazer aquilo em que se sentem confortáveis e eu na altura não me sentia confortável, apesar de ganhar. Era muito pouco tempo a correr e era tudo muito rápido. Um dia fomos a uma competição, a uma pista de cinza em São João da Ribeira, em Rio Maior, primeira prova da época, e ele diz-me: “Olha vais fazer 800 metros, são duas voltas à pista”. Eu virei-me para ele e disse “epá, isso não dá para aquecer!”. Mas era uma ideia errada e mais tarde vim a confirmar que aquele era o caminho correcto, um trabalho de base que tinha de ser feito se eu quisesse evoluir. Não podia andar sempre a correr distâncias longas. Nós não podemos fazer só aquilo de que gostamos ou temos jeito para fazer. Temos que fazer um pouco de tudo, ser multidisciplinar para ter um desenvolvimento harmonioso do nosso corpo. E eu lembro-me disso, mas não foi com bom grado que aceitei essa passagem.

Como é que surge o Sporting?
Desde os 14, 15 anos que quer o Sporting quer o Maratona mostraram interesse em mim. Mas o meu treinador sempre me aconselhou a fazer a formação com ele e depois, quando passasse a sénior, decidia o melhor trajecto para a minha carreira. Assim foi. Apesar de ter ofertas monetárias para sair, nunca o fiz até 1996. Foi no meu segundo ano de júnior. Na altura, o Pedro disse-me que o melhor caminho seria o Sporting porque tinha corta-mato e pista e era e é um dos melhores clubes de Portugal e de sempre no atletismo. Aceitei a proposta e vim para cá. Vim morar para Lisboa, para a Calçada de Carriche com outros dois colegas meus na altura, num apartamento do Sporting. Morei lá numa fase inicial e depois mudei-me para a Quinta do Lambert. Mais tarde voltei ao Cartaxo.

Foi para o Sporting, mas já era adepto do Benfica.
É um assunto delicado, mas sempre me recordo de ouvir relatos do Benfica, nasci com essa influência. Não é uma coisa que eu consiga explicar. Foi assim até ir para o Sporting, sempre fui do Benfica. E fui sincero. Isto soube-se porque a seguir a um resultado de uma prova que já não recordo qual foi (não sei se foi quando bati o recorde nacional dos 1000m, que na altura era daquele que viria a ser o meu sogro, o Carlos Cabral), dei uma entrevista e, supostamente em “off the record”, disse que era do Benfica e o headline da notícia foi qualquer coisa como: “Águia na toca do leão”. Isso marcou-me bastante, porque ao longo destes 20 anos sempre tive o maior respeito pelo Sporting, sempre vesti a camisola e nunca pensei “sou do Benfica, não me vou esforçar ao máximo”, nunca utilizei esse argumento. Só deixei de pagar as quotas do Sporting há dois meses. Fui sempre sócio. Aprendi a gostar do Sporting, mas nasci com o Benfica, não sei se se pode chamar de primeiro amor, são as nossas marcas de infância, não se explica.

Conheceu a sua mulher, a Susana Silva, que corria os 800m, no Sporting. Quando começaram a namorar?
Em 1997. Ela na altura era casada, é mais velha do que eu cinco anos, e entre nós foi crescendo um sentimento e depois de um ano é que se tornou oficial. Ela resolveu a situação dela, eu era livre, um jovem na flor da idade. Casámos a 23 de agosto, o dia de anos dela, de 2010. Até lá vivemos sempre em união de facto. Já tinhamos os dois filhos, a Patricia e o Rodrigo, quando casámos.

Em 1998 é campeão europeu de pista coberta em Valência, nos 1500 metros...
Sim e fui vice campeão ao ar livre nesse mesmo ano. Em 99 sou novamente campeão da Europa, e depois caio na meia-final do campeonato do mundo em Sevilha.

Recorde-nos esse episódio.
A queda foi uma circunstância da corrida. Estava muito táctica, gera-se uma confusão, há uma queda de um atleta inglês, eu não consigo fugir e caí por cima dele. Quando nos levantámos a corrida já lá ia. Ainda terminei a corrida.

Como é que uma pessoa se sente numa situação dessas?
Há uma sensação de impotência. Na altura eu tinha das melhores marcas do mundo, sabia que podia disputar os primeiros lugares. Tinha tido acesso à final. Na altura a Federação fez um protesto, que foi aceite, alegando que eu tinha sido prejudicado, mas eu achei que não devia ir à final através da secretaria, porque não me senti prejudicado. Aquilo foi uma circunstância da corrida. Se alguém me tivesse puxado ou empurrado, mas não. Noutras alturas, eu senti que me agarravam e que fui prejudicado e nunca foi feito nada.

Depois de Sevilha vêm os primeiros JO, em Sidney 2000, que não correram bem. O que aconteceu?
A cabeça não ajudou. Eu estava bem fisicamente, só que eu não queria ir tão cedo para a Austrália. Fomos obrigados a ir mais cedo para fazer um estágio e eu não queria ir porque a minha filha Patrícia tinha sete, oito meses e estava a começar a gatinhar e eu queria acompanhar esses passos. Estivemos 15 dias em estágio e depois ainda estive mais uma semana à espera para competir. A partir de um determinado momento só queria vir embora. E a estratégia que arranjei foi não correr bem e assim vim embora mais cedo.

Ou seja, o atletismo e a hipótese de lutar por uma medalha olímpica não estava acima de tudo.
Não. Se me dissessem que tinha de deixar de correr porque a minha filha, filho ou mulher precisavam de mim, eu deixava de correr, não tinha problema nenhum. A familia é o mais importante para mim. Tanto que a minha justificação para sair do Sporting foi principalmente familiar. Porque a minha mulher estava no Benfica, a minha filha não estando no Benfica - estava como individual - passou uma época inteira a viver o núcleo do Benfica, e a partir de um determinando momento foi impossível reverter o processo. Cabia-me a mim a decisão mais difícil, que foi sair do Sporting, ao fim de 20 anos, sabendo que a minha imagem ia ficar manchada. Mas eu preferi fazê-lo.

Nos JO de 2004, conquistou a medalha de bronze, nos 1500m. Sabia que era quase impossível bater os africanos
Sim, eu sabia que tinha de correr mal aos outros e muito bem a mim. Em 2004 correu-me muito bem, mas também não correu mal aos outros. Eu sabia que a única hipótese de ser campeão olímpico era ter corrido muito mal àqueles dois atletas.

Como lida com a pressão?
Fui criando estratégias. Visualizando os vários cenários da corrida. Em meetings não há muito que saber, ou tens pernas ou não tens, porque há sempre lebres. O que prevalece são as marcas, É sempre para recorde. Nas outras competições traçava estratégias.

Qual o adversário que mais respeito lhe impunha?
Havia muitos a nível mundial. Acho fiz muita coisa à custa das minhas capacidades físicas, mas muitas delas à custa da minha cabeça. Eu queria muito chegar na frente e foi isso que me levou a ir sempre mais além. Embora o meu lugar normal fosse 7º, face à concorrência. Era dos melhores atletas europeus. Nunca fui campeão da Europa ao ar livre, mas se calhar via isso como mais exequível do que ser campeão do mundo ou olímpico. E no ano em que podia ser campeão do mundo, em Helsinquia, os dois atletas que ficaram à minha frente, apesar de já se suspeitar que andavam metidos num sistema de doping, só foram apanhados à posteriori e os resultados passados não foram anulados. Mas esse era o meu ano.

Rachid Ramzi ganhou o ouro e Adil Kaouch a prata. Os dois foram suspensos mais tarde por doping. O que sentiu?
O que vou fazer? Não consigo fazer nada? Mas deixa-me mais magoado do que não ter participado na final de Sevilha. Tive pena que não tivessem sido apanhados nesse campeonato porque se calhar eu era campeão do mundo.

A seguir não vai aos JO de Pequim…
E começa a novela da minha vida.

Que novela?
As lesões. Basicamente eram microrroturas. Em 2006 nao vou ao Europeu por microrrotura, em 2008 nao vou ao campeonato do mundo porque, no final de um treino, fraturei o quinto metatarso do pé. Em 2009 deve ter sido outra coisa qualquer.

Em 2005, deixou o professor Bernardo Manuel e vai treinar com João Campos. Qual era a sua perspetiva?
É verdade, fui viver para a Maia para treinar com o João Campos, com a perspectiva de subir na distância, para 5000 e 10.000m.

Por que que se afasta de Bernardo Manuel?
Tinhamos pontos de vista diferentes e eu tinha outras expectativas. Ele levou-me a 95% dos sucesso que tive. Bem ou mal, as coisas correram bem. Mas em 2005 tomei a decisão de que não ia continuar assim.

Desentendiam-se porquê?
Por causa do planeamento de treino. Mais propriamente pela ausência de planeamento de treino. As coisas podiam estar planeadas na cabeça, mas tinham de passar para o papel para eu ter essa informação. Isso foi sempre a minha grande batalha com o professor Bernardo Manuel. O trabalho específico era feito quando ele estava presente; o resto era a olho. A partir de um determinado ponto passei eu a fazer esse planeamento e comecei a ter a minha opinião muito formada. Os desaguisados começaram um pouco por aí. Senti necessidade de encontrar uma pessoa que me desse esse apoio, em termos de planeamento, enquadramento e definição dos objetivos. Dos dez anos que estive com ele, trago três ou quatro folhas de papel de planeamento. Quando fui treinar com o João Campos encontrei esse profissionalismo. Tenho centenas de planos de treino em papel e de ficheiros informáticos com adaptações, alterações, etc.

Como se torna maratonista?
A maratona surge como consequência de não conseguir treinar com a intensidade que era necessária para 5000 e 10 mil metros. Até mesmo aí, só à terceira, já com uma redução drástica de volume é que consegui fazer a maratona, porque nas duas primeiras lesionei-me.

Nunca conseguiu uma explicação para essas lesões?
Não. Se se dissesse que tinha um treinador que não planeava nada, mas não. Não havia explicação, eu fazia as coisas bem feitas, planeava o treino, fazia reforço muscular, fazia técnica, tudo o que era suposto fazer fazíamos e bem feito, não queimámos etapas. O que é certo é, que por norma, 15 dias, três semanas antes e… é como na informática, apanhas um vírus e “morreu”.

Qual foi a última prova em que participou?
A última nacional foi o campeonato nacional de corta-mato do ano passado em que fui campeão nacional de estrada, faz agora em janeiro um ano. Depois fui vice-campeão de corta-mato curto e 10.º no corta-mato longo. O piso do corta mato não é o ideal para mim, não consigo render tanto.

O que pensa do atletismo em Portugal? Há falta de cultura desportiva?
Os jovens hoje desconhecem que há atletismo, eles gostam de ser conhecidos e promovidos, e o atletismo não é uma modalidade que faça essa promoção.

A sua filha Patrícia tornou-se atleta por “obrigação”?
Não. Nunca forçámos os nossos filhos a fazerem atletismo. A primeira vez que ela experimentou, tinha nove anos, e esteve três meses no atletismo, no Cartaxo. Ao fim desse tempo disse que não gostava de fazer atletismo. Se não queria, não fazia. “Desapareceu” durante três anos. Aos 12 anos quis voltar a fazer e tomou-lhe o gosto.

Ela faz que distâncias?
Faz essencialmente a distância da mãe, os 800m. É a mãe que a treina. Eu sou o fotógrafo e o cameraman de serviço e sou quem dou o ombro para chorar quando as coisas não correm tão bem. Elas chocam muito.

A sua mulher fez atletismo durante quanto tempo?
Durante 15 anos, no Sporting. Abdicou quando decidiu ser mãe e dedicou-se aos estudos. É licenciada em Educação Física, tirou o mestrado, tem a pós-graduação mas não concluiu o doutoramento.

E o Rui? Quando voltou a estudar?
Tive um percurso académico atribulado. Quando vim para Lisboa tentei terminar o 12ª ano, sem sucesso. Quando fui para a zona norte, aproveitei as Novas Oportunidades e fiz então 12º ano. Depois, fiz um curso tecnológico de nível cinco em informática e o ano passado estava no 1º ano da licenciatura de informática. Este ano está tudo congelado, porque não tenho tempo.

Porquê informática?
A minha letra é horribilis. Até eu, passado uma semana, já tenho dificuldade em perceber o que escrevi. Tenho curiosidade, gosto de computadores. É difícil. A minha mulher era professora de educação fisica não colocada. Andava a dar as atividades extra curriculares e eu pensei que não podia seguir o mesmo caminho, tinha que arranjar alternativa. Ainda andei um ano em gestão de organização desportiva, mas tinha muitos livros, e muita leitura para mim não dá. Não consigo concentrar-me na leitura. Acabei por desistir, fiz só o primeiro semestre. Gosto de coisas mais dinâmicas e de ver logo o resultado, teoria não é para mim.

Mas tinha como objetivo trabalhar na área informática?
Até há bem pouco tempo sim, na área de programação e aplicações.

Também esteve ligado à construção civil…
Tive uma sociedade numa empresa que fazia prédios no Cartaxo. Era só sócio, mais nada. Quando fui para a Maia vendi a minha parte. O único trabalho que tinha lá as vezes era ir tratar de processos, vi logo que aquilo não era para mim.

Em termos profissionais qual é o seu sonho?
Se calhar gostaria de ter sido médico. É uma área que me fascina muito, principalmente desde que comecei a ter muitas lesões. Pesquisei tanto. Tenho curiosidade em compreender a máquina excecional que somos. Mas já fui tarde.

Agora qual é a sua ambição?
Sempre quis estar ligado ao desporto, principalmente ao meio fundo, porque acho que com o meu conhecimento e a minha vivência posso ajudar na recuperação do meio fundo e fundo em Portugal. Tenho conhecimento, não vou inventar a roda, claro, mas tenho a sensibilidade de saber e perceber quando se pede a um atleta para fazer algum treino qual é o impacto daquilo e o que é que é expectável ele fazer.

O meio fundo e o fundo estão mal?
Temos de ser honestos, está muito mal. Em termos quantitativos e qualitativos.

Como chegamos a este ponto?
As disciplinas técnicas fizeram o trabalho delas, e muito bem, e foi fácil cativar os jovens para fazer essas disciplinas. É mais fácil juntar um grupo de miúdos para treinar para 100m, comprimento, lançamento, do que pedir para dar três ou quatro voltas ao parque ou à pista. É preciso uma mentalidade diferente para o meio fundo e fundo.

Porque tivemos tanto sucesso no meio fundo e fundo?
Porque as pessoas nas gerações anteriores passavam dificuldades logo desde muito cedo. Tinham de começar a trabalhar no campo ou nas obras muito cedo e o atletismo até se tornava numa coisa banal e muito mais fácil do que a vida. Hoje em dia os miúdos já não passam por isso e preferem ir para a velocidade, porque fazem um ou dois sprints, fazem ginásio, um bocadinho de técnica e é diferente do que andar só a correr. O tempo de esforço é muito maior.

Nunca lhe passou pela cabeça candidatar-se a um cargo federativo?
Pode ser uma possibilidade. Até ao fim da minha carreira tudo é possível. Não vejo porque não.

Como avalia o trabalho que a FPA tem feito?
Tem-se feito alguma coisa, mas podia-se fazer um trabalho diferente e melhor. Temos uma mina que é o desporto escolar, só que depois não há seguimento. Tem de haver uma outra metodologia, mais apoio aos clubes mais pequenos.

O nosso sistema escolar também não está adaptado ao atleta de alto rendimento.
Não. Não se pode pedir a um jovem, como cheguei a assistir no triatlo, que vá para a piscina às 5h30 da manhã, treine, vá para as aulas, durma e, depois, ao final do dia, ainda venha treinar novamente. Estamos a falar de um jovem que dificilmente vai passar ao alto rendimento, porque fica de tal maneira molestado psicologicamente que pensa, “se sou jovem e já estou neste regime, quando for sénior isto vai ser pior que a ditadura”. Muitos dos casos que identifico será esse fator psicológico.

Qual o seu maior sonho?
Desportivo? Já não o consigo alcançar…era ter sido campeão olímpico na maratona. A minha expectativa de terminar a carreira era ter ido aos JO do Rio de Janeiro e correr a maratona.

Desde quando tem esse sonho?
Desde sempre, sempre gostei de distâncias longas. A minha primeira imagem no atletismo é o Carlos Lopes a ganhar a maratona olímpica, em Los Angeles?

Ele é o seu ídolo?
Neste momento não tenho ídolos. Já foi uma pessoa por quem tive muita consideração e foi uma grande referência, mas com o passar do tempo foi perdendo essa consideração.

Porquê?
Porque sendo ele o atleta que foi e com o nível que teve, em comparação com o que ele deu como diretor ao Sporting, acho que podia ter sido muito mais.

Tiago Miranda