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Onde se gasta um prémio de €227 mil? “A pagar hóteis, caddy, treinador, preparador físico, fisioterapeuta, carro, ginásio e a renda da casa”

Tem 25 anos e já é o melhor de sempre do golfe nacional. Mas Ricardo Melo Gouveia quer mais: quer ser o melhor de todos. Depois de terminar em grande a primeira época no European Tour, a principal divisão europeia, ‘Melinho’ prepara-se agora para representar o país no Campeonato do Mundo

Lídia Paralta Gomes

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Andrew Redington/Getty

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É de manhã em Lisboa, mas quando ligamos a Ricardo Melo Gouveia já passa da hora de jantar em Melbourne, na Austrália, onde o número 1 nacional de golfe vai terminar a época, no Campeonato do Mundo, de quinta-feira a domingo. ‘Melinho’, como é conhecido no mundo do golfe, fechou a primeira época no European Tour atingindo bem cedo o objetivo da permanência na principal divisão europeia. Na reta final, o português ainda conseguiu o bónus de se qualificar para o torneio de encerramento da época, o DP World Tour Championship, no Dubai, reservado aos 60 melhores do ranking do circuito, depois de ser terceiro no Open da África do Sul, em Sun City, o seu melhor resultado do ano.

Número 124 do ranking mundial, o jovem de 25 anos tem grandes ambições para o próximo ano: quer ganhar um torneio e chegar ao top 50 do ranking mundial, ele que não tem receio em confessar a vontade de ser o melhor do mundo.

Turquia, África do Sul, Dubai e agora Austrália. Tudo em duas semanas. Como é que está esse jet lag?
Para já tudo bem. Da Turquia para a África do Sul e depois para o Dubai é tranquilo, porque a diferença é pequena. Agora para a Austrália é mais complicado, porque são mais 7 horas face ao Dubai. Basicamente, tento descansar mais e uns dias antes vou ajustando os meus horários ao país seguinte.

Andou o ano inteiro de um lado para o outro. Tem noção quantos países visitou e quantas viagens de avião fez?
Não faço ideia! Quer dizer, sei que estive 30 semanas fora, em 20 ou 25 países diferentes. Fazendo as contas são umas sessenta viagens, de ida e volta. A maior parte das pessoas pensa que andamos sempre de férias, mas é muito duro.

Mudou-se para Londres e uma das razões foi exatamente por causa da logística das viagens, certo?
Sim, em Londres é tudo mais fácil, porque há voos todos os dias e diretos para os locais dos torneios. Morar lá tem sido ótimo nesse sentido.

Vai jogar o Campeonato do Mundo pela primeira vez, fazendo equipa por Portugal com o Filipe Lima. Qual é o vosse objetivo?
Não sei, vamos ver. O Campeonato do Mundo é um torneio que se joga em moldes diferentes: nos dois primeiros dias escolhe-se a melhor bola [melhor resultado entre os dois jogadores] e nos dois últimos jogamos alternado e tudo conta. É uma disciplina diferente e por isso acho que, mais do que um resultado, o objetivo passa mesmo por darmos o melhor e estarmos a 100 por cento.

E vão estar alguns dos melhores do mundo, como Hideki Matusyama (n.º 6 do ranking), Adam Scott (n.º 7), Alex Norén (n.º 9) ou Rickie Fowler (n.º 12).
Sim, vão lá estar ótimos jogadores. Outros dos melhores do mundo não vão por opção, mas vai ser uma prova muito interessante.

Jogou agora o DP World Tour no Dubai, onde as coisas acabaram por não correr da melhor forma [foi 46º], mas há duas semanas nem imaginava sequer estar no torneio final do European Tour.
Há três semanas, no Portugal Masters, sabia que tinha de ter uma grande semana para estar na Turquia, na Turquia sabia que tinha de ter uma semana muito boa para estar na África do Sul e na África do Sul precisava de um top 5 para estar no Dubai. Assim que estar lá foi muito bom, foi quase um bónus e fiquei muito contente.

Ricardo garantiu a continuidade no European Tour logo em agosto

Ricardo garantiu a continuidade no European Tour logo em agosto

Andrew Redington/Getty

O Open da África do Sul foi o melhor torneio da sua carreira?
Tendo em conta as condições posso dizer que foi meu melhor torneio de sempre. Sabia que precisava e um top 5 para estar na final do Dubai e acabei por ser 3º. Estive muito forte no putt, que foi a grande diferença para o Dubai, onde nesse aspeto não estive à altura. Acho que se tivesse estado num nível parecido poderia ter arrancado um resultado semelhante ao da África do Sul, mas faz parte deste desporto, nem todas as semanas são boas.

O prémio de 227 mil euros conseguido na África do Sul é uma grande ajuda. Vai comprar algo de especial, é para guardar ou para pagar despesas?
Não vou fazer nenhuma compra especial. Vou guardar para as despesas porque são muitas. Talvez no próximo ano faça uma viagem com a minha namorada.

Nem no Dubai se perdeu nas compras?
Não, não [risos]. O que fiz no Dubai foi aproveitar para levar os meus pais, a minha namorada e o meu fisioterapeuta.

Ter os seus a seu lado foi então o presente que se ofereceu depois do Open da África do Sul.
Sim, é isso mesmo. Era uma semana em que precisava de companhia, de apoio, depois de semanas com muitas viagens, muitos aeroportos. Nem sempre é fácil conseguir trazê-los aos torneios porque todos trabalham e é difícil conciliar os compromissos de cada um. Mas esta era uma semana especial.

E que despesas um golfista como o Ricardo tem?
Hotéis, pagar ao caddy, pagar ao treinador, ao fisioterapeuta, ao preparador físico, à minha agência de management. Depois ainda tenho as despesas em Londres, que não é uma cidade nada barata: renda, o carro, o ginásio, a comida… não são poucas as despesas e às vezes quem está de fora nem tem noção.

Que balanço faz desta primeira temporada no European Tour? Melhor que o esperado?
É muito positivo. O primeiro objetivo era garantir a permanência no European Tour, algo que consegui na Dinamarca em finais de agosto. Depois tive uma fase em que não estive muito bem. A partir daí o objetivo foi qualificar-me para os torneios finais da época.

A meta é ganhar um torneio no próximo ano?
Sim, acho que o meu jogo não está assim tão longe do nível necessário para ganhar um torneio. Preciso apenas de uma semana em que tudo corra bem, em todos os aspetos do jogo. Penso que o que pecou este ano foi mesmo isso: normalmente estava bem num dos aspetos do jogo e menos bem em outro. Preciso de ter a ‘minha’ semana.

Imagino também que queira voltar ao top 100 do ranking.
Esse é outro dos objetivos. Aliás, o objetivo do próximo ano é mesmo chegar ao top 50 do ranking, porque isso dá grandes benefícios: facilita muito a entrada em grandes torneios como os majors [os quatro torneios mais importantes].

No último ano ainda se falou que podia ir ao um major. É este ano?
Espero bem que sim! São os torneios em que os jogadores querem participar. Todos querem estar nos torneios mais importantes e ganhá-los.

Como se chega a um major?
Quem acabar no top 30 da Race to Dubai [ranking do European Tour], por exemplo, tem entrada no US Open. Há uma série de isenções que agora não me estou a lembrar, mas, no fundo, estar no top 50 do ranking resolve todos essas equações.

O que sente que pode melhorar no seu jogo?
O jogo curto, porque o comprido é o meu forte. Tenho de ser mais consistente no jogo curto.

Algum torneio que lhe tenha ficado atravessado este ano?
Sim, lembro-me do BMW PGA Championship, em Inglaterra, um dos melhores torneios do European Tour. Nas voltas de treino estava muito bem, mas depois a competição foi um desastre. Outro dos torneios que me vêm à cabeça é o torneio dos Jogos Olímpicos, no Rio. Foi uma semana muito diferente, cansativa, numa altura não muito boa, a meio da época. E isso acabou por afetar os torneios da semana seguintes. Os dois primeiros dias foram bons mas as duas últimas voltas também foram uma desgraça. Foram assim as duas maiores frustrações da época, mas os Jogos foram uma experiência ótima.

Os Jogos Olímpicos do Rio foram um dos momentos marcantes da época de Melo Gouveia

Os Jogos Olímpicos do Rio foram um dos momentos marcantes da época de Melo Gouveia

Scott Halleran/Getty

Espera voltar aos Jogos Olímpicos?
Espero que sim. Foi uma experiência incrível, estar no meio dos melhores atletas do mundo, de outras modalidades, atletas que são exemplo para mim, tudo no mesmo espaço.

Ficou na aldeia olímpica? Que estrelas viu por lá?
Fiquei só dois dias. Entretanto chegaram os meus pais e a minha namorada e ficámos todos num apartamento. Vi o Djokovic no ginásio, por exemplo. Também me cruzei com o Nadal.

Antes dos Jogos não teve receio em dizer o que objetivo era o ouro. E se eu lhe perguntar se se vê como número um do mundo, tem receio de o dizer?
Não, claro que não. Ser número 1 do mundo é um objetivo a longo prazo e acho que tenho qualidade para lá chegar. Não tenho medo de o dizer, porque acho mesmo que é um objetivo atingível.

Esse longo prazo são 5 anos? 10 anos?
Chegar a número 1 pode acontecer em 2 anos ou em 10, não tenho um prazo na minha cabeça, uma data. Quando for, será. O que é preciso é continuar a trabalhar com a mesma dedicação.

A seguir à Austrália chegam as férias. Algum plano?
Não, vou ficar em Londres. Durante 15 dias nem sequer toco nos tacos, mas vou continuar a trabalhar a parte física, para estar bem em Abu Dhabi, o primeiro torneio do ano, em janeiro. Com tantas viagens ao longo do ano agora só me apetece estar sossegadinho casa.

Mudou-se para Londres para estar mais perto da sua namorada e porque é um local mais central para quem viaja muito. Como tem sido a vida em Inglaterra?
Tem sido ótimo, sinto-me em casa e isso é o mais importante. Londres é uma cidade onde há sempre coisas para fazer e treino num clube ótimo. Além disso tanto eu como a minha namorada temos família lá: eu uma prima e ela tem duas irmãs que moram em Londres.

Continua a escrever o nome da sua namorada nas bolas que usa?
Sim, continuo a fazê-lo [risos]! Não é uma superstição, porque não acredito nelas, é só mesmo para ela estar presente. E a Carolina fica contente e orgulhosa.

Como português a morar em Londres, a questão do Brexit preocupa-o?
Penso que a mim não afetará, mas pode afetar a minha namorada, que trabalhar numa empresa francesa. Mas acredito que vai demorar muito tempo até as medidas serem implementadas e já vou ouvindo muitas histórias, inclusive que o referendo é ilegal. Por isso não me preocupa muito.