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João Alves, o homem que deu a mão ao treinador da Chapecoense: “O Caio era como meu filho”

Caio Júnior, treinador da Chapecoense que morreu no acidente aéreo na Colômbia, jogou em Portugal no Vitória de Guimarães, no Estrela da Amadora e no Belenenses, nos anos 90. E houve um denominador comum nestes três clubes: o treinador João Alves. “ Se ele fosse mais explosivo, com maior condição física, teria sido um dos melhores jogadores do mundo”, recorda

Mariana Cabral

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Caio Júnior era treinador da Chapecoense

Paulo Whitaker / Reuters

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Quando é que conheceu o Caio?
Cheguei a Guimarães no final da época [1990/91], já era o terceiro treinador. Quem tinha começado lá era o Paulo Autuori, que depois foi substituído pelo Pedro Rocha, que tinha saído do Sporting, mas o Guimarães continuava numa situação muito aflitiva na tabela. Fui então o terceiro treinador dessa época e quando cheguei a Guimarães só conhecia superficialmente os jogadores, de assistir a jogos. Só quando cheguei lá é que percebi verdadeiramente a equipa que lá estava era uma equipa frágil, com muitos lesionados, ainda por cima. O Caio Júnior era de facto o grande jogador daquela equipa naquele momento. Foi uma peça muito importante para nos safarmos [da despromoção] na penúltima jornada, embora tenhamos ficado em 9º lugar, as equipas ficaram muito próximas umas das outras em termos pontuais e isto foi numa altura em que desciam cinco equipas, porque havia 20 equipas.

E depois o Caio continuou com o João.
A partir daí, o Caio trabalhou sempre comigo. Ele tinha chegado a Portugal há dois anos, vindo do Brasil, porque o Vitória de Guimarães, por tradição, é um clube que sempre teve muitos brasileiros - e continua a ter. Mas o Caio era um rapaz, ainda era um jovem, com muito talento, mas fisicamente frágil e era um jogador que precisava de ser trabalhado. E assim foi. Progrediu, progrediu, progrediu e tornou-se num grande jogador. A partir daí, no ano seguinte, no Vitória de Guimarães, formei uma grande equipa, com o Paulo Bento, com o Pedro Barbosa, com o Frederico, o Ziad, que era um tunisino, e andamos até ao final da primeira volta em primeiro lugar e na segunda caímos um bocado e fomos classificados para a Liga Europa [na altura Taça UEFA], em 5º lugar. Foi aí que comecei a criar uma relação de amizade muito especial com o Caio e é assim que no final dessa época, com a disputa da Liga Europa em perspetiva, fui convidado pelo Estrela da Amadora para ir para lá, porque acabava contrato com o Vitória de Guimarães. Aceitei o convite e passei de um clube que ia às provas europeias para outro que estava na 2ª divisão. E o Caio acompanhou-me. Como gostava muito dele, como jogador e como homem, é evidente que fiz uma grande pressão para ele vir. E ele trabalhou em Portugal sempre comigo

Como é que o convenceu a passar para a 2ª divisão?
[ri-se] Claro que não é fácil para um jogador, mas ele confiava muito em mim e acreditou naquilo que eu lhe transmiti na altura sobre o clube. É muito importante ver que no futebol às vezes há relações entre os treinadores e os jogadores, de uma certa cumplicidade, porque as pessoas confiam umas nas outras e acreditam e pronto, criam uma relação de amizade que até ultrapassa outros interesses. Sinceramente na altura a mim também me tocou bastante que ele tivesse saído do Guimarães, que ia às competições europeias - qualificação na qual ele ajudou e de que maneira -, para entrar num projeto de 2ª divisão. Mas felizmente fomos logo campeões e subimos à 1ª divisão - e depois ele continuou a carreira na 1ª divisão, mais tarde levei-o também para o Belenenses.

Foi mais fácil convencê-lo aí.
Sim, claro que sim. Havia uma cumplicidade muito grande entre nós, eram relações, pronto, como tenho não com todos os jogadores, mas como tive com uma série deles, como o Paulo Bento, o Pedro Barbosa e tantos mais, esses miúdos do Guimarães. O Caio é um desses que faz parte de um naipe de jogadores que são como meus filhos, as carreiras deles estão ligadas à minha. O Paulo Bento, por exemplo, estava na 3ª divisão.

João Carlos Santos

O Caio chegou a dizer que o João Alves foi o treinador mais marcante na carreira dele. Ouvir isso é como se fosse um título para um treinador?
Evidentemente que é exatamente isso: é um título, é. Posso dizer-lhe mesmo que são títulos que às vezes têm mais valor do que aqueles títulos que têm taças na entrega. Porque um treinador, ao fim ao cabo, é um condutor de homens, é um formador, e aquilo que me dá muito prazer e me dá orgulho é ver ex-jogadores meus como treinadores da 1ª divisão, por exemplo, como o Lito Vidigal e o Quim Machado, fui eu que os lancei na 1ª divisão. E tantos outros.

É normal um treinador ter essa relação de amizade com os jogadores? Vão jantar fora juntos, por exemplo?
Quantas e quantas vezes almocei e jantei com o Caio e com outros jogadores, e respetivas famílias. Sem qualquer tipo de problema, bem pelo contrário, isso é muito importante. Os jogadores sentem-se totalmente amparados pelos treinadores quando as coisas funcionam desta forma. Não digo que esta será a forma perfeita, há outras formas também, há treinadores que são distantes dos jogadores, mas o meu caso nunca foi esse. Tive um treinador que me marcou muito, que foi o José Maria Pedroto, o mister Pedroto, e foi ele que me transmitiu isso. Há sempre um treinador que é especial na nossa carreira, naqueles momentos decisivos de um jogador. Quantos e quantos jogadores que nunca chegaram ao patamar de craques exatamente por falta de apoio de alguém? O relacionamento entre treinador e jogadores é muito importante, por muito que o futebol esteja cada vez mais sofisticado e a mexer cada vez mais dinheiro, tornando-se um espectáculo desportivo, a verdade é que há sempre lugar e deverá sempre haver lugar para as questões sentimentais, para a moral e bons costumes.

Viu-se isso após esta tragédia.
Exatamente, todas estas decisões e medidas de apoio ao clube demonstram que realmente ainda há muita gente boa no mundo do futebol. É evidente que também há gente má, que dá cabo do nome do futebol e cria uma má imagem do futebol. Há pessoas que querem ganhar seja como for, nem que seja à custa da queda de um avião, haverá gente assim e é cruel o que estou a dizer, mas há pessoas assim, exagerando um bocadinho, pessoas que querem ganhar a qualquer preço. A grande resposta que realmente o mundo do futebol dá é esse amparo ao clube, é uma lição de dignidade, desportivismo e fair play. Surge no momento certo porque o futebol atravessa uma crise de valores enorme.

Para quem não o conheceu, como era o Caio enquanto jogador?
Tenicamente era um jogador fabuloso, muito inteligente a jogar. Jogava mais ou menos na minha posição, embora eu fosse mais um médio-avançado e ele um avançado-médio, fazendo a comparação. Era um jogador muito criativo, ainda que não fosse muito rápido. Se ele fosse mais explosivo, com maior condição física, teria sido um dos melhores jogadores do mundo, disso não tenho dúvidas. Tecnicamente era fantástico, inventava futebol.

Podíamos compará-lo com quem, hoje em dia?
Ora deixe-me pensar, pelas caraterísticas...

Um Jonas?
Ora exatamente, era precisamente isso. Tinha exatamente as mesmas caraterísticas que tem o Jonas.

E ainda mantinha contacto com ele?
Sim, claro. Enquanto se formou como treinador houve uma ou outra vez em que veio a Portugal e encontrávamo-nos e falámos. Mas isto no mundo do futebol, como é óbvio, cada um segue caminhos diferentes. Estive na Suíça durante seis anos, ele andou na China, pelos países árabes... De maneira que umas vezes dava para nos encontrarmos, outras não. Mas há uma coisa que é verdade: os amigos verdadeiros, independentemente da distância e do tempo em que estamos sem contacto... [emociona-se] Como é que hei-de dizer? Estamos sempre juntos. Pronto. [pausa] Agora tocou-me no sentimento.