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Fernando Pimenta: “Os treinadores de outras seleções disseram que eu teria sido o justo vencedor”

Está melhor, mas admite que a “frustração” em relação ao que lhe aconteceu nos Jogos Olímpicos ainda não lhe passou. As folhas na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, puxaram Fernando Pimenta para o quinto lugar, fora das medalhas. Eleito Atleta Masculino do Ano, em novembro, diz que a “única forma” de ultrapassar isso é superar-se novamente

Diogo Pombo

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O prémio de Atleta Masculino do Ano não ter ido para um futebolista. O que achas disso?
Sem dúvida que é sinal de que Portugal começa a abrir a mentalidade para outras modalidades. Porque isto é uma escolha feita pelos portugueses. É importante para mim, para a canoagem e para as outras modalidades. O próprio João Pereira [triatleta, que estava nomeado] também disse que ficou super feliz. Por acaso, disse que, por eu ter vencido, que também era uma vitória dele. Acho que é isso que nós, atletas de outras modalidades, sentimos muitas vezes.

Ficaste à rasca por teres de discursar em cima de um palco?
É assim, primeiro, não estava a contar que fosse ganhar. Mas, depois, quando comecei a falar, fiquei mais à vontade. Acho que também já vou ganhando experiência nesse campo. Não estava à espera de ter esse momento. Mesmo assim, acho que até me safei relativamente bem, não cometi nenhuma gafe. Aquilo que queria expressar foi aquilo que expressei.

Pelo menos no início do discurso, foste o contrário do que és perto da água: calmo e sereno. Como consegues?
Exato. Quando estou a treinar é diferente. Geralmente, até estou um pouco mais nervoso nos treinos do que nas competições, porque é aí que tenho de melhorar e de me superar. Nas provas, pura e simplesmente, o treino está feito e só tenho de lá ir para competir, dar o meu melhor e aplicar o que fiz nos treinos. Aí, se tiver feito um bom treino, tenho é que estar relaxado, usufruir do momento e divertir-me.

Isso não é muito normal, costuma ser o contrário para a maioria dos atletas, ou não?
Sim, mas depende das pessoas. Tem a ver com sentirmo-nos confiantes e termos confiança no planeamento do nosso treinador, isso ajuda muito. E depois há a confiança que as pessoas depositam em nós. Sinceramente, isto ajuda-me a ficar mais tranquilo. Se as pessoas acreditam em mim é porque, realmente, tenho valor. Não adianta estar stressado ou de cabisbaixo antes das competições, isso não vai ajudar em nada. Tenho é de estar concentrado naquilo que quero fazer durante a prova.

Ajuda sentires que estás em controlo das coisas que podes controlar?
É assim, não consigo ter essa segurança. Não consigo controlar tudo, existem sempre imprevistos. Claro que tento ir treinando esses imprevistos, tento esquematizar na minha cabeça o que posso fazer caso eles aconteçam. Por exemplo, quando vamos fazer provas de 5.000 metros, muitas vezes existe contacto com outros atletas, existem apertões nas rondagens. Aí tento ver onde estou, quais os atletas que estão no grupo, qual é a melhor escapatório caso alguém aperte… Isso também vem com a experiência acumulada em provas, por isso é que já há oito anos que venço o campeonato nacional de fundo, uma prova feita em circuito. Estas coisas aprendem-se vão-se adquirindo com a experiência.

O pior imprevisto que já tiveste foram aquelas folhas nos últimos Jogos Olímpicos?
Exatamente. Deu para ver que estava a ter a mesma tática que tive no Europeu [em que conquistou a medalha de ouro, em junho]. No Europeu, à passagem dos 150 metros, tive a mesma distância que tinha [para os adversários] nos Jogos Olímpicos. Aos 500 metros já tinha passado uma zona de folhas e, mesmo assim, ainda estava a liderar. No Europeu, passei nessa marca com quase três segundos e meio de diferença para o segundo lugar, a mesma que tinha aos 750 metros e, mesmo abrandando na parte final, consegui vencer. A estratégia para os Jogos, basicamente, seria essa.

Mas correu mal.
Era aquilo que tínhamos vindo a treinar. Estava bem preparado, até estava mais rápido do que tinha estado no Europeu. Muitos perguntam-me: como é tu que sabes isso? Na canoagem, há uma coisa que não engana, que é o cronómetro. O tempo que fazemos. Já durante os treinos tínhamos tudo controlado, tínhamos as marcas de outras temporadas e dos treinos passados. Só temos de comparar a frequência de pagaiada e os tempos de passagem a cada 50 metros, por exemplo, ou onde é que quebrámos e onde conseguimos reagir bem. Isso é tudo treinador, na canoagem não há grande ciência. É o cronómetro que manda. Sabíamos que estávamos bem preparados, melhor do que nunca.

Disseste várias vezes, na altura, que te sentias bem.
Sim, e acho que deu para perceber perfeitamente, não só na final, como na eliminatória e na semi-final. Sentia-me bastante à vontade, super tranquilo, sem ter que ir até à exaustão, de forma a controlar o ritmo de prova e liderá-la do início ao fim. Sentia-me motivado e, na final, só tinha que fazer o que tinha feito nas provas anteriores. Tinha que dar tudo, claro.

Já recuperaste de desilusão no Rio de Janeiro?
Claro que ainda há coisas que ainda não passaram. Tenho que continuar o trabalho, já comecei a treinar. Já temos novos objetivos, que são o Campeonato da Europeu e o Campeonato do Mundo, em 2017. Até lá, tenho que treinar para demonstrar o meu valor e aquilo que sou capaz de fazer.

Que coisas são essas que ainda passaram? A frustração?
Claro. Magoa saber que tinha a possibilidade de, pelo menos, conquistar uma medalha. Saber que, por uma coisa que não somos nós a controlar, o trabalho de quatro anos foi por água abaixo. Podíamos ter trazido mais uma alegria para Portugal, trazer mais um resultado. Ainda se salvou o quinto lugar, mesmo assim o melhor resultado de sempre da canoagem portuguesa, em K1 1.000 metros, nos Jogos Olímpicos. Ouvir os treinadores de outras seleções a dizerem que eu teria sido o justo vencedor, que tinha visto como eu vinha a evoluir nos últimos quatro anos. Disseram que eu vinha super fluído, muito relaxado, da meia-final, com uma pagaiada solta. E as pessoas que percebem da modalidade sabem que eu conseguia fazer melhor. Agora é tentar ultrapassar este momento da melhor forma. Já estou bem melhor, as férias também ajudaram. As pessoas com quem trabalho, no dia a dia, foram-me ajudando a superar esse momento.

É possível treinar contra estas desilusões?
A única forma é tentar superares-te novamente. Tentar, logo nas provas seguintes, fazer boas marcas. Isso deixa que o atleta continue o seu caminho. Só tenho que estar de consciência tranquila, de que tudo fiz para estar lá no meu melhor. Abdiquei de tudo o que tinha de abdicar, fiz a melhor preparação, fiz coisas que nunca pensei fazer, ou suportar, durante os treinos.

Como por exemplo?
Consegui fazer algumas médias, a remar, que nunca tinha conseguido. Depois, no ginásio, em termos de força, consegui ser bastante consistente. Ou seja, fazia vários treinos por dia, três ou quatro, fui ao limite das capacidades. Senti o corpo a não responder quando queria fazer mais. E isso tem de me deixar de consciência tranquila. Mais não podia fazer. Se voltasse ao início, fazia tudo igual.

O que é uma semana de trabalhos habitual para ti?
Normalmente, treinamos todos os dias da semana, incluindo ao domingo. À quinta e ao domingo fazemos só treino na parte da manhã, à tarde aproveitamos para descansar, para tentar fazer algumas coisas que, no resto dos dias, não conseguimos fazer: estar com a família, com os amigos, passear ou ver televisão de uma forma relaxada, no sofá. Nos outros dias, basicamente, são sessões de treino de manhã e de tarde. Às vezes são duas de manhã e duas à tarde.

Mal te sobra tempo para fazer outras coisas.
E mesmo que sobre, já estamos exaustos e não conseguimos fazer grande coisa.

Olhando para o teu currículo, falta-te ser campeão do mundo.
Já consegui um terceiro no K1 1.000 metros, em 2015, e um segundo lugar no K4 1.000 metros, em 2014. Depois tenho outras medalhas mundiais. Mas campeão do mundo nunca fui. Já fui vencedor das Universíadas, mas claro que ser campeão mundial deve ter um gosto especial. Tenho de continuar o trabalho e esperar que as coisas me saiam bem nesta próxima época. É um dos meus sonhos, mas sei que ainda tenho algum tempo de treino e de trabalho pelo frente. Acho que as coisas podem, um dia, acontecer.

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