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Peseiro: “Eu sou o do quase? E Jorge Jesus?”

O Sporting de Braga, 3º classificado da Liga portuguesa, vai ao Dragão defrontar o FC Porto, 4º, no sábado (20h30, Sport TV1), e José Peseiro aproveita a oportunidade para refutar, em entrevista à Tribuna Expresso, a imagem de treinador perdedor: “O Jesus também foi pé frio, perdeu três finais”

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

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rui duarte silva

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José Peseiro sabe a imagem que tem mas diz que não a merece. É uma “estampa” dos media a reboque daquela tal semana no Sporting em que perdeu o título e a Taça UEFA. Mas, defende-se, se não fosse competente, não teria passado por onde já passou. Agora, está no Braga. Outra vez.

Nos posters da conquista da Taça da Liga, Taça de Portugal e final da Liga Europa, expostos na sala-museu do Braga, não figuram treinadores...
Pois não. Se calhar as fotos foram feitas quando estávamos a falar à imprensa ou escondidos lá atrás.

É a volubilidade do cargo?
Todos os cargos de liderança são efémeros, como os de Presidente da República ou primeiro-ministro, que ficam na história para o bem e para o mal. Embora os treinadores fiquem mais ligados ao insucesso do que ao sucesso. Temos o caso de José Mourinho que, apesar de já ter ganho tudo, só por não vencer um título há 18 meses já se fala o que se fala, quando há treinadores em Inglaterra que não ganham nada há 10 ou 15 anos...

O que o fez voltar a um banco de onde foi despedido apesar do quarto lugar e de ter vencido a Taça da Liga?
O presidente ligou-me passado uma semana e aceitei pelo projeto, que é aliciante, e pelo clube que é, firmemente, o quarto grande português.

O que lhe pediu António Salvador?
Fazer uma equipa que encurtasse a distância para os grandes. É verdade que já esteve mais perto com Domingos, 2º classificado, e 3º com o Leonardo Jardim. Depois consegui colocar a equipa na Champions, via play-off. É importante segurar o quarto lugar e encurtar de novo a distância depois de um ano em que o Braga ficou a 30 pontos do campeão. Esse é o objetivo.

Em 2014, deu uma entrevista em que disse que só voltaria a um clube português capaz de ganhar títulos.
Lá vem o Porto...

E falhou os títulos. O que faltou?
Faltou ganhar a Taça. Faltou sermos mais eficazes. E errámos nos dois golos que ‘oferecemos’.

Quando entra em janeiro a equipa não estava perdida.
Estava a caminho disso. E verificou-se. O Porto ia ter uma eliminatória com o Borussia de Dortmund, que era das melhores equipas da Europa, tão boa que este ano já ganhou duas vezes ao Sporting. E estava na Liga a cinco pontos do Sporting, mas o contexto e o ambiente e estado anímico da equipa não era de uma equipa capaz de recuperar pontos. Houve várias questões que não ajudaram.

Que questões?
Jogadores lesionados, os centrais que saíram sem que fossem preenchidas as vagas.

O Maicon saiu por indisciplina.
Muitas vezes teve de jogar o Layún a central, o Varela a lateral direito, sei lá, uma série de acontecimentos imprevistos que uma equipa (que já não era confiante e sem suporte organizacional técnico-tático e posicional forte) não foi capaz de suportar.

Quando aceitou o lugar tinha noção que havia essa falta de confiança?
Não. Sabia que o FC Porto era uma equipa com grandes recursos e bons jogadores, que não estava longe dos adversários e que tinha plantel para recuperar o atraso. Só que saiu o Tello à espera que entrasse o Rafa; e esperava um central que não veio. E evidentemente também houve culpas para o treinador.

Se soubesse o que se passava teria arriscado na mesma?
Quem pode responder ou fazer uma avaliação dessas? Quem não quer treinar o FC Porto? Foi uma honra.

Já digeriu o despedimento?
No futebol, temos de acatar as decisões, mas gostava de ter chegado ao Porto num contexto em que muitos outros técnicos tiveram.

Qualquer um se arriscava a ganhar.
Tiveram contextos mais facilitadores do que no ano passado.

Em Portugal julgo que não há treinador que entrasse a meio da época e tenha sido campeão...
Não? Isso é bom. Ponha como título. Julgo que o Inácio entrou em outubro, à sexta jornada, e foi campeão pelo Sporting, mas a meio não me lembro. Ainda teve tempo e tinha Acosta. Foi uma época que contradiz a regra.

Fez contrato de ano e meio mais um de opção.
Isso mesmo.

É verdade que o FC Porto quis contratá-lo apenas por seis meses e que assinou por ano e meio com o compromisso de abdicar de indemnização se saísse no fim da época?
Nem vou comentar isso.

Mas só exigiu um terço.
Chegámos a acordo. Quase todos os treinadores fazem isso. Não é só José Peseiro. Com exceção de Lopetegui que, pelos vistos, vai receber tudo. O Victor Fernandez também acho que recebeu o dinheiro todo no FC Porto durante dois anos...

São os espanhóis que não perdoam?
Não tenho nada contra eles. Eu acordei que seria um terço do contrato, ou seja, quatro meses de salários.

E já lhe pagaram?
A situação está a resolver-se.

E como está a sua relação com Pinto da Costa?
Neste momento a minha relação é com o Braga.

Regressa ao Dragão no dia 3 de dezembro. Ganhar é uma questão de honra? Tem alguma coisa a provar ou é um jogo como qualquer outro?
São os media que puxam por isso. Isso é um jogo de emoções e se não vendem emoções não vendem jornais. Fazem de nós génios quando não somos, e aberrações quando perdemos. Deus queira que apareça a pessoa que descubra o tratamento para o cancro, mas em Portugal vai ser sempre menos conhecida e falada do que o Jesus.

JAVIER SORIANO/GETTY

É conhecido por não ser um treinador resultadista, que põe as equipas a jogar bem e que o seu lado mais frágil é a liderança de balneário.
Não. Todos os treinadores têm pontos fracos e fortes. Esta é uma estampa que me colocaram há mais de 10 anos e que não conseguem tirá-la. Foi-me colocada no Sporting, mas não há um dado objetivo a confirmar essa imagem. Pergunto: o que é um bom líder? É um autocrata? Em que os jogadores são marionetas? Ou o que assume que liderar é ter a participação dos jogadores? É impossível ter dois tipos de liderança em simultâneo. Por isso digo que o modelo de liderança está ligado ao modelo de jogo. Numa autocracia, o modelo de jogo só pode ser defensivo, de bater a bola para a frente e salve-se quem puder; um jogador não pode ter um rasgo, porque o treinador não quer. Numa liderança democrática temos uma ideia de jogo, mas damos liberdade ao jogador, sem pôr em causa o coletivo. Hoje é assim que se treina. Se calhar estava avançado 10 anos.

Ter perdido a Taça UEFA e o campeonato na mesma semana marcou-o para a vida? Colou-se o rótulo de “pé frio”, treinador do quase, nos instantes decisivos?
O Sporting nunca mais ganhou uma Liga Europa ou outra prova europeia ou foi campeão. O defeito não deve ter sido só meu. Passaram lá muitos e nenhum ficou assim rotulado. No Sporting, o Paulo Bento esteve quase, o Jesus esteve quase. E os outros? São todos do quase?

E acha que isso acontece consigo porquê?
Se calhar exige-se mais de mim e ainda bem. O Jesus também foi pé frio, perdeu três finais. É o mediatismo. Ser convidado para ir para o Real Madrid, e depois o Sporting, a seleção da Arábia, o FC Porto e o Braga. É competência e alguma sorte.

Já foi criticado por jogar bem e não ter resultados?
Já, mas ultimamente tenho sido criticado por ganhar a jogar mal. Estamos a um ponto do FC Porto e Sporting e há quem implique por não se jogar bem em todos os jogos, quando já fui tão criticado por perder e jogando bem. O mundo não é preto e branco.

Também já referiu que é preciso saber vender bem a imagem. Acha que não o sabe fazer?
Sou eu que não me vendo bem, ou é aquela coisa que vale mais cair em graça do que ser engraçado.

Esteve em Espanha, na Arábia Saudita, Grécia, Roménia, nos Emirados e no Egito. Hoje, um treinador tem de ser um profissional do mundo?
Precisa de conhecer o mundo à sua volta e não é só quando vai para o estrangeiro, porque em qualquer equipa há jogadores de diferentes nacionalidades. Um grego é muito diferente de um holandês. Na Grécia, somos abordados na rua a questionar ‘mister, porque meteste aquele e não aquele’. E falam inglês. Na Roménia não. Numa equipa com seis ou sete estrangeiros, os jogadores não debitam só questões técnico-táticas. Quando vou para fora a primeira coisa a fazer é conhecer o país: feiras, mercados de rua, não é só ficar num hotel bom ou ir aos melhores restaurantes. Os jogadores vêm em geral das camadas mais desprotegidas, não nasceram com mordomias. Mais: na Arábia Saudita, em que as pessoas acham que Alá determina tudo, da vitória à derrota, como posso motivar? Não basta dizer que ele tem de treinar mais, porque ele acha que é Alá que vai decidir.

O seu hóbi é a columbofilia.
Em primeiro lugar sou louco por futebol. Se calhar até vejo jogos na televisão de forma exagerada. E no Mundial da África do Sul e no Brasil estive lá mais de um mês. Gosto de ir ver quando posso um jogo do Real Madrid, do Chelsea. É um hóbi. E sou columbófilo desde miúdo. Agora, como não tenho tempo de tratar dos pombos mas como tenho um sócio e um irmão com disponibilidade, decidi este ano fazer um novo pombal em Coruche, com 240 pombos, num terreno da minha mãe. E vamos aos campeonatos. E gosto de tauromaquia.

Tem filhos?
O meu filho faz parte da minha equipa técnica, fez curso, e a minha filha está a estudar e a fazer teatro ao mesmo tempo, em Lisboa. Acompanharam-me sempre. Fizeram amigos aqui e ali, mas amigos de infância, para a vida, não.

Contingências da profissão...
O mais difícil em relação à família é esta ter de conviver com situações em que não somos bem tratados. É muito bom nos momentos maus ter família e amigos para nos dar colinho.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 26 de novembro de 2016